Vietnã: informações históricas

WPO | TBA | Vietnã: informações históricas. Universidade Federal Fluminense, Curso de Especialização em História Contemporânea, 2005.

 

 

UFF/CEG/EGH/GHT

Curso de Especialização em História Contemporânea

Coordenador: Prof. Dr. Daniel Aarão Reis Filho

Aula: 70 – Vietnã

Prof.  Wladimir Pomar

Texto Base Indicado

Vietnã – Informações históricas

 

Preliminares

  1. Restos arqueológicos mostram que o território, que hoje se chama Vietnã, conheceu a existência de hominídeos desde a era paleolítica (300 a 500 mil anos atrás). As primeiras aglomerações humanas – as culturas Hoa Binh e Bac Son  –  surgiram há cerca de 10 mil anos atrás, após haver domesticado o arroz e alguns tipos de gado.
  1. Os primeiros reinos escravistas surgiram por volta do ano 3000 AC, enquanto o primeiro reino unificado, a dinastia Dong Son, foi constituída antes do ano 1000 AC. No século 2 AC, o reinado de Au Lac (ou Van Lang), foi anexado pela dinastia Han, chinesa, que passara a assimilar a seu império muitos grupos étnicos que viviam nos territórios ao sul. Somente no século 10, os viets viram-se livres da dominação dinástica chinesa e voltaram a constituir-se como reino independente e unificado, o Daí Viet.
  1. As sucessivas dinastias posteriores confrontaram-se com novas tentativas de expansão imperial e feudal chinesa. No século 13, tiveram que enfrentar as invasões mongóis e, no início do século 15, a invasão da dinastia Ming, que chegou a ocupar o Daí Viet por 20 anos. Os feudais viets, comandados por Lê Loi, conseguiram expulsar os Ming e fundar uma nova dinastia viet, a Lê.
  1. Apesar das guerras travadas contra os invasores mongóis e chineses, a população viet foi fortemente influenciada pela cultura chinesa. Foi esta que introduziu no Daí Viet o Budismo, o Taoísmo e o Confucionismo, assim como elementos arquitetônicos, artísticos e literários, que se fundiram com as culturas viet e moldaram o caráter do que hoje é o povo vietnamita.
  1. Até o século 15, quando os Ming invadiram e dominaram o Daí Viet, o rei era o dono legal de todas as terras. Ele distribuía o usufruto de seus domínios aos dignitários da corte, ou nobres. Os camponeses pertenciam á terra e prestavam serviços aos nobres que recebiam o direito ao usufruto dos domínios agrários. Os monastérios budistas também recebiam grandes extensões territoriais. Algumas terras continuavam sendo de uso comunal, devendo pagar taxas ao rei. Formou-se, dessa forma, uma sociedade feudal, com senhores, servos e uma certa percentagem de camponeses livres nas terras comunais.
  1. Nesse período, sob influência do confucionismo, já havia se constituído uma forte burocracia letrada, recrutada através de exames, que começou a se opor à aristocracia fundiária e à influência budista. Esta disputa interna na corte deu chance á ocorrência de revoltas camponesas, levando ao desaparecimento paulatino dos feudos. No século 15, a servidão agrária e o escravismo doméstico foram abolidos, os camponeses livres tornaram-se o agrupamento ou classe social preponderante, e o confucionismo transformou-se no elemento mais importante na vida comportamental e nas instituições.
  1. O crescimento populacional e a estrutura agrária e social dividida entre proprietários de terras, mandarins a serviço do rei e camponeses, muitos dos quais pobres e sem-terra, exacerbou a luta pela terra e a expansão da frente agrícola para regiões infestadas de malária. As planícies costeiras tornaram-se super-povoadas e palco de intensas disputas entre camponeses e proprietários fundiários ricos.
  1. Nos séculos 17 e 18, a luta entre os clãs feudais conduz à divisão do Vietnã em dois. Ao norte, passaram a dominar os senhores Trinh, enquanto ao sul dominavam os Nguyen, cuja capital era Hue. A guerra travada entre esses dois fortes agrupamentos feudais, entre 1627 e 1672, abriu as portas para a penetração dos missionários católicos e para a eclosão de revoltas camponesas.
  1. Os camponeses realizaram uma série de insurreições, que culminaram no grande movimento Tai Son (1771-1802), que liquidou os senhores feudais, reunificou o país sob um governo centralizado, impediu que a dinastia Qing chinesa interviesse em favor dos feudais viets e tentou implantar reformas econômicas e sociais. No entanto, o movimento Tai Son não estava em condições de superar o regime dinástico e foi subjugado pelos feudais Nguyen, já com a ajuda dos franceses.
  1. A re-implantação do regime monárquico feudal ocorreu paralelamente à expansão colonial capitalista européia, que impunha ao mundo uma nova divisão territorial e econômica. Expulsa da Índia pelos ingleses, a França voltou-se para a península indochinesa, seja através da difusão do catolicismo e da latinização da língua vietnamita (a escrita quoc-ngu), seja através da ajuda a Nguyen Anh (Gia Long), para derrotar os Tai Son e reunificar o país sob o império Nguyen, entre 1802 e 1820.
  1. Os imperadores que sucederam Gia Long, porém, procuraram desenvolver políticas nacionalistas, que os franceses tomaram como pretexto para acelerar sua política de dominação colonial. Da Nang foi atacada em 1858, Saigon em 1859 e Hanói em 1873. Em 1884, as forças militares francesas obrigaram a corte de Hue a colocar o país sob o protetorado da França. A maior parte dos senhores feudais e mandarins confucionistas passou a cooperar com os dominadores coloniais.
  1. Mas os franceses jamais conseguiram pacificar o território viet. Pelo menos desde 1860, insurreições camponesas e guerra de guerrilhas, muitas delas dirigidas por letrados (mandarins), como a de 1885 a 1896, tornaram-se um fato corrente na situação. Apesar disso, a dominação colonial francesa , ao implantar o sistema ferroviário, as plantations e os sistemas de oficinas e fábricas, introduziu mudanças na estrutura social viet.
  1. Novas classes ou grupos sociais surgiram, como os estudantes, a pequena burguesia urbana, a burguesia e a classe trabalhadora assalariada. A burguesia e a pequena burguesia foram os primeiros desses novos grupos sociais a levantarem a idéia da independência nacional, em grande parte influenciadas pelas idéias revolucionárias trazidas pelos jovens vietnamitas enviados para estudar na França. Organizaram grupos e realizaram ações contra os colonialistas franceses, mas não tiveram qualquer sucesso na organização de um movimento nacional com força suficiente para derrotar os franceses.

