Retórica

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Retórica, ago. 2001.

 

 

Preparada com informações disponíveis até 03/09/01

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Retórica

A campanha eleitoral avoluma-se, sem que nenhum partido ou força política assuma que já está empenhado nela até a raiz dos cabelos. O último mês apresentou como características marcantes a aceitação geral de que é preciso definir as candidaturas e a realização de movimentos concentrados para a construção de alianças e a unificação dos postulantes, tanto à direita, quanto no centro.

Aécio Neves parece haver assumido a articulação para definir a candidatura da aliança governista, seja congregando as postulações internas do PSDB, seja lançando pontes para a composição com o PFL, PMDB e PTB. Ele vem operando junto às três candidaturas mais viáveis do tucanato – José Serra, Tasso Jereissati e Paulo Renato – no sentido de que evitem atritos e manobras desagregadoras, enquanto mantém com o PFL um canal de fluxo intenso para manter a aliança governista básica.

O lançamento nacional de Roseana Sarney, realizado através de uma peça publicitária bastante inteligente, com resultados positivos nas pesquisas de opinião, sinalizou que o PFL já tem pelo menos uma candidata a vice e, em caso de algum problema mais sério, um curinga capaz de enfrentar o jogo pesado da disputa presidencial.

Como o PMDB governista, Aécio também tem mantido canais abertos, na esperança de negociar a possível adesão dessa ala à candidatura governista. Um dos problemas adjacentes ao verdadeiro chega-pra-lá ao presidente FHC, representado pela movimentação coordenadora de Aécio, é que o próprio neto de Tancredo Neves começa a despontar como opção para um agrupamento de forças cujos candidatos declarados têm demonstrado pouca capacidade unificadora. Até agora, sentindo o perigo que isso representa, seja qual for a motivação de sua atividade, o presidente da Câmara tem conseguido espantar a mosca azul e firmar a idéia de que é apenas um articulador a serviço do PSDB. Até quando, é difícil dizer.

Mesmo porque a unificação das forças governistas depende menos da ação dos homens do que das energias, nem sempre misteriosas, mas sempre difíceis de explicar, que os empurram para um lado e para o outro das cenas políticas. Embora vivendo um certo momento de trégua, o horizonte político brasileiro continua tisnado pelas nuvens da desaceleração econômica americana, pela política bélica de “Mateus, primeiro os teus”, impressa pelo presidente Bush com letras em negrito nos pórticos da Casa Branca, pela desaceleração também preocupante das economias européia e asiática, pela mais do que preocupante crise argentina e, agora, pelos indicadores que apontam uma recessão mais profunda da economia brasileira.

A imagem de um PIB ainda mais retraído só é boa para as corporações empresariais que concentram a maior parte do patrimônio nacional e vêem nisso uma boa oportunidade para aquisições selvagens. Para os segmentos que já estão, há muito, na guerra sem tréguas pelas sobras daquela concentração, é mais uma preocupação com o futuro e mais combustível para operações extra-econômicas de seus representantes políticos.

Em tais condições, dificilmente o senador Jader Barbalho será o último de uma série de homens públicos abatidos nessa disputa aparentemente insana de vida ou morte. O baú das denúncias tende a abrir-se mais vezes, à medida que os verdadeiros disputantes da campanha presidencial forem sendo definidos, obrigando as forças políticas a colocarem novos atores em cena. Nesse sentido, tudo o que disserem Aécio Neves e Pedro Malan sobre não beber dessa água, pode não passar de boas intenções.

O mesmo papel que Aécio vem desempenhando com desenvoltura pela direita, Brizola vem realizando com discrição pelo centro. A reunião de Itamar Franco e Ciro Gomes na perspectiva de uma candidatura única “de esquerda” só pecou pela ausência de candidatos da esquerda no encontro, embora o próprio Brizola possa considerar-se um representante desse espectro político. A vantagem do velho caudilho sobre Aécio, na função que vem exercendo, reside em ele que realmente não é nem quer ser candidato desta vez. Por outro lado, o encontro criou um fato político e colocou contra a parede os que, na esquerda, defendiam uma aliança de centro-esquerda, desde o primeiro turno, como essencial para derrotar a máquina do governo em 2002. Negar-se ao diálogo com Itamar e Ciro pode eventualmente custar caro a Lula, que deve ser acusado de inviabilizar uma proposta que era originalmente sua.

