Um olhar sobre a Ásia

WPO | LIV | “Um olhar sobre a Ásia”. In: Mila Frati (org.) Curso de formação em política internacional. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, p. 92-107, 2007.

 

 

  1. UMA LONGA HISTÓRIA
  1. A Ásia, considerada em geral um continente à parte, mas parcela oriental do continente Eurasiano, é o berço das mais antigas civilizações humanas. Entre elas se destacam as civilizações indiana e chinesa. Esta última é a mais antiga de todas, com cerca de 6 mil anos de história, 4 mil dos quais de história escrita. A região asiática é também o berço de povos que, em ondas sucessivas, se dirigiram ao oeste, conformando os povos que hoje vivem no subcontinente europeu. Assírios, godos, visigodos, hunos e mongóis chegaram até as praias ocidentais e deixaram suas marcas étnicas e culturais nessas regiões.
  2. A cultura milenar dos povos asiáticos, especialmente a filosofia, a religião, a arte militar e diferentes invenções técnicas, permanece ainda hoje influencinado a cultura mundial. A filosofia clássica chinesa, surgida no mesmo período da filosofia grega clássica, entre os séculos VI e IV a.C., tem como expoentes Confúcio, Mêncio e Lao-tsé. Relegada durante muito tempo como cultura apenas exótica, ainda é uma referência mundial importante. Por outro lado, o budismo, o hinduísmo e o taoísmo, através de suas diferentes seitas, têm ganhado terreno entre as religiões ocidentais. Sun Zu (século V a.C.) mestre militar e político cujo textos estão em parte reunidos em A arte da guerra, é estudado com atenção em diferentes países. Mahatma Gandhi, Mao Tse-tung, Ho Chi Min (líder revolucionário vietnamita) e outros líderes asiáticos são referências mundiais. E hoje não se pode mais esconder que a pólvora, a bússola, os tipos de impressão, o relógio mecânico, o leme, as velas triangulares e diversos outros inventos humanos vieram do Oriente.
  3. No século VI a.C., algumas regiões da Ásia alcançaram o apogeu do escravismo e ingressaram no feudalismo. E no século XV d.C., quando os feudais venceram sua disputa contra a classe dos mercadores na China, o feudalismo tornou-se a formação econômico-social predominante na maior parte dos reinos asiáticos, embora fosse possível encontrar populações vivendo no escravismo (a exemplo do Tibete e de vários reinos indianos), ou mesmo no comunismo primitivo (a exemplo de Papua Nova Guiné). Na China, no Vietnã e na Tailândia constituíram-se monarquias centralizadas já antes de nossa era. Porém, na Índia, no Japão, na Birmânia, no Camboja e em outras regiões essa centralização foi tardia, ou não chegou a ocorrer antes da chegada das naus européias do mercantilismo.
  4. De qualquer modo, a riqueza desses reinos, e a organização e suntuosidade de suas monarquias, era de tal ordem, muitas vezes deixando conviver feudalismo e escravismo, que Hegel supôs que a Ásia estava estagnada no tempo, e Marx acreditou na existência de um modo de produção asiático, diferente do escravismo e do feudalismo.
  5. Essa complexidade começou a ser desvendada, embora ainda de maneira enviesada e sob forte viés racista, no início da segunda onda de colonização européia, nos séculos VIII e XIX. O império britânico, o mais forte e o maior, havia submetido a Índia, a Birmânia, o Ceilão, a Malásia e alguns territórios chineses (Hong Kong e concessões continentais). O império francês tentou concessões na Índia, mas, derrotado pelos ingleses, conformou-se com a Indochina e concessões na China. O império alemão dominava várias ilhas na Micronésia e tinha como concessão a cidade de Qingdao, na China. O Império norte-americano possuía o Havaí e as Filipinas, enquanto o império russo se estendera pela Sibéria, pela Mongólia e em concessões no nordeste chinês. O império holandês dominava a Indonésia. Portugal mantinha suas antigas feitorias em Timor (ilhas do sudeste), Goa e Diu (Índia), e Macau (China). O emergente império nipônico dominava a Coréia e concessões na Manchúria (China).