 

As guerras de libertação do Viet Minh

  1. Foi após a I Guerra Mundial que Nguyen Ai Quoc, mais tarde conhecido como Ho Chi Minh, e outros estudantes que retornavam da França, como Vo Nguyen Giap, começaram a introduzir o marxismo no território viet. Seus esforços levaram à fundação do Partido Comunista em fevereiro de 1930 e à formulação de uma estratégia de luta que tomava a libertação nacional como parte da revolução mundial, a reforma agrária como aspecto totalmente integrado à luta nacional e o socialismo como a meta que deveria orientar todos os esforços.
  1. Durante toda a década de 30, os comunistas realizaram um intenso trabalho de difusão de seu programa de luta, dirigido fundamentalmente contra a dominação colonial imperialista e seus colaboradores feudais e burgueses compradores. No início dos anos 1940, quando estourou a II Guerra Mundial e os exércitos franceses na Indochina desmoronaram diante da ofensiva japonesa, os comunistas trabalharam para organizar uma frente única de diferentes setores sociais, a Frente de Indepndência do Vietnã (Viet Minh), o que conseguiram em maio de 1941.
  1. O Viet Minh propunha-se lutar simultaneamente, como movimento revolucionário, tanto contra os franceses, quanto contra os japoneses. Durante toda a Segunda Guerra Mundial, voltada fundamentalmente contra os invasores japoneses, os vietmins estabeleceram bases guerrilheiras por todo o país, desenvolvendo táticas de guerra de guerrilhas, combinadas como movimentos políticos massivos e insurreições nas cidades.
  1. Em agosto de 1945, o Viet Minh derrotou o restante de tropas japonesas e francesas que permaneciam no Vietnã e, a 2 de setembro, fundou a República Democrática do Vietnã, tendo Ho Chi Minh como presidente. Em novembro de 1946, porém, as tropas francesas voltaram a atacar o Vietnã. Bombardearam o porto de Haiphong, proclamaram a República Autônoma da Conchinchina, e iniciaram o desembarque das tropas para reocupar a antiga colônia.
  1. Em dezembro, diante da superioridade militar francesa, o governo Viet Minh retirou suas forças armadas para as antigas bases guerrilheiras e conclamou os vietnamitas a realizar uma “guerra popular” de libertação contra a re-ocupação estrangeira. A guerra popular partia do princípio que o inimigo francês era mais forte do que os vietnamitas, tanto material quanto técnica e financeiramente. Nessas condições, para derrotar um inimigo mais forte, os vietnamitas deveriam combinar luta armada com lutas políticas de massa.
  1. As forças armadas vietnamitas foram compostas de três categorias: tropas regionais, tropas regulares e forças de auto-defesa. Essas categorias deveriam coordenar suas ações e atacar em três setores estratégicos: cidades, áreas rurais e regiões montanhosas. Ao mesmo tempo, deveriam combinar métodos rudimentares de combate com a melhoria de sua capacidade técnica.
  1. A economia nas áreas dominadas pelas forças vietnamitas, chamadas de áreas libertadas, deveria desenvolver sua capacidade econômica, a despeito da guerra, e introduzir as reformas democráticas, principalmente a agrária, implantar o novo regime político e desenvolver a cultura nacional, para fortalecer sua resistência.
  1. Os sete anos de guerra de resistência nacional levaram à vitória de Dien Bien Phu, em maio de 1954, e ao Acordo de Genebra. As tropas francesas retiraram-se do Vietnã e este foi provisoriamente dividido em duas partes, tendo como divisa o rio Ben Hai, situado no paralelo 17. Pelo Acordo, o Vietnã deveria ser reunificado em 1956, através de eleições gerais.

