Três campanhas

Teoria & Debate

WPO | ENT | TDB | Três campanhas; n. 37, fev.-abr. 1998.

 

 

Quais as semelhanças e as diferenças entre as campanhas eleitorais para a Presidência da República em 89 e 94? O que deve ser extraído de lição de ambas? Quais os erros que não podem ser repetidos? Às vésperas de mais uma eleição presidencial, Teoria e Debate ouviu sobre essas questões Wladimir Pomar, coordenador da campanha Lula em 89, e Luiz Gushiken, presidente do partido em 89 e coordenador da campanha em 98

por Rose Spina*

 

Entrevista com Wladimir Pomar

Você foi coordenador da campanha do Lula em 89. Qual é sua avaliação sobre a mesma?

Em 89, o primeiro passo importante que demos foi uma avaliação das tendências políticas. Ao medir as chances, friamente, qualquer pessoa diria que o Lula não tinha condição nenhuma de vencer. Estávamos lá embaixo nas pesquisas, o movimento social estava em descenso, o processo de luta dos trabalhadores perdia força, o socialismo estava em crise. Todo o contexto era aparentemente desfavorável a nós.

Nossa primeira proposta de estratégia de campanha é de janeiro de 88, com a aprovação do mandato de cinco anos para Sarney e o adiamento da campanha para 89. Tínhamos saído da ditadura, o povo com grandes expectativas na nova república e o Sarney acabou gerando um processo extremamente frustrante. O descontentamento com o governo foi crescendo de forma muito acentuada. Em 88, por causa desse processo, e surpreendendo todos os analistas políticos, o PT dá um salto nas disputas pelas prefeituras. Mas o partido cresceu menos do que as possibilidades permitiam, porque não avaliamos direito e, em conseqüência, não aproveitamos o momento político favorável.

Outro aspecto relevante era que a burguesia não tinha chegado a um consenso. Ela estava extremamente dividida sobre que caminho seguir após o fim da ditadura.

Essa é a grande diferença entre os cenários políticos de 89 e 94?

É uma das grandes diferenças. Em 94 a burguesia estava unida e isso foi terrível para nós. Em 89 ela estava desunida.

Apesar de todas as nossas deficiências, conseguíamos, em janeiro de 89, apresentar uma proposta para a campanha que levava em conta essa situação e colocamos como objetivo vencer. Eu estava convencido disso e na primeira reunião fui chamado de delirante. Tanto que, no texto de 89, a afirmação de que não estávamos ali para marcar posição e sim para vencer foi retirada, porque a maioria do partido não estava convencida de que havia condições para isso. Isso foi ruim porque entramos na campanha sem estarmos convencidos das nossas reais possibilidades e portanto sem explorar nossa potencialidade.

Apesar disso, definimos com clareza que a campanha tinha que ser de massa. Essa era a única condição para termos a mínima possibilidade de disputa. Conseguimos manter esse eixo de campanha até o final, sem nos desviarmos. A primeira fase da campanha foi a mais difícil porque, na medida em que nos dirigíamos principalmente para o setor interno, o Lula caía nas pesquisas. Quando completamos esse processo de mobilização interna, a militância foi se empolgando e isso começou a se refletir muito rapidamente na mobilização de massa. E a partir de junho começamos a crescer de forma consistente. Fiz um cálculo por alto, com base nos comícios, na participação interna nos comitês etc., e acho que reunimos mais de 2 milhões de pessoas.

Essas seriam as duas grandes lições de 89: medir bem as tendências da situação política, tanto do ponto de vista do movimento social quanto do ponto de vista da burguesia, para então definir uma estratégia adequada; e ter claro que o PT jamais terá algum tipo de êxito se não for com mobilização de massa.

A política de alianças colocada em prática em 89 foi satisfatória?

Nossa política de alianças foi traçada no 5º Encontro. Mas aliança você não faz porque quer. Pode-se ter uma política geral e não haver condições para aplicá-la. Vários dos aliados que poderiam vir conosco desde o primeiro turno acabaram saindo sozinhos, como foi o caso do PDT. Se o Brizola estivesse conosco desde o início, teríamos tido um avanço muito maior. É lógico que tanto do lado do PDT quanto do PT existiam obstáculos grandes a essa aliança. Conseguimos no 2º turno, apesar das dificuldades, trazer o Brizola e uma parte do PSDB. Cometemos algumas bobagens, como por exemplo não aceitar Ulisses Guimarães (PMDB). Em aliança tática, aceitar apoio não é um problema de princípio. Para fazer uma aliança temos que preservar aqueles pontos que são inegociáveis, mas há outros que podem ser negociados.