 

  1. O SISTEMA DE DOMÍNIO COLONIAL CAPTALISTA DA ÁSIA
  1. O sistema de exploração colonial das potências capitalistas européias, a partir do final do século VIII e consolidado durante o século XIX, quando se consolidou, compreendia a extração de recursos minerais e agrícolas necessários às indústrias metropolitanas, a exploração de direitos alfandegários e concessões ferroviárias e portuárias, a transformação dos territórios dominados em mercados para os produtos industriais das metrópoles.
  2. Nesse período, a Índia tornou-se grande produtora de algodão, ópio, especiarias diversas e minérios; a Malásia e a Indochina passaram a produzir borracha; a China produzia algodão, especiarias e minérios; e o Japão, carente dessas riquezas, teve que abrir seus portos para o ingresso dos produtos industriais. Além disso, todos esses países ofereciam mão-de-obra imensa e barata para as grandes construções que as potências industriais realizavam no mundo. Suas alfândegas passaram a ser administradas pelos dominadores, assim como as ferrovias e portos internacionais. Inglaterra, França e Estados Unidos exportavam grandes volumes de tecidos e bens de consumo cotidiano para as regiões dominadas, a preços mais baratos do que os produtos artesanais locais.
  3. Em todos os países dominados, as potências capitalistas associaram-se às elites locais, em geral monarquias, como na Birmânia, na Malásia, na Indochina e na China. No Japão, associaram-se aos mercadores e a algumas famílias feudais. Na Índia, os dominadores britânicos associaram-se aos marajás e castas superiores, ao mesmo tempo em que incentivaram as disputas entre eles.
  4. Esse sistema de domínio teve conseqüências de diferentes tipos. Em alguns países, desorganizou setores produtivos inteiros, como aconteceu com a agricultura comunitária, na Índia, e com o artesanato em praticamente todos eles. Em outros, introduziu elementos do modo de produção capitalista de forma mais intensa, como ocorreu principalmente no Japão e, em certa escala, na China. Em todos, aumentou as cargas sobre os camponeses, intensificou a exploração sobre os trabalhadores e fez surgirem revoltas e movimentos nacionalistas espontâneos.
  5. No Japão, a pressão imperialista fez surgir um movimento de modernização conservadora, conhecido como Reforma Meiji, que transformou o país numa potência industrial, sem que fosse necessário destruir o feudalismo. Da mesma forma que a divisão feudal dividia a propriedade rural e o poder político e militar entre algumas famílias, o mesmo ocorreu com a propriedade industrial. Em todos os demais países asiáticos, as classes dominantes foram incapazes de realizar algo idêntico ao Japão, conformando-se com sua manutenção como monarquias auxiliares dos colonizadores estrangeiros.
  6. Assim, ao explodir a I Guerra Mundial, a Ásia encontrava-se dividida entre um grupo reduzido de grandes potências industriais e algumas potências de segunda classe. Com exceção do Japão, primeira potência asiática a vencer uma guerra contra um país europeu (a Rússia, em 1905) e, aliada dos ingleses, em 1914, a enviar uma esquadra para auxiliar as operações navais contra alemães, austro-húngaros e otomanos no mar Negro, todos os demais tinham seu futuro atrelado aos resultados dessa guerra global.
  7. A Primeira Guerra Mundial resultou numa nova configuração de poderes mundiais. Os impérios austro-húngaro, alemão e otomano foram destroçados. Os impérios britânico e francês, tiveram perdas enormes e saíram enfraquecidos. Os impérios norte-americano e japonês se fortaleceram e se firmaram como impérios emergentes. E o império russo naufragou numa revolução de novo tipo, que implantou uma união de repúblicas socialistas.
  8. Essa nova configuração causou uma redivisão no domínio colonial sobre a Ásia. Os impérios britânico e francês expandiram-se para a Mesopotâmia e Oriente Médio, o império nipônico ocupou as antigas possessões alemães, e os domínios holandês, português e norte-americano mantiveram-se inalterados.
  9. Por outro lado, emergiram os primeiros grandes movimentos anticolonialistas. Na Índia e na China, em 1919; na Indonésia, em 1926. Sua bandeira principal era o nacionalismo. Em alguns casos, isso surgiu associado à democratização da propriedade agrária, com o fim do sistema feudal, ou semifeudal, e da opressão sobre o campesinato. Em outros também se associou à reivindicação de democracia política e a movimentos anticapitalistas.
  10. Nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial, à nova re-divisão colonial e à eclosão dos movimentos nacionalistas e de outros tipos na Ásia, também o correram nos países capitalistas centrais movimentos importantes, entre os setores imperialistas dominantes.
