China: para onde vai?

WPO | SID | China: para onde vai?, 1999.

 

 

Recentemente a China voltou ao noticiário internacional em virtude do bombardeio de sua embaixada em Belgrado e dos esforços para transformar o 10º aniversário dos incidentes sangrentos da Praça Tiannamen em motivo de manifestações contra aquele país. Mas, antes mesmo disso, as notícias sobre a China vinham sendo continuadas e enfáticas quanto a seus possíveis rumos.

Uma resenha sucinta pode esclarecer a natureza das informações publicadas. A 20/06/98, o Washington Post dizia que em Chongqing “operários e estudantes organizaram petições, greves, demonstrações e paralizações do tráfego mais de cem vezes no último ano”. A 11/08 informava que “o montante atual de empréstimos incobráveis são muito piores que as mais pessimistas estimativas oficiais”. E, a 28/10 noticiava que em Guangdong “perderam-se 740 mil jornadas de trabalho em virtude de greves… se bem que a situação laboral seja muito pior no Sichuan”.

No dia 22/11 o Guardian Weekly assegurava que em Pequim “é familiar assistir a trabalhadores enfurecidos protestando”. Em 30/11 o Business Week anunciava que o índice de preços vinha sofrendo deflação brutal em alguns itens, estimando-se o montante dos inventários acumulados e invendíveis em 500 bilhões de dólares, o equivalente a 55% do PIB.

A 13/01/99 o Le Monde registrava que a falência do Gitic, uma corporação de Guangdong, abrira uma crise com o capital internacional. O governo chinês negara-se a pagar as dívidas do Gitic com credores externos, preferindo pagar aos 25 mil correntistas prejudicados pela falência. Em represália, os banqueiros internacionais teriam cortado o crédito às grandes empresas chinesas, provocando uma asfixia financeira que levara à falência “meia dúzia delas”.

No dia 14/01 o International Herald Tribune reiterava que a onda de quebras se estendera às empresas mistas radicadas em Hong Kong (as red chips), que teriam “acumulado grandes perdas em conseqüência da devastação dos preços das ações e das propriedades”.

A 21/01 o Washington Post voltava a afirmar que “por todo o país brotam greves, manifestações e paralizações”, havendo ocorrido mais de “10 mil atos de protesto rural” durante 1998. O Financial Times informava, no dia 22/01, que o mercado de ações para investidores estrangeiros (as ações B), estva “finalmente morto” e, no dia 26/01, que “companhias como a GM seguem adiante com investimentos de bilhões de dólares”.

A 1º/02 o Business Week concluia que a “liderança chinesa está sentada sobre o fogo… A situação é explosiva”. Um quadro tétrico.

 

Versões de uma nota só

Ao fazer, no final de fevereiro, o inventário dessas notícias da imprensa ligada a grandes grupos capitalistas internacionais, o jornal Prensa Obrera, da esquerda uruguaia, sob o sugestivo título “China: bancarrota econômica e explosão política”, reafirmou que a “China enfrenta uma situação de deflação, superprodução, queda nos lucros e falências em cadeia”.

Com base nesse diagnóstico e na suposição de que o PC da China decidira “a privatização, o fechamento ou a fusão das empresas estatais deficitárias”, Prensa Obrera deduz que isso “significa a dispensa de 30 milhões de operários das empresas estatais e 40% dos funcionários públicos”. Como a “China já tem 31 milhões de desempregados urbanos e 120 milhões de desocupados rurais”, seria fácil deduzir que a “onda de falências levará o desemprego a níveis intoleráveis”.

Assim, conclui Prensa Obrera, de  “motor do crescimento econômico e ‘paraíso’ para a acumulação capitalista mundial” a China teria se convertido “num enorme peso para a economia mundial”, com a desvalorização de sua moeda subordinando-se à necessidade de “sair do marasmo econômico e de uma crise política sem precedentes”.

No dia 24/02/99, a revista Veja decidiu seguir o mesmo tom numa matéria intitulada “Um país no vermelho”. Nela se afirma que as exportações chinesas cairam, o desemprego chegou a 9,3% (100 milhões de desempregados urbanos), os preços internos cairam 2,8% em janeiro de 99 em relação a janeiro de 98, e a falência do GITIC “na última quarta-feira”, “o quarto estabelecimento (bancário) a fechar”, aponta para uma “quebradeira generalizada”.

Daí Veja conclui que 1999 será “o pior ano da década” para a China. Deverá haver, além da “quebradeira generalizada”, um “recuo portentoso” nos investimentos estrangeiros e uma “inevitável” desvalorização da moeda.