 

A guerra de libertação do Viet Cong

  1. Os antigos colaboracionistas da dominação francesa, como Ngo Dinh Diem, transformados em autoridades da parte sul do Vietnã, colocaram-se contra a reunificação, tendo o apoio dos Estados Unidos. Eles depuseram o imperador Bao Daí e instalaram a República do Vietnã, sob regime ditatorial militar.
  1. Nessas condições, criou-se uma situação em que a parte Norte, sob a direção do PC e de Ho Chi Minh, procurava consolidar a revolução democrática e realizar a construção socialista, e a parte Sul, sob o comando ditatorial dos remanescentes feudais e imperialistas, procurava manter a situação econômica e social anterior, e evitar qualquer reforma.
  1. A negativa de realizar as eleições gerais e unificar o país levou à formação, em 1960, da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul (FLN), que ficou conhecido como Viet Cong. O assassinato do Ngo Dinh Diem, em 1963, como resultado das disputas entre os diversos grupos corruptos, aliados dos norte-americanos, e a ação militar clandestina das tropas navais norte-americanas no Golfo de Tonquim, em 1964, deram início à segunda guerra do Vietnã.
  1. Em fevereiro de 1965, o presidente Lyndon Johnson, dos EUA, ordenou o bombardeio do Vietnã do Norte, para evitar qualquer apoio, em armas e alimentos, ao Viet Cong. E, a partir de abril, os norte-americanos iniciaram a chamada escalada, consistindo no envio de um número crescente de tropas e equipamentos norte-americanos ao Vietnã do Sul. Em 1968, o número de soldados dos EUA no território vietnamita se elevou a 585 mil homens.
  1. Enquanto o Viet Cong empregava as mesmas táticas de guerra popular utilizadas anteriormente contra os franceses, os norte-americanos utilizavam-se de bombardeios massivos, inclusive com napalm e desfolhantes químicos, e da guerra de terra arrasada e confinamento da população em campos cercados. A guerra tornou-se, pois, extremamente violenta, envolvendo nela o conjunto da população civil.
  1. Em 1968, justamente quando o número de tropas norte-americanas alcançou seu auge, o Viet Cong lançou a primeira grande ofensiva contra uma grande cidade. Hue foi tomada durante a ofensiva do Tet (Ano Novo) durante alguns dias. Com isso, os Viet Cong procuraram demonstrar, para os próprios vietnamitas e para a opinião pública internacional, que as tropas dos EUA tinham sido não apenas incapazes de aniquilar o Viet Cong, como também incapazes de impedir o Viet Cong de se fortalecer, lançar ofensivas de envergadura e, até, ocupar grandes cidades.
  1. A ofensiva do Tet ocorre num momento em que os EUA tentam, desesperadamente, obter uma certa estabilidade política entre as diversas facções militares do Vietnã do Sul, com a colocação do general Nguyen Van Thieu como presidente, de modo a “vietnamizar” o conflito e escapar das crescentes pressões que enfrentava, tanto internacionalmente, quando internamente.
  1. Por um lado, o governo Nixon sente-se pressionado pelos protestos internacionais contra o emprego das bombas de napalm e do agente laranja, assim como contra os massacres de civis, a exemplo da aldeia de My Lai, na qual todos os seus habitantes foran fuzilados por tropas norte-americanas, a pretexto de apoiarem os Viet Cong. Por outro lado, os protestos dentro dos próprios Estados Unidos cresceram desmesuradamente, com manifestações da intelectualidade, demonstrações populares de rua e deserções de jovens convocados para o serviço militar. Um complicador adicional residia no fato de que os EUA jamais declararam guerra oficialmente.
  1. Em 1969, a FNL formou o Governo Revolucionário Provisório (GRP) do Vietnã do Sul, instalando uma dualidade de poderes na parte Sul do Vietnã. Ao mesmo tempo, os norte-americanos haviam estendido a guerra ao Camboja e ao Laos, numa nova tentativa desesperada de cortar qualquer tipo de abastecimento às tropas do Viet Cong pelo Vietnã do Norte.
  1. Em janeiro de 1973, os Estados Unidos viram-se compelidos a sentar à mesa de negociação com o GRP, em Paris, e assinar um Acordo em que reconheciam tanto o GRP, como um dos poderes do Vietnã do Sul, quanto a existência das forças armadas revolucionárias e de zonas libertadas. Pelo Acordo de Paris, as tropas norte-americanas deveriam retirar-se do Vietnã, e as autoridades pró-americanas do Vietnã do Sul deveriam realizar negociações com o GRP para a instauração da paz.
  1. Em agosto de 1974 os norte-americanos retiraram seu apoio ao governo Thieu, mas este rejeitou todas as propostas do GRP, lançou ataques às zonas libertadas e realizou prisões em massa dos que advogavam pela execução do Acordo de Paris. Em resposta, as forças armadas do GRP lançaram uma forte ofensiva em março de 1975, contra Buon Me Thuot, no Altos Planaltos, tomando Hue, Da Nang e Nha Trang. A 21 de abril, Thieu fugiu para os Estados Unidos, deixando em seu lugar o general Duong Van Minh. Em 30 de abril, as tropas do Viet Cong entraram em Saigon (hoje Ho Chi Minh). expulsando o restante das tropas norte-americanas e desbaratando os exércitos do governo pró-americano.
  1. Em abril de 1976, ocorreram eleições gerais em todo o país para a Assembléia Nacional Popular. Esta, em sua primeira sessão, em julho de 1976, deu ao país reunificado o nome de República Socialista do Vietnã.

