China: conflitos geopolíticos

WPO | TBA | China: conflitos geopolíticos, Universidade Candido Mendes, Relações Internacionais Contemporâneas, abr. 2006.

 

 

Algumas Raízes Históricas das Relações Internacionais da China

1. Entre os séculos 21 AC e 10 DC a China viveu praticamente em torno de suas relações internas e com os vizinhos mais próximos, em especial os reinos nômades do norte, considerados bárbaros. Foi a partir do domínio mongol (dinastia Yuan, até 1368) que a China iniciou um lento processo de expansão de suas relações internacionais, especialmente através de suas rotas terrestres, com o mundo árabe e europeu.

2. A dinastia Ming (1368 / 1644) parecia destinada a levar essa expansão muito além dos limites anteriores. Os avanços técnicos de suas embarcações (leme, velas triangulares, grandes estruturas) permitiram que suas frotas iniciassem grandes navegações no rumo oeste, através do Pacífico Sul e do Índico, ampliando o comércio com a Índia, a costa ocidental africana e a península arábica. É no curso dessa expansão que a dinastia Ming procura se apossar mais uma vez da península vietnamita, vendo, porém, frustrada sua tentativa.

3. Essa expansão é acompanhada de uma intensa e crescente disputa entre a nascente classe dos mercadores e os senhores feudais, que leva a uma forte cisão dinástica, à proibição das grandes navegação, à destruição da frota marítima e ao progressivo enfraquecimento da dinastia reinante. Além de não participar da expansão marítima que ocorre nesse período, embora estivesse melhor aparelhada para fazê-lo, a dinastia Ming vê-se acossada pela invasão do pequeno reino feudal manchu, aliado a uma parte de sua própria nobreza. A derrota Ming e o domínio manchu resultam na instalação da dinastia Qing (1644 / 1911).

4. O sucesso Qing é o sucesso dos senhores feudais chineses, com o estabelecimento de uma monarquia absolutista, de alto grau de autarquia produtiva. O único porto que permanece aberto para contatos com os estrangeiros é o de Cantão (Guangzhou). Os imperadores Qing se recusam permanentemente a receber os enviados bárbaros do oeste e a manter relações com outros países. Fechada sobre si mesmo, a China não participa nem acompanha as mudanças técnicas, econômicas, sociais e políticas que ocorrem no resto do mundo, perde muitas de suas próprias conquistas tecnológicas do passado, e fica despreparada para enfrentar a segunda onda de expansão colonial, no século 19, comandado pelas potências industriais.

5. Assim, quando a Grã-Bretanha aproveita-se da proibição do comércio do ópio em Cantão e inicia a sua primeira Guerra do Ópio, em 1840, a dinastia Qing não consegue resistir às tropas britânicas e indianas, e se vê obrigada a pagar pesadas indenizações e fazer concessões territoriais e econômicas ao império inglês. Nos 70 anos seguintes, a China foi abalada por constantes agressões de outras potências imperialistas, sendo sempre obrigada a assinar tratados desiguais e a realizar progressivas concessões econômicas, territoriais e políticas, que a transformaram numa semi-colônia.

6. Aparentemente soberana, mas com uma dinastia reinante totalmente dependente das potências imperialistas, além de pagar as indenizações exigidas pelos países imperialistas, a China foi retalhada em zonas de influências, concessões territoriais e alfândegas administradas por outros países, e foi proibida de julgar os crimes praticados por estrangeiros em seu território (direito de extra-territorialidade). Transformou-se, assim, numa fonte de matérias-primas agrícolas e minerais para as potências industriais e um mercado cativo para produtos dessas potências.

7. Embora fosse vantajosa para as potências imperialistas a manutenção da dinastia Qing subalterna, a situação humilhante a que elas submeteram a China, e o aumento da carga de exploração que impuseram aos camponeses, fez brotar diferentes formas de resistência, tanto ao duplo domínio estrangeiro sobre o país (o domínio manchu, da dinastia Qing, e o domínio imperialista), quanto ao domínio e à exploração dos feudais sobre os camponeses. Os camponeses foram responsáveis por inúmeras insurreições e por duas grandes sublevações (Taiping e Boxers), enquanto outros atores sociais aparecidos com a implantação de elementos capitalistas na China (estudantes, operários, assalariados diversos) desenvolveu o nacionalismo.

