Um olhar sobre a Índia

WPO | LIV | “Um olhar sobre a Índia”. In: Mila Frati (org.) Curso de formação em política internacional. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, p. 108-125, 2007.

 

 

  1. PRELIMINARES

 

  1. Os antigos territórios indianos incluíam, além da atual Índia, com 3,2 milhões de km², o Paquistão, com 796 mil km², a noroeste, Bangladesh, com 144 mil km2, a nordeste, e Sri Lanka, com 66 mil km², ao sul. Nesses territórios, há vestígios de povoamento humano desde o período Paleolítico (há 100 mil anos). Mas datam de 5 mil anos (3000 a.C.) as primeiras povoações conhecidas, no Vale do Indo, que tinham por base a agricultura de cereais.
  2. Nos 1.500 anos posteriores, essas aglomerações se transformaram em cidades-Estado, comandadas por reis (rajás²) ou grandes reis (marajás), configurando-se como culturas ou civilizações próprias. Suas características comuns eram as edificações de ladrilhos, os trabalhos com metais (exceto o ferro), as canalizações urbanas e rurais (estas para irrigação), as embarcações e o comércio fluvial, a escrita e as representações religiosas antropomórficas (shiva) e animistas (fauna local). A história conhece essas populações do vale do Indo, dispersas por suas cidades-Estado, como drávidas.
  3. Por volta de 1.500 a.C. teve início a penetração de populações ariana[1]s, em migração da Ásia Central. Eram tribos de língua indo-européia, dotadas de carros de guerra puxados por cavalos, e armadas com arco-e-flecha, armadura e escudo. Com essa superioridade militar, impuseram-se aos drávidas, no vale do Indo, e estenderam-se para leste, pelo vale do Ganges. Por volta de 600 a.C., haviam se estabelecido em quase todo o vale do Indo, restando apenas algumas cidades-Estado sob domínio dravídico no golfo de Cambaia.
  4. Os arianos impuseram sua estrutura econômica, social e política, assim como sua religião védica. As terras foram repartidas entre os guerreiros (chatrias), os sacerdotes (brâmanes) e os camponeses arianos livres (vaisia) para cultivo e para criação dos rebanhos bovinos e ovinos. Os camponeses servos e mestiços (sudras) trabalhavam as terras para os guerreiros e os brâmanes. Ao mesmo tempo, permitiram a existência de pessoas totalmente desprovidas de meios de trabalho (os párias).
  5. Essa estrutura foi consolidada no Código de Manu, entre 600 a.C e 250 a.C., ao mesmo tempo em que era sancionada pela religião Veda como regime de castas, que impedia qualquer deslocamento social entre elas. Mas foi nesse período (540 a.C. a 468 a.C.), que a religião Veda sofreu seu primeiro choque, ao surgirem duas novas vertentes religiosas, o budismo e o jainismo, o que a obrigou a uma profunda revisão, que se consolidou, mais tarde, no hinduísmo. Ao mesmo tempo, os territórios arianos foram invadidos por povos ocidentais.
  6. A Índia ariana era formada por diversas cidades-Estado ou reinos, que travavam guerras entre si. Não conseguiram, pois, impedir que os persas, comandados por Ciro, penetrassem fundo no noroeste da Índia, em 312 a.C. Dario I ampliou as conquistas de Ciro, transformando essa região (que hoje faz parte do norte do Paquistão) em satrapias. Entre 327 a.C. e 325 a.C., o macedônio Alexandre, o Grande, derrotou os persas, transformou suas satrapias em satrapias gregas, e tentou atravessar a Índia, rumo ao Pacífico, mas foi impedido pela forte resistência dos reinos arianos restantes.
  7. Em 321 a.C. ocorreu a primeira tentativa de unificação monárquica, feita pelo rei Chandragupta, de Magadha, no nordeste. Ele rechaçou as tentativas de Seleuco I (antigo general de Alexandre), fundou a dinastia Maurya, mas não chega a dominar todo o território. Isso quase será realizado por Asoka, seu neto, entre 272 e 231 a.C., com capital em Pataliputra. Apenas Pandia, Cola e Kerala, ao sul, onde os romanos haviam estabelecido os portos de Produke, Kolxoi e Muziris, permaneceram fora de seus domínios. A conquista de Kalinga, área litorânea ao sul de Maghada, foi realizada ao custo de 100 mil mortos e 150 mil deportados, levando Asoka a converter-se ao budismo e pregar a tolerância religiosa.
  8. À morte de Asoka, em 231 a.C., seguiu-se nova divisão, a sucessão da dinastia Maurya pela Sunga, o estabelecimento de pequenos reinos gregos no Punjab (noroeste) e as invasões escitas (sakas, povo originário da Ásia Central) e dos yue chi (nômades indo-europeus), a fundação do reino de Kusana em toda a região noroeste, da dinastia Satavahana na região central (Decão) e do Estado Ksatrapa na região ocidental (foz do Indo e vale do Narbada).
  9. O estabelecimento da dinastia Gupta, em 320 d.C., com sede em Pataliputra, procurou reaver a hegemonia perdida com a morte de Asoka, mas não conseguiu deter as constantes invasões pelas fronteiras noroeste (atual Caxemira). Hunos brancos, sassânidas e mercenários turcos e árabes (muçulmanos) sucedem-se entre os anos 400 e 1.030 d.C. Os muçulmanos penetraram profundamente no território, fundam o sultanato de Délhi, em 1206, e mantiveram seu domínio sobre a maior parte da Índia.