Para manter sua economia com “algum sinal de vida”, a China precisaria “exportar mais”. Mas isso seria impossível porque suas “300 mil empresas estatais” produziriam “bens que ninguém compra” e o país “vem se trancando”, controlando “a entrada e saída de capitais” e impedindo os estrangeiros de  comprarem “ações classe A das empresas mais eficientes e lucrativas”.

Para Veja tudo se resume, no quadro de crise do sistema financeiro capitalista, a pressionar a China a marchar no mesmo sentido da “tendência mundial de abertura de mercados e eliminação das fronteiras econômicas”.

Há, é evidente, uma matriz única de informações, reproduzidas por jornais de direita e também de esquerda. Apesar disso, não se pode descartá-las ou ignorá-las, mesmo que tal matriz esteja situada nos centros financeiros e conservadores dos Estados Unidos. É muito provável que tenham ocorrido 100 paralizações de tráfego, 10 mil atos rurais, empréstimos incobráveis, perda de jornadas de trabalho, péssimas situações laborais e protestos de trabalhadores enfurecidos. Também é certo que o GITIC entrou em falência, mesmo não tendo sido na “última quarta-feira” ou em janeiro de 1998.

No entanto, desde quando, num universo de mais de 10 milhões de empresas grandes e médias, meia duzia pode significar “quebradeira generalizada”? Se os banqueiros internacionais decidiram asfixiar a economia chinesa porque o governo preferiu pagar aos correntistas e não aos credores, como se explica que grandes corporações continuem investindo na China?

A China possui cerca de 700 milhões de pessoas economicamente ativas. 180 milhões são trabalhadores urbanos, 380 milhões camponeses e 140 milhões trabalhadores de empresas rurais, aí incluídos os 30 milhões de trabalhadores autônomos nas cidades e povoados. Os 31 milhões de desempregados urbanos de Prensa Obrera representariam 17% da PEA urbana e 4,4% da força de trabalho total. Seus 120 milhões de desocupados rurais representariam 23% de toda a PEA rural, 31% da força de trabalho agrícola e 85% da força de trabalho industrial rural.

Os 9,3% de Veja, considerando toda a população ativa, seriam 65 milhões de trabalhadores. Como isto bate com 100 milhões de desempregados urbanos, ou seja, 14,2% da força de trabalho total e 66% da força de trabalho urbano? Em qual número acreditar? Além disso, seria util explicar aos leitores como empresas que produzem mercadorias que “ninguém compra” e “só dão prejuizo” possuem ações tipo A, “mais lucrativas e rentáveis”, que os capitais estrangeiros gostariam de comprar? A desinformação sobre a China é total.

 

Falando sério

Em certo sentido, 1999 será “o pior ano da década” para a China. Entre 1991 e 1998 seu PIB cresceu a 11% ao ano e, em 1999, crescerá 7%. As exportações se expandiram 17,3% ao ano, enquanto em 1999 talvez não cheguem a 6%. Os investimentos estrangeiros mantiveram uma média de 28 bilhões de dólares anuais entre 1991 e 1998, devendo conservar esse patamar em 1999. O desemprego, que era de 2% até o início dos anos 90, deve chegar a 4-5% da PEA, ou cerca de 35 milhões de trabalhadores.

Deverá haver falências, fusões e privatizações de empresas estatais e coletivas, assim como de empresas privadas nacionais e estrangeiras. Devem repetir-se manifestações, greves e outros atos de trabalhadores rurais e urbanos por diferentes reivindicações. Embora todos esses problemas econômicos, sociais e políticos devam ser levadas seriamente em conta, eles precisam ser contextualizados para o universo chinês, senão fica difícil entender como, apesar de todas as tragédias anunciadas, ela se mantém em pé e crescendo.

Para quem não sabe, (atenção Veja) 300 mil são somente as empresas estrangeiras. As empresas estatais somam cerca de 6 milhões. Das estrangeiras, cerca de 50 mil fecharam as portas desde 1978. Para um número de empresas tão vasto, uma população de 1,26 bilhão e uma força de trabalho de 700 milhões, pode ser ridículo falar em “quebradeira generalizada”, “falências em cadeia”, “recuo portentoso” e “explosão política” ao citar apenas 100 paralizações de tráfego em 3 ou 4 cidades, 10 mil atos rurais (de quantas pessoas cada?) e quebra de “quatro bancos” ou “meia-duzia” de empresas.

O pior ano da década para a China seria uma maravilha, ou o melhor ano da década para o Brasil: crescimento do PIB de 7%, crescimento nas exportações de 5%, superávit na balança comercial de 22 bilhões de dólares, reservas de 145 billhões de dólares com base nos superávits comerciais, dívida externa de 130 bilhões do dólares, investimentos estrangeiros de 30 bilhões de dólares, inflação anual perto de zero, déficit fiscal de 1,7% do PIB e taxas de juros anuais de 9%.