8. Os Taiping (1864) representaram a ruptura do contrato celestial dinástico. E a dinastia Qing só se manteve ainda por quase meio século, porque foi amparada pelos países imperialistas, e pelo direito dado aos senhores feudais chineses, para armarem exércitos próprios capazes de sufocar as rebeliões camponesas e o banditismo que se espalhou pelas zonas rurais. Em outras palavras, amparada pelas tropas imperiais e estrangeiras, e pelas tropas dos que ficaram conhecidos como senhores de guerra.

 

As vicissitudes da República China

9. Apesar disso, a monarquia estava com seus dias contados e não suportou as revoltas que conduziram à proclamação da república, em 1911. Com base em seus três princípios do povo – fim do domínio manchu, democracia e bem estar para o povo  –  o Dr. Sun Iatsen fundara o Goumintang (Partido Nacionalista Chinês) e conseguira dirigir a luta contra a dinastia imperial, em grande parte porque esta perdera o apoio de importantes senhores de guerra.

10. O Dr. Sun Iatsen foi eleito presidente pela nova assembléia nacional, mas teve que renunciar logo depois, em 1912, em virtude das pressões dos senhores de guerra, principalmente de Yuan Shikai, comandante do Novo Exército do Norte. A república dos senhores de guerra não resolveu a crise agrária e, na política internacional, manteve a prática das concessões diante das potências imperialistas. No processo de preparação e desencadeamento da I Guerra Mundial, o governo chinês aliou-se às potências anti-germânicas, o que incluía o Japão, e permitiu que este se assenhoreasse das antigas possessões alemãs (Qingtao e ferrovias da Manchuria).

11. A aliança chinesa com os ingleses, franceses e japoneses incluiu a remessa de operários para os países da Europa, de modo a substituir aqueles que haviam sido enviados para a frente de combate. Além disso, para motivar esses acordos, as potências ocidentais e o governo Yuan Shikai levantaram expectativas de que a vitória sobre os alemães possibilitaria a suspensão dos tratados desiguais impostos pelas potências imperialistas à China. Ao mesmo tempo, porém, Yuan Shikai tramava liquidar a república e ser entronado como novo imperador. Ao morrer, em 1916, não só não conseguiu levar avante seus planos, como deixou aberta uma feroz disputa de hegemonia entre os diversos senhores de guerra.

12. Em 1919, durante a Conferência de Versalhes, a delegação chinesa reclamou o fim dos tratados desiguais, como havia sido prometido pelas potências ocidentais. O Japão, porém, trouxe a público um acordo secreto assinado pelo governo Yuan Shikai, que lhe dava o direito de apossar-se permanentemente das concessões alemães na China. As potências ocidentais, inclusive os Estados Unidos que se batiam por uma China de portas abertas para todos, aceitaram a posição do Japão e frustraram as esperanças da China. Sua delegação retirou-se da Conferência, em protesto.

13. As notícias sobre os resultados da Conferência de Versalhes tiveram uma profunda repercussão em toda a China, desencadeando uma imensa onda de protestos em todas as cidades, a partir do dia 4 de maio de 1919. Conhecido historicamente como Movimento 4 de Maio, ele representou uma inflexão de grandes conseqüências na história chinesa. Pela primeira vez marcaram presença na cena política fortes correntes urbanas, estudantis e operárias, o Guomintang foi reorganizado e fundou a República de Cantão, os grupos marxistas chineses organizaram o Partido Comunista, e disseminaram-se movimentos camponeses espontâneos pela China.

14. Ainda como resultado do impulso do Movimento 4 de Maio, o Partido Comunista foi convidado pelo Dr. Sun Iatsen para ingressar no Guomintang e participar na organização da Expedição Militar destinada a derrotar os senhores de guerra do Norte e implantar o poder republicano em todo o país. Na política exterior, nesse momento, o Guomintang estabelece relações com o novo poder soviético e proclama sua decisão de se livrar dos tratados desiguais.

15. A Expedição do Norte, durante a qual morre o Dr. Sun Iatsen, tem como resultado não só a derrota dos principais exércitos do Norte e a implantação do governo do Guomindang em Nanjing, mas também uma reorganização interna das forças sociais do Guomindang, com o rápido predomínio dos senhores de guerra do sul nesse partido, tendo à frente Chiang Kaishek, e o redirecionamento da luta do Guomindang contra os comunistas e os camponeses. O golpe militar de 1927, a perseguição aos comunistas e aos camponeses, assim como a continuidade da política de concessões às potências imperialistas, são as principais expressões daquelas mudanças no Guomindang.