  10. Os muçulmanos implantaram um despotismo teocrático-militar, com base no islamismo. Aniquilaram o budismo, destruindo templos, monastérios e manuscritos. E exigiram que os hinduístas pagassem tributos para praticar sua religião. Como sua principal preocupação era a extração dos tributos, estipularam um sistema fiscal que aumentava a riqueza mediante a expansão da produção (tecidos, especiarias, açúcar), mas garantia que parte dessa riqueza fosse transferida para a sede do império árabe. Com isso, incrementaram o comércio com o mundo islâmico ocidental, mas aumentaram os problemas financeiros do sultanato.
  11. Os muçulmanos doavam, temporariamente, os domínios feudais a altos funcionários ou guerreiros turcos, árabes, indianos e mongóis, não se importando em constituir uma nobreza feudal hereditária. Apesar das constantes disputas pelo trono, o sultanato de Délhi conseguiu estender seu domínio ao Decão e rechaçar as invasões mongóis, que se mantiveram no reino Bahmani por quase 180 anos (1347 a 1527).
  12. A extensão do domínio muçulmano ao Decão coincidiu com grave crise financeira do sultanato e com o início de sua decadência. Em 1340, os indianos fundaram o reino de Vijayanagar (cidade da vitória), ao sul do Decão, convertendo-o no principal centro de resistência ao domínio islâmico, ao estender-se às custas do reino Bahamani e dos desmembramentos do Decão. Em 1388, o imperador mongol Timur Lenk (Tamerlão) invadiu o norte da Índia e destruiu Délhi, anexando o Punjab a seu domínio.
  13. Em 1504, os mongóis criaram o Império do Grão-Mogol, conquistando Agra, os rajputs de Khanua e o norte da Índia. Em 1601, haviam ocupado toda a Índia. Durante seu domínio, incentivaram o casamento dos nobres mongóis com princesas indianas, suprimiram o regime fiscal dos árabes, implantaram uma burocracia centralizada, com a participação dos hindus, proibiram os suicídios rituais e publicaram um édito de tolerância religiosa, mesmo tendo implantado o culto ao deus Sol. O luxo cortesão desmedido, os altos tributos exigidos dos camponeses, os conflitos em relação ao trono e a chegada da primeira onda colonial européia, aceleraram o declínio do império mongol.
  14. Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calcutá, na costa sudoeste. Entre 1505 e 1515 Portugal criou os primeiros elos do império português, estabelecendo feitorias em Goa, Ceilão e Diu. Retiravam ouro, diamantes, salitre, corantes, café, açúcar, pimenta, canela, algodão, lã, tecidos e ópio, através de suas companhias mercantis. Em 1612, a Inglaterra também definiu sua política colonial, participando na expansão marítima, na pilhagem dos novos territórios, na guerra contra seus concorrentes e no comércio mundial, através da Companhia das Índias Orientais. Derrotou os portugueses na batalha de Surat, em 1614, e ocupou Madras, em 1639, Bombaim (atual Mumbai), em 1661, e Calcutá, em 1696. A França, por sua vez, também organizou uma Companhia das Índias Orientais, em 1644, e fundou feitorias em Chandernagore e Pondicherry, no litoral oriental da Índia.
  15. O Império Grão-Mogol alcançou o auge de sua expansão territorial em 1691, em meio a disputas internas, emolduradas por conflitos religiosos. Aurengzeb, o último grão-mogol importante, tentou impor os rituais islâmicos sunitas e restaurar a jizya, os impostos discriminatórios. Perseguiu xiitas e hinduístas e destruiu seus templos, levando à revolta sikh e dos estados vassalos do Rajput, e à organização militar dos maratas, para defender o hinduísmo. Em 1765, a Índia se livrou dos imperadores mongóis, mas permaneceu um mosaico de pequenos e grandes reinos, comandados por príncipes (rajás e marajás), além de parcelas do território ocupadas por europeus. A sociedade de castas continuava intocada, enquanto os príncipes hindus permaneciam em conflito, sob o manto do hinduísmo e do islamismo.
  16. A Companhia das Índias Orientais inglesa interveio nas disputas entre os príncipes hindus, com o apoio militar da metrópole, para assegurar o domínio comercial, obter privilégios tributários e o controle político e implantar o domínio britânico. Entre 1757 e 1803, conquistou Bengala, Audh, Bihar e o Ceilão, desbaratou a Liga dos Maratas, desarmou o nizan (alta autoridade) de Heiderabad e avassalou o reino de Mysore, seus três principais inimigos. Finalmente, conquistou Délhi, Agra e Bengala meridional e, em 1814, tornou o Nepal parte do Império Britânico, transformando os gurkas em guerreiros auxiliares para o domínio sobre a Índia e para as guerras em outras partes do mundo.
  17. A partir de 1817, em nova guerra contra os maratas e os rajputs, a Inglaterra anexou a seu domínio os principados carentes de herdeiros e os territórios limítrofes. O Tenasserin, o Arakan e o Assam, pertencentes à Birmânia, foram incorporados em 1826. A guerra para conquistar o Afeganistão, entre 1839 e 1842, fracassou. O Punjab foi anexado em 1849, a Baixa Birmânia em 1852, o Butão em 1865, o Beluquistão em 1876, o restante do território birmanês em 1886, e o Sikim em 1890. Em 1904, após uma sangrenta expedição militar a Lhasa, a Inglaterra garantiu privilégios comerciais no Tibete.
  18. Desde 1858, após a vitória inglesa sobre os cipaios (tropas indianas), com a ajuda de tropas gurkas e sikhs, e a dissolução da Companhia das Índias Orientais, a Índia foi convertida em Domínio Britânico, sob um vice-rei. Em 1876, a rainha Vitória incorporou a seu título o de imperatriz da Índia.