Dentro das condições de 89 levamos a política de alianças possível. Tanto que em 94 aparentemente existiam mais condições e repetiu-se a mesma Frente Brasil Popular, quando era mais necessário unir, pois dessa vez a burguesia estava unificada.

A Frente tinha um programa em 89?

Fizemos um grande esforço para elaborar um programa de governo. Organizamos vários grupos temáticos, num processo de elaboração mais interno ao PT. Aquele programa tinha muita coisa inexeqüível para a época.

O que por exemplo?

O processo de estatização dos serviços de transporte. Coisas que deveriam entrar com mais cuidado num programa de governo. Um programa deve ter as linhas gerais daquilo que é possível executar do ponto de vista político. Aquilo que tem condições de mobilizar os trabalhadores, a classe média e os marginalizados. Temos mania de fazer verdadeiros tratados de programa de governo em vez de se limitar aos pontos principais.

Quais são suas recomendações para a campanha de 98?

Cada campanha é única, mas em 98 pode-se criar uma situação política não igual, mas parecida com a de 89. O descontentamento com o governo cresce. Todas as pesquisas mostram que o povo está descontente com o desemprego, a insegurança, mas ainda acredita no governo e no Plano Real. Grande parte da população ainda não relaciona a piora crescente do país e a política governamental. Ou seja, estamos naquele momento, tanto do ponto de vista psicológico como político, em que o prestígio do governo está se segurando na propaganda – com toda a mídia o apoiando. Está faltando uma ação política mais consciente do PT e da esquerda em geral para quebrar essa ilusão. No momento em que ela for quebrada, podemos ter uma situação muito parecida com a de Sarney em 89, de desmoralização. O quadro também é de tensão.

O povo não sabe o que está acontecendo, pois se a situação é boa, por que a vida dele está piorando tanto? Se medirmos melhor isso, teremos condições de traçar uma estratégia que não será igual, mas que deveria ter alguns elementos que em 89 se mostraram importantes. Primeiramente, é preciso saber que quem decide eleição no Brasil não é a classe média, mas sim a grande massa de baixa renda, os marginalizados, os excluídos. Em 89, não conseguimos saber direito o que passava pela mente e pelo coração dessa parcela da população. Quem tinha um discurso que chegava a essa massa era o Lula. Ele conseguia captar bem suas aspirações e sentimentos e conseguiu portanto disputar com Collor essa massa.

No curso da campanha houve um esforço brutal da coordenação para que os diretórios e comitês trabalhassem junto a essa parcela da população, mas a dificuldade foi grande. Em 94, esse distanciamento se agravou. Na campanha que se inicia, deveríamos fazer um grande esforço para estreitar nossa ligação com essa parte majoritária da população. É para essa parcela que deveria se voltar o grosso de nossa preocupação. O que não quer dizer que se deva abandonar a classe média. Ao contrário, deve haver também propostas para ganhá-la. Mas a classe média no Brasil sempre vai ser metade para cá e a outra metade para o lado de lá. Devemos inclusive buscar ganhar a parte do empresariado que está quebrada, sem saber para onde vai e com medo da gente. Temos que ter para esse setor propostas de política industrial, de desenvolvimento econômico, agrícola etc., para pelo menos neutralizá-lo.

Temos que compreender que ou ganhamos a maior parte dos setores de baixa renda ou não ganhamos eleição no Brasil. Essa é a questão chave. Somar os trabalhadores com o setor de baixa renda, ganhando metade da classe média e ganhando ou neutralizando metade da burguesia. Em linhas gerais, essa é a estratégia.

Mas a elite vem unida…

Depende de como se trabalhar. Hoje, a maior parte dos pequenos e médios empresários está quebrada, ou quase falida. Já os grandes estão sendo obrigados a fazer fusões ou vender para grandes corporações multinacionais. Aparentemente para alguns isso é bom, mas para outros é muito ruim. O que deve ter significado para o Mindlin vender a Metaleve, uma indústria de ponta, para estrangeiros?

Esse quadro econômico está levando à criação de fatores de desunião no seio da burguesia, que só não se desuniu ainda porque não tem opções. As divisões dentro do PMDB, a candidatura do Ciro Gomes, tudo isso um pouco já é reflexo de desunião.

 

Entrevista com Luiz Gushiken

Como presidente do partido em 89, o que você traz de experiência para esta campanha que se inicia sob sua coordenação?

As circunstâncias em 89 eram completamente diferentes das de hoje, portanto, não se pode reproduzir automaticamente o que foi feito. Para a coordenação, um fato de muita relevância naquela época foi a tranqüilidade partidária. O partido estava com uma disposição monolítica e unitária que possibilitava uma grande liberação de forças da militância. Em segundo lugar, é preciso uma coordenação não burocrática, que tenha capacidade de tomada de decisão com a velocidade que uma campanha exige. É necessário alterar situações, dar respostas imediatas e a coordenação tem de ter agilidade operacional.

Em 89 a coordenação foi ágil?

Mais do que agilidade na coordenação existia unidade partidária, que se refletia nos órgãos de comando, de maneira que as respostas eram dadas rapidamente. Evidente que “comemos bolaa” na última semana, quando o Collor mudou seu eixo de atuação e a direção ficou perplexa, sem responder em tempo hábil. Mas isso não tira a característica de agilidade que marcou aquela coordenação.

Quando você fala em ausência de unidade não é em relação ao candidato…

A questão está nas correntes internas. As tendências têm que ter muito claro que uma campanha implica que a coesão apareça como valor para a sociedade. Se a sociedade incorpora a idéia de que o nosso candidato está sob a guarida de algo fracionado, isso vai refletir negativamente.

Como construir essa unidade?

Em primeiro lugar, é preciso que as lideranças saibam que muitas vezes uma direção comete erros táticos, momentâneos, facilmente corrigíveis em curto espaço de tempo. Portanto, não é preciso, por exemplo, que se utilize a imprensa externa como forma de pressão sobre a direção. Na verdade, muitas vezes as pessoas fazem isso para se promover, mas causando estrago no partido, dado que a sociedade começa a visualizar um elemento nocivo que é a fragmentação do partido.

Como você vê a unidade da elite daquele período para cá?

Em 89 a elite brasileira foi pega de surpresa no que diz respeito à força que o Lula acabou demonstrando no final da campanha e não soube operar políticas preventivas contra a sua ascensão. Depois disso, eles aprenderam. Há toda uma ação orquestrada para impedir que o PT apareça como alternativa de governo no Brasil.

Um dos elementos básicos de aglutinação da burguesia foi o “perigoo” Lula. É ingenuidade querer resolver esse problema tentando demonstrar a essa elite um falso grau de identidade. A essa elite, temos que dizer que o nosso programa tem como alvo central o povo mais sofrido e que ela tem que estar disposta a sacrifícios para que o setor mais pobre da sociedade brasileira possa resgatar sua dignidade e, portanto, tornar o Brasil uma nação digna.

Qual a maneira de atingir essa população mais sofrida, que deu a vitória a Collor e elegeu FHC?

Essa é uma contradição do Brasil. O povo tem um líder genuíno, o único que tem uma identidade honesta com seus interesses e, no entanto, esse povo é facilmente manipulado. Não há receita mágica para resolver essa manipulação. É preciso fazer uma luta intestina para que esse povo compreenda o caráter manipulador da classe dominante e fazer do PT a referência para o setor excluído.

O importante é passar à sociedade que não há outro candidato capaz de fazer com que políticas de Estado sejam voltadas para o povo. O Lula tem não apenas um passado que o credencia, como um programa. Não podemos querer um programa que atenda os interesses de toda a sociedade. Isso soará como falso.

Temos que mostrar à elite brasileira que ela tem que se dispor a fazer sacrifícios. A classe média tem que ter claro que o nosso objetivo é tornar o Brasil um país de uma grande classe média, trazendo para a civilidade o setor mais pobre, e que o Lula não vai impor a ela nenhum sacrifício. Se conseguirmos demarcar no programa qual a nossa vocação – sem fazer promessas falsas –, podemos ganhar a simpatia desse setor que tende a ser manipulado pelas elites.