  11. A Alemanha debatia-se em crise profunda, não suportando as indenizações e reparações impostas pelo Tratado de Versalhes, assinado em 1919. A república implantada não conseguiu consolidar-se, em virtude das forças militares que serviram ao império e aos grupos econômicos, terem se conservado intactas, e no comando da situação, principalmente após haverem derrotado a insurreição de 1919. No início dos anos 1930, o Partido Nacional- Socialista (nazista), com o apoio da grande burguesia, obteve maioria no parlamento e assumiu o poder. Para resolver a crise, os nazistas implantaram uma política econômica que tinha como carro-chefe o rearmamento, subordinado a uma estratégia de ampliação do espaço vital alemão no rumo leste, ou seja, da União Soviética. Sob uma retórica estritamente anti-bolchevista, a Alemanha proclamava sua disposição de realizar uma nova divisão global.
  12. Os Estados Unidos, potência mais jovem, embora houvessem colonizado o Havaí e as Filipinas, propunham uma política de divisão do mundo de natureza econômica, tendo como base o livre comércio e a competição comercial. Assim, defendiam portas abertas na China, na Índia e em outras regiões, e se esforçavam por manter o status quo em relação ao Japão. À medida que as pretensões nazistas e nipônicas ficavam claras, formaram-se dois grandes blocos internos, um defendendo o não-alinhamento a qualquer dos lados em disputa, outro defendendo que os Estados Unidos teriam que tomar partido contra o nazismo e o Japão. Em vários círculos firmara-se, além disso, a suposição de que o Japão avançaria sobre as zonas de influência dos Estados Unidos, o que obrigaria estes a confrontá-lo.
  13. O Japão, que também havia chegado tardiamente à industrialização e à divisão mundial capitalista, desenvolvera-se rapidamente após a Primeira Guerra Mundial. Seus círculos dirigentes concluíram, em 1927, que o desenvolvimento do país só seria possível se, ao mesmo tempo, se espraiasse por outros países, garantindo as matérias-primas e as rotas de abastecimento para suas indústrias. O memorando Tanaka, desse mesmo ano, delineou os planos de expansão japonesa na Ásia, estipulando a meta da hegemonia nessa região, começando pela ocupação da Manchúria e pela instalação de um governo títere, o que ocorreu em 1931. Os preparativos para a expansão japonesa continuaram nos anos seguintes, com o abandono da Liga das Nações, em 1933, a adesão ao Pacto Anti-Comintern, em 1936, e a ofensiva geral para a ocupação da China, em 1937.
  14. Esses movimentos imperialistas, por uma nova redivisão do mundo, polarizaram todas as ações, conduzindo a humanidade para uma guerra de proporções mundiais ainda mais vasta e profunda do que a guerra de 1914-1918. Em 1939 já havia se conformado uma estreita aliança entre a Alemanha Nazista, a Itália Fascista e o Japão, o chamado Eixo anti-Comintern, ou anticomunista. Porém, embora teoricamente o movimento dessas potências tivesse como objetivo a liquidação da União Soviética, sua expansão territorial real ocorria às expensas das potências ocidentais. Essa dicotomia agravou-se com a assinatura do Pacto de Não-Agressão entre a Alemanha e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), e chegou a um ponto crítico com a invasão da Polônia, em 1939, levando a Inglaterra e a França a declararem guerra à Alemanha.
  15. A URSS, por seu lado, esforçava-se para impedir um ataque pelos dois flancos extremos de seu território (da Alemanha, através da Ucrânia, no oeste; e do Japão, através da Sibéria, no oriente), ao mesmo tempo em que procurava ganhar tempo para reforçar-se militarmente. Suas negociações com a França e Inglaterra haviam fracassado até então. Para impedir que a Finlândia pró-fascista servisse de base de operações das forças alemãs pelo flanco noroeste, a URSS envolveu-se numa guerra de desgaste com aquele país, conseguindo em parte sua neutralidade. Quando a Alemanha atacou a Polônia, a URSS também movimentou suas tropas sobre os antigos territórios ucranianos cedidos à Polônia no tratado de paz de 1918, avançando suas linhas de defesa mais para o oeste.
  16. Na Ásia, os movimentos anticolonialistas ainda se encontravam divididos sobre quem seria o inimigo principal. Embora o Japão houvesse invadido a Manchúria, havia os que o enxergavam como aliado contra os colonialistas. Talvez por isso tenha sido na Ásia que o movimento imperialista em direção a uma nova guerra mundial se expandiu primeiro. A partir de 1936, o Japão acelerou a execução do plano Tanaka, aderiu ao Pacto AntiComintern, denunciou o Pacto de Washington, que limitava sua capacidade naval, e realizou sua ofensiva geral contra a China. Em 1938, decretou a mobilização geral para a guerra e expandiu as operações de suas tropas, tanto no sentido sul-sudoeste (Xangai, Hong Kong, Macau, Indochina) como no sentido leste (ilhas da Micronésia).