 

  1. AS CORRENTES RELIGIOSAS INDIANAS

 

  1. Os Veda, conjunto de livros sagrados (sânscritos), constituem o primeiro escrito em língua indo-européia. O Rigveda, constituído de 1.028 hinos, é do ano 1000 a.C. Eles codificam os deuses, a doutrina, os ritos, os sacrifícios, a estrutura de castas e a exegese védica.
  2. Veda significa saber ou sabedoria sagrada. Seu núcleo doutrinário é a ioga, ou o desejo de libertação mediante a fusão com a realidade suprema. Entre as deusas védicas encontram-se Rita (a verdade, força universal de caráter impessoal), Varuna (deusa dos juramentos), Mitra (deusa dos contratos), Ushas (deusa da aurora), Agni (deusa do fogo), Surya (deusa do Sol), Indra (deusa da guerra). A exegese dos Veda é exclusividade dos sacerdotes (brâmanes).
  3. Hinduísmo foi uma denominação imposta pelos muçulmanos aos védicos. Mas estes, após o surgimento do budismo e do jainismo, fizeram uma revisão. Aceitaram o hinduísmo, apresentando-o como continuidade da Sanâtama Daarma, lei cósmica universal, equilíbrio instável entre deuses e demônios, e acrescentaram a transmigração budista à doutrina, rituais e sacrifícios védicos, tornando o hinduísmo a religião e a cultura predominantes.
  4. A doutrina da transmigração, ou da renúncia, justifica a ordem existente em função dos méritos e dos erros das vidas anteriores. A partir dessa visão, para alcançar a libertação (mocsa), como renunciantes (sannyasin), os hindus devem pagar suas dívidas aos deuses e ancestrais, primeiro como estudantes (brhmacarya) e depois como senhores da casa (grihastha).
  5. O budismo surgiu em 600 a.C., como reação ao bramanismo védico. Gautama Buda (o Iluminado), um chatria, pregava a libertação das reencarnações mediante o auto-aperfeiçoamento. Os aspectos essenciais do budismo consistem no reconhecimento da existência humana como um sofrimento, do desejo como a causa (carma) desse sofrimento, e da necessidade de suprimir o carma para ser libertado, através do caminho, ou iluminação, que leva ao nirvana (extinção), como propósito da vida.
  6. Após a morte de Buda, o budismo dividiu-se em seitas e escolas. Durante o reinado de Asoka, tornou-se uma religião com vocação universal, expandindo-se por meio de missionários. Porém, em vez de unificar-se em torno de uma doutrina e uma igreja comuns, transformou-se num agregado ainda maior de seitas, que se distinguem pelas interpretações em torno do pequeno veículo tradicional (hinaiana), do grande veículo reformado (mahayana) e de outros pontos doutrinários. Após um apogeu, por volta de 4 d.C. e 5 d.C., o budismo sofreu na Índia o ataque conjugado do hinduísmo reformado e do islamismo dominador, mediante perseguições e destruição de seus templos.
  7. Vardhamana, ou Mahavira (Alma Grande), ou Jaina (o Vitorioso), também surgido em 600 a.C., pregava que o sofrimento terreno é conseqüência da fusão do espírito (jiva). Como o budismo, colocava-se contra o bramanismo e buscava libertar o ser humano dos sofrimentos inerentes à existência. Tal libertação só seria possível com a separação de espírito e matéria, através da mortificação. Isto inclui o ascetismo, a maceração e o jejum, até a morte. Seu núcleo doutrinário consiste na negação de himsa (a violência) e na ahimsa (não fazer mal a criatura alguma). O jainismo seguiu uma trajetória idêntica à do budismo, dividindo-se em ramos (os shvetambara, ou vestidos de branco, e os digambara, ou vestidos de espaço, ou nus) e seitas diversas.
  8. O islã penetrou na Índia através das invasões turcas, árabes, persas, afegãs e mongóis, iniciadas em 711 d.C. Seu dogma principal é a existência de Deus (Alá) como criador do universo, ser supremo único, perfeito, e juiz de todos os homens. Reitera o monoteísmo judaico e cristão. Mas, ao contrário destes, coloca o crente em relação direta com Deus, mediante os cinco atos essenciais que cada um deve praticar: a profissão de fé (Chahada), as abluções diárias na direção de Meca (Salat), o jejum durante o Ramadã, a peregrinação à Meca (hadjdj), pelo menos uma vez na vida, e o pagamento da esmola legal (zakat).
  9. Embora não exista um clero para colocar os crentes em relação com Alá, o Islã possui os homens da lei (mufti, ou intérpretes das questões jurídicas), e os juizes (qadis ou cádis, que velam pela interpretação e aplicação do Corão). Formaram-se, assim, Estados muçulmanos, dirigidos por imãs ou califas, que administram o Estado e aplicam a lei corânica. A guerra santa (jihad) foi a base da expansão muçulmana na Índia, primeiro comandada pelos árabes, depois pelos omíadas, abássidas, turcos-otomanos e, finalmente, pelos mongóis.
  10. Nessas condições, o islamismo na Índia sempre esteve associado a uma forma de Estado, fosse sultanato (Délhi), reino (Bengala, Malva e Gujerat) ou império (Grão-Mogol), através do qual tentou destruir o hinduísmo e o budismo. Durante a dominação britânica, privados de Estado próprio, os muçulmanos voltaram a reivindicá-lo, no processo da independência, o que levou à criação do Paquistão e, depois, de Bangladesh.

