As perspectivas do PT

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | As perspectivas do PT, mar. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

As perspectivas do PT

O ano de 2005 será, para o PT, um ano crucial. Ele se debate não só com a necessidade de fazer com que o governo Lula tenha êxito, tanto na manutenção da estabilidade social e política, quanto no desenvolvimento econômico e social, quanto com a necessidade de que isso se traduza num apoio popular massivo, que garanta a reeleição de Lula.

Além disso, 2005 é o ano do 13º encontro nacional e da eleição das novas direções municipais, estaduais e nacional. Em outras palavras, está em pauta saber se o processo de realização do encontro e de eleição das novas direções vai comportar ou não o debate sobre os rumos do governo Lula. Embora pouca gente dentro do PT duvide, hoje, da necessidade do partido ter uma nova estratégia, para prosseguir sua caminhada, não está fora de cogitação que o encontro e  o processo eleitoral interno se restrinjam a discutir as táticas para as eleições do 2006.

Afinal, há dirigentes petistas que se encontram plenamente satisfeitos com os rumos de seu partido e do governo Lula e consideram desnecessário traçar uma nova política geral. E essa é, paradoxalmente, a mesma posição daqueles que consideram traidora a atual política partidária e governamental. Portanto, por um lado ou pelo outro, as resistências a qualquer discussão de maior profundidade podem ser consideráveis.

Apesar disso, as pressões para que o PT proceda a um diagnóstico mais apropriado do atual momento histórico, nacional e internacional, partem daqueles setores, tanto à esquerda da presente maioria partidária, quanto dentro desta, que mantêm um apoio crítico aos rumos do governo, mas não encontram respaldo teórico que fundamente as ações partidárias e governamentais, diante do crescimento das contradições sistêmicas mundiais e nacionais.

Um dos argumentos cruciais desses setores para pressionar uma discussão estratégica mais consistente reside na constatação de que, embora haja um refluxo da mobilização social, mobilização que, historicamente, foi decisiva na constituição e consolidação do próprio PT, há sinais de que essa mobilização pode retornar, sem que os petistas estejam suficientemente preparados para enfrentá-la e, muito menos, para conduzi-la.

Eles alegam que, apesar de haver um esforço do governo para ampliar a assistência social, estão sendo negligenciadas as medidas práticas que podem fazer a retomada da mobilização social coincidir com a política governamental. Isto diz respeito à democratização da propriedade, através da reforma agrária, da ampliação dos direitos das micros e pequenas empresas e da reforma urbana, e à melhoria do poder de compra das grandes massas populacionais, através do crescimento do emprego, salários e rendas.

Nessas condições, a mobilização social, ao invés de coadjuvar os esforços governamentais, pode ser utilizada pelos inimigos do PT e do governo para confrontar-se contra ambos. A mancada despolitizada da MP 232 é apenas um dos exemplos citados na relativamente longa lista de possibilidades do PT e do governo Lula se verem confrontados contra a base social que deveria ser sua, mas pode migrar para o apoio à direita, por falta de uma estratégia clara que não descuida de seus compromissos básicos, ao mesmo tempo que leva em conta as dificuldades decorrentes da correlação de forças em relativo equilíbrio.

Nessas condições, digladiam-se hoje dentro do PT diversas estratégias. A estratégia minoritária é aquela que considera esgotado o período histórico do PT e pretende criar algo “verdadeiramente novo”, que retome os compromissos originais do PT. Nada diferente dos argumentos daqueles que abandonaram o PT, seja para formar o PSOL, seja para ingressar no PSTU, ou simplesmente para ir cuidar da vida. Afinal, os pretextos ultra-esquerdistas podem servir a todas as motivações.

A estratégia dominante é a que vem sendo perseguida pelo chamado “núcleo duro” do governo, coadjuvada pelos ministros “produtivos” e pelo presidente do Banco Central. Embora essa estratégia venha sendo denominada de neoliberal pelos críticos mais radicais do governo, e venha sendo tratada pelo tucanato como uma simples continuidade da estratégia do governo FHC, seus defensores apontam diferenças marcantes em relação a estas.

Afirmam que ela não se restringe aos marcos da predominância do capital financeiro. Ela teria retomado o crescimento, buscaria alcançar um desenvolvimento sustentado, teria ampliado as relações econômicas e comerciais com novos parceiros, influenciaria as decisões internacionais, estaria superando os principais gargalos sociais herdados do passado e obtendo uma autonomia relativa diante do sistema financeiro internacional. E acreditam que tudo isso poderia ser implementado através da compreensão dos sistemas nacionais e internacionais de poder e de negociações, mesmo complexas, com eles.

Em contraposição a tal estratégia, e também à estratégia minoritária dos críticos mais ferrenhos do PT e do governo, tem vindo à luz, nos momentos críticos das  dificuldades e mancadas de algumas medidas e atos governamentais, ou nas declarações públicas dos principais defensores da estratégia predominante e dos críticos ultra-esquerdistas, uma estratégia difusa, mas fortemente enraizada na consciência e nos sentimentos da maior parte da militância e dos quadros petistas.

No momento, tal estratégia se coloca como negação aos resultados mais evidentes da estratégia dominante. Segundo observações mais elaboradas de alguns de seus expoentes, seja da esquerda de apoio crítico, seja do campo majoritário do PT, a estratégia dominante não conseguiu gerar o crescimento que seria possível e desejável para implantar um novo dinamismo econômico no país. A perseguição de um alto superávit primário, e a aplicação de uma política de altos juros, teriam ampliado a sangria de recursos públicos e privados em benefício do capital financeiro, impedido o aumento dos investimentos produtivos e colocado o governo numa armadilha econômica e financeira.

Além disso, a estratégia dominante teria dado atenção absoluta a apenas alguns aspectos das potencialidades exportadoras nacionais, como o agro-negócio, a mineração de ferro, a siderurgia e a indústria automobilística, para obter grandes superávits comerciais, negligenciando os setores agrícolas, industriais e de serviços, que poderiam aumentar a oferta de bens para o mercado interno e evitar a pressão inflacionária causada pelo aumento da demanda interna. Nesse contexto, a estratégia dominante teria sido incapaz de encaminhar soluções estruturais para a histórica dívida social brasileira e, numa situação internacional desfavorável, poderia conduzir o país a uma situação extremamente difícil.

Essa estratégia alternativa à dominante ainda não conseguiu transformar-se de negativa em positiva. Mas ela tem aparecido com certa nitidez quando se trata de enfrentar a direita política brasileira e seus ataques mais abertos contra o PT e o governo. Em certa medida, ao recuar da reforma ministerial anunciada, Lula parece ter dado ouvidos a essa parcela da militância petista que deseja outra estratégia.

Assim, no processo de enfrentamento das atuais tentativas conservadoras, políticas e empresariais, que pretendem jogar o governo Lula e o PT no paredão, não é despropositado considerar a possibilidade de que essa estratégia alternativa vá se impondo, primeiro como linha principal de defesa e, depois, como linha ofensiva. Se isso ocorrer, é possível que haja uma recuperação mais forte do ideal socialista e da reafirmação do PT como partido de disputa da hegemonia social e política e do poder, com autonomia frente ao governo. A idéia do PT e do governo Lula, como instrumentos de sua base social para a realização de mudanças estruturais, também pode ser renovada, sem desconsiderar as táticas necessárias à governabilidade e às alianças necessárias para alcançá-la.

Ou seja, é possível que da conjuntura de 2005, marcante para o debate interno do PT, surja uma nova estratégia de reformas estruturais, democráticas e populares, de viés socialista, que reordene os rumos do PT e do governo, de modo a prepará-los para uma nova emergência das mobilizações sociais, para as disputas eleitorais de 2006 e, ao mesmo tempo, para evitar seu deslizamento para bravatas ultra-esquerdistas. No entanto, se isso é possível, não significa necessariamente que ocorra.

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