16. Os tratados da Conferência de Versalhes, e os posteriores acordos regendo as relações internacionais, ingressam num processo de esgarçamento na década de 1920, já delineando novos conflitos inter-imperialistas pela redivisão do mundo. A ascensão do fascismo na Itália, no Japão e na Alemanha são os sinais de um novo ordenamento nas alianças imperialistas, embora elas se apresentem como contrárias à União Soviética e o bolchevismo. E o toque de ataque do novo conflito mundial foi anunciado justamente com a ocupação japonesa da Manchúria, em 1931, e a instalação do governo títere Manchuquo.

17. A passividade do Guomindang diante da agressão nipônica representou não só a evidência de que Chiang Kaishek estava disposto a manter a política de colaboração e concessões frente às potências imperialistas, como sua decisão de tomar como inimigo principal os comunistas. Apesar disso, o Partido Comunista propos ao Guomindang uma aliança contra a invasão japonesa, alertando que a ocupação da Manchúria era apenas o primeiro passo para a invasão e ocupação de toda a China. Diante disso, os dois partidos deveriam colocar de lado suas divergências, suspender a guerra civil e estabelecer uma frente única contra a invasão japonesa.

18. A proposta do PC foi rechaçada e acompanhada, entre 1931 e 1935, de 5 campanhas das tropas do exército nacional chinês, de cerco e aniquilamento contra as bases centrais e o Exército Vermelho dos comunistas. Na quinta campanha, as tropas do Guomindang infligem uma séria derrota ao Exército Vermelho, obrigando-o a iniciar uma retirada de suas bases no sul, para as bases no norte. Durante essa retirada ocorreu a troca de comando no PC e no Exército Vermelho, com Mao Zedong assumindo a direção do PC e Chu De assumindo o comando do exército.

19. No entanto, tanto do ponto de vista da política nacional, quanto da política internacional, o aspecto mais importante dessa retirada foi sua transformação em Grande Marcha para enfrentar os invasores japoneses nas linhas de frente do norte. Essa transformação de uma retirada militar em uma ofensiva política teve grande influência nas divergências presentes no próprio Guomindang, diante do que fazer com as ameaças japonesas.

20. Desde 1931 desenvolviam-se dentro do Gomindang quatro linhas diferentes de como tratar o Japão. Uma delas, pró-japonesa, propunha que o governo chinês fizesse um acordo com o Japão, entregando-lhe definitivamente a Manchúria, em troca de um acordo de não-agressão. Uma segunda, propunha que a China realizasse uma resistência passiva aos ataques japoneses. Outra propugnava uma resistência ativa, sem os comunistas. E a quarta queria um acordo com os comunistas para uma resistência ativa conjunta.

21. Os exércitos da frente norte, que enfrentavam diretamente as incursões japoneses, negavam-se a ter os comunistas como principais inimigos e, por várias ocasiões, concertaram ações conjuntas contra as tropas nipônicas. Em 1935-36, elas negaram-se a realizar ações firmes para impedir que as tropas do exército vermelho em retirada alcançassem as bases de Shaanxi, onde pretendiam estabelecer sua nova base central. Diante disso, Chiang Kaishek decidiu deslocar-se a Xian, capital de Shaanxi, para disciplinar os comandantes de suas tropas e forçá-los a tomar os comunistas como inimigos principais.

22. No que ficou conhecido na história chinesa como Incidente de Xian, ao invés de disciplinar aqueles comandantes, Chiang Kaishek é que foi preso por eles. A corrente mais decidida a enfrentar o Japão estava disposta a fuzilar Chiang sob a acusação de traição nacional. A corrente pró-japonesa também alimentava essa tendência, na certeza de que a morte de Chiang criaria obstáculos intransponíveis para a aliança nacional contra o Japão. Os comunistas também eram de opinião que a morte de Chiang seria um fator negativo para o estabelecimento de uma frente única anti-nipônica e trabalharam ativamente, embora secretamente, para obter um acordo de Chiang com seus comandantes.

 

O Acordo de Resistência para a Guerra contra o Japão

23. Apesar de relutar, Chiang acabou aceitando fazer o acordo de resistência ativa com os comunistas. Por esse acordo, a guerra civil seria suspensa e todos os esforços seriam dirigidos para resistir à agressão japonesa. Os destacamentos do exército vermelho passariam a ser parte do exército nacional chinês, agrupados como 8º. Exército da Rota e 4º. Novo Exército, obedecendo à estratégia geral emanada do estado-maior do exército nacional, mas com comando próprio e certa autonomia. O Partido Comunista seria aceito como participante ativo da vida nacional, tendo um Escritório de Representação na capital.

24. A execução desse acordo, porém, foi protelada ao máximo. Chiang ainda tinha esperanças de que o Japão não invadiria a China e procurava chegar a um acordo com os japoneses. Essa manobras foram frustradas pela ofensiva geral das forças nipônicas, em 1937. Chiang teve que transferir a capital chinesa de Nanjing, no centro-leste, para Chongqing, no sudoeste, e dar efeito prático ao acordo de resistência.

25. A ofensiva japonesa contra a China ocupou rapidamente a maior parte da região litorânea a leste, e chegou a Hong Kong, onde derrotou os britânicos. O avanço das tropas japonesas mostrou que os exércitos do Guomindang não estavam preparados para enfrentar o Japão e que a ocupação da China era, na verdade, parte da preparação nipônica para sua disputa pelo domínio mundial. Em certa medida, a invasão da China inaugura a II Guerra Mundial. Internamente, a ocupação japonesa aguça a contradição entre colaboracionistas e resistentes dentro do Guomintang, o que ficou evidenciado com a adesão de uma parcela significativa dos membros do comitê central daquele partido ao governo títere organizado pelos japoneses, e a passagem, para o lado dos japoneses, de mais de cem generais, com suas tropas.

26. Além disso, o governo Chiang Kaishek estabeleceu uma estratégia de resistência contra o Japão que incluía a aceitação de atos de capitulação das tropas chinesas, a conservação dos exércitos nacionais na retaguarda, a colocação dos exércitos dirigidos pelo PC nas linhas frontais, a busca de uma paz em separado com o Japão, a provocação de incidentes contra os exércitos dirigidos pelos comunistas, a manutenção do governo ditatorial, e evitar, por todos os modos, a participação popular na guerra de resistência.

27. A estratégia do Partido Comunista, ao contrário, incluía assumir resolutamente as linhas de frente, não aceitar a paz em separado com o Japão, realizar alianças com outros imperialismos contra o Japão, estabelecer uma aliança firme com a URSS, ampliar a frente social contra o Japão, incluindo até os latifundiários, ampliar os mecanismos democráticos nas bases rurais, estimular a participação popular na guerra, instituir os 8 pontos de disciplina do exército, contra qualquer agressão aos direitos e à vida do povo, e instituir pontos claros de tratamento dos prisioneiros de guerra japonesas, de modo a tratá-los com humanidade e quebrar a moral arrogante do exército nipônico.

28. O resultado dessas estratégias tão dispares foi o fortalecimento do Partido Comunista durante a guerra (ao invés do que pretendia Chiang), a identificação dos comunistas como a força motriz da resistência nacional (inclusive pelos oficiais norte-americanos de ligação com o teatro de guerra chinês), a vitória nacional contra o Japão, e a derrota da tentativa de Chiang Kaishek de vencer uma nova guerra civil, mesmo com certa neutralidade da União Soviética e a cooperação estratégica das forças militares dos EUA. Em 1947, as conversações de paz entre as forças políticas internas da China são rompidas, os exércitos do Guomindang lançam-se em ofensiva contra os exércitos comunistas, que passa a ser chamado de EPL – Exército Popular de Libertação. No final de 1949, as tropas do Guomindang são completamente derrotadas. A vitória do PC e seus aliados é declarada em outubro da 1949, com o surgimento da República Popular da China.

 

A China e a Guerra Fria

29. Quando a República Popular da China foi fundada, em 1949, a Guerra Fria opondo Estados Unidos e União Soviética já estava em curso, impondo sua bipolaridade mundial. Isso teve como conseqüência, para o novo governo chinês, um bloqueio geral, diplomático, econômico, político e militar das potências ocidentais, comandadas pelos Estados Unidos, contra a China. A maior parte dos países europeus e latino-americanos, assim como um razoável número de países asiáticos e africanos, recusou-se a reconhecer o novo governo chinês, a manter relações diplomáticas com a China continental e, mesmo, a negociar comercialmente com ela. Para muitos desses países, o governo de Chiang Kaishek, refugiado em Taiwan, sob a proteção da 7ª. Esquadra dos EUA, continuava representando a China, inclusive na ONU e em seu Conselho de Segurança.