 

  1. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NA ÁSIA
  1. Em 1940, tanto a Europa quanto a Ásia estão envolvidas na Segunda Guerra Mundial. Na Ásia, o Japão mantinha seu empuxo nas direções sul-sudoeste (Indochina, Birmânia e Tailândia) e sul-sudeste (Malásia, Indonésia, Timor, Filipinas, Ceilão, Bornéu, Papua, Ilhas Molucas). Ao mesmo tempo, em 1941, reforçava sua aliança com a Alemanha e a Itália, mas assinava um Pacto de Não-Agressão com a URSS, apontando que iria dirigir seu ataque principal não a oeste, mas a leste, contra os Estados Unidos. O ataque à base norte-americana de Pearl Harbour ocorreu em dezembro de 1941.
  2. Paralelamente, o Japão empreendeu uma série de ações políticas com o intuito de superar suas fraquezas em recursos humanos, ampliar seus apoios nos países conquistados, dividir os movimentos de resistência e concentrar suas forças na luta contra o inimigo principal, os Estados Unidos. Procurou incentivar os movimentos anticolonialistas contra as potências ocidentais, implantou governos pró-Japão na Manchúria, na China e nas Filipinas, e prometeu reconhecer a independência da Birmânia (o que aconteceu em 1943), e da Indochina e da Indonésia (o que ocorreu em 1945).
  3. A Grã-Bretanha reagiu mal à ofensiva japonesa. Parte de suas tropas capitulou em vários pontos (Hong Kong, Birmânia etc.), e as demais retiraram-se para a Índia. Após esse recuo geral, os britânicos passaram à ação política, prometendo aos indianos autonomia e  independência depois do conflito. Nas outras colônias, então ocupadas pelos japoneses, os britânicos apoiaram os movimentos guerrilheiros de resistência, fornecendo-lhes armas e outros tipos de recursos materiais.
  4. A França, por seu turno, capitulou duplamente. Na Europa, diante das tropas nazistas, vendo-se dividida em duas: ao norte, incluindo Paris, sob ocupação das tropas nazistas e, ao sul, com capital em Vichy, sob um governo títere. Na Indochina, suas tropas também capitularam e, em função da colaboração com a Alemanha, colaboraram com o Japão.
  5. Em virtude do ataque japonês a Pearl Harbour, os Estados Unidos decidiram romper sua posição de neutralidade e entrar na guerra. Embora o palco principal de suas operações fosse o Pacífico e a guerra contra o Japão, os Estados Unidos passaram a fornecer recursos militares para a guerra contra a Alemanha na Europa, participando da aliança formada pela URSS, Inglaterra e França. Na Ásia, somente em 1942 os Estados Unidos conseguiram iniciar uma contra-ofensiva ao Japão, em três frentes.
  6. A resistência à invasão e à ocupação japonesas variou. Organizaram-se movimentos guerrilheiros, tanto de ideologia nacionalista quanto comunista, às vezes constituindo frentes únicas (como no Vietnã), outras vezes não (como na Tailândia). Na China, o movimento de resistência tomou o caráter de uma frente única nacional. Na Índia, não atacada pelas tropas nipônicas, chegou a ser formado um exército pró-japonês, que foi desbaratado. As tropas indianas participaram das operações militares da Inglaterra no norte da África e na Europa, mas não na Ásia.

 

  1. ÁSIA: SITUAÇÃO IMEDIATA NO PÓS-GUERRA – 1945-1950
  1. O surgimento de movimentos guerrilheiros nacionais relativamente fortes, a participação da URSS na guerra contra a Alemanha e, no final, também contra o Japão, a necessidade das potências coloniais de empunhar a bandeira da liberdade e da democracia para conquistar o apoio dos povos contra o Eixo, a derrota militar da Itália, da Alemanha e do Japão; tudo isso contribuiu para profundas mudanças na correlação de forças em cada país ou região da Ásia e tornou insustentável a continuidade do colonialismo.
  2. O Japão tornou-se um país ocupado por forças americanas, que lançaram duas bombas atômicas sobre cidades japonesas (Hiroshima e Nagasaki) para apressar o final da guerra e evitar que as tropas soviéticas também participassem de sua tomada. Os Estados Unidos deram início aos processos contra os criminosos de guerra nipônicos, elaboraram uma nova constituição para o país, realizaram a reforma agrária e iniciaram uma forte política de reconstrução econômica, já sob os ventos da Guerra Fria contra a União Soviética.
  3. A China, que resistira ao Japão com um exército unificado, incluindo as tropas comunistas, mergulhou num duro processo de negociações de paz, entre 1945 e 1947. Porém, ao mesmo tempo em que tais negociações ocorriam, as forças militares norte-americanas supriam apoio logístico aos 8 milhões de homens das tropas do Guomindang², para que se posicionassem estrategicamente com o fim de derrotar os 3 milhões das tropas comunistas, numa nova guerra civil. Ao mesmo tempo, a União Soviética pressionava os comunistas a aceitar o acordo proposto pelo Guomindang e pelos Estados Unidos, de modo a evitar o acirramento das suas disputas com os norte-americanos.
  4. O fracasso dessas negociações foi acompanhado, em 1947, pela ofensiva das tropas do Guomindang. As tropas comunistas, re-batizadas Exército Popular de Libertação – (EPL), realizaram retiradas, mas passaram paulatinamente à contra-ofensiva, sendo engrossadas por corpos de exército do Guomindang, que trocaram de lado. Em 1949, o EPL passou à ofensiva geral. As principais tropas remanescentes do Guomindang fugiram para Taiwan, sob proteção da 7ª Frota da Armada dos Estados Unidos, enquanto outras se embrenharam pelo Vietnã e Tailândia. A República Popular foi proclamada em 1º de outubro de 1949.
  5. Na Índia, em 1946, foram instalados a Assembléia Constituinte e um governo de transição. Ao mesmo tempo, em parte por pressão da Liga Muçulmana, os britânicos dividiram o antigo território imperial em Índia (de maioria hinduísta), Paquistão (Ocidental e Oriental, de maioria islâmica) e Birmânia. Essa divisão conduziu a migrações em massa e a choques sangrentos entre hinduístas e muçulmanos. Na Caxemira, os indianos estimularam uma insurreição contra o principado feudal da região, em 1947. E, a pretexto dela, realizaram uma intervenção militar na região, promovendo a primeira guerra contra o Paquistão. Apesar da condenação da ONU (Organização das Nações Unidas) e do cessar fogo de 1948, a Índia manteve sua ocupação de uma parte da região, que se tornou um dos principais pontos de atrito entre os dois países. Em meio a esses conflitos, em 1948, Mahatma Gandhi foi assassinado, e a Índia fez a anexação do principado muçulmano de Hiderabad. Em 1950, o parlamento indiano proclamou a Constituição da República da União Índia (Bharat).
  6. O Paquistão Ocidental, tendo como capital Islamabad, ficou a noroeste da Índia, na antiga região do vale do Indo. As migrações populacionais impuseram ao novo país uma série de crises e tensões, tanto de caráter religioso, quanto econômico e social. As disputas da população com os proprietários feudais tomaram muitas vezes a forma de rebeliões armadas, agravadas em grande medida pelas disputas com a Índia.
  7. O Paquistão Oriental ficou situado a 1.700 quilômetros do Paquistão Ocidental, na foz do rio Ganges. Ele enfrentou os mesmos problemas de crises e tensões, agravados pelas condições naturais mais adversas, e pela maior pobreza de sua população. Algum tempo depois, proclamou sua própria independência e passou a chamar-se Bangladesh.
  8. Pelo Acordo de Potsdam, a antiga colônia japonesa da Coréia foi dividida, em 1945, em duas zonas, uma ocupada pelos soviéticos e outra pelos norte-americanos, tendo como linha fronteiriça o paralelo 38. A reunificação deveria ocorrer através de eleições gerais realizada em ambos os lados. Ao norte, com base nas forças guerrilheiras que resistiram à ocupação japonesa, foram formados comitês de frente popular, que assumiram o governo de transição logo após o final da guerra. No sul, os norte-americanos mantiveram o governo militar até 1948, quando as tropas de ocupação da URSS e dos Estados Unidos foram retiradas. As eleições foram adiadas e formaram-se duas repúblicas. Em 1950, conflitos de fronteira entre o norte e o sul levaram o norte a invadir o sul, dando ensejo à intervenção da ONU e dos Estados Unidos.
  9. Na Indochina, a virada dos ventos da guerra mundial levou os japoneses a desarmar as tropas francesas, em 1945. Tendo construído fortes forças guerrilheiras antijaponesas, os vietnamitas e os cambojanos proclamaram a independência. No Camboja foi restabelecida a monarquia constitucional, e no Vietnã foi proclamada a república popular democrática. Logo depois, porém, tropas britânicas ocuparam Saigon e o sul do Vietnã, entregando a administração desses territórios às autoridades coloniais francesas. Numa ação para evitar a guerra, o Vietminh (Frente de Libertação Nacional do Vietnã) aceitou integrar a União Francesa, proposta repelida pela França, que pretendia retomar a Indochina como colônia. Em 1946, tropas francesas ocuparam o delta do rio Vermelho, dando início à primeira guerra da Indochina.
  10. Embora ainda permanecesse forte a tentação de manter a situação colonial na Ásia, principalmente por parte dos franceses, o fim do colonialismo era patente. Além dos acontecimentos de independência na Índia, no Paquistão, na China, no Camboja e no Vietnã, as Filipinas tiveram a independência em 1946, a Indonésia em 1950, a Malásia foi transformada em protetorado em 1948, a Tailândia teve seus territórios devolvidos, a Birmânia proclamou a independência em 1947 (seguida de uma guerra civil que se prolongou até 1954) e o Ceilão conquistou o estatuto de domínio em 1948.