 

As conseqüências da guerra

  1. Há um cálculo estimado de que sete milhões de toneladas de bombas foram atiradas sobre o território vietnamita durante a guerra contra a presença norte-americana no país. Essa tonelagem, não incluindo as bombas de napalm e fosfóricas, é três vezes maior do que a empregada durante a Segunda Guerra Mundial. Isso resultou em 20 milhões de crateras e grandes áreas imprestáveis. Das 15 mil aldeias existentes no Sul, 9 mil foram danificadas ou destruídas.
  1. No Norte, todas as instalações industriais e pontes rodoviárias e ferroviárias foram repetidamente bombardeadas. Todas as cidades foram danificadas e algumas, como Vinh, Hon Gai, Dong Hoi e Pho Ly foram arrasadas. Dois terços das comunidades rurais foram atingidas e mil e seiscentas instalações hidráulicas foram destruídas.
  1. Calcula-se que 1,5 milhões de pessoas do Sul foram vítimas das operações militares entre 1965 e 1973. A estratégia norte-americana de desenraizar as aldeias, através do bombardeio constante e da fumigação de agentes químicos causou o deslocamento de 10 milhões de lavradores. Ao mesmo tempo, logo após o término da guerra, descobriu-se que em Saigon existiam 3 milhões de desempregados, centenas de milhares de prostitutas e viciados em drogas, dezenas de milhares de gangsters e delinqüentes diversos, um milhão de tuberculosos e 4 milhões e analfabetos.
  1. Além dessas dificuldades, o Vietnã viu-se às voltas, logo após a guerra, com movimentos de sabotagem, com o embargo econômico imposto pelas potências ocidentais, e com a campanha do “povo do mar”, envolvendo mais de 500 mil vietnamitas em busca de refúgio em outros países. Em 1977, a pretexto de que forças cambojanas haviam atacado a fronteira vietnamita, o Vietnã decidiu invadir o Camboja, derrubar o regime de Pol Pot e instaurar, em seu lugar, um regime que fosse, ao mesmo tempo, pró-soviético e pró-vietnamita, decisão que se concretizou em 1979, com o ataque a Phnom Penh. Nesse mesmo ano de 1979, Vietnã e China enfrentaram-se em conflitos armados em torno de problemas fronteiriços.
  1. Nessas condições, os problemas econômicos tornaram-se muito difíceis. As metas do plano qüinqüenal 1976-1980 não foram atingidas e, especialmente na agricultura, os resultados ficaram longe delas. O Vietnã havia ficado muito dependente do modelo e da ajuda da União Soviética e, com a crise da economia de comando daquele país, isso se abateu fortemente sobre a economia vietnamita. A renda dos agricultores caiu ano a ano e as contradições sociais tornaram-se agudas, levando à defecção de muitos quadros do PC e do governo.

Mudanças

  1. No início dos anos 80, o Vietnã tentou vários movimentos de mudança para sair da crise e do impasse. Tentou melhorar a gestão econômica e melhorar o padrão de vida da população, sem modificar, porém, os defeitos estruturais do modelo soviético que havia copiado em parte. Em vista disso, em 1985 a sociedade vietnamita chegou a um ponto crítico. A inflação saíra de controle, chegando a 500% ao ano, e o custo de vida subia a cada dia, criando sérias dificuldades à vida econômica e social. A produção agrícola caíra perigosamente.
  1. Tudo isso levou o Sexto Congresso do PC, realizado em dezembro de 1986, a reconhecer a situação e a introduzir mudanças profundas em sua maneira de dirigir a economia e a sociedade. O PC decidiu “enfrentar diretamente a verdade, valorizar a verdade e falar a verdade”, de modo a criticar e superar os próprios erros. Afirmou a necessidade de renovar a estrutura da economia e os métodos de gerenciamento econômico, construir os fundamentos legais e renovar a organização do Estado e do PC.
  1. O Estado aceitou a estrutura econômica multi-setorial (isto é, com diversos tipos de propriedade) e reconheceu a papel dos mecanismos de mercado para estimular o desenvolvimento das forças produtivas. O modelo econômico baseado em subsídios e fortemente dependente de importações e ajuda externa passou a ser transformado em um modelo de economia aberta, com controle de custos, inclinada às exportações e com orçamento estatal equilibrado.
  1. A Resolução nº 10, do Conselho de Estado, sobre a contratação das terras aos camponeses em troca da produção agrícola, representou uma virada na situação da agricultura. Foram abolidos os pontos de trabalho nas cooperativas agrícolas e o sistema dual de preços agrícolas. Paralelamente, os juros bancários foram elevados e os mercados de ouro e câmbio foram liberalizados. E, em 1989, o Vietnã retirou suas tropas do Camboja, melhorando suas relações com os demais países asiáticos.
  1. Todas essas medidas permitiram ao Vietnã, no início dos anos 1990, enfrentar com sucesso o afundamento da União Soviética e dos países do Leste Europeu, tornar-se o terceiro maior exportador de arroz do mundo, ampliar a variedade de produtos agrícolas oferecidos ao mercado, aumentar seu comércio internacional e lançar-se na implantação de projetos industriais e na captação de investimentos externos.
  1. Em junho de 1991, o 7º Congresso do PC reiterou a decisão de continuar a política do dói moi (renovação) em vários planos. Primeiro, no desenvolvimento de uma economia multi-setorial, na expansão das relações econômicas e na criação de uma economia de mercado aberta. Segundo, na renovação do sistema político do nivel central ao nível local, enxugando a máquina do Estado para torná-la mais eficaz, construindo um arcabouço legal para o Estado, expandindo a democracia através da sociedade e dando atenção à vida espiritual e cultural do povo. Terceiro, expandindo as relações de amizade e cooperação com todas as nações, independentemente de seus regimes sócio-políticos, tendo por base a cooperação, a coexistência pacífica e o benefício mútuo.
  1. No final de 1991 o Vietnã obteve o acordo de paz no Camboja, normalizou suas relações com a China e outros países do Sudeste Asiático, estabeleceu relações diplomáticas com os países da União Européia e realizou o primeiro encontro oficial com os Estados Unidos para discutir a normalização das relações entre os dois países. Em fevereiro de 1994, os Estados Unidos suspenderam o embargo ao Vietnã e, em julho de 1995, os dois países reataram suas relações diplomáticos.
  1. Em novembro de 1998, a 10ª Conferência Ministerial da APEC (Associação de Cooperação Econômica do Pacífico), realizada em Kuala Lampur, admite o Vietnã como seu 21º membro. E, em dezembro, o 6º Encontro de Cúpula da ASEAN é realizado em Hanói, coroando uma série de movimentos vietnamitas que visavam a integração do país ao intercâmbio internacional.
  1. Atualmente, o Vietnã mantém relações diplomáticas e comerciais com 42 países asiáticos, 9 da Oceania, 26 das Américas, 41da Europa e 48 da África. Investimentos estrangeiros japoneses, franceses, ingleses, australianos, holandeses e de Hong Kong têm contribuído para desenvolver a indústria petrolífera, as indústrias de base (aço e cimento) e outros setores fabris, ao mesmo tempo em que a agricultura tornou-se uma forte exportadora, principalmente de arroz e café.

 

Geografia, etnias, recursos e idioma

  1. O Vietnã está situado no centro do Sudeste da Ásia, na banda ocidental da península indochinesa. Banhado, a leste a ao sul, pelo Oceano Pacífico (Mar da China), é limitado ao norte pela China, e ao oeste pelo Laos e Camboja. Embora 75% do território vietnamita sejam cobertos por montanhas, o Vietnã é, essencialmente, um país inter-tropical com clima úmido das monções. Em 2004, possuía mais de 80 milhões de habitantes.
  1. Com uma área total de 331.689 km2, de norte para o sul o Vietnã é dividido em três grandes regiões administrativas: o Tonquim (Bac Bo), o Anam (Trung Bo) e a Conchinchina (Nam Bo). A região mais ao norte, o Bac Bo, vai da fronteira com a China (Yunnan e Guangxi), no paralelo 23, ao vale do Hong Ho, ou rio Vermelho, incluindo os deltas desse rio e dos rios Lô e Chay. Bac Bo é o nome da planície em que estão localizadas Hanói e o porto de Haiphong, a leste.
  1. A região central, ou Trung Bo, vai do vale do rio Vermelho até o paralelo 16, onde estão as montanhas Mang e Bach Mã, constituindo uma faixa de terra montanhosa. Em seus trechos mais estreitos não tem mais de 50 km, mas sua altitude chega a mais de 2000 m (seu pico culminante tem 3143m), correndo de noroeste para sudoeste. É nessa região que se encontram as cidades de Hue e Da Nang.
  1. A região sul, ou Nam Bo, é bastante diferente das outras duas, indo do paralelo 16 ao paralelo 8, incluindo os deltas dos rios Mekong e Vam Có, com um clima quase equatorial e com muitas planícies e planaltos favoráveis à agricultura mecanizada. É aqui que está situada Ho Chi Minh, a maior aglomeração urbana do Vietnã.
  1. O Vietnã possui importantes recursos naturais, como carvão, petróleo, gás, ferro, bauxita, cobre, cromo, e um potencial hidráulico de 80 mil GWh. Suas florestas contêm uma flora de mais de 7 mil espécies vegetais, incluindo mais de mil espécies de plantas medicinais. Sua fauna contempla mais de 300 espécies de mamíferos, destacando-se os elefantes, bois e búfalos selvagens, tigres, ursos, chimpanzés e rinocerontes. Sua costa de 3260 km abriga mais de mil espécies de peixes, permitindo que sua pesca tenha alcançado 700 mil toneladas em 1999.
  1. O Vietnã possui 54 etnias ou nacionalidades, sendo a etnia Viet a maior delas, com 88% do total da população, que vive nos deltas dos rios Vermelho e Mekong, e nas planícies costeiras. As outras 53 etnias somam cerca de 6 milhões de pessoas, espalhadas principalmente pelas áreas montanhosas do país. Os grupos étnicos são caracterizados segundo três critérios básicos: linguagem, cultura e vida material e consciência étnica. Depois dos Viets, os cinco maiores grupos são os Tay, Thai, Muong, Hoa e Khmer.
  1. Segundo a classificação lingüística, uma parte pertence à família austro-asiática (linguagens Viet-Murong, Mon-Khmer, Tay-Thai, Meo-Dao), outra à família malaio-polinésia (linguagens Gia-rai, Ede etc), e outra à família sino-tibetana (linguagem han e tibetano-burmanesa). O idioma oficial é o vietnamita, ou Kinh, da maioria Viet, falado de norte a sul do país. As minorias étnicas aprendem e falam sua própria língua, mas também aprendem o Kinh.
  1. A mais importante influência externa sobre o idioma vietnamita foi exercido pelo chinês clássico. O idioma chinês foi utilizado, até o século 20, como a língua oficial dos assuntos administrativos e dos estudos filosóficos, históricos e literários. O vocabulário cultural da linguagem vietnamita, como em todas as línguas do extremo oriente, é de origem chinesa. Com o passar do tempo, porém, os termos chineses foram vietnamizados na forma e integrados ao idioma nacional.
  1. Até o século 20 existiam duas literaturas paralelas no Vietnã: uma em chinês e outra em Nôm. Muitos autores famosos, como Nguyen Trai e Nguyen Du, escreviam em ambas escritas, tendo por base os ideogramas chineses. A partir do século 17, porém, os missionários ocidentais começaram a trabalhar uma transcrição fonética para a linguagem vietnamita, usando o alfabeto latino. A escrita romanizada Quoc ngu, tornou-se largamente utilizada no século 20, substituindo o chinês e o Nom. Primeiro como um meio de difusão do catolicismo e, depois, como ferramenta para a administração colonial, o Quoc ngu foi utilizado pelos resistentes vietnamitas para a rápida popularização de suas idéias revolucionárias.
  1. A língua vietnamita é analítica (ou isolante), sendo sua unidade a sílaba que constitui uma unidade fonologicamente autônoma. A grande maioria das sílabas isoladas tem seu próprio significado, e cada uma delas pode ser pronunciada com seis diferentes tons, produzindo seis significados diferentes. Na escrita romanizada, cada tom é representado por um acento diacrítico. Assim, de acordo com o tom, a palavra ma pode significar fantasma, uma palavra de ligação, mãe, semeadura de arroz, tumba ou cavalo.