30. Por seu turno, desde então, o novo governo dirigido pelo Partido Comunista negou-se a estabelecer relações diplomáticas com qualquer país que continuasse mantendo relações diplomáticas com Taiwan. O reconhecimento da China como um só país, com sua capital em Beijing, tornou-se a pedra de toque das relações internacionais da República Popular. Nessas condições, as relações diplomáticas da China Popular ficaram restritas aos países socialistas da Europa Oriental e a uma série de novos países independentes da Ásia e da África.

31. É nesse contexto de princípio da Guerra Fria, bloqueio político, econômico e militar dos EUA, e disposição do Guomindang de retomar a contra-ofensiva militar, com suas tropas aquarteladas em Taiwan, que deve ser visto o desencadeamento da guerra da Coréia, já em 1950. A Coréia do Norte respondeu às provocações de fronteira, realizadas por tropas da Coréia do Sul logo após a visita do secretário de Estado norte-americano Foster Dulles, e passou à ofensiva, procurando realizar a unificação por meios militares. Diante do perigo da derrota das tropas sul-coreanas, os EUA decidiram intervir, aprovando uma decisão na ONU para o envio de forças militares, sob seu comando. 14 países enviaram tropas, mas o grosso do poderio norte-americano foi jogado no conflito, conseguindo empurrar as tropas norte-coreanas no rumo do rio Yalu, que marca a fronteira com a China.

32. O novo governo chinês enxergou nessa ofensiva um perigo de invasão do território chinês e organizou rapidamente um corpo de voluntários, sob o comando do general Peng Dehuai. Os dois anos posteriores da guerra da Coréia foram de ofensivas e contra-ofensivas dos dois lados em conflito, sem que nenhum dos dois conseguisse a supremacia decisiva. Embora a guerra estivesse representando um enorme ônus econômico, financeiro e militar para o novo regime chinês, nada indicava que ele estivesse sendo enfraquecido politicamente, o que tornou inviável qualquer contra-ataque das tropas a partir de Taiwan. Nessas condições, os EUA aceitaram sentar à mesa das negociações, em Panmunjon, que selou a paz e restabeleceu a antiga fronteira do paralelo 38 entre as duas Coréias.

33. A nova China realizou, então, um triplo movimento em sua política internacional, tendo ainda por base o princípio de um só país. Por um lado, reforçou seus laços de colaboração com os países socialistas da Europa, estabelecendo vários acordos de cooperação econômica, comercial e militar. Por outro, realizou uma política ativa de aproximação com os novos países independentes da Ásia e da África, através dos cinco princípios de coexistência pacífica, elaborados em conjunto com a Índia, e da participação nos fóruns internacionais, como a Conferência dos Países Não Alinhados, realizada em Bandung, na Indonésia, em 1954. E, finalmente, manteve abertas as janelas de negociação com os países ocidentais, ao se negar a atacar e tomar Hong Kong e Macau militarmente.

34. Os cinco princípios de coexistência pacífica – respeito mútuo pela integridade e soberania, não-agressão, não-interferência nos assuntos internos, igualdade e benefício mútuo e solução pacífica das controvérsias  –  tornaram-se a espinha dorsal da política exterior chinesa e desempenharam um importante papel, nesse primeiro momento, para abrir frestas no bloqueio norte-americano, assegurar pontos de cooperação em quase todos os continentes e consolidar paulatinamente a presença da China no cenário internacional. Essa política tinha, como ainda tem, como pressuposto, a necessidade interna da China de conviver com um longo período de paz para superar seus problemas históricos.

35. Apesar disso, a China não conseguiu escapar completamente de conflitos externos. Nos anos 50, foi levada a participar da guerra da Coréia e manteve-se permanentemente tensa com os canhoneios no estreito de Taiwan. Nos anos 60, teve conflitos de fronteira com a Índia, na região da Caxemira, e foi acusada constantemente de apoiar movimentos guerrilheiros e de libertação nacional na Ásia, África, Oceania e América Latina.

36. Além disso, teve sempre que responder aos ataques internacionais por sua ação no Tibet. Embora esta região faça parte da China desde o século 13, por acordo matrimonial entre as dinastias reinantes, as potências ocidentais mostraram-se indignadas quando as tropas do Exército Popular chegaram a Lhasa, em 1950, completando sua soberania sobre todo o território chinês, exceto Taiwan. Divulgaram que o Tibet era uma nação soberana que havia sido invadida, e tornaram isso um dogma. Assim, quando parte dos feudais tibetanos revoltou-se, em 1959, contra o início da reforma agrária nessa região, e foi derrotada, retirando-se para a Índia com o Dalai Lama, a questão tibetana tornou-se um dos focos da disputa dos EUA e potencias européias com a China.