 

  1. CONTEXTO MUNDIAL PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E INFLUÊNCIA NA ÁSIA
  1. A eclosão da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, logo após a Segunda Guerra Mundial, acirrada pela disputa em torno de Berlim, teve desdobramentos em todo o mundo. As duas maiores potências mundiais passaram a influir decisivamente nas ações dos demais países, procurando criar um ambiente no qual quem não estava de um lado estava do outro.
  2. A política norte-americana baseou-se na doutrina de quatro pontos do presidente Harry S. Truman, tornada pública em 1947. Ele proclamou a responsabilidade mundial dos Estados Unidos de salvaguardar todos os países contra o comunismo, prestar a eles ajuda econômica – e onde fosse ncessário -, militar ou intervir com suas próprias tropas. Com base nessa política, os Estados Unidos estabeleceram bases militares em várias partes do globo, impuseram o bloqueio econômico, político e militar à China, intervieram em todas as regiões onde se desenvolviam guerrilhas de inspiração comunista, socialista ou nacionalista, elaboraram e executaram os Planos Marshall (para a Europa) e Colombo (para a Ásia), e impuseram a vários países asiáticos a realização de reformas agrárias para tirar a base social de qualquer projeto de transformação social.
  3. A União Soviética, por seu turno, mais preocupada em sarar as feridas da guerra e recuperar sua economia, estimulou os movimentos pacifistas, procurou também prestar ajuda econômica aos novos países independentes, praticou ajuda militar a alguns movimentos de guerrilha e procurou exercer seu poder de veto, na ONU, para refrear em parte as ações militares dos Estados Unidos.
  4. Essa nova situação global influiu, em grande medida, no desenvolvimento da situação em cada um dos países asiáticos, mesmo daqueles que procuravam uma posição de neutralidade entre os dois campos.
  5. O Japão assinou um tratado militar com os Estados Unidos, em flagrante quebra dos acordos entre os aliados, no final da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, os Estados Unidos investiram pesadamente na recuperação industrial e comercial desse país, possibilitando a seu ex-inimigo transformar-se em potência econômica, num curto espaço de tempo. Aliando-se aos antigos grupos dirigentes do Japão, os Estados Unidos facilitaram que o Partido Liberal Democrático se tornasse o principal partido japonês, exercendo quase o monopólio da vida política daquele país. Desse modo, o Japão transformou-se num forte aliado dos Estados Unidos para conter a expansão do comunismo, em especial da China, na Ásia.
  6. A China sofreu, por parte dos Estados Unidos e da maioria das potências ocidentais, forte bloqueio econômico, comercial, diplomático e político. Recebeu pouco apoio material da União Soviética, ainda exausta pela Segunda Guerra Mundial. E foi obrigada a enviar cerca de 1 milhão de voluntários à Coréia, para impedir o avanço norte-americano sobre suas fronteiras no rio Yalu. Mesmo assim, conseguiu reconstruir sua economia. Em 1953, alcançou os níveis de pré-guerra. Até 1956, implantou a reforma agrária em quase todo o país. Entre 1953 e 1957, executou seu primeiro plano qüinqüenal de industrialização. E promulgou a Constituição da Nova Democracia em 1954.
  1. Na Índia pós-independência, o Partido do Congresso conquistou forte hegemonia, apesar da persistência de sérios conflitos religiosos e sociais. Numa dúplice política de manter neutralidade dinâmica entre os campos em disputa global e aproveitar-se dela, a Índia adotou o modelo soviético de planejamento, apresentando o seu primeiro plano qüinqüenal de industrialização em 1951. E, ao mesmo tempo em que estimulava a propriedade privada e os projetos capitalistas, interferiu na economia, inclusive nacionalizando ou estatizando pequenas unidades produtivas, através das quais era possível reduzir as dificuldades populares.
  2. A primeira guerra indochinesa, opondo o Vietminh aos franceses, prolongou-se de 1948 a 1954. Apesar dos reforços militares e do apoio militar dos Estados Unidos, a França não conseguiu derrotar o sistema de guerra popular desenvolvido pelo Vietminh, sendo finalmente derrotada na batalha de Dien Bien Phu. Teve que aceitar, a contragosto, participar da Conferência de Paz em Genebra, onde foi selada a paz, resultando na divisão da Indochina em três países independentes: Laos, Camboja e Vietnã. Por esse acordo, o Vietnã ficaria provisoriamente dividido em duas zonas, separadas pelo paralelo 13, com previsão de eleições para a reunificação do país em 1956. Antes desse prazo, porém, generais vietnamitas cooptados pelos Estados Unidos derrubaram o rei Bao Daí, mediante um golpe militar, e instauraram um governo ditatorial. As duas zonas tomaram, então, caminhos diferentes.
  3. No Vietnã do Norte foi instalada uma república popular democrática. Ela buscou ingressar na industrialização, principalmente com a ajuda da União Soviética e, secundariamente, da China. O modelo de construção econômica foi o soviético, com planejamento centralizado e investimentos em indústria pesada. Porém, as limitações do país impuseram atenção à agricultura e à produção de bens de consumo popular.
  4. No Vietnã do Sul, a instauração da ditadura militar e a repressão que se seguiu, contra os antigos combatentes contra a dominação japonesa e francesa. rompendo com os acordos da Conferência de Genebra, conduziram à formação da Frente Popular de Libertação do Vietnã do Sul (Vietcongue). Esta adotou os métodos de guerrilha e guerra popular aplicados na resistência contra o Japão e contra a França. Os vietcongues combinavam, ainda, a luta guerrilheira com movimentos de massa nas cidades.