 

Economia Contemporânea

  1. Desde 1986 e, principalmente, desde 1989, o Vietnã ingressou num profundo processo de reformas econômicas, marcadas por uma orientação totalmente diferente das que tentou anteriormente, tanto em extensão quanto em profundidade. Transformou sua economia centralmente orientada ou comandada numa economia de mercado, sob gestão estatal, e vem desenvolvendo e diversificando suas relações econômicas internacionais, assim como reformando a administração do Estado.
  1. Em 1988 teve início o desenvolvimento do setor privado, primeiro como economia doméstica, seguida depois da introdução legal da liberdade de negócios. Todas as restrições ao tamanho dos investimentos individuais e ao número de empregados das empresas privadas foram abolidas.
  1. Em 1989, pressionado pelo declínio soviético e pelo embargo norte-americano, o Vietnã iniciou suas reformas macroeconômicas, cancelando todos os subsídios diretos aos preços e introduzindo o sistema de preços ditados pelo mercado. A moeda foi desvalorizada e as diferentes taxas de câmbio existentes foram unificadas, com a introdução de uma taxa oficial, flutuante e sob gestão. Estabeleceu-se um sistema bancário de dois níveis e taxas de juros realistas. Ao mesmo tempo, o comércio doméstico foi liberalizado, permitindo-se o aluguel do solo para a construção. O comércio de ouro e jóias foi liberado e as tarifas sobre importações comerciais e não-comerciais foram reduzidas.
  1. Essas medidas, articuladas com a des-regulação do comércio externo e a quebra do monopólio estatal, tornaram mais ágil e diversificado esse comércio, permitindo a participação do setor privado. As exportações cresceram e o suprimento de mercadorias para o mercado doméstico aumentou. O resultado foi a queda da inflação e a entrada do Vietnã no caminho do desenvolvimento.
  1. Todas essas medidas têm sido acompanhadas do esforço para estabelecer um arcabouço legal de acordo com a economia de mercado e com os padrões internacionais. A Constituição de 1992, a Lei sobre as Empresas e a Lei dos Negócios Privados permitem o estabelecimento de grandes companhias privadas, de diferentes tipos. A Lei de Falências foi promulgada em dezembro de 1993.
  1. Ao final de 1995, estavam registradas mais de 20 mil empresas privadas, 72% das quais eram empresas de um proprietário e 27% companhias. Entre 1994 e 1999 foram licenciados 1.597 projetos de investimentos externos diretos, somando US$ 28,66 bilhões. Nesse mesmo período o crescimento da agricultura foi superior a 6% ao ano, enquanto o crescimento do PIB foi de 8%, e o comércio externo dobrou, saltando de US$ 9,8 bilhões para US$ 21,8 bilhões.
  1. O governo vietnamita faz questão de ressaltar que suas reformas possuem características próprias, que as diferem daquelas recomendadas pelo Banco Mundial. Elas seriam uma combinação de iniciativas da base com o planejamento das lideranças políticas e econômicas, sendo implantadas de acordo com as necessidades práticas do desenvolvimento econômico, e não por considerações ditadas puramente pelo pensamento teórico ou acadêmico.
  1. Diferentemente das recomendações do Banco Mundial, as reformas vietnamitas tiveram início com a liberalização do nível microeconômico da indústria, agricultura e comércio, melhorando o suprimento do mercado e criando as condições favoráveis para a reforma macroeconômica. Esta introduziu as regulações e instituições de mercado. As reformas também têm sido realizadas quase sem qualquer ajuda financeira externa. Apenas recentemente o Vietnã recebeu crédito para a construção de sua infra-estrutura econômica e social.
  1. Por outro lado, as reformas vietnamitas possuem uma orientação social definida. O governo presta muita atenção, em cada passo dado, para evitar que a carga das reformas recaia sobre os trabalhadores. A renda camponesa e urbana têm crescido, embora de forma desigual, a um ritmo de 3% a 4% ao ano. Seu programa para acabar com a fome e reduzir a pobreza melhorou consideravelmente a situação geral, em especial nas áreas rurais. As reformas também têm tido uma abordagem de passo-a-passo, com uma participação limitada de terapia de choque.
  1. Entre 1991 e 1995, a produção global do país cresceu a uma média anual de 8,2%. Em 1997, porém, em virtude da crise financeira mundial, que abalou muitos de seus principais parceiros comerciais capitalistas, o Vietnã viu-se obrigado a desvalorizar do dong (a moeda nacional vietnamita) e a reduzir seu ritmo de crescimento. A partir de 1999, porém, o país retomou um ritmo de crescimento global de 6% a 7% anual, com o crescimento da agricultura variando entre 4% e 5%, o da indústria entre 10% e 11% e o das exportações entre 11% e 12%..
  1. A despeito dos avanços obtidos, os desafios do Vietnã continuam fortes. Ele é um país pobre e em desenvolvimento. Sua economia ainda tem características de exploração de recursos naturais. Seu PIB per capita continua baixo. Suas médias de produção e consumo de mercadorias básicas e commodities, como eletricidade, combustíveis, aço, cimento etc, estão entre os mais baixos do mundo. A competitividade dos produtos vietnamitas é baixa, mesmo no mercado doméstico. A agricultura ainda produz 36% do PIB e 78% da população vive nas áreas rurais. As exportações incluem principalmente petróleo, produtos agrícolas primários e pescados. A participação dos produtos manufaturados tem crescido, mas permanece muito modesta.
  1. O crescimento anual da população, de 1,.5%, ainda é alta e pressiona o crescimento do PIB. O desemprego e o subemprego são sérios e causam muitos problemas sociais. A infra-estrutura está numa situação muito pobre e exige altos investimentos em recursos humanos, educação, treinamento e saúde, para ser compatível com os requerimentos da industrialização e modernização.
  1. A poupança doméstica também permanece em níveis muito baixos. Para alcançar seus objetivos de desenvolvimento sustentável, o Vietnã necessita de investimentos na ordem de US$ 50 bilhões anuais. Com isso seria possível construir uma economia com tecnologias mais sofisticadas, força de trabalho treinada e alta nível de ordem e disciplina em assuntos econômicos e sociais.
  1. Por outro lado, pela primeira vez em 150 anos, o Vietnã não apenas está livre de ocupações estrangeiras, mas também livre de qualquer dependência estrangeira. Pode decidir por si próprio as reformas para modernizar suas empresas estatais e aplicar a política de existência de vários tipos de propriedades.

