Sobre os gargalos ou entraves

WPO | SID | Sobre os gargalos ou entraves, nov. 2006.

 

 

Há uma discussão sobre o assunto, centrada nos seguintes pontos:

1. Necessidade de cortar as despesas correntes ou de custeio, para sobrar dinheiro para investimento: isso é uma piada, que tende a se tornar uma malvadeza, já que acaba caindo sobre as políticas sociais, sem resolver nada, porque o que precisamos em termos de investimentos estatais é de algo em torno de 7% do PIB. Por outro lado, é verdade que é preciso evitar que as despesas de custeio subam mais do que o crescimento do PIB, porque isso poderia pressionar a inflação.

2. Necessidade de manter o câmbio flutuante e conforme a flutuação dos mercados: isso é um tiro no pé, como vem ficando cada vez mais evidente. Com o câmbio valorizado, o país vai se manter amarrado. Vai ter que exportar cada vez mais para obter a mesma quantia, principalmente se as commodities tiverem seus preços depreciados no mercado internacional. Para elevar a competitividade dos produtos nacionais (que é o que realmente importa para estimular o crescimento), uma de duas: ou determina o câmbio administrativamente, ou reorganiza a cesta de moedas que determina a relação do real com o dólar, de modo que o real seja desvalorizado paulatinamente até alcançar um patamar favorável para a produção nacional. Ficar do jeito que está é que não pode.

3. Juros altos para alcançar a meta de inflação: essa é uma falácia. A inflação está baixa, seja por causa da concorrência da China e outros países de baixos custos, seja porque a demanda no Brasil está tão reprimida, que nem mesmo uma injeção enorme de crédito pressionou a inflação. Assim, os juros altos só se justificam hoje para garantir entrada de capitais de curto prazo nas bolsas, não para segurar a inflação. Mesmo sem ser radical demais, sem baixar os juros a um nível civilizado não há crescimento sustentável.

4. Crescimento acima de 3% gera inflação: essa é outra falácia. O que pode gerar inflação é um crescimento de demanda maior do que a o crescimento da oferta, ou do produto voltado para o mercado interno. Foi isso que ocorreu em todos os planos econômicos. Por isso é que é preciso que os salários e as despesas de custeio subam abaixo do crescimento do PIB. Então, as questões chaves para evitar a inflação são a elevação dos investimentos produtivos (aqui com um balanço adequado entre produtos para o mercado interno e produtos para o mercado externo), ampliando a oferta; o controle sobre os investimentos especulativos; o controle do crescimento da demanda, evitando que cresça mais rápido do que a oferta.

5. Desonerando a produção, o crescimento virá: essa é uma meia verdade. Se os juros continuarem altos, permitindo que o sistema financeiro continue sugando os lucros dos outros, tanto o Estado, quanto o sistema produtivo, continuarão repassando suas vantagens para o sistema financeiro. A desoneração, nessas condições, terá pouco efeito. Para evitar isso, será preciso aumentar os compulsórios bancários e adotar outras medidas que tornem o sistema financeiro menos capaz de raspar tudo.

6. Não vamos crescer porque o Estado não tem condições de elevar seus investimentos: essa é outra meia-verdade. Mas o Estado pode atrair capitais (internos e externos) e direcioná-los para os setores estrategicamente importantes (infra-estrutura, energia, setores em que temos vantagens competitivas, novas tecnologias, inovação tecnológica, educação, meio ambiente), seja através das PPPs, seja por meio de suas estatais, seja ainda por meio da oferta de incentivos. Além disso, o Estado pode liberar mais amplamente o potencial do mercado informal, que hoje gera cerca de 40% ou mais do PIB, acelerando a implantação do SuperSimples e tomando outras medidas para liberar as forças contidas ai. O problema é que as estatais são lentas e a máquina pública não entende, ou não quer, fazer isso.

7. A reforma da previdência é essencial para os investimentos estatais: a posição atual do governo é certa, não só porque mais reforma na previdência é cortar na carne dos aposentados, mas também porque o chamado déficit da previdência é resultado do desemprego e da economia informal. Ou seja, da falta de um crescimento que gere emprego e distribua renda.

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