O paradoxo da encruzilhada

WPO | SID | O paradoxo da encruzilhada, 1995.

 

 

O senso comum começa a trazer à baila o que se pode chamar de paradoxo da encruzilhada, expressa pela capa de Veja de 28 de junho de 1995. Para onde vai o Real? Para a quebradeira, juros loucos e recessão? Ou para inflação baixa, estabilidade e crescimento? Essas questões são colocadas em oposição antagônica, como se se excluissem completamente e não pudessem conviver e andar juntas. Basta ver como economistas de renome respondem a elas, na mesma Veja.

A natureza do paradoxo

Simonsen acha que o plano vai indo muito bem e, se houver recessão, será mínima. Ponto para inflação baixa, estabilidade e crescimento. Mercadante pensa que o plano fez água nas contas externas, os juros destruiram a agricultura e haverá alta na inflação. Ponto para quebradeira, juros loucos e recessão, mais inflação alta. Delfim pensa que a inflação está garroteada pelos juros e não sobe. Ponto para quem? Paulo Nogueira é de opinião que o combate à inflação é um sucesso e que os pontos fracos do plano são a política cambial e a abertura econômica. Outra vez, ponto para quem? Roberto Campos concorda com Simonsen em gênero e grau. Ponto para inflação baixa, estabilidade e crescimento. E Mário Amato, na companhia de tão fulgurantes economistas, concorda que o crescimento cairá um pouco no segundo semestre, mas que isso é bom para o plano. Mais uma vez, ponto para o Real. Em suma, grau 9 para o Real, já que só temos problemas porque fez água em algum ponto.

Entretanto, o paradoxo apresentado por Veja continua batendo à porta. Os comentaristas econômicos continuam diariamente referindo-se aos descaminhos do Real, por culpa das besteiras e desencontros da equipe econômica, enquanto as perspectivas de modernização por conta das reformas constitucionais seriam as melhores possíveis. O Plano seria bom, teria coerência técnica impecável. Seus problemas decorreriam de sua pilotagem mal executada e dos problemas e obstáculos políticos colocados à sua frente.

Desse modo, “os descaminhos do Real” passaram a constituir um dos aspectos centrais da conjuntuta atual. Eles já estariam colocando em xeque a própria viabilidade do plano, pois romperiam com sua “coerência interna “. Isso porque a solidez do plano, de acordo com seus formuladores, dependeria de um ajuste fiscal duradouro e da consolidação de um novo padrão de financiamento para a economia brasileira, com compressão dos gastos do Estado e fartura de capitais estrangeiros.

Ora, a primeira fase do plano, caracterizada pela combinação de um ajuste fiscal provisório, acumulação de reservas externas e realinhamento rápido de preços, através da URV, teria preparado com sucesso as condições para a reforma monetária que caracterizou o início da segunda fase, em julho de 1994. Tendo o controle da inflação como única variável relevante, a equipe econômica teria conseguido manter com êxito a coerência interna do plano nessas duas fases.

O que Veja e muitos dos analistas econômicos estão dizendo agora é que o plano corre o perigo de deixar de existir como projeto coerentemente articulado por não conseguir realizar, em tempo hábil, a transição para a terceira fase. A equipe econômica estaria confusa, sem saber para onde ir. Numa total incoerência com o objetivo de obter equilíbrio fiscal, estaria apelando para a velha fórmula de desaquecer a economia, provocar recessão, arrochar salários e elevar juros. Isto é, se o plano continuasse a ser executado com inteligência, estariamos ingressando no caminho dos céus da encruzilhada de Veja. Mas, como o governo não estaria sendo coerente, estariamos indo pelo outro caminho.

Entretanto, para ser honesto, é preciso reconhecer que diversos economistas, no lançamento do Real, previram que a coerência interna do plano nos levaria justamente para o descaminho do inferno da recessão, quebradeira, juros altos e outros sacrifícios. Talvez hajam se enganado no timing, supondo que isso iria ocorrer desde a primeira fase. E é certo que não acertaram nos efeitos diferenciados e contraditórios que a execução do plano geraria durante o primeiro ano, como inflação baixa, crescimento de diversos setores industriais e de serviços, melhoria fugaz da renda das camadas mais pobres, empobrecimento mais rápido da classe média, queda brutal da renda agrícola etc. Mas, a longo prazo, previram que o Real iria nos levar por caminhos nada agradáveis.

Na presente situação parece haver uma certa convergência de opiniões em torno da gerência da crise que está se armando no balanço de pagamentos, como a principal variável a ser atacada para evitar o completo descaminho do Real. Juros altos, recessão e arrocho salarial seriam instrumentos para reverter o quadro da balança comercial e evitar a crise cambial. Nessas condições, supõem alguns, o controle da inflação passaria a ser uma variável de ajuste, que gravitaria em torno das contas externas.

Haveria, com isso, uma mudança radical na natureza do plano. O aspecto antiinflacionário deixaria de ser a grande marca e a razão de sua existência. Esta mudança comprometeria, pois, as próprias bases do Real, já que juros altos, recessão e arrocho jamais teriam constituido uma garantia de inflação baixa. Se isso é verdade, temos que aceitar o paradoxo da encruzilhada de Veja. O outro caminho seria, então, o da inflação baixa, estabilidade e crescimento, portanto o caminho do Real, de sua coerência interna.

Esse é, na verdade, o paradoxo da encruzilhada política, com o qual a esquerda se debate desde o início do lançamento do plano de estabilidade de FHC. Ela acreditou, conscientemente ou não, que a coerência do plano consistia em inflação baixa, estabilidade e crescimento. Nessas condições, recessão, arrocho e juros altos se chocariam contra aquela coerência interna e indicariam que o plano estaria fazendo a água, ou capotando, ou se desfazendo.

Na prática acreditava piamente nos formuladores do plano de que o câmbio, ou o congelamento das tarifas, ou a contenção do consumo, seriam somente âncoras para segurar a inflação e permitir estabilidade e crescimento. Isso explica, em parte, porque uma parte dessa esquerda entrou no barco de FHC com armas e bagagens. E porque o restante, entre perplexa e dernorteda, não conseguia definir se apoiava o plano ou o atacava. O paradoxo da encruzilhada de Veja é o paradoxo da esquerda desde o lançamento da URV.

Ainda hoje, depois de mais de um ano de execução do plano de estabilização, a esquerda ainda se deixa enredar por esse paradoxo. Ainda há os que acreditam que é a política suicida dos juros altos que está arrebentando com o Real. Ou que a recessão é uma ação dos terroristas do caos contra o Real. Ou, ainda, que o arrocho ao consumo e aos salários rompe com a natureza de crescimento econômico do Real. No fundo, muitos torcem pelo sucesso do Real, acreditando sinceramente que ele foi feito para criar um novo padrão econômico em benefício de todo o povo.

Com isso, a economia passa a comandar a política e o povão é levado a crer que o Real é mesmo bom e estão querendo acabar com ele, rompendo sua coerência interna. Quanto maior o paradoxo, melhor, desde que ele sirva para demonstrar que o Real é ótimo e que ele não tem nada a ver com as coisas ruins que vêm acontecendo com este país. As coisas ruins se devem aos que estão contra o Real.

A âncora política do Real

Precisamos nos libertar desse paradoxo. A coerência interna do Real tem sua âncora na política. O Plano Real é um plano político e vai conviver com inflação baixa, estabilidade, crescimento, juros altos, recessão e quebradeira, em combinações exdrúxulas, dependendo das necessidades políticas e dos problemas econômicos que surgirem. Suas âncoras econômicas podem ser o câmbio sub ou supervalorizado, o congelamento ou o tarifaço, o arrocho ou abertura do crédito, a abertura às importações ou o protecionismo, tudo dependendo das necessidades políticas de abrir a economia do país aos oligopólios estrangeiros, alienar o patrimônio público, manter baixos os salários e alcançar um nível de eficência e rentabilidade que atenda às necessidades de um mercado seletivo. O resto do povão que se lixe, desde que continui a acreditar, com nossa ajuda, é claro, que os descaminhos do Real não são culpa do Real, mas de seus inimigos.

Nós precisamos começar a dizer que tudo o que está acontecendo é responsabilidade do Real. Ele está mais firme do que nunca, mais coerente do que nunca, porque tem conseguido manter o povão na ilusão da inflação baixa como a melhor coisa do mundo, mesmo que esteja se lascando na inadimplência, no desemprego, na contração do poder aquisitivo, no aumento astronômico da dívida interna, nos juros escorchantes, na quebradeira das empresas, na proletarização e pauperização da classe média, e assim por diante. Nós não podemos ajudar o Real a manter sua credibilidade, dizendo que ele fez água ou perdeu sua coerência ao permitir juros altos, ou recessão, ou algo parecido. Ao contrário, nós devemos dizer que juros altos, recessão e tudo o mais faz parte do Real. Só desse modo começaremos a quebrar o encanto desse plano político, que tem como objetivo maior manter o povo paralizado e a esquerda perplexa em torno de paradoxos econômicos para implantar as reformas neoliberais.

 

 

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