E a política de alianças do partido para a próxima eleição?

Ela agora pode ser mais efetiva na medida em que neste ano podemos ter um leque de aliados mais amplo já no primeiro turno, coisa que não ocorreu nas campanhas anteriores. Por outro lado, temos no campo oposto uma concentração de partidos. Se temos uma vantagem em relação a 89, temos também uma desvantagem muito grande, porque a elite se organizou: em torno de FHC está a totalidade dos partidos de direita.

Como trabalhar um programa de governo?

Em 89 e 94 fizemos programas de governo que eram verdadeiros tratados. Sem tirar o mérito dos técnicos do PT, que devem esmiuçar cada aspecto programático, o fundamental na disputa é a centralidade em alguns pontos que permitam ao povo compreender qual a real vocação do PT.

Insisto que o partido deve passar de forma clara para a população que o nosso governo durante quatro anos terá um eixo principal: trazer para o processo civilizatório uma camada enorme que está totalmente fora do mercado e da cultura. Se trouxermos esse setor para o processo civilizatório, com mais emprego, educação, saúde, é a nação brasileira que ganha. Ganham outros setores da sociedade, porque o número de excluídos no Brasil é de tal ordem que o registro que se passa para o mundo é de um país completamente desigual em matéria de distribuição de renda e justiça social. E quando se tem uma sociedade conformada com esses aspectos tem-se uma sociedade doente.

Por isso, quando digo que é hora da elite fazer sacrifício não significa que vamos nos apoderar da propriedade privada. Isso seria um absurdo! Não temos nada contra a propriedade privada tal qual vigora no Brasil, salvo no campo, onde a desapropriação é fundamental. Mas isso significa que as políticas públicas não terão esse setor como referência, como é o caso hoje do BNDES, que distribui bilhões em recursos financiando megaempresas, inclusive de capital estrangeiro, para compra de estatais. Nós não vamos financiar o grande capital. Vamos empreender políticas públicas que tragam para o mercado e a cultura quase metade do povo brasileiro. Já para a classe média, essa política dará maior segurança com relação ao futuro.

É possível resgatar o potencial de mobilização que teve a campanha Lula em 89?

Seria demagógico se dissesse que sim. 89 é um marco na história brasileira. Foi um processo de mobilização de massa sem precedentes. Mas temos que transmitir para a militância a convicção de que a sua inserção nesse processo é fundamental para fazer com que a nossa política seja vitoriosa. Se vai ser uma mobilização idêntica à de 89 não sei dizer, mas sei que em situação de crise como a que vive o Brasil, num quadro mundial de extrema incerteza, podemos ter um processo mobilizador da noite para o dia.

Qual é a principal diferença entre as eleições de 89 e 94?

Em 94 seria estranho às regras da política se tivéssemos vencido, numa campanha em que o nosso oponente era o autor de um plano de estabilização monetária. Esse foi o elemento que lhe deu a vitória. O Plano Real é o grande divisor quando se compara as duas eleições presidenciais. Além disso, em 94 havia uma coalizão da elite brasileira que não existia em 89 e também um quadro político distinto. Não era Collor, era FHC, que é muito mais hábil.

Mas o Plano Real continuará na pauta destas eleições…

FHC não tem a mesma credibilidade que teve na ocasião da mudança da moeda. Passados quatro anos, o povo percebe que, além da estabilização da moeda, esse governo não fez nada, salvo proteger a elite. Nós não somos contra a moeda estável, mas nos cabe mostrar que a única liderança política capaz de assumir de fato as aspirações da massa oprimida e torná-las referência para as políticas públicas é o Lula.

Você está otimista?

Sabemos que a classe dominante se aglutinou – isso não é pouca coisa – e que a população oprimida não tem clareza de que somos a verdadeira opção. Isso implica uma batalha muito mais difícil do que as campanhas anteriores. É preciso ter claramente esse diagnóstico, sob pena de enganarmos a militância. Porque para uma guerra difícil não se desarma o exército, ao contrário, ele tem que ser preparado com muito mais exigência.

 

*Rose Spina é subeditora de Teoria e Debate.

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