  5. A ausência de apoio político causava às tropas ditatoriais constantes derrotas militares diante das guerrilhas, inferiores em homens e armamentos. Isso teve como conseqüência uma sucessão de golpes militares, inclusive sangrentos, entre as próprias forças ditatoriais, na suposição de que as derrotas se deviam à incompetência ou a erros militares. Esses golpes também eram estimulados pelos vultosos recursos militares e financeiros carreados pelos Estados Unidos para o Vietnã do Sul, dando ensejo a uma imensa corrupção e ao enriquecimento rápido dos generais em comando.
  6. Após mais de seis anos, e milhões de dólares jogados na fogueira da guerra civil do Vietnã do Sul, os Estados Unidos decidiram intervir, sob a justificativa de que o Vietnã do Norte era o responsável pela situação. A marinha norte-americana montou um falso combate na baia de Tonquim, em 1964, seguido do desembarque de grandes contingentes de tropas de combate no Vietnã do Sul e de bombardeios ao Vietnã do Norte, assim como ao Camboja e ao Laos, acusados de permitir o trânsito do apoio logístico do Norte para os guerrilheiros do Sul.
  7. Os norte-americanos colocaram mais de 500 mil soldados para combater os vietcongues e entraram num atoleiro. Em 1970, a derrota norte-americana transformou-se numa certeza e numa questão de tempo, mesmo para uma parte do alto-comando dos Estados Unidos. Isso levou o país a aceitar a diplomacia do pingue-pongue, ofertada pela China, para que esta intermediasse negociações de paz e uma saída relativamente honrosa dos derrotados norte-americanos. As tropas dos Estados Unidos retiraram-se em 1974, levando à debandada geral das tropas títeres e à ocupação de Saigon e de todo o país pelas tropas vietcongues. A reunificação ocorreu em 1975, com o Vietnã tornando-se República Socialista do Vietnã. Por outro lado, a China, mesmo envolta nas dificuldades de sua Revolução Cultural, aproveitou essa situação para realizar uma forte abertura diplomática e política ao exterior, rompendo o bloqueio dos Estados Unidos, impondo sua política de uma só China, reatando relações com a maioria dos países ocidentais e reassumindo seu lugar na ONU e no Conselho de Segurança.
  8. Durante todo esse período, os Estados Unidos fizeram um imenso esforço, através do Plano Colombo, para o desenvolvimento capitalista dos países asiáticos e a criação de um cinturão “sanitário” contra a expansão comunista. Os recursos investidos pelos norte-americanos na Ásia foram superiores aos investidos na recuperação da economia européia no pós-Segunda Guerra Mundial. Os resultados desse esforço foram a transformação do Japão em potência econômica e o surgimento dos Tigres Asiáticos. Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan, pequenas nações e regiões asiáticas, tornaram-se economicamente fortes e, mais tarde, passaram a concorrer com os próprios Estados Unidos no mercado mundial.
  9. A Coréia do Sul, arrasada pela guerra com o Norte, aproveitou adequadamente os recursos para reconstruir o país, industrializar-se em áreas de mercado que estavam sendo abandonadas pelos países industrialmente desenvolvidos (bens de consumo corrente), usufruir das novas técnicas produtivas desenvolvidas pelos japoneses, investir pesadamente na educação de sua mão-de-obra e disputar agressivamente o mercado internacional. Com isso, cresceu de forma sustentada por vários anos e tornou-se um player do mercado mundial. E Cingapura, uma cidade-Estado que se tornara independente da Malásia, aproveitou as condições favoráveis dos fluxos de capitais enviados pelos Estados Unidos para transformar-se num centro financeiro e num entreposto de troca de mercadorias entre a Ásia meridional e a Ásia do Pacífico.
  10. Hong Kong, então uma colônia sem voz nem voto da coroa britânica, era uma porta encravada no sul da China. Por causa disso, tornara-se escoadouro de migrações da China continental, porta de entrada clandestina para ações de sabotagens na China e, paradoxalmente, janela de intercâmbio utilizada pela China para comerciar com os países ocidentais e furar o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Nessas condições, Hong Kong pareceu o lugar ideal para plantar uma próspera vitrine capitalista que atraísse os olhares e o desejo da população chinesa. Foi desse modo que essa colônia britânica tornou-se o maior centro financeiro e comercial do Sudeste da Ásia e, aos poucos, passou a concorrer fortemente com os próprios Estados Unidos e Inglaterra. Taiwan, ilha separada da província chinesa de Fujian por um estreito marítimo e refúgio das tropas nacionalistas derrotadas na guerra civil chinesa, também se transformou em importante vitrine capitalista. Seguindo o mesmo caminho da Coréia do Sul, tornou-se um pólo industrial de primeira ordem para produtos de consumo de massa, também paulatinamente concorrendo vantajosamente com os produtos norte-americanos e europeus.
  11. O surgimento dos NIC (Newly Industrializing Counties – Novos Países Industrializados), durante os anos 1970, representou a segunda onda promovida pelos investimentos norte-americanos na Ásia, no contexto da Guerra Fria. Esses países foram Indonésia, Tailândia e Malásia. Embora seguissem os mesmos passos dos Tigres Asiáticos, eles entraram atrasados no processo de desenvolvimento, confrontaram-se com o ambiente descendente das demandas dos Estados Unidos no Vietnã e não conseguiram alcançar o mesmo patamar de desenvolvimento dos Tigres. Além disso, no caso específico da Indonésia, os problemas de corrupção agravaram sua situação social e política.