37. O final dos anos 1950 e o início dos anos 1960 assistem também à eclosão das controvérsias sino-soviéticas, tendo como pontos nodais o apoio aos movimentos de libertação nacional, a transferência da tecnologia nuclear e as políticas de enfrentamento contra o imperialismo no processo da Guerra Fria. Os soviéticos acusavam os chineses de imporem sua própria política e seus interesses estatais aos movimentos de libertação nacional, negaram-se a transferir a tecnologia nuclear para os chineses e reiteram que a disputa pacífica com o imperialismo deveria ser a linha geral da luta anti-imperialista.

38. Os chineses, por seu turno, retrucaram que eram os soviéticos que impunham suas políticas aos movimentos de libertação. Relembraram as pressões soviéticas para que os próprios comunistas chineses aceitassem as condições impostas por Chiang Kaishek e obtivessem a paz a qualquer custo, entre 1945-47. Acusaram os soviéticos de responsáveis pelo assassinato de Patrice Lumumba, no Congo, ao retirarem seu apoio a ele num momento crítico. E referiram-se a uma série de outros casos em que os movimentos de libertação fracassaram por seguirem a orientação de conselheiros soviéticos. Reiteraram que cada país e cada movimento deveria seguir sua própria política, sem interferência externa, ou ação de conselheiros, o apoio devendo restringir-se a aspectos materiais, sem imposições políticas.

39. Os chineses também afirmaram que os soviéticos simplesmente romperam o acordo de cooperação nuclear entre os dois países, na pretensão de manterem o monopólio nuclear no campo socialista. E os acusaram de uma dupla face na luta anti-imperialista, por um lado difundindo pelo mundo a possibilidade de todos os países chegarem à libertação pelo caminho pacífico e, por outro, fazendo a corrida armamentista com os EUA e realizando ações aventureiras e temerárias, que colocavam em risco a paz mundial. Em consonância com isso, embora tendo os levantes contra os regimes socialistas do leste europeu, no final dos anos 1950, como reacionários e incentivados pelos EUA e outras potências imperialistas, os chineses colocaram-se contra as intervenções militares soviéticas para sufocá-las. Mas adiante, os chineses consideram uma aventura injustificável a tentativa de posicionar foguetes balísticos em Cuba.

40. Mas é durante os anos 1960, quando internamente se encaminha para as turbulências da Revolução Cultural, com os sentimentos e as ações anti-imperialistas assumindo o formato de xenofobia, a exemplo dos ataques a embaixadas estrangeiras em Beijing, que a China introduz mudanças em sua política internacional. Ela o faz no sentindo de ampliar suas relações diplomáticas e políticas, romper o cordão sanitário anti-comunista imposto pelos EUA, e escapar de qualquer dependência em relação à URSS. Essas mudanças têm por base o diagnóstico de que o mundo encontrava-se dividido em três: o primeiro mundo, compreendendo as duas superpotências (Estados Unidos e União Soviética), o segundo mundo, compreendendo as potências secundárias da Europa, e o terceiro mundo, englobando os países em desenvolvimento.

 

A estratégia internacional da China pós-60

41. A nova estratégia internacional da China manteve o princípio da China como um só país e os cinco princípios de coexistência pacífica. Porém, tendo em conta o novo diagnóstico da divisão do mundo em três, a política internacional da China passa a ter como eixos a oposição à hegemonia das duas superpotências, as alianças pontuais com as potências do segundo mundo, a aliança fundamental com os países do terceiro mundo, e sua preparação para a eventualidade de uma guerra popular defensiva, incluindo sua transformação em potência atômica.

42. Essa estratégia é, em parte, corroborada pelos movimentos da URSS em relação à China. Ela rompe os acordos de cooperação industrial, retirando seus 10 mil técnicos, que se encontravam na China para a construção de mais de 600 projetos industriais. Ela concentra mais de um milhão de soldados soviéticos na fronteira siberiana, e provoca uma série de choques fronteiriços no rio Ussuri. E passa a tratar a China como inimiga. Esta, por sua vez, passa a acusar a União Soviética de país social-imperialista.