 

  1. A POLÍTICA IMPERIALISTA BRITÂNICA
  2. 29. A transformação da Índia em colônia britânica está inserida na onda de expansão colonial da Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. As emergentes potências industriais buscavam novas fontes de matérias-primas minerais e agrícolas para sua produção e novos mercados para seus produtos. Já não se tratava mais de descobrir novos territórios. Tratava-se de realizar uma nova divisão territorial, tendo por base as demandas das indústrias.
  3. A Inglaterra perdera os Estados Unidos, em 1776, e seus privilégios comerciais na América Latina eram contestados. Nas “colônias brancas”, como Nova Zelândia e Austrália, surgiam movimentos autonomistas. De traficante negreira, a Inglaterra transformara-se em defensora do fim do tráfico e da escravidão. Pressionada pelo incremento populacional, pela expansão urbana, pelo êxodo rural e pela concorrência industrial de franceses, alemães, japoneses e norte-americanos, era levada a encontrar novos mercados para os quais direcionar seus migrantes e seus produtos, e de onde arrancar suas matérias-primas, assegurando ainda as vias de tráfego marítimo para seu comércio internacional.
  4. Com base em sua nova política colonial, de 1812, a Inglaterra lançou-se à conquista de territórios: Colônia do Cabo em 1814, Cingapura em 1819, ilhas Malvinas em 1833, Áden em 1839, Hong Kong em 1841, Natal e Estado de Orange entre 1848 e 1954, Transvaal em 1852, Canal de Suez em 1875, Chipre em 1878, Egito em 1882. Em 1880, a Grã-Bretanha controlava 46% do comércio mundial. E em 1914, início de sua decadência, a população de suas colônias era 8 vezes superior à população da metrópole, enquanto a superfície desta era 94 vezes inferior ao império colonial. O Império Britânico conseguira reunir sob sua coroa 23% da população mundial e 20% da superfície do planeta.
  5. Empreendimento desse vulto necessitava de justificação ideológica que revestisse os interesses imperialistas com uma roupagem menos vulgar. O dever puritanista de fomentar a civilização transformou-se em missão. O escritor inglês Thomas Carlyle estabeleceu as bases ideológicas da Inglaterra como nação predestinada a cumprir tal missão em escala universal. O ministro Charles Dilk criou a imagem de um “mundo cada vez mais inglês”. E Rudyard Kipling exprimiu literariamente o “dever do homem branco” e a missão britânica.
  6. À medida que a Inglaterra colonizava a Índia, firmava posição na China e ocupava outros territórios, viu-se às voltas com as potências industriais, inclusive no continente europeu. Os movimentos de poder na Europa a sacudiram durante todo o século XIX. As guerras napoleônicas se estenderam até 1815. As restaurações da contra-reforma, as revoluções liberais e as insurreições operárias foram de 1815 e 1872. A proclamação do Segundo Reich e a política de Otto von Bismarck intensificaram a perspectiva de uma nova guerra européia. No início do século XX, dois blocos de potências estavam em oposição: de um lado, Alemanha e Áustria-Hungria; de outro, Inglaterra, França e Rússia (a Entente Cordial, uma aliança entre nações européias).
  7. A Inglaterra sempre procurou a hegemonia sobre as demais potências imperialistas. Primeiro, expandindo-se sobre áreas ainda “livres” ou “abertas”. Segundo, com uma política armamentista que assegurasse sua supremacia naval. Terceiro, consolidando-se como Império. Para isso, abandonou a política de câmbio livre e criou uma confederação imperial das “colônias brancas”, unidas pela língua, pelos privilégios econômicos e pela Coroa. Austrália, Nova Zelândia, Terranova e União Sul-Africana ganharam status de domínio. Em 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, o império britânico era constituído pela metrópole (Inglaterra) e por domínios, protetorados e colônias.

 

  1. O DOMÍNIO BRITÂNICO NA ÍNDIA

 

