[Respostas ao Brasil de Fato]

WPO | COR | [Respostas ao Brasil de Fato], 13 dez. 2009.

 

 

PERGUNTAS BRASIL DE FATO / Dafne Melo – 13/12/2009:

1) Quais foram as condições que a China reuniu para conseguir fazer a Revolução de 1949?

No início do século XX, a China enfrentava três grandes problemas: a opressão dos senhores feudais manchus da dinastia Qing; a dominação estrangeira das potenciais imperialistas, que retalhavam a China, através de guerras sucessivas e tratados desiguais;e, o predomínio dos feudais chineses, senhores de guerra com exércitos próprios, que mantinham os camponeses em sistema de servidão ou semi-servidão.

O primeiro a suscitar esses problemas com os três principais do povo chinês foi o Dr. Sun Yatsen, que contrapôs a eles os Três Princípios do Povo: nacionalismo (expulsão dos Qing e proclamação da república), democracia (reforma agrária, ou propriedade democrática do solo), e bem-estar do povo (alimentação, moradia, vestuário, saúde e educação).

 

2) Quais eram as principais demandas da população chinesa, ou seja, quais problemas sociais existentes no país os revolucionários se propunham a resolver? Ou seja, por meio de quais palavras de ordem os comunistas conseguiram apoio do povo chinês? Como foi a participação dos diferentes setores sociais na Revolução? Qual a importância da participação dos camponeses?

A revolução na China não teve início com os comunistas, mas com os nacionalistas, dirigidos de Sun Yatsen. Em 1911, eles derrubaram a monarquia, estabeleceram a república, organizaram uma assembléia constituinte e elegeram Sun Yatsen presidente. Como não tinham força suficiente, foram derrubados pelos senhores de guerra do Norte.

Apenas em maio de 1919, a mobilização popular em reação à negativa das potências imperialistas, na Conferência de Versalhes, de revogar os tratados desiguais, deu início a uma nova fase revolucionária. Os nacionalistas de Sun Yatsen tomaram Guangzhou (Cantão), estabeleceram uma república democrática e organizaram um exército para derrotar os senhores de guerra do Norte.

Paralelamente, os círculos marxistas articularam-se e fundaram o Partido Comunista, em 1921. Como Sun Yatsen , tinham como alvos os senhores de guerra e os imperialistas. Em 1924, aceitaram a proposta de Sun Yatsen, ingressaram no Partido Nacionalista (Guomindang) e participaram da expedição militar contra os senhores de guerra do Norte. Essa aliança findou em 1927, quando Chiang Kaishek, que assumira a direção do Guomindang, após a morte de Sun Yatsen, em 1925, tomou Nanjing e Shanghai, firmou acordo com os senhores de guerra, e tentou liquidar os comunistas.

 

3) Como o Partido Comunista Chinês conseguiu manter sua hegemonia no processo revolucionário?

Os comunistas concordavam com Sun Yatsen quanto à forma armada da revolução chinesa, tendo em vista a presença armada dos senhores de guerra e dos exércitos imperialistas. Mas, entre eles, havia, pelo menos, duas práticas e duas concepções sobre isso. A idéia de que os operários seriam a força fundamental, e as insurreições urbanas a forma principal, era predominante.

No entanto, a expedição contra os senhores de guerra do Norte, ao atravessar as províncias sulistas, estimulou os camponeses a se organizarem em associações e guerrilhas, e a realizarem levantes contra os feudais, destacando um potencial revolucionário que a direção do PC negava. Com a participação de quadros comunistas da expedição militar, os camponeses estabeleceram bases guerrilheiras, acirrando as divergências dentro da aliança Guomindang-PC e do PC, tanto a respeito da reforma agrária, quanto do papel dos camponeses na revolução. Nessa ocasião, Mao Zedong já defendia que os camponeses seriam a força fundamental da revolução, enquanto os operários seriam sua força dirigente.

O golpe militar de Chiang obrigou estes a realizarem dois levantes militares, um em Nanchang e outro em Hunan, dando surgimento ao Exército Vermelho, e a transferirem sua direção para as bases rurais que criticavam. Apesar disso, os dirigentes do PC mantiveram sua estratégia de insurreições urbanas. Para eles, o Exército Vermelho deveria estimular as insurreições das cidade maduras para a isso, realizando ataques a elas.

Essa tática sofreu derrotas sucessivas e teve que ser abandonada em 1932. Nesse meio tempo, o Guomindang iniciara suas campanhas de cerco e aniquilamento contra as bases rurais. Porém, para fazer frente a elas, ao contrário da tática anterior de guerra de guerrilhas e de movimento, os dirigentes do PC se esforçaram para que o Exército Vermelho utilizasse a tática de defesa do território. Isto conduziu, em 1935, a uma derrota e à necessidade de realizar uma retirada estratégica.

No início dessa retirada, Mao Zedong foi elevado à direção do PC e Chu De ao comando do Exército Vermelho. O objetivo da retirada também foi mudado para uma Longa Marcha estratégica, rumo ao norte, para ocupar a linha de frente contra a iminente invasão do Japão, que desde 1931, se apossara da Manchúria. Apesar das grandes perdas da Longa Marcha, o Exército Vermelho chegou a Yannan, província de Shanxi, transformando essa localidade em base central contra a invasão nipônica.

A repercussão militar e política desse feito provocou o Incidente de Xian, em 1936, no qual Chiang Kaishek foi preso e ameaçado de fuzilamento por comandantes militares, favoráveis a uma aliança com os comunistas para enfrentar o Japão. Ele foi salvo pela interferência dos próprios comunistas, que viam na sua morte um grande empecilho a uma nova aliança, que só se concretizou em 1937, quando a ofensiva japonesa se tornou realidade. Nesse momento, metade do comitê central do Guomindang se bandeou para o lado japonês, o mesmo ocorrendo com vários regimentos de seu exército.

Cessada a guerra civil, o Partido Comunista reconheceu o governo do Guomindang, e o Exército Vermelho foi incorporado ao Exército Nacional, como Corpos de Exército, comandados pelo PC. Colocados na linha de frente de combate aos japoneses, enquanto as tropas dirigidas pelo Guomindang eram mantidas, em grande parte, na reserva, esses exércitos comandados pelos comunistas aproveitaram-se para combinar em maior escala suas táticas de guerra de movimento e guerra de guerrilhas, mobilizar o máximo possível de camponeses e outros setores sociais para participarem da resistência, organizar áreas libertadas no interior dos territórios ocupados pelos japoneses, atrair para a frente única os latifundiários patrióticos e firmar-se, aos olhos do povo chinês, como o principal esteio da guerra de resistência.

No final da guerra, os comunistas contavam com apenas três milhões de homens em armas, mas tinham bases em quase todo o território nacional e eram reconhecidos por seu papel na guerra. Nas negociações com o Guomindang, entre 1945 e 1947, o PC se esmerou em defender aspirações profundamente populares, como uma paz prolongada, a reforma agrária, uma Conferência Consultiva Política, com a participação de todos os partidos que haviam lutado contra o Japão, e uma Nova Democracia, com uma aliança social entre trabalhadores assalariados, camponeses, pequena-burguesia urbana e burguesia nacional, para desenvolver a capacidade produtiva do país.

O Guomindang, porém, contando com oito milhões de homens armados, apenas ganhou tempo para deslocar suas tropas para pontos estratégicos, de onde pudessem desferir golpes fatais contra as tropas comunistas e as derrotar. Quando rompeu as negociações e iniciou a nova guerra civil, o Guomindang não contava que isso seria visto negativamente pelo povo chinês, nem que os comunistas iriam primeiro agir politicamente, apelando aos demais partidos a organizar a Conferência Consultiva Política, divulgando um decreto preliminar de reforma agrária, e chamando os camponeses a realizarem o fanshen, isto é, a implementação da reforma agrária com suas próprias forças.

Apesar das vitórias iniciais do Guomindang, os demais partidos apoiaram o PC, os  camponeses transformaram as zonas rurais em áreas revolucionárias, inúmeros exércitos do Guomindang passaram-se para o novo Exército Popular de Libertação – EPL e, em menos de dois anos, as principais tropas do Guomindang tiveram que refugiar-se em Taiwan, sob a proteção da 7ª. Esquadra dos EUA. Em síntese, o PC da China obteve a hegemonia e proclamou a República Popular da China porque soube colocar a política e os interesses do povo em primeiro plano, e aplicar estratégias e táticas políticas e militares que correspondiam às condições históricas do país.

 

4) Quais foram as principais conquistas da Revolução? Por outro lado, quais suas maiores contradições (digamos, no momento de sua gênese)? É possível dividir a Revolução em fases, pensando de 1949 até hoje? Quais seriam elas?

De imediato, as principais conquistas foram a democratização da propriedade territorial, o fim da espoliação e depredação imperialista, a reconquista da soberania nacional, a reconstrução da economia e a concretização dos direitos humanos fundamentais de moradia, alimentação, emprego, saúde e educação. Num segundo momento, a revolução ingressou no processo de industrialização rápida, tendo em vista as ameaças nucleares associadas à Guerra Fria, cujas manifestações mais diretas se materializaram com a Guerra da Coréia, entre 1950 e 1952.

A decisão estratégica de industrialização rápida, seguindo o modelo soviético, foi a principal fonte das contradições surgidas após a revolução. Os camponeses, e também os operários, não estavam dispostos a financiar os investimentos dessa industrialização, nos montantes exigidos. A burguesia nacional tentava aproveitar-se das dificuldades, em especial do fornecimento de cereais, para obter grandes lucros. Ao invés de investir na produção, investia na especulação. Os camponeses abastados também queriam aproveitar-se das fraquezas dos novos proprietários para retomar as terras, fazendo com que os camponeses pobres se insurgissem. Assim, emergiram várias contradições, chamadas pelos comunistas de contradições no seio do povo, que contrariavam o programa de aliança de longo prazo com a burguesia e a pequena burguesia.

Assim, entre 1957 e 1976, a China assistiu a várias tentativas de retomar o programa de alianças da Nova Democracia, para desenvolver as forças produtivas (em termos econômicos, isto significava utilizar o mercado e diferentes tipos de propriedade, inclusive a propriedade capitalista), tendo encontrado forte reação na cultura igualitarista camponesa. A mais forte e prolongada, tendo como alvo a proposta das quatro modernizações, de 1964, foi a Revolução Cultural.

Esta revolução experimentou todas as probabilidades de democracia direta e participação massiva para o desenvolvimento das forças produtivas, tendo por base relações igualitárias de trabalho e consumo. Mas o máximo que essas tentativas conseguiram foi estabelecer um socialismo de pobreza relativamente igualitária, algo típico das experiências revolucionárias históricas dos camponesas, em quase todo o mundo.

 

5) É certo dizer que, após a morte de Mao Tse-tung (e de sua perda de poder dentro do Partido após a Revolução Cultural) a China começou a caminhar para uma economia mais “capitalista”? Como você definiria o sistema político e econômico chinês hoje? É socialista, capitalista, ou esses conceitos não “servem” para defini-la? Seria um capitalismo de Estado ou um socialismo de mercado, como alguns definem?

O papel de Mao na revolução cultural só vai poder ser avaliado com propriedade pelos historiadores do futuro. A Revolução Cultural, como qualquer revolução que se preza, não foi um movimento reduzido, nem desencadeado pela vontade de um homem. Foi expressão da vontade de centenas de milhões de chineses, cujo significado ainda continua gerando inúmeras polêmicas.

Por um lado, Mao se tornou o Grande Timoneiro dessa revolução popular de esquerda, talvez uma das mais massivas e extremadas da história, embora também uma das menos sangrentas. Por outro, Mao conservou o a seu lado o premier Zhu Enlai, proponente das quatro modernizações, atacado como capitalista, ao mesmo tempo em que protegeu da fúria de guardas-vermelhos e rebeldes-revolucionários inúmeros de quadros veteranos catalogados como elementos capitalistas infiltrados. Além disso, vale a pena lembrar que Mao foi o autor principal do programa da Nova Democracia (aliança prolongada com a burguesia), que é a base do atual programa de reformas na China.

Não é de estranhar, pois, que os reformadores do socialismo chinês tenham ido buscar em Mao os métodos e o estilo de trabalho com os quais ele transformara o PC e o capacitara a realizar a revolução. Bem vistas as coisas, tanto as quatro modernizações, de 1964, quanto o programa de reformas, de 1978, são variações ampliadas do programa da Nova Democracia, todas de acordo com a tradição teórica marxista de que nenhuma formação social finda antes de esgotar todas as suas possibilidades históricas.

Marx previa que, mesmo na transformação dos países capitalistas avançados, seria necessário um período de transição em que conviveriam, em cooperação e conflito, formas sociais e capitalistas de propriedade. Para a tradição teórica marxista, socialismo seria justamente esse período de transição. A China está na fase preliminar dessa transição que os chineses definem como socialismo de mercado. Seu problema crucial consiste em saber se, nesse processo, as formas sociais acabarão por se mostrar mais eficientes e necessárias do que as formas privadas, ou se vai ocorrer o contrário. Os comunistas chineses parecem estar conscientes desse risco, principalmente levando em consideração que o capitalismo, e não o socialismo, é predominante no mundo. Portanto, apesar das crises capitalistas e do sucesso chinês, é cedo para concluir que um ou outro venceu.

 

6) A China, dadas suas condições, conseguiria resolver problemas sociais, como a fome, pobreza, falta de trabalho, numa economia de moldes estritamente capitalistas? Os chineses, hoje, consideram que vivem em um país socialista? Existe uma apropriação do termo pelo povo como parece existir em Cuba, por exemplo?

Numa sociedade de moldes estritamente capitalistas a China não conseguiria resolver seus problemas sociais. A China só vem conseguindo resolvê-los, paulatinamente, porque sua sociedade não é estritamente capitalista.

Em 1978, na China viviam 400 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e 700 milhões na pobreza. Atualmente, a China ainda possui cerca de 16 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, 500 milhões de pobres, 500 milhões com padrão de classe média baixa e média, e 350 milhões com padrão de classe  média alta. Em termos gerais, a China arrancou da pobreza mais de 800 milhões de pessoas.

Isto só foi possível porque ela possui um Estado que orienta e corrige os desvios do mercado, realizando uma constante redistribuição da renda. É evidente que um processo como esse não ocorre sem problemas, distorções e crises, como a existência de desemprego, agressões ecológicas, desequilíbrios sociais e regionais, descompassos entre as rendas urbanas e rurais etc. Mesmo assim, pesquisas diversas, inclusive estrangeiras, indicam que mais de 80% da população chinesa está satisfeita com seu socialismo e tem perspectiva de futuro.

Para alcançar o padrão material dos países capitalistas desenvolvidos, a China ainda levará uns 30 a 50 anos. Isto, porém, se o mundo não naufragar numa guerra, sua nova burguesia não tentar aventuras desestabilizadoras, suas etnias se sentirem satisfeitas e não desenvolverem pretensões separatistas, Taiwan não procurar ser independente e se incorporar ao espírito de um país – dois sistemas, os vizinhos não a verem como uma ameaça, os EUA deixarem a Coréia viver em paz etc etc. Ou seja, embora cheio de incertezas, se o mundo mantiver, por mais 30 a 50 anos, as condições que prevaleceram nos últimos 30 anos, a China poderá despontar como uma novidade ainda mais interessante do que a atual.

 

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