O perigo amarelo

WPO | SID | O perigo amarelo, dez. 2006.

 

 

No Brasil, está virando moda falar no perigo amarelo, numa referência à China. Vozes poderosas ocupam espaços na mídia para clamar que o governo brasileiro tome medidas contra a concorrência desleal dos produtos chineses. Acusam a China de praticar preços abaixo de seus custos (dumping), explorar selvagemente sua força de trabalho, utilizar amplamente a pirataria, roubar segredos industriais etc. A lista das acusações é variável, mas certamente grande.

Um aspecto interessante no caso é que essas vozes jamais elevaram o tom contra o perigo branco, ou perigo do norte, ou perigo imperial, que domina os principais setores manufatureiros brasileiros. Durante os anos 90, quando esse perigo imperial comprou empresas brasileiras, com a finalidade de fechá-las para aumentar as margens de rentabilidade dos seus produtos fabricados em outras partes do mundo, aquelas vozes saudaram isso como destruição criativa.

Quando o governo brasileiro transferiu o passivo das estatais para o Tesouro Nacional, e vendeu empresas saneadas por ninharias (a Vale foi vendida por menos de 4 bilhões de dólares), ainda por cima com financiamentos do BNDES, aquelas vozes também saudaram isso como exemplo de inserção na globalização e no livre mercado, e único caminho possível para pagar a dívida pública. É lógico que a dívida, depois disso, cresceu exponencialmente, mas aquelas vozes nada disseram a respeito.

Tais vozes não estão, pois, qualificadas para falar em perigo amarelo. Mas isto não significa que não se deva tratar seriamente as relações do Brasil com a China, e as vantagens e desvantagens que tais relações trazem embutidas. A China, além de possuir uma mão-de-obra imensa, com salários nominais relativamente baixos em relação aos preços internacionais (o que não quer dizer que tais salários também sejam baixos em termos de poder de compra no mercado chinês), investe pesadamente em educação e qualificação dessa força de trabalho, assim como numa infra-estrutura, cuja eficácia reduz sensivelmente os custos de transportes. Nada que não pudéssemos fazer também.

A China possui, porém, uma imensa vantagem competitiva em relação ao Brasil: sua escala produtiva, para atender seu mercado interno em constante expansão. Além disso, ela tem planos de introduzir crescentes inovações tecnológicas em suas mercadorias. Portanto, tende a ser crescentemente imbatível nos preços de uma gama enorme de produtos industriais de qualidade, e aumentar seu poder de concorrência em relação a uma série relativamente grande de produtos fabricados no Brasil.

Nessas condições, se os empresários brasileiros (e não só eles) pretenderem concorrer com os chineses no item preço, certamente estarão fadados ao fracasso. Embora seja até viável pedir ajuda ao governo no quesito preço, numa emergência momentânea e de curto prazo, isso pouco adiantará, a médio e longo prazos, frente a um mundo globalizado e de livre mercado.

Por outro lado, nos próximos 30 ou mais anos, a China ainda terá segmentos e nichos consideráveis de sua indústria a desenvolver para atender a seu mercado interno e ao mercado internacional. Tendo em consideração apenas o mercado interno da China, cuja expansão vem sendo mais rápida do que a expansão do seu mercado externo, inúmeros itens demandados por ele continuarão tendo uma oferta reduzida ou insuficiente, e ele ainda terá que ser suprido através de importações de outros países.

Alguns exemplos são fáceis de entender. A China produz, por ano, mais de 320 milhões de toneladas de aço, mas ainda vai demorar algum tempo para fabricar algumas variedades de aços especiais que precisa, e que a siderurgia brasileira já produz. Portanto, a siderurgia brasileira pode não apenas produzir esses aços para vender à China. Deve também procurar manter-se na frente dela, do ponto de vista tecnológico, de modo a preparar-se para quando ela dominar a produção daqueles tipos de aço, mas ainda não estiver em condições de fabricar os novos tipos já produzidos pela inovação brasileira. Ou seja, as empresas brasileiras precisam reestruturar-se para ganhar da China em termos de inovação tecnológica, e não em termos de preços.

O exemplo do aço não é o único. O Brasil tem a dianteira tecnológica (aqui incluídos design de produtos, marcas, qualidade etc) numa série considerável de segmentos de mercado, como manejo e genética pecuária, calçados, tecnologias ambientais, saneamento, moda, alimentos industrializados, leite etc. Vistas por aí, as relações com a China apresentam uma ampla gama de oportunidades. Em outras palavras, o empresariado brasileiro precisa pedir ajuda ao governo para manter-se nessa dianteira tecnológica, e aproveitar ao máximo as possibilidades que a emergência da China como grande potência econômica apresenta para o desenvolvimento das indústrias, comércio e serviços brasileiros.

Além disso, é preciso ter em alta conta o que a China, além de contribuir para uma baixa inflação mundial e para os saldos positivos da balança comercial brasileira, pode cooperar na re-industrialização do Brasil. Acossada por sua crise de crescimento rápido, a China terá que exportar para outros países parte de seu excedente de capitais. Se o governo e os empresários brasileiros souberem aplicar os mesmos métodos de atração de capitais, utilizados pelos chineses, a partir dos anos 80, para alavancar seu crescimento, o Brasil poderá se beneficiar dos investimentos chineses na remodelação de sua infra-estrutura, no desenvolvimento de sua estrutura científica e tecnológica e no adensamento de suas cadeias produtivas. Afinal, o que fizeram não é segredo, deu certo, e eles não podem reclamar se os imitarmos.

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