China

WPO | SID | China, fev. 2008.

 

 

Raízes Históricas

1. Restos do Homo Erectus, encontrados no território chinês, são de 500 mil a um milhão de anos. Restos de aglomerações agrárias datam de 10 mil anos. Xia, a primeira dinastia, com escrita própria e escravista, é do século 21 AC. A estrutura do escravismo tinha, no topo, os guerreiros e seu rei, com direitos sobre a terra e os escravos; um campesinato livre, também com direito à terra; e os escravos, prisioneiros de guerra, de outros reinos ou de outras etnias. A agricultura era a base da economia. Ao lado dela, e em função de sua produção e das guerras, desenvolveu-se a metalurgia do bronze e, depois, do ferro.

2. Entre os séculos 6 e 4 AC, os reinos chineses transitaram do escravismo ao feudalismo, e deram surgimento à filosofia clássica, tendo Laotse, Mêncio e Confúcio como expoentes, e à estratégia e à historia militar, tendo Sun Zu como referência. O feudalismo ainda combinava escravismo e servidão, mas não eliminou o camponês livre, que se transformou numa força social e militar marcante em todas as mudanças dinásticas e sociais da história chinesa, em virtude das constantes guerras envolvendo os senhores feudais.

3. Em 221 AC, a vitória de Qin Huandi sobre os demais senhores feudais deu surgimento à dinastia Qin e ao primeiro Estado centralizado chinês. A partir daí, a história da China feudal foi marcada por uma luta constante entre a centralização e a descentralização monárquica, fazendo-a viver praticamente em torno de suas relações internas e com os vizinhos mais próximos. Somente a partir da dinastia Tang (10 DC), a China iniciou a expansão de suas relações com os mundos árabe e europeu.

4. A dinastia Ming (1368 / 1644) parecia destinada a ampliar essa expansão. Os avanços técnicos de suas embarcações (leme, velas triangulares, grandes estruturas) permitiram grandes navegações através do Pacífico Sul e do Índico, ampliando o comércio com a Índia, a África e a Arábia. É no curso dessa expansão mercantilista que a dinastia Ming se vê envolvida em intensa disputa entre os mercadores e os feudais. O predomínio dos feudais leva à proibição da navegação, à destruição da frota, ao enfraquecimento e à cisão da dinastia, à aliança de uma parte da nobreza Ming com o reino feudal manchu, à invasão deste e à derrocada dos Ming (1644).

5. O sucesso dos feudais manchus resulta no estabelecimento da monarquia absolutista Qing, com alto grau de autarquia produtiva. Somente o porto de Guangzhou permanece aberto para contatos com os estrangeiros, e os imperadores Qing se recusam a receber os enviados bárbaros do oeste e a manter relações com outros países. Fechada sobre si mesmo, a China não participa nem acompanha as mudanças técnicas, econômicas, sociais e políticas que ocorrem no resto do mundo, perde muitas de suas conquistas tecnológicas do passado, e fica despreparada para enfrentar a onda de expansão colonial do século 19.

6. Assim, quando a Grã-Bretanha inicia a primeira Guerra do Ópio, em 1840, a dinastia Qing não resiste, e se vê obrigada a pagar pesadas indenizações e a fazer concessões territoriais e econômicas. Nos 70 anos seguintes, a China foi assolada por constantes agressões de outros imperialismos, sendo obrigada a assinar tratados desiguais e a realizar progressivas concessões, que a transformaram numa semi-colônia.

7. Dependente das potências imperialistas, a China foi retalhada em zonas de influências, concessões territoriais e alfândegas administradas por estrangeiros, sendo proibida de julgar os crimes de estrangeiros em seu território (extra-territorialidade). Tornou-se fonte de matérias-primas e mercado cativo das potências industriais. Embora as potências imperiais se esforçassem por manter a dinastia Qing, a humilhação a que submeteram a China, e a exploração que impuseram aos camponeses, fez brotar formas de resistência, tanto ao duplo domínio estrangeiro, quanto à exploração dos feudais. Os camponeses realizaram inúmeras insurreições e duas grandes sublevações (Taiping e Boxers), derrotadas pelos exércitos particulares dos feudais (senhores de guerra), com o auxílio de tropas estrangeiras. Ao lado disso, outros atores sociais, aparecidos com a introdução de elementos capitalistas na China (estudantes, operários, assalariados), desenvolveram o nacionalismo.

 

A República

8. A monarquia estava com seus dias contados. Não suportou as revoltas que conduziram à proclamação da república, em 1911-12. Com base em seus três princípios do povo – fim do domínio manchu, democracia e bem estar para o povo – Sun Iatsen fundara o Goumintang (Partido Nacionalista Chinês) e conseguira dirigir a luta contra o império, em parte porque este perdera o apoio de importantes senhores de guerra. Mas, também por isso, Sun Iatsen, eleito presidente pela assembléia republicana, em fevereiro de 1912, teve que renunciar.

9. A república dos senhores de guerra, dirigida por Yuan Shikai, comandante do Novo Exército do Norte, não resolveu a crise agrária, e manteve as concessões às potências imperialistas. Durante a I Guerra Mundial, aliou-se às potências anti-germânicas, o que incluía o Japão, e suscitou a expectativa de que a vitória sobre os alemães revogaria os tratados desiguais. Ao mesmo tempo, Yuan Shikai tramava liquidar a república e ser entronado como imperador. Com sua morte, em 1916, instalou-se uma feroz disputa entre os diversos senhores de guerra, agravada pelo fato de que, em 1919, durante a Conferência de Versalhes, o Japão apresentou o acordo secreto assinado com Yuan Shikai, que lhe dava o direito de apossar-se das concessões alemães na China, frustrando as expectativas de revogação dos tratados desiguais.

10. As notícias da Conferência de Versalhes desencadearam imensa onda de protestos, a partir do dia 4 de maio de 1919. Conhecida como Movimento 4 de Maio, representou uma inflexão na história chinesa, com a presença na cena política de fortes correntes urbanas, estudantis e operárias, com a reorganização do Guomintang, a fundação da República de Cantão, a organização do Partido Comunista, e a disseminação de movimentos camponeses espontâneos pela China.

11. Em 1924, o Partido Comunista foi convidado a ingressar no Guomintang. Sun Iatsen havia estabelecido relações com a União Soviética, reformulara os três princípios do povo, incluindo neles o socialismo, e abrira condições para o PC participar na Expedição militar destinada a derrotar os senhores de guerra do Norte. No curso dessa expedição, entre 1924 e 1927, ocorreram outras duas mudanças importantes. Uma série de senhores de guerra do sul uniu-se à Expedição do Norte, conquistando a hegemonia sobre o Guomindang, ao aliar-se a Chiang Kaishek, que havia assumido sua chefia após a morte de Sun Iatsen, em 1925. E a passagem da Expedição pelas regiões rurais de Hunan. Jiangxi, Fujian e Zhejiang, estimulou os camponeses a organizarem movimentos independentes para lutar pela reforma agrária e contra o domínio feudal. O apoio dos comunistas a esses movimentos acirrou suas divergências com o Guomindang, desembocando no golpe militar de Chiang, em 1927. Para salvar-se, parte da direção do PC refugiou-se nas bases rurais, fundando o Exército Vermelho, para resistir às campanhas de cerco e aniquilamento do Guomindang, e iniciando a Segunda Guerra Civil Revolucionária.

12. Em 1931, como parte dos planos de expansão, o Japão ocupou a Manchúria, levando o PC a propor a suspensão da guerra civil e o estabelecimento de uma frente única nacional, proposta não aceita pelo Guomindang. Apesar da insistência comunista pela unidade, as tropas brancas levaram a cabo mais quatro campanhas de cerco e aniquilamento, obtendo uma vitória decisiva em 1935, por erros de estratégia militar do comando do PC e do Exército Vermelho. Este, para preservar seus efetivos, iniciou uma retirada estratégica para as bases do norte (Shaanxi e Shanxi), no curso da qual foram mudados o comando do PC (Mao Zedong passou a secretário-geral), o comando do Exército (Zhu De passou a comandante), e a estratégia da retirada (de retirada pela derrota, a marcha passou a ter como meta colocar o Exército Vermelho na frente da resistência ao avanço japonês).

13. Assim, embora tenha perdido cerca de 90% de seus efetivos durante a Longa Marcha, ao atingir as bases do norte o Exército Vermelho transformou a derrota militar em vitória política. Em 1936, os comunistas participaram na solução do Incidente de Xian, no qual Chiang Kaishek foi preso e ameaçado de fuzilamento por generais de seu exército. Os comunistas agiram para evitar o fuzilamento de Chiang, já que isso poderia prejudicar a unidade contra o Japão. Essa frente única, porém, só se concretizou em 1937, quando as tropas nipônicas iniciaram sua ofensiva geral, ocupando mais de 900 cidades e forçando a transferência da capital chinesa de Nanjing para Chongqing. A guerra civil foi suspensa, o Exército Vermelho passou a ser parte do Exército Nacional, agrupado como 8º. Exército da Rota e 4º Novo Exército, e o PC foi aceito como participante ativo da vida nacional.

14. Apesar disso, as estratégias eram diferentes. Chiang Kaishek aceitou os atos de capitulação de suas tropas, conservou seus principais exércitos na retaguarda, colocou os exércitos dirigidos pelo PC nas linhas frontais e provocou incidentes contra eles, buscou a paz em separado com o Japão, manteve um governo ditatorial, e procurou evitar a participação popular na guerra. O PC, ao contrário, assumiu as linhas de frente, não aceitou a paz em separado, realizou alianças com outros imperialismos contra o Japão, estabeleceu aliança firme com a URSS, ampliou a frente social contra o Japão, incluindo latifundiários, ampliou os mecanismos democráticos nas bases rurais, estimulou a participação popular na guerra, instituiu os 8 pontos de disciplina do exército, contra qualquer agressão aos direitos e à vida do povo, e instituiu regras de tratamento dos prisioneiros japoneses, de modo a tratá-los com humanidade e quebrar a moral arrogante do exército nipônico.

15. O resultado foi o fortalecimento do PC, a identificação dos comunistas como força motriz da resistência, a vitória nacional contra o Japão, e a derrota da tentativa de Chiang Kaishek de vencer uma nova guerra civil, mesmo com a cooperação dos EUA. Em 1947, os exércitos do Guomindang lançaram-se em ofensiva. Os comunistas denominaram seu exército de EPL – Exército Popular de Libertação, passaram à contra-ofensiva e, no final de 1949, derrotaram as tropas do Guomindang e proclamaram a República Popular.

 

A República Popular

16. Em 1949, a China saiu de 21 anos de guerras, que a deixaram destruída. Nessas condições, o novo regime tinha que se dedicar, primeiro, à reconstrução. Expropriou os setores proprietários, rurais e urbanos, ligados aos invasores aos japoneses e às demais potências estrangeiras, mas não a burguesia nacional chinesa. Em três anos a economia atingiu os níveis de antes da guerra. A partir de 1953, com o primeiro plano qüinqüenal, teve início a instalação de grandes complexos industriais. A China investiu alto na construção de infra-estruturas e indústrias. Em 1957, já produzia aço, metal-ligas, aviões, automóveis, equipamentos de geração de eletricidade e de minas e máquinas pesadas e de precisão. Colocou em operação 100 grandes empresas industriais e iniciou outras 600 grandes obras. Os recursos para esses investimentos – cerca de US$ 32 bilhões – foram arrancados da agricultura, através de impostos, fundos de acumulação das cooperativas, e emprego de jornadas voluntárias de trabalho. Os camponeses contribuíram com 25% de sua produção para o aumento da capacidade produtiva do país. Como resultado, sua renda familiar caiu mais de 20%. Embora a fome endêmica tenha sido eliminada, o conjunto da população permanecia pobre e o padrão de vida dos camponeses e operários foi afetado.

17. Esse tipo de industrialização, financiada pelo trabalho excedente dos camponeses e operários, apresentava limites na queda da renda camponesa, na compressão salarial e na escassez de bens de consumo. Com os cereais monopolizados para evitar a especulação, os camponeses transformaram a monopolização no alvo de suas críticas. Para minorá-las, o Estado revendeu aos lavradores uma parte do que havia adquirido deles, prejudicando as exportações agrícolas, das quais dependia a importação de equipamentos. Além disso, ocorreram desequilíbrios entre a indústria, a agricultura e o consumo, agravados pela disparidade entre a indústria pesada e a indústria leve. A escassez de produtos de consumo de massa pressionou os preços e obrigou o Estado a instituir o racionamento, para assegurar uma distribuição eqüitativa.

18. Quanto maiores as dificuldades, maiores os esforços para superá-las através da transformação socialista. Acreditava-se que a causa das dificuldades residia nas formas privadas de propriedade e de relações de trabalho e distribuição. Até 1957, a participação da economia capitalista foi reduzida de 7% para zero, e a da economia individual de 72% para 7%. Em contraste, a participação estatal foi elevada de 19% para 32%, a coletiva ou cooperativa de 1,5% para 53%, e a mista estatal-privada de 0,7% para 8%. Apesar disso, não ocorreu a criação de novos postos de trabalho. Para alcançar o pleno emprego, foi então adotada a política 1:3 (um trabalho para três pessoas), com danos para a produtividade. Mesmo assim, a insatisfação cresceu, sendo o estopim para uma ampla discussão sobre os rumos da construção socialista. Como elevar a capacidade produtiva do país e, ao mesmo tempo, garantir o bem-estar da população? Ou, como industrializar a China e, ao mesmo tempo, atender às novas necessidades sociais que a superação inicial do atraso e da miséria haviam gerado? Surgiram discrepâncias, as principais residindo no papel que as formas privadas e as formas públicas e estatais de propriedade poderiam desempenhar. Muitos atacavam as formas privadas como entraves, enquanto outros as consideravam uma necessidade histórica não superada.

19. Mao Zedong discutiu essas questões em As 10 grandes relações e Tratamento correto das contradições no seio do povo. No primeiro, criticou o modelo soviético, propôs equilibrar a indústria pesada, a agricultura e a indústria leve, sugeriu o desenvolvimento das pequenas indústrias rurais, e defendeu maior descentralização administrativa. Também sugeriu maior autonomia para as empresas e localidades, e aconselhou aproveitar a experiência dos outros países, inclusive capitalistas, na ciência, tecnologia e administração. No Tratamento correto das contradições no seio do povo, advogou cuidado no trato das contradições. Considerava não antagônica a contradição com a burguesia chinesa, apesar de seus representantes receberem dividendos das empresas mistas, e defendia a idéia de que a contradição básica da sociedade chinesa residia no fato das relações de produção ou de propriedade não estarem em correspondência com as forças produtivas.

20. Mas, ao considerar as forças produtivas do país mais avançadas do que suas relações de propriedade, trabalho e distribuição, Mao viu-se constrangido a atacar os que criticavam a pressa na coletivização, acusando-os de “tentar parar a revolução”. Desse modo, para “não parar a revolução“, o oitavo congresso do PC, em 1956, escolheu o caminho de construir o socialismo estritamente através das formas públicas de propriedade. Com o Movimento das Cem Flores, em 1957, os comunistas queriam que os intelectuais colocassem toda sua capacidade a serviço da construção socialista. No entanto, a queda do padrão de vida das camadas populares, e o férreo controle do Estado sobre as manifestações políticas e culturais, fez com que o Movimento das Cem Flores escancarasse as comportas para as queixas e insatisfações. As críticas aos defeitos da construção socialista e os ataques ao próprio socialismo foram muito além do previsível. Abriram espaço para a ação de sabotadores e elementos anti-socialistas, e obrigaram os comunistas a contra-atacar, com um movimento de retificação interna de seu partido.

21. O movimento de retificação levou a grande descentralização. As empresas sob controle central foram reduzidas de 9300 para 1200. Os itens controlados caíram de 532 para 132, e o peso dos recursos orçamentários destinados a obras locais subiu de 10% para 50%. A ampliação dos poderes locais criou ambiente favorável ao aumento da produção. Com isso, em 1958, a direção do PC planejou grande mobilização social para duplicar a produção de aço e unificar as cooperativas agrícolas em comunas populares. Houve disposição popular para atender a esses apelos, mas as metas apresentavam direções opostas. À medida que as autoridades locais realizavam obras de infra-estrutura, a escala destas exigia a coordenação de diversas localidades, apressando a unificação em comunas. A descentralização transformou-se numa nova centralização. Além disso, descobriu-se que as estatísticas estavam infladas. O aço dos fornos de quintal era imprestável, e as demandas dispersas de carvão e minério haviam levado caos aos transportes. Sem uma base produtiva adequada, quanto mais acelerada a socialização das relações de trabalho e de distribuição, maior a centralização para compensar aquela ausência. Houve desgaste e dispersão de força de trabalho e de recursos, agravadas pelas calamidades naturais de 1959 e 1960. Neste último ano, a produção agrícola sofreu um colapso, caindo para 150 milhões de toneladas.

 

A Revolução Cultural

22. Nessas condições, a discussão sobre a construção socialista na China retornou com força. Vários responsabilizavam não apenas as calamidades naturais, mas também as “forças espontâneas capitalistas” pelo insucesso do “grande salto“. Outros criticavam a socialização rápida das relações de produção, manifestada nas propriedades estatal e coletiva e nas relações de trabalho e distribuição das comunas e empresas. Tudo isso ocorria no contexto de um mundo conturbado pela Guerra Fria, e pelas divergências com a União Soviética, a respeito da coexistência pacífica com o imperialismo, e do apoio aos movimentos de libertação. Entre 1959 e 1964 a China enfrentou a insurreição dos feudais do Tibet, conflitos fronteiriços com a Índia, e ameaças de guerra nuclear, com a crise dos mísseis em Cuba. Os norte-americanos mantinham sua política de bloqueio e de “duas Chinas”, intensificavam o cinturão anti-chinês, promovendo golpes de Estado e ditaduras em vários países da Ásia, e impedindo a China de estender suas relações diplomáticas.

23. Nesse contexto, aquela discussão ganhou vários contornos. Mao afirmava que a maior parte da literatura e arte havia abandonado o socialismo e deslizado no revisionismo. Zhu Enlai conclamava os intelectuais a “florir e revitalizar“ e preparava a proposta de “quatro modernizações”, assumindo o desenvolvimento das forças produtivas como eixo da transição socialista. Lin Biao defendia que a tomada do poder dependia de “barris de pólvora e tinteiro”, substituindo comandantes e comissários políticos por homens de sua confiança, lançando campanhas ideológicas que tomavam a cartilha das Citações de Mao Zedong como bíblia, e dando início a um culto sem precedentes de Mao.

24. A partir de 1966, essa discussão extrapolou os limites teóricos e ganhou as ruas como “revolução política proletária, continuação da guerra civil e continuação da luta de classes entre o Kuomintang e o PC“. Os responsáveis da propaganda do PC e os dirigentes de Beijing foram destituídos. Em maio, o CC do PC publicou 16 pontos sobre a Revolução Cultural, colocando a revolução permanente como conceito básico da construção do socialismo. Os 16 pontos apelaram às massas para “fazer a revolução”, “transformar os pensamentos, cultura, hábitos e costumes antigos”, “derrubar os que ocupavam postos de direção, mas seguiam o caminho capitalista”, “opor-se aos ataques da burguesia no domínio ideológico”, “criticar as autoridades acadêmicas reacionárias”, e “reformar a estrutura de ensino, a literatura, a arte e todos os demais ramos da superestrutura”. Ao mesmo tempo, proibiam “que os representantes da burguesia infiltrados no Partido fossem citados nominalmente na imprensa sem a aprovação do comitê ao qual pertenciam”, “que os quadros técnicos e científicos dedicados a atividades estratégicas fossem incomodados”, e que a Revolução Cultural “fosse levada às fileiras do Exército Popular de Libertação”.

25. Milhões se organizaram na “guarda vermelha” e “comitês de rebeldes revolucionários”. Aplicavam a democracia direta, cada um interpretando a seu modo as instruções de Mao, para o qual as “massas não deveriam ser tuteladas“. Em 1969, esse movimento já causara prejuízos à produção, pelas paralisações para discussões políticas, pelas arbitrariedades, injustiças e crimes contra os que se opunham às idéias e práticas dos “guardas vermelhos” e dos “rebeldes revolucionários”. E quase se materializara em guerra civil, após choques envolvendo unidades do EPL. Diante disso, a direção do PC e do governo ordenou o desarmamento e a dissolução da Guarda Vermelha. Os organismos estatais foram reorganizados com a representação dos comitês do PC, dos comitês revolucionários e do EPL, e passaram a dar atenção à ordem de “fazer a revolução e aumentar a produção”. A partir de então, a Revolução Cultural refluiu de suas grandes mobilizações, entrando numa fase de disputa quase exclusivamente palaciana e partidária.

26. Havia três grupos principais. O primeiro, de Jiang Qing e mais três dirigentes que haviam se destacado nas discussões ideológicas de 1963. O segundo, de Lin Biao, ministro da defesa, cuja base principal eram oficiais do EPL. E o terceiro, informal, tinha Zhu Enlai, primeiro-ministro, como referência. Sobre eles pairava Mao. Zhu era o alvo principal dos ataques de Jiang Qing e Lin Biao, mas Mao se opunha a qualquer redução dos poderes de Zhu. Para por em prática sua teoria sobre golpes de Estado no socialismo e derrubar Zhu, Lin Biao teria que chocar-se contra Mao. Lin Biao foi empurrado à aventura golpista quando Mao e Zhu flexibilizaram a política exterior da China, enxergando na situação de derrota dos Estados Unidos no Vietnã, uma oportunidade para reduzir as tensões com as superpotências e sair do isolamento internacional. Assim, foi no próprio curso da Revolução Cultural que a China retomou suas relações com os Estados Unidos, sob a condição do governo da República Popular ser reconhecido como único governo da China. O plano sedicioso de Lin Biao, em 1971, falhou, desbaratando seu grupo e assestando um golpe na corrente aliada de Jiang Qing e na Revolução Cultural.

27. A partir de 1972, Mao chamou para postos dirigentes muitos dos veteranos afastados. Contra a resistência do grupo de Jiang Qing, Mao indicou Deng Xiaoping para vice-primeiro-ministro e chefe do estado-maior do EPL. Mesmo assim, o 10º Congresso do PC, em 1975, reafirmou as idéias centrais sobre a continuação da luta de classes no socialismo e elegeu alguns dos membros do grupo de Jiang Qing para os órgãos máximos do partido do governo. Por um lado, Mao estimulava as retificações de Zhu Enlai, Deng Xiaoping e outros. Por outro, permitia ao grupo de Jiang Qing, chamado por ele de “bando dos quatro”, atacar essas retificações e denunciar a reabilitação dos veteranos.

28. Em abril de 1976, Mao responsabilizou Deng Xiaoping pelas manifestações populares contra o “bando dos quatro”. Porém, definiu seu sucessor, ao colocar Hua Kuofeng na vice-presidência do PC. Essa sucessão de poder só poderia ser desfeita por meio de um processo democrático dentro do PC, ou por um golpe palaciano. Foi por este caminho que o grupo de Jiang Qing enveredou, falhando e sendo preso. O carnaval popular que se seguiu ao anúncio do fato foi a demonstração de que a Revolução Cultural se esgotara. Apesar disso, Hua Kuofeng queria ater-se às “duas todas”, isto é, a “todas as diretivas” e a “todas as orientações” de Mao. O que estava em contradição com a situação da economia, que necessitava reajustamentos urgentes, e com as pressões pela reabilitação dos veteranos.

29. Em julho de 1977, Deng Xiaoping e outros veteranos foram reabilitados. O 11º Congresso do PC, em agosto, encerrou a Revolução Cultural, mas não revogou as “duas todas”. Foi preciso jogar Mao contra Mao, reafirmando sua linha de massas (tomar as massas como o centro) e seu estilo de trabalho (procurar a verdade nos fatos, ou tomar a prática como critério da verdade), para mudar o foco do trabalho partidário e do governo, da luta de classes para as “quatro modernizações“. Deng Xiaoping, Chen Yun, Li Xiannian e outros quadros defendiam essa mudança de foco, tomando a democracia como condição maior. Seus argumentos tinham como referência as teses de Mao sobre combinar em alto grau democracia e centralismo, distinguir as contradições dentro do povo das contradições entre o povo e o inimigo, e manejar cada uma delas com correção. Além disso, aplicar a fórmula unidade-crítica-unidade no tratamento das contradições dentro do povo e aprender dos erros do passado para evitar erros no futuro. A doença deveria ser curada para salvar o paciente.

30. A 3ª sessão plenária do CC do PC, de dezembro de 1978, revogou as “duas todas”. Em 1979, foi formada uma Comissão Econômica e Financeira, dirigida por Chen Yun e Li Xiannian, para organizar o processo de reajustamento e preparar o plano de reformas. Sua atenção inicial concentrou-se no “sistema de responsabilidade” agrícola e nas Zonas Econômicas Especiais, destinadas a atrair investimentos estrangeiros e acelerar a abertura ao exterior. Em junho de 1981, o CC do PC aprovou a resolução sobre a história do PC, na qual os erros de Mao foram relativizados, os erros de outros dirigentes, inclusive de Deng Xiaoping, também foram tomados em conta, e as linhas mestras do pensamento de Mao, de integrar a teoria com a prática, forjar fortes laços com as grandes massas e praticar a autocrítica, foram validadas.