43. Por outro lado, a China é beneficiada pelo atoleiro em que os EUA haviam afundado no Vietnã. Em virtude de suas contradições com a União Soviética, ela poderia tornar-se um intermediário valioso para facilitar as negociações de uma saída relativamente honrosa dos EUA daquele país do sudeste asiático. No início dos anos 1970, a China pratica com flexibilidade e ativamente aquilo que ficou conhecido como diplomacia do ping-pong, por ter sido iniciada com um convite a uma equipe de tênis de mesa norte-americana para realizar uma série de disputas amistosas na China. Através desse canal, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Kissinger, realizou uma visita secreta à China. Isso foi seguido por uma visita oficial do presidente Nixon, a assinatura dos comunicados de Shanghai e, em 1975, o estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.

44. Em todas as negociações entre os EUA e a China, esta manteve inalterado seu princípio de uma só China, assim como seus cinco princípios de coexistência pacífica. Para estabelecer as relações diplomáticas com a China, os EUA tiveram que reconhecer o governo de Beijing como único governo da China, romper suas relações diplomáticas com Taiwan, aceitar que a China voltasse a ocupar seu lugar na ONU e no Conselho de Segurança, e negar-se a enviar armas ofensivas para Taiwan. Isso foi um passo decisivo para que a China rompesse o bloqueio até então mantido pela maioria dos países ocidentais. Em 1974, portanto ainda no curso da Revolução Cultural, Deng Xiaoping discursou em nome do primeiro-ministro Zhu Enlai na Assembléia Geral da ONU, explicitando a teoria dos três mundos e a política internacional chinesa decorrente dela. E entre 1971 e 1975, a China estabeleceu relações com mais de 70 novos países, saiu do isolamento, regularizou suas relações com a Iugoslávia e iniciou negociações de distensão com a União Soviética.

45. O final da Revolução Cultural, em 1976, e as medidas de reajustamento ideológico, político, econômico e social que se seguiram a esse fim, reforçaram as linhas gerais da estratégia internacional chinesa. Em 1979, a China acrescentou àquela estratégia a abertura econômica aos investimentos estrangeiros nas zonas econômicas especiais e nos portos abertos, indicando claramente que a China estava disposta a enfrentar os desafios da globalização capitalista sem fugir deles. O que apontava para novas inflexões nos anos posteriores.

46. A manutenção da paz se tornou, ainda mais, a pedra de toque da política externa chinesa, tendo em vista que seu programa de reformas e desenvolvimento dependia fundamentalmente de um ambiente internacional relativamente pacífico. A diplomacia chinesa tem mantido um ativismo intenso, embora de pouco alarde, tendo como fulcro a ONU, na busca de soluções negociadas em praticamente todas as ameaças de conflitos e em todos os conflitos reais ocorridos desde então.

47. Dentro desse espírito, no início dos anos 1980 a China elaborou uma nova política para chegar a uma reunificação pacífica dos territórios ainda colonizados por potências estrangeiras (Hong Kong e Macau), ou separados do país por interferência estrangeira (Taiwan). Chamada de política de Um País, Dois Sistemas, essa política sugeria a negociação com a Inglaterra, para a devolução de Hong Kong, com Portugal, para a devolução de Macau, e com os governantes de Taiwan, sem interferência dos Estados Unidos ou do Japão, para a re-incorporação desses territórios à soberania chinesa como Regiões Administrativas Especiais (RAE). Nestes, pelo período de 50 anos, o governo central da China apenas cuida das relações externas e da defesa, enquanto os governos locais têm plena autonomia para tratar dos assuntos internos, mantendo o sistema capitalista e suas regras políticas próprias. Hong Kong foi re-incorporado em 1997 e Macau em 1999. O processo de re-incorporação de Taiwan tem sido mais lento, mas tem avançado paulatinamente.

48. Durante os anos 1980 e 1990 a China deu passos seguros para regularizar todas as suas pendências fronteiriças, ou rescaldos dos embates ideológicos, políticos e militares. Por sua iniciativa foi formado o Grupo de Shanghai, englobando a Rússia, Casaquistão, Quirguistão, Usbesquistão, Tadjiquistão e China, não só para regularizar as questões de fronteiras, como para articular a segurança regional e ampliar as relações econômicas e comerciais. As disputas com o Vietnã, em torno das ilhas Spratley foram aplainadas. E os problemas com a Índia e o Paquistão foram reduzidos sensivelmente. Ao mesmo tempo, a China passou a ter uma participação de primeira ordem na ASEAN, que deixou de ser um apêndice da política internacional dos Estados Unidos e tornou-se uma associação dos países asiáticos para tratar da solução dos conflitos regionais, e na APEC – Associação de Cooperação Econômica do Pacífico, que tende a se transformar, pelo menos na sua parcela mais importante, num novo bloco econômico de livre comércio.

