Mundo do trabalho e classe operária

WPO | SID | Mundo do trabalho e classe operária, out. 2007.

 

 

Durante os anos 1980 e 1990, as idéias uma era pós-industrial tiveram livre trânsito entre os mais diferentes segmentos do pensamento, inclusive de esquerda. Os avanços científicos e tecnológicos da terceira revolução industrial capitalista pareciam indicar que os sistemas informacionais suplantariam os processos industriais.

Uns afirmavam que os serviços passariam a ser o principal departamento da economia. Empregos seriam eliminados e substituídos por novas formas de trabalho, criando um novo padrão de vida e dando fim à divisão da sociedade em classes. Existiriam apenas as pessoas cientifica e tecnologicamente qualificadas, e as pessoas sem qualificação adequada. O próprio capitalismo estaria criando a sociedade sem classes.

Outros supunham esgotada a capacidade capitalista de gerar novos ciclos expansionistas. O mundo do trabalho não estaria a salvo da miséria, sofrendo mudanças destrutivas em seu padrão de vida. O desemprego, tanto estrutural quanto conjuntural, era uma epidemia, que se espalhava por todos os paises. Os progressos científicos e tecnológicos primeiro empurravam os trabalhadores qualificados para trabalhos não qualificados e, depois, a todos para fora do mercado de trabalho.

Ideólogos capitalistas minimizavam esse perigo. Argumentavam que o desenvolvimento científico e tecnológico tinha a capacidade de criar novas profissões e novos postos, principalmente nos serviços. Na prática, isso não ocorria. O descarte de trabalhadores tornava-se predominante. A reestruturação, técnica e organizacional do processo de produção e circulação das empresas, cortava mais postos de trabalho do que o crescimento econômico era capaz de gerar. Isso parecia dar razão aos que supunham que a redução de trabalhadores levaria o mundo do trabalho a tornar-se campo de ação de apenas alguns eleitos. Todos os demais trabalhadores seriam descartáveis.

Tornou-se senso comum considerar decretado o fim da classe operária industrial, tanto nos países capitalistas desenvolvidos, quanto nos países da periferia. Entre 1960 e 1980, os antigos países industriais haviam reduzido em 25% o número de operários industriais, tendência que continuou forte nos anos 1990.

Estimulados pela propaganda ideológica, o Brasil e outros países periféricos seguiram caminho idêntico. Seus governantes acreditaram que, além de estarem ingressando no futuro “virtual”, o fim global da classe operária lhes demonstrava a falência da teoria do papel histórico dessa classe como “coveira” do capitalismo. A débâcle do socialismo europeu, acompanhada do definhamento da classe operária industrial em vários países capitalistas, parecia não ter contraponto.

Mas o contraponto existia

Não se dava atenção ao fato de que 50% do produto dos paises desenvolvidos permanecia dependendo de manufaturas, nem que a reorganização global do capitalismo, se reduzia as atividades industriais em seus países centrais, intensificava a transferência delas para países da periferia que ofereciam custos mais baixos.

Numa operação planetária de rebaixamento de custos, o capitalismo realizava uma profunda reorganização do mundo do trabalho. Incorporava massas imensas ao mercado mundial de trabalho, intensificava a concorrência entre os trabalhadores, e rebaixava os salários em escala mundial. Assim, para continuar seu processo de reprodução, viu-se diante da necessidade imperiosa de estimular, não só que os Tigres e os Novos Países Industrializados da Ásia ingressassem no mercado mundial de força de trabalho, mas também que a Rússia, Índia, China e Vietnã fizessem o mesmo.

Com isso, o capitalismo global incorporou a tal mercado mais de 500 milhões de trabalhadores industriais, bem mais dos que havia existido nos parques industriais da Europa e Estados Unidos. Em outras palavras, apesar de procurar extirpar a classe operária de seus próprios países, o capitalismo desenvolvido não só teve que ajudar a industrializar e criar parques industriais em países pouco desenvolvidos, quanto a contribuir para a geração de uma nova e imensa classe operária industrial.

Entre os que não acreditaram que o mundo já havia ingressado numa era pós-industrial, como a Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia, Malásia, Cingapura, Vietnã, Índia e China, o exemplo desta é o mais característico do atual estágio industrial global. A China tornou-se a principal fábrica do mundo, possuindo mais de 100 milhões de trabalhadores industriais urbanos e cerca de 50 milhões de trabalhadores industriais nas zonas rurais. E, para evitar que o desenvolvimento científico e tecnológico atinja prematuramente esse exército industrial, estimula a atividade de mais de 4 milhões de pequenas e médias empresas, onde trabalham 75% do total de trabalhadores industriais do país.

Em outras palavras, ao invés do fim da classe operária industrial, o que temos é um processo mais complexo de mundialização dessa classe social, com a incorporação, ainda mais vasta do que no passado, de grandes massas de trabalhadores rurais aos trabalhos industriais.

Brasil

O governantes brasileiros dos anos 1980 e 1990 acreditaram nas análises sobre as sociedades pós-industriais. Acharam que era global o que era apenas característico dos países capitalistas desenvolvidos. Assim, ao invés de aproveitarem a globalização para completar a industrialização nacional, ingressaram numa política de desmanche do parque manufatureiro do país, contribuindo para fragmentar e desagregar a classe operária industrial brasileira.

Aqui vale um parêntesis sobre os conceitos “classe operária” e “trabalhadores”. Por um lado, há o mau hábito de reduzir a classe operária, ou proletariado, aos trabalhadores assalariados industriais. Por uma série de razões históricas, esse setor da classe dos trabalhadores assalariados, desempenhou um papel de vanguarda nas lutas de classe. Mas isso não exclui da classe operária, ou do proletariado, os demais segmentos dos trabalhadores assalariados, como aqueles empregados no comércio, nos serviços e na agricultura. O que há de comum a todos é que são obrigados a vender sua força de trabalho no mercado, em troca de um salário.

Por outro lado, há também o hábito de colocar no mesmo saco, como uma mesma classe, os trabalhadores assalariados e os trabalhadores que são, ao mesmo tempo, proprietários de seus meio de produção, como é o caso dos pequenos lavradores, artesãos e outros tipos idênticos de trabalhadores. Embora tenham alguns interesses comuns, a sua posição na produção e no mercado de trabalho é diferente. Quem é proprietário de meios de produção, em geral não precisa vender sua força de trabalho, e se apropria dos resultados de seu próprio trabalho. É o contrário do que ocorre com os trabalhadores desprovidos de meios de produção, obrigados a assalariar-se.

Entre 1985 e 2002, o número de trabalhadores assalariados, ou seja, a classe operária brasileira, cresceu de 15 milhões para mais de 21 milhões, portanto 43%. Desses 21 milhões, mais de 4,9 milhões eram industriais, cerca de 800 mil estavam na construção civil, 6 milhões trabalhavam em serviços diversos, 1,2 milhões em serviços de transporte, 2,8 milhões no comércio, 1,8 milhão no serviço público, e cerca de 400 mil na agropecuária.

Os trabalhadores no setor de serviços cresceram em 59,8%, no comércio 93,9% e na agropecuária 295,9%. Mas o número de trabalhadores industriais cresceu apenas 2%.

Nesse mesmo período, a massa salarial dos trabalhadores na indústria caiu 37%, enquanto subiu 9,6% nos serviços, 25,8% no comércio e 126,3% na agropecuária.

Se considerarmos apenas a classe operária industrial, entre 1985 e 2002, houve uma queda de 5% no número de metalúrgicos e siderúrgicos, 11% no de ajustadores mecânicos, 21% no de eletricistas, 34% no de tecelões, 10% no de trabalhadores administrativos, e quase 40% no de trabalhadores braçais. Ou seja, profissões que, durante a onda neoliberal, estavam ligadas a setores que foram sucateados, ou que sobreviveram através de um intenso processo de elevação da produtividade.

