[Respostas ao Brasil de Fato]

WPO | COR | [Respostas ao Brasil de Fato], out. 2010.

 

 

Prezado,

Desculpe a demora em responder. Estava assoberbado. Abaixo as respostas:

 

P – O senhor acredita que o eventual governo Dilma teria uma mudança de correlação de forças na base aliada? Há uma tendência mais à esquerda com o crescimento do PSB, nos Estados, e PCdoB e PT no Congresso?

R –  Creio que sim. Mas não devemos esquecer que a correlação geral de forças não sofreu modificações radicais. Portanto, será preciso saber se a nova base aliada de esquerda vai ser capaz de formular uma unidade em torno dos pontos principais de mudanças política, sociais e econômicas que o país necessita, e mudar ainda mais a correlação política a favor de tais mudanças.

 

P – O senhor acredita que as pautas dos movimentos sociais, já apresentadas para o atual governo, teriam condições de serem implementadas no próximo governo. Tais como a redução da jornada de trabalho e a revisão do índice de produtividade rural?

R – Creio que vai depender, por um lado, daquela unidade das forças de esquerda no congresso e, por outro, do grau de mobilização social real que tais reivindicações obtiverem na sociedade. Se dependereme apenas do congresso, vão encontrar uma oposição mais ferrenha.

 

P – A mídia já sinaliza que pretende impor uma agenda ao novo governo: a reforma da previdência, se possível com a instituição de idade mínima para aposentadoria. Como a esquerda poderia influenciar para que essa pauta seja derrotada?

R – Da mesma maneira: mobilização social e ação firme no congresso.

 

P – Aliás, se Dilma sair vitoriosa, a mídia parece despontar como a maior derrotada das eleições. Por que eles não teriam conseguido repetir com êxito o que fizeram em 1989?

R – Em 1989, quem precisava conquistar os descamisados era a esquerda, que não acreditavam que um igual a eles poderia governar o país e, ainda por cima, acreditava nas mentiras que de iríamos lhes tirar seus bens. O mais bizarro é que não havia tais bens. Em 2002 houve uma profunda reviravolta cultural entre essas grandes massas da população, reviravolta que se aprofundou durante os oito anos do governo Lula. A midia se defrontou com essa realidade e, tudo indica, sairá derrotada, embora ainda tenha conseguido influenciar parte da classe média. Os próximos anos vão ser de intensa disputa ideológica e política entre a grande mídia e as forças democráticas e populares em torno dessas questões.

 

P – No âmbito econômico, o senhor acredita que Dilma teria mais espaço do que Lula para romper, de vez, com o neoliberalismo? Digo, com menos preocupação com ajuste fiscal e não ceder às pressões do mercado e da mídia para reduzir o “inchaço” e a “gastança” estatal?

R – Eu acredito que a disputa em torno desses problemas tende a se acirrar, em particular devido às políticas das grandes potências capitalistas para sair da crise às custas dos países emergentes e dos países pobres. Isso já se expressa na disputa sobre a desvalorização do dólar. Mas é difícil saber até onde será possível obter mais espaço para as rupturas necessários. De novo, a fórmula parece ser mobilização social e disputa congressual firme.

 

P – Apesar do crescimento econômico e da redução dos índices de miséria e pobreza, o atual governo não conseguiu mudar a postura do Brasil no mercado mundial, permanecendo, sobretudo, como um exportador de commodities. Na sua opinião, que tipo de política deve ser feita para que o país possa ser referência em produtos com maior valor agregado?

R – Talvez a primeira coisa a fazer seja ter um plano de industrialização de mais largo prazo, tendo como eixo o adensamento das cadeias produtivas, absorvendo capitais e tecnologias avançadas para essas áreas. O que pode causar alguns déficits comerciais pela importação massiva de bens de capital indispensáveis para realizar tal adensamento. Depois, creio que será fundamental reduzir a zero, ou quase zero todos os encargos sobre as micro e pequenas industriais, de modo a criar uma massa crítica de fabricantes por todo o país, capazes de complementar a oferta de bens de consumo e certas demandas dos grandes grupos industriais. Se essas duas medidas estratégicas forem implementadas, creio que a situação pode se inverter a médio prazo.

 

P- A política internacional de um eventual governo Dilma deve permanecer a mesma do de Lula? Como o senhor avalia que deva ser a relação com os EUA?

R – É imperioso para o Brasil dar continuidade à política internacional do governo Lula. Se não tivessemos diversificado as parcerias comerciais por todo o mundo, independentemente dos regimes políticos vigorantes em cada país, hoje estaríamos emgolfados na mesma crise dos EUA e da Europa. E não vejo necessidade de modificar as relações com os EUA, tendo por base a mesma política de soberania e independência. Qualquer mudança nas relações do Brasil com os EUA deve depender dos EUA e não de nós. Se eles não interferirem em nossos assuntos internos, não há motivo para mudanças.

 

 

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