49. Assim, na atualidade (2006), a China mantém relações diplomáticas com 165 países e um grande número de regiões, participa dos principais fóruns e associações internacionais, e tem uma participação ativa, mas discreta, na ONU, OMC e demais organizações multilaterais.

 

Problemas internacionais remanescentes

50. Pode-se dizer que a China ainda possui problemas internos que interferem nas suas relações internacionais, como Taiwan, Tibet, Xinjiang, Hong Kong, Macau, e problemas estritamente internacionais que podem interferir fortemente em sua situação interna, como as ilhas do Mar Meridional da China, o Japão e os Estados Unidos.

51. No caso de Taiwan, tem havido uma constante pressão de círculos internos da ilha, apoiados pelos EUA e pelo Japão, pela independência. A China continua reiterando que Taiwan é um problema interno chinês, opondo-se a qualquer interferência externa, ao mesmo tempo em que trabalha pela solução negociada em torno da política de um país, dois sistemas. Mas a China está disposta a uma situação de guerra, se a ameaça de separatismo se concretizar.

52. O Tibet, uma Região Autônoma da China (isto é, com status idêntico à Província, mas com alguns privilégios, como o de ser dirigido exclusivamente por quadros da etnia tibetana, e por ter regulamentos próprios em relação às diretivas do governo central) também é tratado como problema interno chinês e não é admitida qualquer interferência externa. O presente desenvolvimento econômico do Tibet, na esteira do desenvolvimento geral da China, tende a arrefecer as pressões externas. O próprio Dalai Lama está reexaminando a proposta do governo chinês para que retorne ao país e ocupe seu lugar no governo local.

53. O Xinjiang, outra Região Autônoma, onde vive majoritariamente a etnia uigur, de maioria muçulmana, tem sofrido também movimentos separatistas, sob influência do islamismo fundamentalista.

54. Hong Kong e Macau vivem uma transição relativamente tranqüila, mas sua condição especial as torna centros de movimentos anti-socialistas que podem resultar em problemas futuros. Isso dependerá, porém do próprio desenvolvimento da China e de como ela resolverá as novas contradições que tal desenvolvimento gera.

55. As disputas com o Vietnã em torno das ilhas Spratley, no mar Meridional da China, relativamente solucionadas através da proposta de exploração conjunta das reservas de petróleo e gás natural dessa bacia, podem ser consolidadas se essa exploração conjunta resultar em benefícios mútuos duradouros.

56. Com o Japão permanecem pendências em torno do não reconhecimento, por parte do Japão, das atrocidades e crimes de guerra cometidos pelas tropas nipônicas contra os chineses e demais povos asiáticos, em torno das tentativas de rearmamento japonês, e em torno da aderência total do Japão às políticas externas norte-americanas. Embora o Japão seja hoje o maior parceiro comercial da China, esses problemas tendem a cristalizar-se a azedar constantemente as relações entre os dois países. Esse é um dos motivos pelos quais a China não apoiou a formação do grupo dos quatro (Brasil, Alemanha, Índia e Japão) para a ampliação do Conselho de Segurança da ONU. A China (e a maioria dos países asiáticos) vai sempre se opor, enquanto o Japão não mudar radicalmente sua atitude, a dar-lhe qualquer posto de relevo nas questões internacionais.

57. Com os Estados Unidos, as relações chinesas têm se mantido num patamar relativamente estável, embora com discrepâncias em vários itens que, eventualmente, podem se tornar bastante tensos. Os EUA têm violado, constantemente, os três comunicados sino-americanos sobre Taiwan, que determinam a cessação das relações diplomáticas, a anulação do tratado de defesa comum e a retirada do pessoal militar americano de Taiwan, e do pessoal militar taiwanês dos Estados Unidos. Os EUA também continuam interferindo a todo momento nos assuntos internos chineses, seja a pretexto dos direitos humanos, seja a pretexto da soberania nacional das minorias étnicas, seja ainda a pretexto da falta de liberdades na China. Os Estados Unidos também continuam defendendo seu direito de espionar a China, através de aviões, satélites e outros meios. A China, por seu turno, tem não só se oposto a todas essas interferências norte-americanas, como tem se posicionado contra as tendências hegemonistas dos EUA, no Iaque, no Irã e em outros países. Todos esse pontos são de grande sensibilidade para as duas partes e podem transformar-se em conflitos.

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