 

Linhas Gerais das Reformas

31. Como modernizar a China e, ao mesmo tempo, dar trabalho e bem-estar à sua enorme população? Como evitar que as “quatro modernizações” criassem uma imensa população excedente e pobre? As experiências de desenvolvimento do mundo capitalista apontavam para uma crescente massa de desempregados, o que ia contra os princípios socialistas. Essas preocupações, que permearam as discussões realizadas por milhares de quadros do PC e do governo, entre 1977 e 1982, os levaram a reiterar como princípios cardeais de suas reformas o caminho socialista, o fortalecimento do regime democrático popular e da direção do PC, e o marxismo e o pensamento Mao Zedong como guias teóricos.

32. Consideraram que a China só se recuperara como nação ao ater-se a esses princípios. Como as reformas representavam um recuo estratégico, elas só poderiam transformar-se em ofensiva, se os membros do PC mantivessem uma firme adesão a eles. A jovem geração não poderia ser educada para dirigir o povo na construção socialista se estivesse desarmada ideologicamente e se os comunistas não dessem o exemplo. Por isso, desde o início das reformas, o combate aos crimes econômicos tornou-se questão vital. Teriam, ainda, que mudar o sistema de liderança, acabando com a concentração de poderes e distinguindo entre as responsabilidades do partido e do governo, para evitar que o primeiro substituísse o segundo. O que exigia o fim da vitaliciedade em postos de direção e a melhoria da seleção e do rodízio de dirigentes. Mais do que tudo, os membros e dirigentes do PC deveriam ser iguais a quaisquer outros cidadãos, fazendo com que a democracia e a legalidade socialistas fossem institucionalmente inseparáveis.

33. O PC se empenhou inicialmente em reajustar a economia, realizando cortes nos grandes projetos e concentrando recursos na agricultura, produção de bens de consumo de massa, fontes energéticas, transportes, educação, saúde pública, cultura e ciências. As primeiras reformas limitaram-se à agricultura e à abertura ao exterior, enquanto a Comissão de Economia e Finanças definia as linhas gerais das demais. As reformas rurais devolveram às unidades familiares camponesas o direito de operar sobre a terra nacionalizada, por meio de contratos de responsabilidade, segundo os quais elas produzem conforme sua própria organização, mas se comprometem a vender ao Estado, através das cooperativas, um determinado volume por um preço pré-estabelecido. Tudo que produzirem a mais podem vender, a preço de mercado, ao Estado ou diretamente ao próprio mercado. A terra continua propriedade pública, mas seu usufruto e a organização camponesa são privadas, e a circulação e a distribuição são tanto publicas quanto privadas. A abertura econômica ao exterior limitou, durante mais de uma década, os investimentos estrangeiros às ZEE – Zonas Econômicas Especiais. Nelas, os estrangeiros deveriam associar-se a uma empresa chinesa, estatal ou coletiva, aportarem novas tecnologias, e exportarem toda a sua produção. O mercado doméstico estava aberto às novas tecnologias das ZEE, mas não aos produtos de suas empresas. Desse modo, a China praticou abertura e protecionismo. O mercado doméstico só foi sendo aberto à medida em que as empresas chinesas ganhavam competitividade para disputar com as empresas estrangeiras.

34. O programa de reformas optou por um processo gradual, de longa duração, tendo por base experimentos variados, antes de disseminar cada reforma, e por meta para o ano 2000 uma economia moderadamente desenvolvida. A partir de 1984, começaram as reformas urbanas na indústria, comércio, finanças, serviços, educação, cultura, política, estrutura estatal, salários, preços etc, numa perspectiva de 30 a 50 anos. Elas utilizam várias combinações estratégicas. Relacionam planejamento e mercado, propriedade social e propriedade privada, trabalho intensivo e capital intensivo, baixas e altas tecnologias, protecionismo e livre comércio, e regulação e desregulação.

 

Mercado e Planejamento

35. O mercado voltou a ser a base para o cálculo econômico e regulador dos preços e das demandas produtivas. Mas o Estado, através do planejamento, retifica os desvios do mercado e o orienta de acordo com as estratégias da construção econômica. As empresas estatais, cerca de 25% do total, continuaram propriedade social. Elas não têm mais poder monopolista (a não ser em alguns casos), nem estão subordinadas a planos obrigatórios, mas têm autonomia para atuar no mercado, com contratos de responsabilidade entre as assembléias de empregados e o governo.

36. Para serem rentáveis e realizar a acumulação ampliada, as estatais tinham que modernizar-se. Isso exigia uma reforma paulatina. Primeiro, concedendo mais poderes e lucros às empresas. Depois, separando o direito de propriedade do poder de gestão, com a adoção de diferentes tipos de gerenciamento e enxugando seus corpos operativos, administrativos e diretivos. Ao mesmo tempo, era preciso criar projetos de re-emprego e instituir o sistema de seguridade para manter o padrão de vida dos trabalhadores dispensados. O número de funcionários caiu de 74 milhões, em 1978, para perto de 25 milhões, em 1995. Mas isso também representou a criação de milhões de novas empresas, que não teriam surgido se as estatais não financiassem o re-emprego e a re-alocação.

37. O mercado de trabalho acompanhou a reforma das estatais, passando a ser regido pelas leis da oferta e da procura. Desde o final dos anos 1990, nenhum trabalhador está atrelado às unidades de trabalho. Sua danwei, ou carteira de trabalho, apenas indica onde ele está trabalhando. As empresas podem despedir um empregado, da mesma forma que este pode se demitir e procurar outro emprego. O Estado atua na re-alocação dos demitidos, através de programas das estatais e das agências de fomento. No mercado de moradias, o Estado procura impedir o inchamento das cidades, só permitindo a troca de moradias com a comprovação de trabalho permanente. As famílias são estimuladas a comprar suas moradias através de sistemas de crédito, gerenciados por imobiliárias estatais e privadas. Com isso, caíram em desuso os tickets para o acesso a habitações e/ou alojamentos.

38. A legislação permite a existência de empresas privadas, nacionais e estrangeiras, e inúmeros tipos de empresas mistas. Em 2000, a China possuía 30 milhões de empresas privadas, empregando mais de 70 milhões de pessoas. Outras 250 mil empresas sino-estrangeiras e exclusivamente estrangeiras, somadas a 680 mil empresas cooperativas por ações, respondiam por uma parcela pequena do emprego, mas produziam mais de 10% do PIB e mais de 40% das exportações. 10 milhões de empresas eram de propriedade pública (estatais e coletivas), respondendo por 80 milhões de empregos e 70% do PIB.

39. Na agricultura, o usufruto do solo pelas unidades familiares, os contratos de responsabilidade e o direito de comercializar os excedentes, permitiram um salto. A produção anual de grãos passou de 304 para 450 milhões de toneladas. Algodão, oleaginosas, cana e frutas apresentaram aumentos significativos. O cultivo de produtos aquáticos atingiu 46 milhões de toneladas em 2005. Entretanto, a terra arável compreende apenas 11% de seu território, onde ainda se concentra cerca de 70% da população. A modernização elevou o poder de compra da população e fez crescer a procura por alimentos, ao mesmo tempo em que as periferias das cidades, as novas estradas, avenidas, fábricas e zonas habitacionais avançavam sobre as terras e reduziam as áreas de cultivo, colocando as zonas e populações rurais diante de novos desafios.

40. As tecnologias tradicionais não são mais capazes de fazer a produção agrícola crescer a uma taxa mínima de 1% ao ano. Será preciso elevar a produtividade do solo e do trabalho, acarretando uma mão-de-obra excedente. Essa força de trabalho tem sido aproveitada na expansão das indústrias de cantão e povoados, dedicadas à produção de confecções, motores, implementos agrícolas, materiais de construção etc, muitas deles para exportação. Elas já são responsáveis por mais de 50% do valor da produção das zonas rurais e pelo emprego de mais de 130 milhões de trabalhadores.

41. As reformas têm causado mudanças na estrutura social. O uso de várias formas de propriedade produz rendas maiores em alguns setores e causa desequilíbrios sociais. Tendo em conta isso, a China tenta conformar estratos sociais que ascendam constantemente a níveis superiores, num “enriquecimento em ondas“. Para que isso ocorra, tem havido reformas constantes na distribuição das receitas, nos sistemas de moradia e seguridade médica e social e, principalmente, nos sistemas educacionais e culturais. A melhoria da renda pode ser medida pelas mudanças na estrutura de consumo. Diminuiu o consumo de cereais e cresceu o de carnes, ovos, leite, verduras e frutas. O consumo de roupas passou dos modelos simples para modelos variados. Das “quatro velhas peças” de consumo (bicicleta, relógio, máquina de costura e rádio), os chineses passaram para as “seis novas peças” (televisor, geladeira, lavadora, gravador, ventilador e máquina fotográfica). A partir do final dos anos 1990, aumentou a aquisição de telefones, computadores pessoais e moradias. Em 1978, os gastos alimentares representavam 57,5% dos gastos dos habitantes das cidades e 67,7% dos gastos dos habitantes rurais. Já os gastos com educação e cultura representavam 6,7% dos gastos dos habitantes urbanos e 1% dos gastos dos habitantes rurais. No ano 2000, os gastos com alimentos haviam baixado para 44,5% nas cidades e 53,4% nas zonas rurais. Mas os gastos com educação e cultura haviam subido para mais de 13% nas cidades e mais de 10% nas zonas rurais.

42. Na história da China, ritmos muito rápidos de crescimento, assim como ritmos lentos, têm causado instabilidade social. Para sustentar um crescimento populacional de 14 milhões de pessoas, a China precisa um crescimento econômico anual de 2%. Se for levado em conta o aumento do padrão de vida da população, são necessários mais 2% anuais de crescimento. Se forem considerados, ainda, os excedentes de trabalhadores, em virtude do aumento da produtividade urbana e rural e outros fatores, será preciso acrescentar mais 2% a 3% no crescimento anual. Ou seja, é necessária uma meta mínima de 6% a 7% anuais de crescimento econômico. Por outro lado, o crescimento médio de 9% a 10%, entre 1980 e 2005, se permitiu melhorar o padrão de vida do povo chinês e tornar mais sólidos os fundamentos econômicos do país, colocou em tensão a infra-estrutura, pressionou os preços das matérias primas, energia e transportes, causou pressões inflacionárias e criou condições para o surgimento de surtos de instabilidade política, como o de 1989.

 

Reformas políticas e culturais

43. O foco das reformas está voltado para a construção de uma forte base material, ou para o desenvolvimento sustentado das forças produtivas materiais. Mas as reformas políticas também vêm sendo introduzidas como condição para o desenvolvimento suave das reformas econômicas. O programa de reformas teve início com reformas ideológicas e políticas, sintetizadas na emancipação das mentes, e em tomar a prática como critério da verdade. Elas buscaram criar um ambiente global de estabilidade, revendo casos históricos injustos, reajustando as relações sociais, intensificando o combate à corrupção e estabelecendo mecanismos institucionais de rodízio das gerações no poder político. Também foram removidos quase todos os preceitos legais que estimulavam as diferenciações e os conflitos sociais.

44. A reforma política visa reduzir o burocratismo e a ineficiência e estimular a iniciativa das unidades de base, como condição para avançar na expansão democrática. As votações e eleições nos órgãos legislativos passaram a ser secretas. E foram regulamentados os procedimentos democráticos para as eleições diretas e secretas das assembléias e comitês populares de aldeias, cantões, povoados e municípios, que constituem o nível básico da sociedade chinesa. Para ser candidato, basta ser apontado por três eleitores, independentemente de ser membro de algum partido ou associação. As assembléias de base e as assembléias das organizações sociais de massa (populares, sindicais, juvenis e femininas) e do EPL, elegem seus representantes às assembléias populares de distrito, conforme a proporcionalidade populacional. As assembléias populares de distrito elegem seus representantes para as assembléias populares provinciais que, por sua vez, elegem seus representantes para a Assembléia Popular Nacional-APN.

45. As reformas políticas, do mesmo modo que as reformas econômicas, têm observado o método gradual. Em termos gerais, fazem experimentos variados para descobrir as reformas mais adequadas, não adotam medidas de choque, nem copiam os sistemas políticos de outros países. O critério para a adoção de um tipo ou outro de reforma política é, basicamente, o fato dessa reforma contribuir para a estabilidade social e política, a unidade nacional, a elevação do padrão de vida do povo e o desenvolvimento das forças produtivas de forma sustentável. Um dos mecanismos com crescente importância na democratização política chinesa é o Conselho Consultivo Político do Povo Chinês-CCPPC, onde têm assento os representantes indicados pelos partidos políticos (o PC e os outros oito partidos democráticos), além de personalidades públicas sem-partido.

46. Os chineses englobam em seu universo cultural os produtos espirituais criados por sua civilização e pelas demais civilizações, os equipamentos e meios necessários para tal produção e sua proteção, e os sistemas de informação e comunicação para sua difusão. Seu conceito de cultura engloba literatura, ópera, teatro, música, canto, dança, cinema, rádio, televisão, pintura, caligrafia, acrobacia, artesanato e esportes, e os equipamentos ou meios de sua produção e difusão (escolas, editoras, teatros, auditórios, imprensa, rádio, televisão, ateliês, oficinas, circos, bibliotecas, museus, ginásios esportivos). E, como condição para a plena utilização desses equipamentos e meios, a liberdade de criação e de crítica cultural.

47. Para eles, a elevação cultural engloba a educação, a assimilação dos conhecimentos e a produção de novos conhecimentos. A cultura é, pois, elemento essencial para incrementar a própria educação e o conhecimento geral de sua sociedade, elevando seu grau de civilização espiritual, e fazendo-o influenciar a própria civilização material. Procurando corresponder a esses conceitos, as reformas chinesas ampliaram consideravelmente o número, a quantidade e a qualidade de seus meios de comunicação de massa, ao mesmo tempo em que abriram o país para a transmissão de emissoras estrangeiras. As expressões culturais experimentam uma expansão rápida. Ao lado da ópera chinesa, com suas 300 variedades, misturando teatro, canção, música, dança e artes marciais e possuindo uma estrutura cênica, modelos musicais e fórmulas representativas próprios e diferentes das óperas ocidentais, os chineses têm sido apresentados à ópera ocidental, como a encenação de Turandot, de Puccini, no antigo Palácio Imperial, em 1998. Embora o teatro e a música também sejam incentivados, é certamente o cinema que está conquistando mais fama. Através da criação de um sistema aberto de produção e distribuição independente, na China é possível produzir filmes sobre os mais diferentes temas, custeados de diferentes modos, e assistir a uma variada gama de filmes estrangeiros.

48. O turismo é um dos setores que melhor expressa a abertura econômica, política e cultural da China. Esse país sempre teve recursos turísticos muito variados. Faltava-lhe, no entanto, não apenas uma infra-estrutura diversificada para aproveitar tais atrativos, mas uma política que facilitasse as viagens internas dos estrangeiros, de chineses de ultramar e de sua própria população. Esses obstáculos foram removidos já no início dos anos 80. Ao entrar no século 21, a China possuía uma variada gama de transportes aéreos, terrestres, marítimos e fluviais, internacionais e domésticos, mais de 4 mil hotéis classificados por estrelas, uma imensa e uma diversificada variedade de restaurantes e de comércios de peças artísticas e de artesanato.

 

Relações Internacionais

49. Desde 1954 a China proclamou a intenção de manter relações com todos os países do mundo, tendo por base as cinco regras de coexistência pacífica: respeito mútuo à soberania e integridade territorial, não-agressão, não-ingerência nos assuntos internos de um país por parte do outro, igualdade e benefício recíprocos, e coexistência pacífica. Condição essencial para o estabelecimento de relações estatais com a República Popular da China era seu reconhecimento como um só país. Isto é, o reconhecimento de Hong Kong, Macau e Taiwan como partes inalienáveis da China.

50. Entre 1950 e fins de 1969, apenas 50 países haviam reconhecido a RPC. Na década de 1970, o princípio de uma só China passou a ser aceito por um número crescente de países, a partir da normalização de suas relações com os Estados Unidos e da restituição de seu posto na ONU e no Conselho de Segurança. Em 1984, a China estabeleceu a fórmula “um país (China), dois sistemas (socialismo e capitalismo)” para a reunificação pacífica dos enclaves coloniais de Hong Kong e Macau e da província de Taiwan. Por essa fórmula, esses territórios receberiam o status de Regiões Administrativas Especiais e manteriam seu sistema capitalista por mais 50 anos. Os processos de incorporação de Hong Kong, em 1997, e Macau, em 1999, marcaram novo ponto de inflexão da diplomacia chinesa.

51. As relações com os EUA sempre tiveram papel estratégico na política internacional da China. Com suas reformas, a China passou a considerar os EUA um dos maiores mercados para suas exportações, enquanto se tornava um mercado para os investimentos norte-americanos. Diante disso, os governos dos EUA estabeleceram diferentes estratégias diante da China, desde a contenção pura e simples, até a colaboração estratégica. Em 2000, o discurso de Bush apontava para um contencioso crescente com a China, por considerá-la um “competidor estratégico”. O ponto máximo dessa atitude foi o incidente com um avião-espião norte-americano. No entanto, o declínio da economia americana, enquanto a China mantinha seu ritmo de crescimento, provocou mudanças na política norte-americana, levando Powell a visitar Beijing e promover uma redução na tensão entre os dois países.

52. Depois disso, os atentados de 11 de setembro de 2001, e as novas flexões estratégicas dos EUA para combater o terrorismo, fizeram com que o discurso do staff norte-americano mudasse ainda mais. Na cúpula da Cooperação Econômica Ásia Pacífico – APEC, em Shanghai, em outubro de 2001, Bush declarou a Jiang Zemin que os EUA não tinham a China inimiga, mas como amiga, e que desejava desenvolver uma relação “construtiva e cooperativa”, através de “diálogos estratégicos de alto nível”. Apesar disso, os pontos de divergência não são pequenos. Bush considera a questão de Taiwan “regional”, enquanto a China a considera “interna”. Há também discrepâncias quanto às políticas de direitos humanos, étnicas, proliferação de armas, Escudo de Mísseis de Defesa e, no final de 2002 e início de 2003, as ameaças de invasão ao Iraque, sobre as quais a China votou contra.