Um dos grandes problemas da esquerda, atualmente dividida entre várias candidaturas que, com exceção da de Lula, dificilmente poderiam chamar-se de esquerda (o PDT está apoiando Itamar e deve ser, muito provavelmente, o partido para onde o governador de Minas deve migrar se for derrotado na convenção do PMDB em setembro; o PSB está sob o guante de Garotinho; e o PPS parece mesmo decidido a marchar com Ciro Gomes até onde o próprio Ciro quiser), talvez resida na dispersão de sua base social ou na falta de visibilidade política de sua força.

A fragmentação dos trabalhadores, causada principalmente pelo desemprego estrutural e conjuntural, a desagregação dos pequenos lavradores, motivada em grande parte pelas mudanças comerciais e concentracionistas da agricultura, o empobrecimento dispersante das classes médias, também implementado pelas modificações na estrutura produtiva do país, e o oferecimento do tráfico e do crime organizado como oportunidades de trabalho, embora de alto risco, para as camadas sociais excluídas e marginalizadas, parecem haver retirado da esquerda boa parte da força social e política que havia conquistado no final dos anos 80, fazendo-a vacilar agora diante das novas oportunidades que se apresentam para chegar ao governo central.

Isso explica, por um lado, aquela dispersão política dos partidos de esquerda em torno de figuras consideradas por muitos como aventureiros ou candidatos do centro político e, por outro, o salto alto com que o PT vem tratando as questões estruturais do país. Se os primeiros abandonaram qualquer veleidade de realizar mudanças de maior profundidade na sociedade brasileira, o PT parece temer faltar- lhe apoio social e político de base para implementar tais mudanças, mesmo considerando-as necessárias.

Em tais condições, às vezes parece supor de maior efetividade reduzir as resistências do empresariado e dos setores mais conservadores das classes médias, através de um eficaz trabalho de marketing político, realizado por alguém que conheça bem esses segmentos, como Duda Mendonça, do que cifrar suas esperanças no trabalho militante e na mobilização de sua base social, que além de enfraquecida, talvez não esteja disposta a ir à luta, pelo menos de imediato.

De qualquer modo, tudo indica que Lula já se decidiu a disputar mais uma eleição presidencial. A primeira etapa para a definição completa de sua candidatura deve ser superada em meados de setembro, com as eleições diretas para a presidência do PT e a escolha da nova direção partidária. Depois disso, ou o Senador Suplicy desiste das prévias, ou Lula vai ter que enfrentá-lo, obrigando-se a tornar mais nítidas para a militância petista suas propostas de governo e sua estratégia de campanha. O problema de Lula, neste caso, é que, embora seja impensável qualquer surpresa maior, o senador vai atacar pela esquerda e exigir mais clareza numa série de pontos que o candidato natural do PT preferiria deixar para depois.

É lógico de que na esquerda, como na direita e no centro, há muito mais coisa pairando no ar do que nossa vã filosofia pode supor. A rigor, as pesquisas de opinião oferecem indicadores cruzados cada vez mais contraditórios, embora sejam persistentes aqueles que apontam para um descontentamento e uma insatisfação crescentes do grande eleitorado. Então, tanto de um lado, quanto do outro, e no meio, podem surgir surpresas inesperadas, impostas pelos movimentos subterrâneos da complexa e contraditória sociedade brasileira.

Enquanto isso, teremos também que continuar convivendo com a retórica de idéias recauchutadas de outras épocas. Afinal, o presidente FHC tem que demonstrar criatividade pelo menos em alguma coisa.

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