 

  1. SITUAÇÃO NA ENTRADA DO SÉCULO XXI
  1. A partir de 1978, a China realizou uma série de reajustamentos internos e aprovou um plano de longo prazo de reformas em seu socialismo, incluindo a abertura econômica para o exterior. Nos anos seguintes, apesar do Japão haver ingressado numa prolongada crise de estagnação, o rápido desenvolvimento chinês e a manutenção de altas taxas de crescimento da Índia, dos Tigres e dos NIC contribuíram para transformar a Ásia do Pacífico na região de maior dinamismo econômico mundial, deslocando o eixo de desenvolvimento dos Estados Unidos e da Europa para a Ásia.
  2. A Ásia continua enfrentando inúmeros problemas estruturais do passado. Grandes populações, persistência de áreas de grande miséria, problemas fronteiriços ainda não solucionados (Caxemira), reunificações não resolvidas (Coréias, Taiwan), coexistência religiosa difícil (hinduístas, muçulmanos e cristãos) e interferências externas permanecem como focos persistentes de instabilidade. Apesar disso, a maior parte dos conflitos latentes têm sido de baixa intensidade, havendo esforços consistentes para superá-los através de mecanismos de consulta e diálogo. O que não quer dizer que isso dure eternamente.

 

BIBLIOGRAFIA INDICADA

BARRACLOUGH, Geoffrey. O imperialismo e a reação nacionalista. In História do Século XX. Vol. 1. São Paulo, Abril Cultural.

CHESNEAUX, Jean. A Ásia Oriental nos séculos XIX e XX. São Paulo, Pioneira, 1976.

FLAMARION, Ciro. O modo de produção asiático. Rio de Janeiro, Campus, 1990.

HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismos desde 1780. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002.

MESGRAVIS, Laima. A colonização da Ásia e da África. São Paulo, Atual, 1994.

PANIKKAR, K. M. A dominação ocidental na Ásia. São Paulo, Paz e Terra, 1977.

POMAR, Wladmir. O enígma chinês. São Paulo, Alfa Ômega, 1987.

______. A Revolução chinesa. São Paulo, UNESP, 2003.

SPENCE, Jonathan D. Em busca da China moderna. São Paulo, Cia. das Letras, 2000.

 

FILMOGRAFIA SOBRE A ÁSIA

Ana e o reide Sião (Anna and the King of Siam, Estados Unidos, 1946, direção: John Cromwell)

Ana e o rei (Anna and the King, Estados Unidos, 1999, direção: Andy Tennant)

Passagem para a Índia (A Passage to India, 1984, Inglaterra, direção: David Lean)

Tai-Pan – A conquista de um Império (Tai-Pan, Estados Unidos, 1986, direção: Daryl Duke)

O homem que queria ser rei (The Man Who Would Be King, Estados Unidos /Reino Unido, 1975, direção: John Huston)

O canhoneiro do Yang-tsé (The Sand Pebbles, Estados Unidos, 1966, direção: Robert Wise)

 

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