 

Educação, Saúde e Ciências e Tecnologias

  1. A reforma educacional introduzida em 1981-82 estabeleceu um sistema básico de 12 anos, sendo 9 anos para a educação de crianças de 6 a 15 anos, e 3 anos para o ciclo secundário. Dois a três milhões de crianças ingressam no primeiro ano de estudo anualmente.
  1. A partir de 1988, ao lado das escolas públicas, foi permitido a instalação de escolas privadas no sistema básico, tendo em vista as dificuldades dos investimentos estatais. Essa permissão também se estendeu ao ensino universitário.
  1. Os esforços na área educacional têm se concentrado em universalizar o ensino primário e erradicar o analfabetismo. Para isso, foram adotadas inúmeras formas, incluindo estudo de tempo integral e parcial, cursos de longa e curta duração, classes regulares e irregulares, treinamento e educação à distância.
  1. A rede universitária está organizada em quatro formas: universidades multidisciplinares nacionais (nas cidades de Hanói e Ho Chi Min) e regionais (nas cidades de Hue, Da Nang e Tghai Nguyen), universidades e faculdades especializadas (medicina, farmácia, arquitetura etc), faculdades comunitárias e universidades abertas (públicas e mistas).
  1. Na área de saúde, as principais preocupações dirigiram-se, por um largo período, para debelar as endemias e epidemias tropicais que atacavam a população do país, como a cólera, varíola, tifo, malária, tracoma, tuberculose e lepra. Essas doenças foram praticamente eliminadas em sua forma endêmica desde o final da guerra.
  1. Hoje, cada distrito vietnamita possui um centro de saúde a cargo de uma policlínica polivalente de 50 a 100 leitos e de uma estação sanitária, responsável tanto pela higiene e prevenção epidêmica, quanto pela farmácia e coleta de ervas medicinais. No nível provincial, os serviços de saúde administram hospitais, estações sanitárias, farmácias e laboratórios farmacêuticos. No nível central são encontrados os institutos de pesquisas e os hospitais especializados.
  1. A maior parte da saúde é pública e gratuita, mas em 1994 o Estado vietnamita permitiu a cobrança de taxas pelos serviços médicos, mas isentando os pobres e as populações montanhosas de qualquer pagamento.
  1. Uma das heranças perversas do colonialismo e das guerras que envolveram o Vietnã foi o atraso a que foi relegado o desenvolvimento das ciências e tecnologias. Por diversos anos, os institutos, laboratórios e bibliotecas tiveram que ser evacuados para as áreas rurais, e as relações com os técnicos e pesquisadores de outros países tiveram que ser suspensas. Criou-se um vácuo entre o desenvolvimento científico e tecnológico do país e a revolução científica e tecnológica do século 20.
  1. Formar novos quadros, criar uma infra-estrutura capaz de atender às demandas de desenvolvimento do país e, ao mesmo tempo, acompanhar os avanços internacionais e desenvolver um programa de inovações, no campo científico e tecnológico, foram problemas que só começaram a ser enfrentados pelo Vietnã a partir do anos 1980, havendo formado desde então 930 mil cientistas e técnicos, dos quais 120 mil possuem mestrado e doutorado, 1,6 mil são professores e 15 mil são pesquisadores científicos.
  1. Passo importante para o desenvolvimento científico vietnamita tem sido a abertura dos estudos e pesquisas nas ciências sociais, com atenção para a história, lingüística, etnografia, arqueologia, psicologia, sociologia e filosofia. No terreno filosófico, os estudos e pesquisas estão sendo ampliados para a história da filosofia e para as diferentes escolas e tendências filosóficas, incluindo a filosofia oriental (chinesa e indiana, especialmente)), religião, teologia, astrologia e campos bio-energéticos.