Por outro lado, o crescimento dos trabalhadores em conservação e limpeza foi de 130%, de operadores de máquinas, 70%, dos trabalhadores na área de madeira, papel e celulose, mais de 40%, de costureiros e preparadores de alimentos e bebidas, mais de 30%, e dos trabalhadores em borracha e plásticos, marcenaria e artes gráficas, quase 20%.

Assim, embora o crescimento da classe operária industrial tenha sido pífio, não havia razões sólidas para crer que ela estava sendo extinta por um salto estrutural no desenvolvimento capitalista. Apesar do processo de destruição do parque industrial brasileiro, o processo de proletarização continuou intenso, com um crescimento acentuado da classe operária brasileira como um todo.

A centralidade do trabalho

Assim, se olharmos o que aconteceu no Brasil e nos países centrais, em contraste com o ocorrido na maior parte dos países asiáticos, não tem sentido generalizar. É verdade que, em alguns países, assiste-se ao advento de novas tecnologias e de áreas do conhecimento até então inexploradas, com o surgimento de atividades marcadas pela virtualidade, que fogem ao figurino do “emprego”, observando-se, ao mesmo tempo, o declínio das atividades chamadas de “chão da fábrica”, relegando o trabalho industrial a um plano secundário.

Porém, em outros países não é isso que ocorre. Tanto na Índia quanto na China, por exemplo, países continentais idênticos ao Brasil, as áreas marcadas por novas tecnologias eletrônicas foram desenvolvidas de forma acelerada, tendo como pontas de lança as indústrias espacial, aeronáutica e nuclear, com a criação de inúmeras atividades marcadas pela “virtualidade”.

No entanto, não aconteceu a disjunção em relação às atividades de “chão de fábrica”. Principalmente na China, o “chão de fábrica” cresceu em todas as cadeias produtivas, incluindo siderurgia, metalurgia, química, têxtil, confecções, brinquedos, bens de consumo durável, bens de consumo doméstico, eletro-eletrônicos, construção de máquinas pesadas, construção de máquinas ferramentas etc.

Na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, essa possibilidade está presente porque o desenvolvimento das forças produtivas ainda está defasado. Ou seja, nessas regiões ainda há a possibilidade de incorporar ao mercado de trabalho e ao mercado de consumo alguns bilhões (é bilhões mesmo) de pessoas. É evidente que isso vai aumentar ainda mais o maremoto de rebaixamento internacional dos salários, mas também dos preços das mercadorias.

Embora a mudança da base técnica, ocorrida nos países centrais, aponte para uma tendência de substituição do trabalho humano vivo pelo trabalho morto das máquinas e equipamentos “inteligentes”, com uma produtividade crescente, isso não significa que a indústria e a agropecuária perderão importância, sendo substituídas pelos serviços, onde se realizaria um trabalho “imaterial”.

A humanidade continuará precisando fabricar os bens necessários à sua vida cotidiana e à sua reprodução, assim como os bens de produção que os fabriquem. Os próprios serviços serão realizados por “máquinas inteligentes”. Isso só significa que os países que hoje encontraram o caminho da industrialização na terceira onda de globalização capitalista, mais cedo ou mais tarde se verão diante do mesmo problema de substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto.

Não se pode, pois, confundir a tendência visível nos países capitalistas avançados, com a conjuntura dos demais países e regiões do mundo. Aqui, tanto a indústria tocada pelo trabalho vivo, quanto a classe operária industrial, ainda podem ter um largo caminho de crescimento, dependendo das políticas industriais de seus governos.

Quando as “máquinas inteligentes” por fim se impuserem, substituindo a maior parte do trabalho vivo pelo trabalho morto, a humanidade terá que ter resolvido sua contradição com as formas alienantes de trabalho, e com a própria existência de uma classe obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver. Mas, como foi o trabalho que a desenvolveu, a humanidade também terá que procurar as formas de mantê-lo como a essência ou centralidade de sua própria existência.

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