[Respostas ao Brasil de Fato]

WPO | COR | [Respostas ao Brasil de Fato], 20 dez. 2010.

 

 

Entrevista Brasil de Fato – 20/12/2010

 

P – Qual é a principal marca que o governo Lula deixa na política brasileira e no aspecto social?

R – Para mim a principal marca foi uma combinação de desenvolvimento com distribuição de renda e de consolidação e ampliação dos direitos democráticos e liberdades públicas. Num país como Brasil, com um Estado tradicionalmente voltado para servir às elites e não ao povo, e num contexto de correlação de forças muito precário, foi uma marca extremamente positiva.

 

P – Qual é a contribuição do governo Lula para o pensamento de esquerda no Brasil? Há uma reformulação do ideário de esquerda após a passagem do primeiro operário pela presidência do Brasil?

R – Talvez ainda seja cedo para essa avaliação. O principal ideário da esquerda deveria ser a análise concreta da realidade concreta, tendo como meta avançar no rumo do socialismo. O que deveria impor a ela a compreensão de que a realidade brasileira de hoje não está prevista em qualquer manual do passado e exige uma reformulação não de seu ideário, mas de sua estratégia e das táticas.

Em 1984, apesar da emergência do movimento operário, da liderança de Lula, da fundação do PT e da democratização, se alguém propusesse a possibilidade de eleição do Lula à presidência seria considerado meio louco. Mesmo em 1989, parte dos dirigentes do PT acreditava que a candidatura Lula deveria ser apenas para marcar posição. Portanto, para início de avaliação, talvez uma das principais contribuições do governo Lula e da popularidade com que o presidente sai do governo seja a necessidade de entender a realidade histórica sui generis pela qual o Brasil passa.

 

P – Bandeiras como a erradicação da miséria e os direitos sociais (sobretudo em programas como o Bolsa Família, Luz para Todos etc.) pareceram quase unânimes nas últimas eleições, esta é uma conquista deste governo?

R – Diria que essas bandeiras realmente pareceram unânimes. Mas só pareceram, do mesmo modo que Collor pareceu um caçador de marajás e um carrasco dos empresários, enquanto Lula parecia aquele que iria confiscar a poupança. Na prática, sabemos que era tudo invertido.  Na campanha de 2010, a direita demo-tucana também pareceu levantar bandeiras que abomina. Mas a maior parte do eleitorado brasileiro mostrou que está razoavelmente vacinado e sabia que aquelas bandeiras pertenciam ao governo Lula.

 

P – A persistência na aliança com oligarquias poderia ter sido evitada, na sua opinião? Em outras palavras, o governo perdeu a oportunidade de enterrar definitivamente nomes como Sarney e Renan Calheiros?

R – O fato de que as oligarquias e a burguesia estejam divididas é muito positivo e permitiu algo inédito no Brasil: a eleição de um operário, pertencente a um partido de trabalhadores e socialista. Esse é um problema maior para a burguesia do que para a esquerda. Para a esquerda também é um problema, mas numa situação nova, em que é ela que está no comando. Isto também é inédito no Brasil.

É impressionante que uma parte da esquerda não se dê conta dessa realidade, ao mesmo tempo em que exige que se avance como se no Brasil tivesse ocorrido uma revolução social. Por outro lado, nós temos pela frente a questão do desenvolvimento das forças produtivas. No Brasil, essas forças materiais ainda estão fragmentadas. São desiguais em extensão e em profundidade. Isto é, as cadeias produtivas não são completas ou quase completas, há muitas disparidades regionais, e tecnologicamente há grandes lacunas a adensar. Para superar essa situação ainda será preciso contar com diferentes formas de propriedade, o que inclui a propriedade capitalista e, portanto, a burguesia.

Portanto, num contexto como esse, seria ilusão supor que se pode fazer aliança só na economia e não na política. Também é preciso levar em conta que a correlação de forças entre a esquerda democrática e popular e a direita reacionária e reacionário-conservadora ainda não sofreu uma mudança decisiva a favor da esquerda. Isto impõe a essa esquerda fazer alianças com o centro e com a centro-direita, onde se incluem certas personalidades políticas remanescentes de um passado que gostaríamos de ver enterrado. No entanto, entre o sonho e a realidade, é a realidade que se impõe, e a esquerda não pode se dar ao luxo de chutar inimigos secundários, quando seus inimigos principais ainda são muito fortes.

Não há qualquer pecado em fazer alianças com inimigos secundários. O pecado das alianças está em outros pontos. Está, às vezes, em supor que tais alianças são para sempre, e que os aliados se tornaram amigos do peito. Ou que as alianças só incluem a unidade. Ou, pior ainda, em que não há nada de mais em copiar os métodos de fazer política desses aliados, ponto que se tornou a causa principal da crise de governo e do PT em 2005.

As alianças ocorrem em torno de pontos comuns de luta contra inimigos comuns. Em geral, são temporárias, mesmo que isto possa significar uma dezena de anos.

Depois, elas também incluem divergências e conflitos em torno de outros pontos. Essas divergências e lutas incluem desde as vacilações que acometem os aliados em torno das balas de mel oferecidas pelo inimigo principal, até a luta permanente contra métodos escusos e corruptores empregados por esses aliados nas atividades políticas. Mas essas lutas têm como parâmetros a unidade contra o inimigo comum e o reforçamento dela, não seu enfraquecimento. Portanto, devem ser realizadas com razão, e dentro de certos limites.

 

P – O que o senhor pensa sobre o chamado “lulismo”? Se acredita neste fenômeno, acha que ele tende a determinar a política brasileira nos próximos anos?

R – O lulismo, sem aspas, é uma realidade. Ele está relacionado, por um lado, ao papel que Lula, como personalidade pública, tem desempenhado desde as greves do ABC, no final dos anos 1970, até hoje. Por outro, está relacionado com a verdadeira revolução cultural que significou a vitória dele e do PT, em 2002, quando as camadas mais pobres, e maioria do eleitorado, decidiram romper com seu passado de não votar em iguais a si, e concederam um crédito de confiança a ambos.

Lula teve a sensibilidade de entender o significado desse crédito. No contexto de uma correlação de forças complexa e nebulosa, tanto externamente, quanto dentro de governo, fez das tripas coração para modificar a situação de penúria dessas camadas sociais, mesmo às custas das classes médias. Além disso, se empenhou em prestar contas a elas, quase diariamente. Os resultados são a sua popularidade, que vai além dos limites daquelas camadas mais pobres.

Apesar disso, o lulismo demonstrou aspectos frágeis durante a última campanha eleitoral. Ele não tem o dom de transferir toda a popularidade de Lula a quem ele queira. E também não tem a capacidade de fazer com que grande parte dos lulistas se transforme em ativistas de suas próprias reivindicações e demandas. Dizendo de outro modo, o lulismo só desempenhará um papel ativo na ampliação e consolidação da democracia política e na conquista de novos direitos econômicos e sociais se ganhar consciência. O que não se consegue com dádivas e concessões de cima para baixo, mas com o aprendizado da luta pela conquista de reivindicações e direitos.

Assim, sintetizando a resposta à sua pergunta, o lulismo poderá determinar a política brasileira dos próximos anos se o PT tiver uma atuação clara e constante para fazer os lulistas viverem as experiências de lutas por novas conquistas econômicas, sociais e políticas, dando-lhes consciência e organicidade, num processo que só os partido são capazes de realizar.

 

 

 

 

 

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