  1. O domínio sobre a Índia combinou administração direta sobre certas regiões com protetorado sobre outras. Na administração direta, não era admitida qualquer participação dos hindus. O Serviço Civil era totalmente ocupado por ingleses. Nos protetorados, como Nepal, Butão e Sikim, a administração era realizada pelos nativos, embora devessem solicitar autorização aos ingleses para qualquer passo.
  2. Os ingleses inundaram a Índia com seus produtos industriais, causando a liquidação da economia rural autárquica, até então predominante. Por outro lado, a introdução de grandes plantations de algodão, chá, juta, índigo e papoula, com capitais britânicos, desapropriou das atividades agrícolas parte importante dos camponeses, obrigando-os a migrar para as cidades em busca de trabalho. Isso agravou os problemas da superpopulação e da urbanização, gerando um imenso e miserável processo de favelização.
  3. Ao mesmo tempo, para a comercialização dos produtos importados da metrópole e a exportação dos produtos agrícolas e minerais produzidos na colônia, os britânicos instalaram uma rede ferroviária, até então inexistente, e modernizaram os portos. Também introduziram novos sistemas de irrigação nas plantations, embora deixando abandonados os sistemas de irrigação das zonas de predomínio de culturas de pouco interesse comercial.
  4. Os britânicos também implantaram seu sistema de ensino, marginalizando a cultura e as línguas indianas. Ao mesmo tempo, porém, estimularam a formação de uma elite cultural indiana em seus colégios e universidades. Pretendia que essa elite se europeizasse e colaborasse com o “processo civilizatório” inglês. Mas o domínio britânico produziu um continuo descontentamento. Além da resistência dos maratas e rajputs, com insurreições e ataques aos britânicos, a elite cultural que os ingleses pensavam europeizar seguiu outro caminho. Entrou em contato com as idéias nacionalistas, liberais e socialistas em ebulição na Europa e foi incentivada a participar da resistência e da luta contra o domínio britânico. Surgiram núcleos nacionalistas conspirativos em Londres, Paris e outras cidades da Europa.
  5. Em 1885 foi fundado o Congresso Nacional Indiano (Partido do Congresso), que lutava pela participação na administração do país, pela outorga de direitos eleitorais e pela admissão de hindus no Serviço Civil. O êxodo de camponeses sem posses para as cidades, as epidemias de 1896-1897 e a vitória do Japão sobre a Rússia em 1905 reforçaram o Partido do Congresso e incentivaram os boicotes aos produtos têxteis britânicos, a realização de atentados terroristas por nacionalistas extremados, e a fundação da Liga Muçulmana como porta-voz da minoria islâmica.
  6. A eclosão da Primeira Guerra Mundial não envolveu diretamente a Índia, mas repercutiu profundamente na Índia. O fracasso da Sociedade das Nações (um tipo de Organizações da Nações Unidas daquele período), o fortalecimento da consciência nacional e do princípio de autodeterminação dos povos, as controvérsias sobre os tratados de paz, as dificuldades para a recuperação econômica européia e mundial, a crise da democracia liberal, a revolução russa e a emergência do primeiro Estado socialista, a emergência de movimentos operários e de partidos comunistas em grande número de países, inclusive coloniais, colocaram em crise a supremacia européia no mundo – e portanto a inglesa.
  7. Em 1916, hindus e muçulmanos assinaram o Pacto de Lucknow, exigindo a autonomia do país. Contínuos levantes populares culminaram, em abril de 1919, no massacre de Amritsar. Tropas britânicas chacinaram mais de mil indianos desarmados. Os protestos posteriores levaram os ingleses a realizar, em dezembro, a reforma Montagu-Chelmsford, prevendo a divisão de poderes entre o governo central e as províncias (diarquia), que deveria conferir a hindus os ministérios da agricultura, da indústria, da educação e da saúde, enquanto os ingleses manteriam sob seu controle a polícia, os impostos diretos e a defesa.
  8. Foi neste momento que a pregação de Mohandas Gandhi, o mahatma (magnânimo), com sua luta pela independência (swaraj), baseada na verdade ideal (satya), na não-violência (ahimtsa) e na purificação pelo amor ao próximo (brahmajarya), alguns dos preceitos da tradição religiosa hindu, mobilizou grandes contingentes da população. Boicotaram a compra do sal e alastram a resistência passiva (satyagraja), ou desobediência civil. Os britânicos condenaram Gandhi a seis anos de prisão, em 1920, e implantaram um governo ditatorial. Não conseguiram, porém, deter mobilização popular. Viram-se obrigados a indultar Gandhi em 1924, ao mesmo tempo em que o Partido do Congresso, influenciado pelo movimento de Gandhi, avança em suas reivindicações, exigindo o status de domínio.
  9. Diante da não-concretização da diarquia, em 1926 o Partido do Congresso aceitou a proposta de Constituição de Motilal Nehru e deu um ultimato para que a Grã-Bretanha concedesse o status de domínio em um ano. Mas Gandhi avançava suas reivindicações. Exigia independência, reformas econômicas contra os monopólios britânicos e melhoria das condições de vida dos 60 milhões de párias (intocáveis). Em 1930, na segunda Campanha de Resistência Passiva, Gandhi e 60 mil nacionalistas foram presos, mas os ingleses tiveram que fazer um acordo, comprometendo-se a liberar os presos e iniciar, em Londres, as mesas- redondas para discutir a independência. Em troca, a desobediência civil seria paralisada.
  10. Nas mesas-edondas, porém, os ingleses não fizeram concessões. Em razão disso, a desobediência civil foi retornada em 1932, levando os ingleses a instaurar a diarquia, em 1935, mantendo sob seu controle apenas os ministérios do Exterior e o da Guerra. Os demais deveriam ser indicados pela Assembléia Legislativa. As províncias ganharam autonomia, mas o vice-rei e os governadores mantiveram o poder de decretar medidas extraordinárias. Durante as eleições de 1937, o Partido do Congresso obteve a maioria em 6 das 11 províncias, entrando em vigor a nova Constituição. A Birmânia foi separada da Índia e recebeu o status de colônia.
  11. A essa altura, os ares de uma nova guerra escureciam os céus mundiais. O Japão se armava aceleradamente e não escondia as pretensões de tomar para si todas as colônias situadas na Ásia. Desde 1931 praticava uma política de agressão e de expansão na China. Em 1936, aderiu ao Pacto Anti-Comintern, voltado para o ataque à União Soviética, e denunciou o Pacto de Washington, que limitava sua marinha de guerra. E, em 1937, tomando como pretexto um incidente entre tropas chinesas e japonesas na ponte Marco Pólo, em Pequim (Beijing), deu início à ofensiva para ocupar toda a China.
  12. A Inglaterra viu-se obrigada a fazer novas concessões aos indianos, tendo em conta o contexto internacional de uma nova conflagração mundial. Ao mesmo tempo em que, junto com a França, declarava guerra à Alemanha, em virtude da invasão à Polônia, na Índia o Azad Hind (Índia Livre) e seu ina (Indian National Army), dirigidos por Subhas Chandra Bose, defendiam a unidade com o Japão, contra os ingleses, Gandhi lançava sua terceira satyagraja, com o apoio de Jawaharlal Nehru, do Partido do Congresso, e a Liga Muçulmana, dirigida por Mohamed Ali Jinnah, apresentava seu Plano Paquistão, propugnando a criação de um Estado islâmico independente, separado da federação indiana.
  13. Além disso, a ofensiva japonesa dirigia-se em três direções. A primeira, para o sul, visando as Filipinas e as ilhas Holandesas (Indonésia). A segunda, para o oeste, visando Hong Kong, Indochina, Tailândia, Malásia e Birmânia, colocando-se portanto em condições de invadir a Índia. A terceira, para o leste, a fim de ocupar as ilhas da Oceania. O Japão chegou a exercer o domínio sobre 450 milhões de habitantes, contando com importantes fontes de matérias-primas asiáticas para suas indústrias.
  14. Diante disso, os ingleses negociaram a independência indiana e conseguiram que a Índia participasse de seu esforço de guerra. Tropas indianas realizaram operações bélicas junto com tropas inglesas e australianas, e as matérias-primas agrícolas e minerais indianas contribuíram para a produção das armas inglesas e norte-americanas. Em 1946, seguindo os acordos realizados, o governo inglês acertou a criação de uma Assembléia Constituinte e de um governo indiano de transição para a independência, proclamada em 1947.

 

  1. A ÍNDIA INDEPENDENTE

 

  1. A independência da Índia, em vez de dar lugar a festejos generalizados, desembocou em graves conflitos entre hinduístas e muçulmanos. A formação do Paquistão, pelas províncias de maioria muçulmana, levou a um massivo movimento migratório, a rebeliões raciais e religiosas e ao marasmo econômico. Sind e Beluquistão constituíram o Paquistão Ocidental. Já Bengala Oriental, a 1.700 km daquelas, formou o Paquistão Oriental. Os principados muçulmanos de Hiderabad e Caxemira questionaram a partição e foram anexados pela Índia. Em meio a esses conflitos, Gandhi foi assassinado, em 1948, por um hinduísta.
  2. Logo após a independência, o governo interino do primeiro-ministro e ministro do Exterior Jawaharlal Nehru elaborou a Constituição Republicana da União Hindu (Bharat). Esta dava uma nova organização político-administrativa para o país, com 27 estados federados (com governos e parlamentos próprios), seis territórios e um protetorado (Sikim). Nas eleições de 1951, o Partido do Congresso foi sufragado com 75% dos votos e manteve Nehru como primeiro-ministro.
  3. Os problemas mais graves da Índia eram a superpopulação, a fome e a pobreza. O governo Partido do Congresso adotou os planos qüinqüenais. Procurou fazer uma reforma agrária com doações voluntárias de terras. Nacionalizou os bancos, as companhias de seguros e a aviação. Procurou criar uma indústria pesada, com investimentos estrangeiros (siderúrgicas de Rourkela e Bhilai) e desenvolver a exploração de suas matérias-primas, ao mesmo tempo em que se esforçou para ampliar a educação e a cultura. No entanto, a renda nacional caiu e o aumento anual da população beirou 15 milhões de pessoas.
  4. O governo também procurou superar os tabus religiosos, como o das vacas sagradas e das castas, reduzir a ignorância e avançar no rumo de um Estado democrático. No entanto, quando os comunistas conquistaram eleitoralmente o governo do estado de Kerala, em 1958, o governo indiano não titubeou em dissolvê-lo à força. E foi impotente para controlar a natalidade excessiva, evitar as lutas religiosas e lingüísticas e prevenir-se contra as catástrofes naturais.
  5. Nesse período de polarização entre os Estados Unidos e a União Soviética (Guerra Fria), Nehru instituiu uma política exterior de “neutralidade dinâmica”, desempenhando papel de mediador nas crises mundiais. Em 1954, durante a visita do primeiro-ministro chinês, Zhu Enlai, à Índia, ambos proclamaram os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica – soberania, igualdade de direitos, não-interferência nos assuntos internos, aspirações pacíficas e aversão a qualquer agressão e intervenção externa -, mais tarde aceitos na Conferência dos Países Não-Alinhados, em Bandung, Indonésia.
  6. Apesar disso, a política da Índia em relação à Caxemira acirrou suas contradições com o Paquistão. Em 1947, tropas hindus participaram da insurreição contra o principado feudal e ocuparam quase toda a região, com exceção de Gilgit. Apesar de ser uma região de maioria muçulmana, foi anexada à Índia. O armistício proposto pela onu apenas confirmou a divisão da Caxemira, mantendo uma situação instável.
  7. A Índia também não reconhecia os reclamos da China contra a linha Mac Mahon, imposta pelos ingleses para demarcar as fronteiras setentrionais de seu Império, que avançara no território tibetano, sob a proteção da China desde o século XII. Em 1959, durante a insurreição de lamas tibetanos contra a reforma agrária e a proibição da servidão, a Índia permitiu a entrada de agentes estrangeiros na região, e deu guarida aos que seguiram o Dalai Lama, após a derrota. As tropas indianas foram empurradas para trás das antigas fronteiras, e os conflitos com a China prolongaram-se até 1962.
  8. Nesse mesmo período, a Índia anexou os territórios ocupados por Portugal (Goa e Diu) e as feitorias francesas (Pondicherry e Chandernagore). Nehru morreu em 1964, mas o Partido do Congresso continuou no poder até 1977. A antiga hegemonia do Partido do Congresso fora sendo corroída pelas dificuldades econômicas, pelo aumento dos antigos problemas que avassalavam o país (superpopulação, fome e pobreza) e pela multiplicação de conflitos regionais, étnicos e religiosos. Em 1984, a primeira-ministra Indira Gandhi, do Partido do Congresso, foi assassinada por um sikh de sua guarda pessoal.
  9. Em 1989, o Partido do Congresso foi derrotado pelo Partido Nacional, que agrupou em torno de si diversos partidos da oposição. Mas o governo do Partido Nacional não conseguiu livrar-se de graves conflitos na Caxemira, nem de violentas demonstrações contra a permissão do acesso das castas inferiores aos cargos públicos. Apesar da troca do primeiro-ministro, em fins de 1990, os distúrbios étnicos se alastraram a Assam, Hydebarad, Aligarth e Agra, e as negociações com os sikhs não tiveram sucesso.
  10. O ambiente conflituoso continuou nas eleições gerais de 1991. O principal dirigente do Partido do Congresso, Rajiv Gandhi, foi assassinado num atentado, que matou outras 16 pessoas. Vitorioso, o Partido do Congresso esforçou-se em continuar as reformas que vinha tentando implantar desde o governo de Indira, especialmente a abertura da economia ao capital estrangeiro e a privatização de empresas estatais. Mas isso o enfraqueceu e, em 1996, o levou à sua maior derrota desde que foi fundado.
  11. A vitória coube ao Partido Baratya Jamata, caracterizado como hinduísta e hostil aos muçulmanos e às demais religiões. Entretanto, o Jamata não conseguiu coligar-se a outros partidos para obter maioria, sendo substituído pela Frente Unida, uma coalizão de 14 pequenos partidos de esquerda e de centro-esquerda. A continuidade dos problemas sociais e políticos, assim como o envolvimento de um pequeno partido integrante da Frente Unida no assassinato de Rajiv Gandhi, conduziu a uma nova crise política e à convocação de novas eleições gerais, que marcaram o ressurgimento do Partido do Congresso, agora sob a direção de Sonia Gandhi, viúva de Rajiv.