 

Literatura

  1. Os mais antigos textos vietnamitas datam do século 10, escritos em chinês. O chinês, era a linguagem literária comum no oriente, como o latim foi no ocidente. Nesses primeiros tempos, essa literatura compreendia exclusivamente a poesia, escrita pelos bonzos budistas e pelos mandarins. Seus principais temas eram a religião e os ensinamentos do confucionismo e do taoísmo.
  1. A partir do século 15, paralelamente à literatura escrita em chinês, desenvolveu-se uma literatura vietnamita própria, com a escrita Nom, derivada dos caracteres chineses, mas fundada na linguagem popular comum. Essa literatura Nom atingiu seu apogeu no século 19, tornando-se predominante, embora coexistindo com a literatura escrita em chinês. Enquanto esta fosse utilizada principalmente para textos filosóficos e históricos, e para a poesia de inspiração acadêmica, a literatura Nom dedicava-se às novelas, contos e poesias de inspiração popular.
  1. A inter-penetração entre as duas escritas literárias foi crescente, fazendo com que a literatura Nom também se dedicasse, paulatinamente, a temas sociais e históricos. No final do século 18 e início do século 19, surgiu uma literatura de crítica à sociedade feudal e de expressão de sentimentos nacionalistas e patrióticos.
  1. A colonização francesa e a implantação do quoc-ngu (a escrita romanizada), levaram ao Vietnã a literatura ocidental e a difusão da imprensa e do jornalismo. Esses acontecimentos influenciaram fortemente o surgimento do romance em prosa, a renovação do teatro e o aparecimento de uma nova poesia, em geral inspirados nas riquezas da terra e nas contribuições estrangeiras.
  1. Nos anos 1920, surgem o romance realista, a poesia satírica e a poesia revolucionária, todos dando impulso a um teatro de cunho popular. É nesse período que aparece, também, uma literatura escrita em francês. A literatura vietnamita ganha um cunho cada vez mais político, como contraponto aos autores que apoiavam a administração colonial. Poemas, novelas, contos e romances, exprimindo a repulsa aos casamentos forçados, liberdade amorosa e vida menos sofrida marcaram quase toda a literatura vietnamita dos anos 1930 e 1940.
  1. Nos anos posteriores à independência de 1945, a literatura vietnamita, tanto em prosa quanto em verso, viu-se fortemente influenciada pelas lutas e guerras de libertação, seja pelas dificuldades para a criação literária, seja pela temática fundamentalmente política e revolucionária. Um exemplo clássico da literatura da época é o Diário da Prisão, publicado pela primeira vez em 1960, mas escrito por Ho Chi Min, entre 1942 e 1943, quando foi encarcerado pela polícia chinesa de Chiang Kaishek.
  1. A partir de 1975, quando terminou a guerra e foi alcançada a reunificação do país, a literatura de memórias tornou-se a principal vertente dos escritos vietnamitas. Mas, a partir de 1986 isso vem sendo suplantado por uma literatura de horizontes mais largos. Primeiro, porque a publicação de livros pode ser resolvida diretamente entre autores e editores, sem interferência ou subsídios estatais. Segundo, porque não há qualquer temor no tratamento de assuntos considerados tabus até pouco tempo atrás, como as perdas na guerra e os aspectos negativos da construção socialista.
  1. Alguns livros tornaram-se fenômenos de venda no Vietnã atual, principalmente aqueles que tratam das tragédias e do preço pago à guerra, e das conseqüências do pós-guerra, como Bao Ninh (A tristeza da guerra), Duong Huong (Nenhum marido no cais) e Nguyen Huy Thiep (O general reformado). Outros fenômenos de público são novelas e contos que tratam da corrupção, desfalques e ações imorais, ou do faccionalismo e dos conflitos de clãs, ainda presentes nas áreas rurais, a exemplo da obra de Nguyen Krac Truong, A Terra apinhada de gente e de fantasmas.

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