[Respostas ao Brasil de Fato]

WPO | COR | [Respostas ao Brasil de Fato], 5 out. 2010.

 

 

05/10/2010

P – O que explica o surpreendente crescimento da candidatura à presidência de Marina Silva? Quais os fatores que privilegiaram tal “onda verde”, crucial para a existência de um segundo turno?

R – Em comentário escrito em 30/08, eu considerava que “Marina passara a concentrar seu fogo e ataques ao governo em temas como reforma tributária, proteção ambiental, jornada de trabalho, segurança e liberdade de comunicação. Essa crítica a fizera conquistar parte do eleitorado de esquerda e havia carreado apoios a candidatos de outros partidos desse espectro político. Achava que, somada, essa parte do eleitorado representava mais de 15% das intenções de voto e que, se a campanha Dilma desprezasse o trato de tais temas, poderia ser por aí que ela fosse surpreendida. Outros fatores podem ter contribuído, mas creio que esse foi o motivo central.”

 

P – Somadas, as candidaturas de esquerda à presidência representadas Psol, PCB, PSTU e PCO atingiram somente 1% do eleitorado, cerca de 1 milhão de
votos. Só o candidato a deputado federal por São Paulo, Tiririca, obteve 1,3 milhões de voto. Qual sua análise desse contexto?

R – Isso mostra o quanto esses partidos estão fora de sintonia com a atual realidade brasileira. O pior é que eles sequer aproveitaram a campanha eleitoral para fazer propaganda das propostas supostamente estratégicas que têm em mente para o país. Por um lado, giraram em torno de propostas economicistas e reformistas. Por outro, denominavam-nas de revolucionárias. Espero que eles reavaliem sua ação e procurem entender a situação nova e complexa dos trabalhadores e da esquerda no Brasil.

 

P – Em que medida o posicionamento da mídia e o fator Erenice Guerra foram preponderantes para esvaziamento do debate político mais aprofundado das
campanhas presidenciais, de Dilma Rousseff, do PT, e de José Serra, do PSDB?

R – O posicionamento da grande mídia, não da mídia em geral, assim como o fator Erenice Guerra, apenas trouxeram à tona o esvaziamento do debate político praticado na campanha. Erroneamente, a campanha Dilma quis evitar um debate que deveria ter sido o seu forte. Como disse acima, isso abriu chance para Marina aparecer como a única candidata com programa e com disposição de debater os problemas políticos, o que acabou levando as eleições para um segundo turno. Nas disputas políticas, como nas guerras, o inimigo em geral vence não porque tenha acertado mais, mas porque nós erramos mais. Foi o que aconteceu com a campanha Dilma ao adotar a postura de não ter programa nem debater política.

 

P – Você acredita que o segundo turno será mais politizado, como um aprofundamento das diretrizes de campanha? Em 2006, a candidatura de Lula,
no segundo turno, destacou o caráter privatista dos tucanos e parece ter atingido êxito.

R – Tenho esperança de que Dilma e o PT abandonem o defensismo político e discutam aberta e firmemente o que os diferencia de Serra e da coligação PSDB-DEMO. Espero que encarem de frente os problemas com os quais o povão ainda se defronta. Deixem de lado essa história de que a maioria do povo já é “classe média”, e vejam a realidade de que, se a maioria do povo brasileiro melhorou de situação com a política do governo Lula, seu padrão e suas condições de vida ainda estão longe de um patamar de classe média, em termos de renda, educação, saúde, saneamento, acesso a bens culturais e a outros confortos que caracterizam as camadas médias. Se não fizerem isso, correrão o risco de verem a vitória escorrer pelos dedos das mãos. Se fizerem o que Lula fez no segundo turno de 2006, poderão assegurar a continuidade e o avanço real de seu governo.

 

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