Observações de um idiota sobre o enredo de uma novela político-policial

WPO | SID | Observações de um idiota sobre o enredo de uma novela político-policial, jul. 2006.

 

 

O caso da venda de um dossiê do escroque Vedoin para alguns “inteligentes dirigentes” petistas, tem ocupado as manchetes e páginas e páginas dos jornais, assim como da opinião pública nacional. Apesar da gravidade do assunto, principalmente para o PT e para a candidatura Lula, se olharmos com a distância que a análise fria exige, o caso não passa de um enredo medíocre de novela político-policial de quarta classe.

Vejamos. Na primeira parte, um empresário, que eu chamaria de “vestido de petista”, propõe ao conhecido escroque dedo-duro (pode ser o inverso, tanto faz), fazer a intermediação da venda de um dossiê de cerca de 2 mil páginas, incriminando candidatos do PSDB e outros políticos de diversos partidos, inclusive do PT, em atos de corrupção.

O empresário, com anos de experiência em negócios, parece nem haver ligado para o fato das negociações posteriores, tanto com o escroque, quanto com os “inteligentes” dirigentes petistas, terem sido feitas via telefone, embora fosse relativamente óbvio que os telefones do escroque deveriam estar grampeados. Afinal, ele estava sendo assessorado por um ex-agente da PF.

Na segunda parte, os “inteligentes dirigentes” acionam “especialistas” para se certificarem de que os dados e informações do dossiê eram verídicos. Em certo momento, vão abertamente à cidade sede da escroqueria para verificar o conteúdo do dossiê. Depois, continuam a negociar com o “vestido de petista” e providenciam contatos com órgãos da imprensa para a publicação de parte ou de todo o dossiê. Detalhe um: apenas comunicam a seu coordenador que estão fazendo tais contatos com a mídia, sem especificar do que se trata. Detalhe dois: o referido coordenador, embora responsável por importante campanha partidária, não pergunta do que se trata.

Na terceira parte, tudo acertado (via telefone, é claro, que todo mundo é moderno), o “vestido de petista” comunica ao escroque que o dinheiro está arrumado e marca encontro para trocar o dossiê pelo numerário num hotel em São Paulo. O escroque decide enviar um tio para entregar o dossiê em São Paulo e receber o dinheiro. Porém, antes que isso ocorra, como estava em processo íntimo de recuperação para o bem, entra em crise de consciência e avisa a PF sobre a operação. Esta, como é de seu dever, prende o escroque, retirando-lhe aquele benefício e apreendendo não o suposto dossiê, mas apenas uma parte insignificante dele. Ao mesmo tempo, prende em São Paulo o “vestido de petista” e o ex-agente da PF que o assessorava, ambos na posse de quase 2 milhões de reais, em moeda nacional e em dólares novinhos em folha.

Na quarta parte, o ex-agente da PF, tentando despistar a PF e a promotoria pública em relação aos verdadeiros mandantes (os “inteligentes”), diz que recebeu ordem de um “psiquiatra de renome internacional” que, por coincidência, trabalha na assessoria de segurança do presidente da república. Isso torna o referido “psiquiatra”, ipso fato, sem necessidade de qualquer outra verificação, tanto para a PF quanto para a grande imprensa, no principal suspeito e autor intelectual da trama.

O resto da novela fica por conta de cada um, aproveitando a moda dos novos tempos da Internet, blogs e outros meios interativos. Da minha parte, idiota como sempre, listei algumas perguntas, na esperança de que os bravos repórteres investigativos e os diligentes políticos éticos, honestos e incapazes de descer a baixarias, lhes dariam alguma atenção.

Primeiro, como um escroque calejado, beneficiado por delação premiada, entra numa negociação telefônica, sem se importar, em qualquer momento, de estar ou não sendo grampeado? Por motivos óbvios, não faço a mesma pergunta em relação aos “inteligentes” petistas porque pessoas “inteligentes” não se importam com esses detalhes.

Segundo, por que a PF esperou que o escroque avisasse a ela o dia da entrega do dinheiro para fazer o flagrante? Não poderia ter abortado antes? E, afinal, por que o escroque precisaria avisar, se a própria PF estava monitorando tudo? Haveria acordo, desde o início, entre o escroque e a PF? O aviso e a retirada do benefício da delação seriam apenas cortina de fumaça para fazer crer que tal acordo não existia?

Terceiro, a apreensão de apenas uma parte ínfima e de pouca importância do tal dossiê significa o quê? Que o tal dossiê completo não existe? Que existe, mas não ia ser entregue, mesmo recebendo o dinheiro? Que existe, mas apresentá-lo completo como prova, pode comprometer outros atores, além dos “inteligentes” petistas? Foi isso que levou o escroque a preparar o arremedo de dossiê? Afinal, o que adiantaria fazer a delação sem apresentar alguma “prova” para justificar a prisão dos “petistas” com o dinheiro?

Quarto, o ex-agente da PF é mesmo estúpido, fazendo uma ação diversionista e incriminatória do “psiquiatra”, ou fez isso com propósito definido e combinado com antecedência? Se foi combinado, com quem? Com algum “inteligente”, ou com algum “profissional”? Afinal, o que “profissionais” tucanos, incluindo um ex-ministro, estavam negociando com o escroque, ao mesmo tempo que ocorriam as negociações com os “inteligentes” petistas?

Mesmo sendo idiota, ou por isso mesmo, não vejo como a PF vai deslindar a trama se não responder a essas perguntas. E, se ela não responder de forma convincente, sou levado a refazer o enredo acima de outra forma. Isto é, o escroque, ou o “vestido de petista”, ou o ex-agente da PF, foi contratado para montar a operação, considerando tanto o interesse, quanto a “inteligência” dos petistas envolvidos. Qualquer deles, ou qualquer combinação entre eles que se escolha, dará no mesmo, já que a negociação com o contratante deve ter levado em conta os riscos e o preço de cada um na operação. Sem os três, ela não existiria.

Isso explicaria porque o escroque não teve qualquer medo em perder o benefício da delação premiada e voltar a ser preso, porque o “vestido de petista” se virou para arrumar o dinheiro, e o ex-agente da PF bancou o estúpido, apontando o dedo para o Palácio do Planalto. E porque, apesar dos cuidados, o rabo dos “profissionais” tucanos ficou com uma ponta de fora.

É evidente que a trama também não existiria se os “inteligentes” petistas fossem menos idiotas do que eu, e se preocupassem, não apenas com a orientação geral do partido e de sua direção partidária, contrárias a tal tipo de ação, mas também com a hipótese de estarem sendo levados a uma armadilha. Como eles assumiram o risco por conta própria, o resto do enredo continua mais ou menos o mesmo, mas ao menos deixa de ser tão medíocre como nos estão apresentando.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *