China: um perigo?

WPO | SID | China: um perigo?, set. 2005.

 

 

Estão se multiplicando as teses sobre o perigo representado pela emergência da China no mercado mundial. Afirma-se, por exemplo, que esse país coloca em questão o papel da América Latina na divisão internacional do trabalho e, mais precisamente, a teoria de que o futuro da região passa pela indústria. E que esse questionamento tem por base, pelo menos, sua gigantesca mão-de-obra, sua produtividade e a intervenção de seu Estado na economia.

Para início de conversa, responsabilizar a China, ou mesmo os tigres asiáticos, pelas dificuldades na industrialização da América Latina e do Brasil, demonstra miopia histórica. Na verdade, o questionamento à teoria de que o futuro da região passaria pela indústria deve ser buscada no século 18, quando D. Maria I, mãe de D. João VI, mandou destruir teares e tudo que parecesse maquinário existente na colônia. Nos séculos posteriores, esse questionamento foi promovido pelas oligarquias rurais e pelas potencias industriais do ocidente. Mais recentemente, a necessidade da industrialização tem sido questionada tanto pelas teorias tradicionais do comércio internacional, quanto pelas teorias das reformas de modernização liberal.

Tais teorias não têm se voltado apenas contra a industrialização da América Latina. Elas têm colocado em questão, também, o papel da indústria na África e na Ásia, apesar do exemplo contrário do Japão e dos tigres asiáticos. De qualquer modo, nos últimos 25 anos foi justamente a China quem derrubou as teorias do comércio internacional tradicional e das reformas macro e microeconômicas, baseadas no receituário de “terapia de choque”, “inovação destrutiva”, “privatização plena” e “Estado mínimo”, empacotado com o rótulo de “liberalização econômica”.

Nesses anos, ao invés de olhar para o exemplo chinês e de outros países asiáticos, e extrair as lições devidas, o Brasil preferiu ater-se às recomendações do Consenso de Washington e manter-se quase estagnado por mais de 20 anos. Então, que culpa tem a China por haver superado o Brasil e outros países latino-americanos na “arte de fabricar produtos industrializados”? Que culpa tem a China se nossos governos, deslumbrados com tudo que vinha do “Norte”, preferiram quebrar boa parte do nosso parque produtivo, sob a alegação de que estavam realizando uma “destruição criativa”?

A questão da mão-de-obra

É evidente que a entrada, no mercado mundial, da imensa mão-de-obra chinesa – cerca de 700 milhões de trabalhadores – tem representado um choque de grandes proporções no mercado de trabalho. No entanto, tomar como desafios negativos o nível educacional superior e o nível salarial inferior dessa força de trabalho em relação aos níveis da América Latina e do Brasil, significa reduzir uma questão complexa a uma questão simplória.

Em primeiro lugar deveríamos admitir, mais uma vez, que coube a nós a responsabilidade por alguns desses descompassos. Como um país que, em 1949, possuía cerca de 90% de analfabetos em sua população total já imensa (cerca de 500 milhões), pode dar um salto tão gigantesco na área educacional, enquanto o Brasil, com uma população tão menor, avançou muito menos?

Depois, precisaríamos discutir melhor a questão dos salários chineses. Eles são realmente três vezes menores do que os salários brasileiros, em termos de paridade cambial,  contribuindo para dar maior competitividade aos produtos chineses no mercado internacional. No entanto, eles são, ao mesmo tempo, 3 a 4 vezes superiores aos salários brasileiros, em termos de poder de compra, contribuindo para expandir a demanda efetiva, a escala produtiva e o mercado interno da China. O que, em última instância, também contribui para elevar a competitividade dos produtos, tanto dos intensivos em mão-de-obra, a exemplo dos agrícolas e de muitos bens de consumo não-duráveis, quanto dos produtos de médias e alta tecnologias, intensivos em capital.

Se olharmos com menos preconceito a entrada da força de trabalho chinesa no mercado mundial, teremos que admitir que ela resultou num aumento potencial das taxas de crescimento, na redução das taxas de inflação e em modificações visíveis nos preços relativos do trabalho, capital, mercadorias e ativos.

Ao inundar o mundo com maior quantidade de mercadorias, de preços mais baixos, a China tornou-se responsável por mais de 30% do crescimento mundial nesses primeiros anos do século 21, assim como pela manutenção de uma inflação mundial relativamente baixa,. O poder de barganha dos trabalhadores, tanto nas economias desenvolvidas, como nas economias em desenvolvimento, reduziu-se, enquanto os lucros cresceram. Os preços das mercadorias exportadas pela China têm baixado, mas os preços das mercadorias que ela importa têm se mantido altos, ou subiram. Assim, só as fadas acreditam que o crescimento recorde das exportações, e a redução da inflação brasileiras dos últimos anos, nada têm a ver com a China.

A redução dos custos do capital e, com ela, a manutenção de baixas taxas de juros na maior parte dos países do mundo (o Brasil é uma das exceções), se devem, em grande medida, à redução da pressão inflacionária mundial, forçada pela entrada da força de trabalho massiva chinesa no mercado mundial, e à aquisição também massiva de bônus do Tesouro americano pela China, que elevou sua reserva em moedas fortes acima dos US$ 700 bilhões, em julho de 2005. Essa é uma das razões pelas quais há uma abundância relativa de liquidez internacional e as elevações das taxas de juros do FED já não causam apertos monetários tão fortes quanto no passado.

Portanto, se olharmos para as condições gerais da demanda, do crescimento e da inflação mundiais, a entrada da imensa força de trabalho chinesa tem representado um choque positivo, não negativo, mesmo que isso signifique um desafio. O que se deve perguntar é: por que alguns países estão se aproveitando desse choque positivo para crescer, inclusive industrialmente, enquanto alguns pressionam o Brasil a considerá-lo é um perigo? Será por não enxergar positivamente esse choque positivo que nossas taxas de juros continuam tão escandalosas, e as taxas de crescimento em vários outros países na América Latina têm sido maiores do que no Brasil?

A questão da produtividade

A questão da competitividade chinesa vem sendo enfocada como uma combinação perversa de produtividade mais baixa com salários muito mais baixos, o que lhe permitiria a obtenção de preços imbatíveis. O reducionismo aqui, como na questão específica dos salários, impede olhar com uma visão mais ampla o que está acontecendo na China, e tirar as lições adequadas.

No final dos anos 1970, a produtividade chinesa era mais baixa do que a brasileira e de alguns outros países da América Latina, seja em virtude de seu atraso tecnológico, seja em virtude de sua política de pleno emprego, que tinha como lema “três em um”, isto é, três trabalhadores empregados para cada trabalho efetivo. A partir daquele momento, a China adotou uma série de políticas combinadas, que iriam modificar radicalmente a produtividade do país. Prioridade para a educação, abertura para o exterior e atenção ao desenvolvimento científico e tecnológico foram certamente as principais.

Hoje a força de trabalho chinesa tem, reconhecidamente, como já citamos, um nível educacional superior à força de trabalho da América Latina e do Brasil. Os esforços para a educação ocorrem em todos os níveis, do primário ao doutorado, incluindo o envio de  estudantes para especializar-se em áreas de alta tecnologia no exterior. Embora a China ainda não possa ombrear-se com os padrões educacionais internacionalmente mais elevados, desde 1980 ela busca com perseverança alcançar esses padrões num prazo de 50 anos. Se medirmos o que ela realizou nesse terreno, em 25 anos, restará pouca dúvida que ela atingirá seu objetivo no prazo estipulado. O que impede o Brasil de realizar algo idêntico? A China?

Também desde 1979 a China ingressou num processo de abertura econômica ao exterior, cujos instrumentos preliminares foram as Zonas Econômicas Especiais. Nessas zonas, situadas em 5 áreas geográficas determinadas, foram abertas aos investimentos estrangeiros, em condições relativamente simples. Os investimentos deveriam realizar-se sob a forma de joint ventures entre a empresa estrangeira e uma empresa chinesa, incorporar novas ou altas tecnologias, estar totalmente voltados para a exportação e obedecer às necessidades de adensamento das cadeias produtivas do país, estipuladas num guia revisto anualmente pelo governo.

Em outras palavras, através da parte chinesa da joint venture, em geral alguma estatal, a China internalizava as altas ou novas tecnologias trazidas pela parte estrangeira, aumentando a musculatura de suas empresas nacionais. Ao mesmo tempo, a China ingressava no mercado internacional através da parte estrangeira, ganhando experiência para competir no mundo globalizado. Assim, muito mais do que o capital-dinheiro, o que os investimentos estrangeiros realmente deram como contribuição para o salto produtivo da China foi o capital-tecnologia e o mercado global, evitando que ela investisse anos de trabalho na reinvenção da roda e na abertura de mercados.

De 1979 para cá a China foi paulatinamente abrindo sua economia à competição estrangeira, à medida que sentia que suas próprias indústrias e serviços tinham ganho musculatura e podiam competir em condições de igualdade. O que tem impedido o Brasil de fazer algo idêntico? A China?

Nesse período, a China também tem feito esforços consideráveis para investir em ciência e tecnologia, evitando ficar restrita à importação da tecnologia estrangeira. Ela não só tem praticado uma política intensiva de cooperação universidades-empresas, como tem destinado fundos específicos para  transformar em empresas produtivas as equipes universitárias que desenvolveram produtos de alta tecnologia. Além disso, por meio de planos determinados, a China vem construindo 53 centros nacionais de desenvolvimento científico e tecnológico, abrangendo alguns milhões de cientistas, engenheiros e técnicos, além dos centros provinciais e regionais já existentes.

Nessas condições, só pessoas desinformadas ficarão surpresas quando a China, nos próximos anos, atingir os padrões internacionais mais elevados de inovação tecnológica e pesquisa científica. E, falando francamente, a China não tem culpa alguma pelo fato do Brasil estar atrasado nesse setor.

A rápida elevação da produtividade chinesa nos anos 90, já constatada por muitos que enxergam nisso um grande perigo para o Brasil, tem por base a combinação desses fatores: educação, importação inteligente de novas e altas tecnologias, e atenção redobrada ao desenvolvimento de novas e altas tecnologias. Nisso não há qualquer mistério. E deveria servir de exemplo.

A questão do Estado

A intervenção agressiva do Estado chinês na economia é tomado pelos adeptos do “perigo vermelho” como o maior desafio ao sonho de industrialização da América Latina e do Brasil. Segundo eles, o Estado chinês interfere em todos os setores relevantes da economia, criando condições de competição desfavoráveis para os produtores do resto do mundo, ao prover os produtores locais de oferta ilimitada de crédito a juros muito baixos, subsidiar generosamente a pesquisa e o desenvolvimento, socializando os riscos da inovação, ignorar o direito de propriedade intelectual e facilitar tudo aos exportadores, enquanto aos importadores aplica rigorosamente as leis.

Para precaver-se da sugestão de que é possível, a qualquer país, ofertar crédito barato aos produtores locais e subsidiar a pesquisa e o desenvolvimento, eles sustentam o esdrúxulo argumento de que tal ação dificilmente seria tolerada pela comunidade internacional, se fosse praticada por um país do Ocidente. Isso, no entanto, torna-se falacioso e típico da mentalidade dos colonizados, se olharmos os Estados Unidos e os diversos países europeus, que não só vêm praticando taxas de juros até mais baixas do que seria necessário, como subsidiam largamente a pesquisa e o desenvolvimento, a exemplo do que fazem o Pentágono e diversas agências européias, ao destinarem verbas bilionárias para diversos programas científicos e tecnológicos.

O problema do Brasil e da América Latina, nesse terreno, é que seus Estados nacionais foram deliberadamente enfraquecidos ou desestruturados, ao invés de seguirem o próprio exemplo que vêm do “Norte”, onde existem Estados fortes e atuantes, capazes de defender os interesses de suas empresas, através de suas embaixadas ou de enviados diplomáticos especiais, em qualquer região do mundo. A China preferiu seguir este caminho, ao abandonar a centralização extremada da União Soviética, que engessava a economia e a sociedade.