53. A política exterior chinesa não se restringe às relações estratégicas com os EUA. Resolveu praticamente todos os seus problemas fronteiriços, firmou acordos de cooperação e segurança mútua com a Rússia, Mongólia, Casaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, tem desempenhado papel apaziguador na península coreana e nas disputas entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e tem tido papel importante nas relações com os demais países asiáticos, principalmente na transformação do sudeste da Ásia numa área de livre comércio. Embora continuem as pendências com o Japão em torno dos crimes japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, ambos ampliaram e distenderam suas relações. O principal eixo estratégico das relações diplomáticas da China continua voltado para as nações em desenvolvimento. A própria China, apesar de todos os avanços econômicos dos últimos anos, continua considerando-se uma nação em desenvolvimento. Ela trabalha na perspectiva de que a ação conjugada dessas nações, em aliança com as nações que se opõem ao hegemonismo e à unipolaridade, consigam ampliar a multipolaridade, mudar a ordem econômica mundial e manter um ambiente de paz e desenvolvimento.

 

Mudanças de ritmo e de centro

54. Embora muitos críticos reclamem da prioridade às zonas litorâneas e, nestas, às zonas econômicas especiais e portos abertos ao exterior, relegando a segundo plano as regiões do centro e do ocidente da China, é duvidoso que a China pudesse desenvolver seu Centro e Oeste, se não tivesse se desenvolvido as regiões orientais e permitido a estas alcançar uma dinâmica econômica que lhes permitisse transferir capitais e tecnologias para o oeste. Mas a chinesa já estava voltada para desenvolver o Centro e o Oeste quando ocorreu a crise financeira de 97 a 99. Esta crise abalou os países asiáticos, teve efeitos devastadores sobre países em desenvolvimento e atrasados, e obrigou a China a adotar medidas para manter o fluxo de investimentos externos, o crescimento de suas exportações e a ampliação do seu mercado doméstico. O programa de modernização do Centro e do Oeste teve que ampliar as facilidades aos empresários estrangeiros e domésticos que investissem na região, e aos técnicos e trabalhadores especializados que aceitassem deslocar-se para lá. Ao lado disso, o governo central adotou uma política fiscal ativa, estimulando créditos para investimentos em infra-estrutura e construção de moradias. A tendência de deflação teve de ser debelada com medidas para redirecionar os investimentos para ciência, tecnologia e educação e para setores, empresas e produtos chaves.

55. Os cenários mundiais e regionais negativos refletiram-se no menor crescimento das exportações, com impactos também negativos sobre os programas e o ritmo de crescimento geral da China, elevando o número de desempregados em 2 milhões e a taxa geral de desemprego a mais de 4% da PEA. Comparada às recessões de Taiwan e Singapura, agravadas pelo naufrágio tecnológico dos EUA e Japão, ou às dificuldades da Indonésia, Coréia e Malásia, cujas economias cresceram a ritmos bem mais lentos, a situação da China era confortável. Os investimentos externos diretos na economia chinesa continuaram crescendo, como realmente ocorreu.

56. Entretanto, a China tem consciência de que sua economia pode ser contaminada por distúrbios internacionais. Tendo isso em conta, adotou, desde o final de 2001, um conjunto de medidas anti-crise. A primeira delas consiste na elevação constante da renda e do consumo domésticos, partindo da premissa de que a demanda doméstica só será elevada se houver um aumento consistente dos rendimentos. Assim, o governo instituiu o 13º salário anual, tem elevado a renda dos funcionários públicos, cujos salários continuam inferiores aos dos empregados nas estatais e empresas coletivas e privadas, e incrementado as pensões e subsídios aos aposentados e desempregados. Além disso, vem estendendo os benefícios dados aos trabalhadores urbanos aos trabalhadores rurais, e reduzindo gradualmente os impostos agrícolas. O imposto de renda dos que ganham entre 50 mil e 100 mil yuans/ano (US$ 6 mil e US$ 12 mil/ano) está sendo reduzido ou sofrendo isenção, e as barreiras que impediam a adoção do imposto de renda progressivo estão sendo removidas. Por outro lado, para transformar esses aumentos da renda em consumo e dinamizar a economia, os principais feriados nacionais foram ampliados, o turismo interno e a educação foram estimulados, e aumentaram os programas de construção de moradias.

 

Conclusões

57. O programa chinês de reformas tem duas grandes metas: construir uma nova civilização material e construir uma nova civilização espiritual. A civilização material, ou o desenvolvimento das forças produtivas materiais, conformando uma forte estrutura econômica (medida em termos de produto interno bruto), que permita a toda a sua população usufruir um nível de vida medianamente abastado (medido em termos de distribuição da renda), concentra os principais esforços até 2020. Em termos concretos, as reformas tinham como meta dobrar o PIB entre 1980 e 1990, e dobrá-lo novamente entre 1990 e 2000, tendo por base 1980. Entre 2000 e 2010, o PIB deveria ser dobrado novamente, desta vez tendo por base 2000. A distribuição da renda, relacionada à renda camponesa e aos salários urbanos, deveria acompanhar o crescimento da economia, de tal modo que em 2000 não houvesse ninguém abaixo da linha da pobreza e, em 2020, as camadas inferiores da população estivessem vivendo um padrão comparável aos belgas.

58. Em 1995, a China tinha quadruplicado seu PIB. Em 2000, seu PIB foi de 1,2 trilhão de dólares, pela paridade cambial. Em 2005, o PIB chinês dobrou em relação a 2000, atingindo 2,4, trilhões de dólares, a meta de 2010. Em termos de paridade de poder de compra, isto representa cerca de 10 trilhões de dólares. Enquanto o crescimento econômico cresceu a uma média de 9% a 10%, durante 25 anos, a renda da população urbana e rural cresceu a uma média de 6% a 7%. Das 250 milhões de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza em 1990, restaram menos de 16 milhões nessa condição em 2005. Em 2010, a China terá 520 milhões no nível de classe média alta, mais de 500 milhões no nível de classe média baixa, e cerca de 400 milhões de pobres.

59. É evidente, com os dados acima, que o desenvolvimento chinês ainda tem um longo caminho a percorrer, apesar dos avanços. Seu ponto de partida estava historicamente muito atrasado, e a imensidão de sua população dilui qualquer produção bruta. Além disso, a paz de que tanto necessitam para levar a bom termo seu programa não depende só deles. Nessas condições, para saber se a revolução chinesa alcançou seus objetivos estratégicos, será necessário acompanhar por mais tempo a presente transição do estágio inferior do socialismo para um estágio mais elevado.

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