 

Um cenário complexo

As estratégias de desenvolvimento das forças produtivas da China tinham por base três vertentes principais:

1) aproveitar sua experiência e sua base agrícola para garantir a autosuficiência alimentar e tornar o campo chinês um componente importante de seu mercado interno;

2) aproveitar suas indústrias intensivas em mão-de-obra, em grande parte localizadas nas áreas rurais, para atender ao mercado interno e ao mercado internacional de bens cuja produção fora abandonada pelos países desenvolvidos e pelos países em desenvolvimento da Ásia e da América Latina, que haviam entrado numa reestruturação produtiva baseada em altas tecnologias;

3) absorver capitais externos para desenvolver suas indústrias de alta tecnologia e sua infra-estrutura de modo a capacitar-se, paulatinamente, para enfrentar com vantagem o mercado internacional.

Baseada nessas estratégias, a China incrementou suas exportações a altas taxas. Seus produtos entraram no vácuo deixado pelos países que, a exemplo dos tigres asiáticos, reajustaram suas indústrias para produzir  periféricos eletrônicos, como microcircuitos, disquetes, impressoras e monitores, em lugar de produtos domésticos de uso corrente. Com uma tecnologia abaixo do nível verdadeiramente avançado do setor informático, essa produção tornou-se rapidamente obsoleta, levou à superprodução, à queda dos preços e à crise.

Mais da metade das exportações de produtos de consumo corrente da China dirige-se para os países desenvolvidos.  Por isso, elas apresentaram um alto crescimento e mantêm uma certa estabilidade, já que até nos períodos de contração o consumo desses produtos não se reduz significativamente nos países cuja renda per capita gira em torno de USD 20 mil.

Entretanto, mesmo sem a crise financeira e as tendências recessivas do mercado mundial, a China não teria como manter suas taxas elevadas de exportações de bens de consumo corrente por muito mais tempo. Elas já tendiam a estabilizar-se. Para obter crescimentos maiores a China teria, logo adiante, que disputar também os mercados de alta tecnologia, onde só havia alcançado um desenvolvimento consistente em algumas áreas.

Não é por outro motivo que, desde 1996, os administradores chineses passaram a projetar um crescimento anual de 8% do PIB, bem inferior ao nível de 1992 a 1996. Tinham em conta tanto as limitações do mercado internacional, quanto as tensões internas que um crescimento de ritmo elevado causava, seja no fornecimento de matérias primas e energia, seja nos sistemas de transporte. A crise internacional só veio introduzir mais um elemento perturbador nesse processo.

Se, por exemplo, os capitais estrangeiros reduzirem muito seus investimentos na China, isto pode enfraquecer a posição da moeda chinesa, apesar das sólidas reservas internacionais em caixa. Se a economia norte-americana declinar e o dólar se desvalorizar, causando uma saída massiva de capitais dos Estados Unidos e uma crise econômica naquele país, isso sem dúvida afetará todo o mundo, e a China não estará isenta de sofrer  suas consequências. Numa situação dessas, quase certamente sua moeda terá que ser desvalorizada.

Além disso, a crise internacional, ao afetar prematuramente o ritmo de crescimento das exportações chinesas e os investimentos externos, pode afetar o rápido desenvolvimento tecnológico da agricultura chinesa, a reestruturação técnica e gerencial das empresas estatais e o enxugamento da máquina estatal, com a transferência de grandes contingentes de servidores públicos para os setores produtivos e comerciais.

Essa modernização pressionava os empregos, mas isto era compensado pelos investimentos em empresas intensivas em trabalho, voltadas em grande parte para a exportação. Sem essa compensação, as taxas de desemprego tendem a se elevar e, com elas, as tensões sociais. Embora nem de longe os números desencontrados da imprensa internacional reflitam a realidade, não é uma boa sensação conviver com 20, 30 ou 40 milhões de desempregados, mesmo que isto represente somente 3%, 4% ou 5% da população ativa do país, uma taxa baixa para os padrões internacionais.

Num quadro como esse, se a melhoraria do padrão de vida da população é o objetivo central do socialismo chinês, suas estratégias precisavam ser revistas.

 

Estratégias para a crise

O crescimento do mercado interno passou a ser o alvo principal da China para enfrentar a crise mundial e distensionar os problemas causados a seus planos de desenvolvimento. Com uma renda per capita de USD 733 anuais em 1997, a população chinesa passou a representar um enorme mercado interno, cujo poder aquisitivo tem crescido a uma taxa média de mais de 5% ao ano, nos últimos 20 anos.

O consumo individual, porém, não acompanhou o crescimento da produção.  A oferta geral excede a demanda, enquanto os depósitos  de poupança individual aumentaram constantemente, apesar das reduções das taxas de juros (três, somente em 1998). O crescimento da poupança individual, que alcançou 6 trilhões de yuans (cerca de 750 bilhões de dólares) em 1998, se deve à perspectiva da população em usá-la na construção de novas moradias e em planos de educação, saúde e pensões.