O Estado chinês combina o planejamento macroeconômico e macrosocial com as demandas mercantis, utilizando-se principalmente de instrumentos econômicos, como as estatais, para direcionar o mercado no processo de desenvolvimento, e evitar desvios e crises cíclicas. E, da mesma forma que o FED americano utiliza as taxas de juros e a emissão do dólar como instrumento de estímulo de investimentos e contenção da inflação interna, o BC chinês utiliza os juros e o câmbio como instrumentos de política industrial. Nada que um país como o Brasil não pudesse fazer, mesmo que segmentos da comunidade Ocidental rilhassem os dentes. Basta jogar de lado a mentalidade de colonizado e exercer um pouco de soberania.

Além disso, a informação de que o Estado chinês tem mão leve com os exportadores e mão pesada com os importadores também não suporta uma análise singela das curvas de crescimento das exportações e importações chinesas. Em termos globais, elas têm mantido um crescimento paralelo muito próximo, o saldo advindo principalmente de seu balanço com os Estados Unidos e a Europa. Com países como o Brasil, a China tem mantido um déficit comercial relativamente longo. Supostas perdas brasileiras de exportações na competição comercial com aquele país podem ser armadas como exercícios virtuais, desde que não levem em conta o papel da China no crescimento global das exportações brasileiras.

Possibilidades no caminho da industrialização

É verdade que as exportações latino-americanas para a China vêm sendo dominadas por produtos primários em cerca de 60%. Daí a culpar os chineses por uma desindustrialização dos fornecedores de manufaturas intensivas em recursos naturais, vai uma longa distância. Nossa desindustrialização teve outros patronos, que precederam a entrada da China no mercado mundial. Patronos e defensores que continuam muito ativos, procurando jogar sobre a China responsabilidades que são nossas

Durante mais de 10 anos, muitos dos que hoje acusam a China pela desindustrialização brasileira acusavam de dinossauros todos os que exigiam políticas de industrialização. Principalmente porque políticas de industrialização são políticas estatais, e eles têm horror da participação do Estado. No entanto, queiram ou não queiram, a definição da importância da indústria para o desenvolvimento brasileiro, por ser a atividade com maior potencial de crescimento da produtividade, tem como pressuposto a necessidade do papel do Estado na economia. Portanto, no caso do Brasil, não pode depender da China ou dos Estados Unidos, mas exclusivamente de nós próprios.

Cabe ao Brasil, não à China e a outros países, utilizar sua capacidade em recursos naturais para exigir contrapartidas industrializantes. Por exemplo, quem quer o minério de ferro de alto teor, ou o manganês e a bauxita existentes no Brasil, precisa investir em processos de sinterização, refino e transformação no próprio Brasil. E assim por diante. Mas isso, quem precisa estabelecer como condição somos nós, não os outros.

A diferença é que, nessa perspectiva, a China pode desempenhar um papel positivo maior do que os Estados Unidos e do que a Europa, embora essas regiões não devam ser subestimadas ou desprezadas. Com uma enorme poupança interna, além dos investimentos externos diretos, a China tem praticado uma taxa de investimento superior a 40% do PIB, resultando num ritmo de crescimento muito elevado  –  mais de 9% ao ano  -, causador de tensões no fornecimento de matérias primas, na infra-estrutura de energia e transportes,  e nas ameaças de crescimento da inflação.

Para reduzir o ritmo de crescimento a 7% a 8% ao ano, permitindo maior equilíbrio entre o processo produtivo e sua infra-estrutura, a China precisará reduzir sua taxa de investimento anual para cerca de 30 a 35%. O que significa um excedente de capital da ordem de cerca de 50 a 100 bilhões de dólares anuais, que ela terá que investir fora. Para os países, como o Brasil, que apostam no futuro da indústria, deixar de olhar a China como ameaça e vê-la como desafio de oportunidades torna-se fundamental.

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