 

  1. A LITERATURA INDIANA

 

  1. A literatura indiana, embora possua um fundo cultural comum, tem sua expressão nos quatro grandes grupos ou famílias lingüísticas do país: o indo-ariano, o dravídico, o sino-tibetano e a austro-asiático. As principais línguas indo-arianas são o híndi, o bengali e o urdu, que agrupam cerca de 70% da população. O grupo dravídico inclui o tâmil, o malaiala, o canará e o teéugo, abrangendo mais de 20% da população. O grupo sino-tibetano e o grupo austro-asiático (munda) abragem menos de 3%.
  2. As mais antigas obras literárias foram escritas em sânscrito. Elas remontam ao período védico, a elas ligando-se, mais tarde, os Brahmana, os Aranyaka e os Upanishads, de transição entre Veda e o hinduísmo (século VI a.C. a IV a.C.). A literatura hinduísta consolidou-se até o século X d.C., com o Mahabharata, o Ramayana, o Pancatranta, o Kama-Sutra, o Panini, o Bharata e uma grande diversidade de textos épicos, históricos, religiosos, poéticos, gramaticais, de dramaturgia e técnicos. O budismo e o paninismo também produziram obras em sânscrito. Ainda hoje ainda são produzidas em sânscrito pequenas epopéias, dramas teatrais e novelas.
  3. Os textos bengali mais antigos, os cantos carya, essencialmente religiosos, são posteriores ao século X d.C. Somente a partir do século XV surgiram obras de vulto, tanto biográficas como romances e poesias. A partir do século XVIII, já sob o domínio inglês, assistiu-se a um renascimento bengali, que teve em Rabindranath Tagore a sua expressão máxima.
  4. A literatura híndi também é posterior ao século X d.C. Durante seu desenvolvimento histórico, ela produziu as narrativas de guerra, a poesia bhakti, o sufismo muçulmano, a retórica e a adaptação em prosa de obras sânscritas. A prosa híndi moderna apareceu no século XIX, estimulada pelo nacionalismo e pelas correntes filosóficas e literárias ocidentais, como o marxismo, o existencialismo e outras.
  5. A literatura malaiala é uma das mais difundidas na Índia, por sua variedade em prosa e verso. Ela surgiu entre os séculos XII e XIII, com o Ramacaritan, unindo o sânscrito e o malaiala e introduzindo na literatura de Kerala todas as figuras retóricas do Kavya. Atualmente é internacionalmente reconhecida, através de vários escritores contemporâneos.
  6. A literatura tâmil surgiu no início da era cristã, tendo sofrido a influência do sânscrito, da poesia da devoção (bhakit), dos poetas medievais profanos, do canto devoto popular (kisttanai), do islamismo e do catolicismo.
  7. A literatura télugo desenvolveu-se, a partir da música e do sânscrito, desde o século XI. As narrativas télugos em verso e prosa tiveram seu apogeu no século XVI, ao mesmo tempo em que as gramáticas e os dicionários consolidavam o idioma, no século XVIII. No século XIX, literatura télugo firmou-se como expressão moderna.

 

  1. A ÍNDIA ATUAL

 

  1. A Índia atual, ou Bharat no idioma híndi, tem seu território limitado pelo Mar de Omã, a oeste; pelo Paquistão, a noroeste; pela China, Nepal e Butão, ao norte; por Bangladesh e por Miamar, a nordeste; pelo Golfo de Bengala, a leste; e pelo Oceano Índico, a sul e sudoeste. Sua capital é Nova Délhi e suas línguas oficiais são o híndi e o inglês. Sua divisão político-administrativa inclui 24 estados e sete territórios. A forma de governo é a república federativa, e suas principais cidades são Mumbai (antiga Bombaim), Calcutá, Madras e Bangalore.
  2. A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com 1,1 bilhão de pessoas em 2003, devendo ultrapassar a China em poucos anos, apesar de possuir menos da metade do território daquela (3,2 milhões de km² contra 9,5 milhões de km²). Cerca de 25% dessa população concentram-se em pouco mais de uma dezena de centros urbanos com mais de um milhão de habitantes, enquanto os 75% restantes espalham-se por mais de 700 mil aldeias.
  3. Sua agricultura ocupa 60% da população, utilizando 160 milhões de hectares, ou 50% da superfície total. Oitenta pó cento dos agricultores, em áreas inferiores a dois hectares, produzem trigo, no vale do Ganges, e arroz, também no vale do Ganges, em Bengala e nas costas do Decão, como alimentos básicos da população. A produção anual desses cereais – cerca de 60 milhões de toneladas de trigo e 110 milhões de toneladas de arroz – não supriria as necessidades da população se esta tivesse um padrão alimentar superior ao atual.
  4. A agricultura comercial, herdada das plantations coloniais, inclui amendoim, algodão, juta, tabaco e chá, mas sua produção tem sido limitada pela fraca mecanização e pouco uso de fertilizantes. A Índia é o maior produtor mundial de chá. O país também possui o maior rebanho bovino do mundo (200 milhões de cabeças), mas a proteína animal é proveniente da pesca (3 milhões de toneladas por ano), porque a hinduísmo proíbe o consumo de carne bovina.
  5. A Índia também é rica em recursos naturais. Carvão, petróleo, bauxita, manganês, ferro e pedras são relativamente abundantes. O potencial hidrelétrico para a geração de eletricidade e complementado por centrais nucleares. Aproveitando-se de seu domínio da energia nuclear, a Índia tornou-se uma das poucas potências mundiais a construir um arsenal nuclear e uma indústria de fabricação de mísseis.
  6. A indústria siderúrgica indiana produz cerca de 80 milhões de toneladas por ano, complementada pelas indústrias metalúrgica, têxtil e química, além de uma diversificada indústria de bens de consumo cotidiano e uma florescente indústria eletrônica em alguns pontos do território. A indústria indiana emprega cerca de 25% da população ativa, mas não tem sido capaz de absorver a crescente migração da população rural para as grandes cidades.
  7. O comércio externo indiano é relativamente pequeno (apenas 10% do PIB – Produto Interno Bruto), orientado especialmente para os Estados Unidos, União Européia e Japão, tendo por base produtos primários (chá, juta, algodão) ou secundários de baixo valor agregado (tecidos). Suas importações abrangem matérias-primas, alimentos, semimanufaturados, manufaturados e bens de capital. Sua balança comercial inclui recursos provenientes do turismo externo e as remessas dos indianos emigrados.
  8. Parte dos emigrados indianos, com formação escolar superior, constituindo uma mão-de-obra altamente qualificada, representa uma das contradições da Índia moderna. Sua enorme população inclui uma elite relativamente numerosa (cerca de 15%, ou 150 milhões), com condições de estudar no exterior e obter altas qualificações culturais, científicas e técnicas. No entanto, parte dessa elite não encontra lugar no desenvolvimento da economia e da sociedade indianas, tornando-se mão-de-obra relativamente barata para as indústrias de altas tecnologias e de informática dos Estados Unidos e Europa.
  9. A adoção do programa Perspectiva 2020 levou a Índia, durante os anos 1990, a abrir-se aos capitais estrangeiros, realizar uma série de reformas econômicas (privatizações, redução dos investimentos públicos, flutuação do câmbio etc.) e adotar uma macroeconomia caracterizada por crescimento rápido, inflação baixa, reservas cambiais adequadas, baixo déficit fiscal e baixas taxas de juros. Suas taxas de crescimento chegaram a 8% anuais, devendo manter-se entre 7% e 8% nos próximos anos. Em 2005, seu PIB atingiu US$ 750 bilhões e suas reservas em moeda estrangeira chegaram a US$ 140 bilhões. Mas alguns problemas-chaves para o desenvolvimento, como infra-estrutura deficiente, principalmente nos setores de energia, finanças e transportes, permanecem como obstáculo.
  10. A estratificação social, religiosa e regional indiana continua: 80,3% da população é hinduísta, 11% islâmica, 3,8% cristã, 2% sikh, 0,7% budista, 0,5% jainista, havendo ainda outras religiões menores. Persistem, na prática, as diferenças de castas. Metade da população indiana vive num estado crônico de má nutrição. As taxas de mortalidade infantil e analfabetismo permanecem elevadas, e a renda per capita e a expectativa de vida ainda são baixas, colocando o país entre as 20 nações mais pobres do mundo. Cerca de 300 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.

 

BIBLIOGRAFIA

Para a bibliografia deste artigo, ver “Bibliografia Indicada” do artigo “Um olhar sobre a Ásia”.

 

[1] Jornalista e escritor, é membro do conselho de redação da revista Teoria & Debate, autor, entre outros, de Araguaia, o partido e a guerrilha, O enigma chinês – capitalismo ou socialismo, Lula lá – o susto das elites, A ilusão dos inocentes, Pedro Pomar – uma vida em vermelho e A revolução chinesa.

² Neste artigo, as palavras de origem híndi foram grafadas de duas formas: em itálico,quando não existe o termo dicionarizado em português, sem itálico, quando o termo em questão está dicionarizado. (N.E.)

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