Os fatores negativos do alto ritmo de crescimento, manifestados nas polarizações de renda, nos baixos resultados econômicos de empresas geridas pelos próprios trabalhadores e no aumento do desemprego, funcionaram como elementos de contenção do consumo e direcionamento do maior poder aquisitivo para um entesouramento de garantia.

Apesar de ser plenamente possível um incremento de 10% na taxa de consumo individual dos chineses, capaz de fazer com que o PIB cresça entre 7% e 8%, esse redirecionamento estratégico depende de que sejam eliminadas as preocupações que deprimem o desejo de consumo da população. O afrouxamento das cargas fiscais é a primeira delas, mas não tem efeito permanente. Mais importante é passar ao incremento ainda maior da renda.

Por isso tem havido um esforço para atacar as polarizações e desconfortos da população. Aumentou a escala dos programas de reemprego e investimento. E a distribuição da renda tem sido reajustada através da elevação dos salários e seus complementos, da agilização dos programas de erradicação total da pobreza, do estabelecimento de um sistema completo de seguridade social e da intensificação do sistema de moradias.

Durante 1998 o governo chinês investiu 100 bilhões de yuans nessas medidas e está investindo 200 bilhões em 1999. A maior parte desses investimentos destina-se a obras de infra-estrutura, que permitam atualizar e reajustar a estrutura industrial, potencializar a qualidade econômica e recuperar o débito fiscal.

Essas medidas permitiram à China uma elevação efetiva na produção industrial e agrícola durante 1999. Os preços se mantêm estáveis e a inflação permanece levemente superior a zero. Estimativas da UNCTAD confirmam o crescimento de 7%, contrastando com as previsões de expansão de 1% a 2,2% para o resto do mundo e de menos 4% para o Brasil.

Assim, se em 1999 as exportações chinesas diminuirem seu crescimento, os investimentos estrangeiros forem somente de 30 bilhões de dólares, diversas empresas estatais e privadas quebrarem em virtude das reformas, bancos estrangeiros chiarem porque o governo garante somente os correntistas no caso de empréstimos aplicados em empresas pouco seguras, mesmo assim dificilmente o cenário será de bancarrota e explosão.

A China certamente continuará às voltas com muitos problemas e dificuldades, o maior dos quais parece ser o do emprego. Não é uma tarefa fácil elevar a produtividade e, ao mesmo tempo, garantir 12 a 14 milhões de novos postos de trabalho a cada ano. Mais cedo do que parecia supor, precisará reduzir ainda mais a jornada de trabalho (já em 40 horas semanais) e criar sistemas completos de seguridade e reciclagem profissional. Só assim poderá garantir que os trabalhadores excedentes conservem sua renda básica digna, elevem sua múltipla capacidade profissional e participem de novos ciclos ou rodízios de trabalho produtivo.

A China ainda pode, durante algum tempo, realizar um crescimento estável com a promoção simultânea de investimento e consumo, altas e baixas tecnologias e capital intensivo e trabalho intensivo, evitando o crescimento explosivo do desemprego e fraturas incuráveis nas taxas de consumo. Entretanto, terá que levar em conta que suas tendências mais importantes, a médio prazo, são as altas tecnologias e as empresas de capital intensivo. Ou seja, tendências que elevam a produtividade, poupam mão-de-obra, reduzem o valor dos produtos e o lucro médio das empresas.

Nessas condições, seus programas de seguridade e reemprego deverão transformar-se paulatinamente em programas que mudam radicalmente a própria natureza do desemprego. Este deixará de ter a conotação destrutiva do presente e passará a constituir um momento de readequação educacional, tecnológica, científica e cultural e de rodízio nos trabalhos produtivos e administrativo.

Se alguém quer saber realmente para onde vai a China, talvez devesse, mesmo sem deixar de ler o que é produzido pelos centros informativos norte-americanos, acompanhar mais de perto como ela resolve a curto, médio e longo prazos, além dos problemas de crescimento do PIB e outros indicadores macroeconômicos, aqueles relacionados com a redistribuição da renda, o desemprego e a paulatina mas constante ampliação democrática.

Ou seja, primeiro, como deixa de ter qualquer parcela de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza. Segundo, como consegue materializar efetivamente o enriquecimento social em ondas. Terceiro, como evolui do antigo sistema de pleno emprego e produtividade em queda, para um sistema de crescente produtividade, emprego necessário e vida digna para aqueles que se tornaram excedentes do processo produtivo. E quarto, como desenvolve a democracia com base nas assembléias populares de aldeia, cantão e distrito para uma maior participação popular nas províncias e no poder central.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *