[Respostas ao Brasil de Fato]

WPO | COR | [Respostas ao Brasil de Fato], 18 set. 2010.

 

 

18/09/2010

P. – O processo eleitoral tem sido marcado por debate de projetos políticos diferentes?

R – Durante algum tempo, tanto a campanha Serra, quanto setores dentro do PT e de seus aliados, alimentaram a idéia de que não havia projetos políticos diferentes. Ninguém mais teria a intenção de mudar as políticas introduzidas por Lula. O candidato do PSDB-DEM repetia que sua pretensão consistia em fazer mais e melhor. Portanto, para que alimentar divisões?

Cientistas políticos encheram as colunas jornalísticas com análises sobre a identidade dos perfis de Serra e Dilma. A disputa se resumiria à competência e experiência política dos candidatos. A campanha Dilma, por seu turno, mantinha baixa intensidade, frisando apenas ser a única capaz de manter as conquistas do governo Lula e, ao mesmo tempo, prosseguir nas mudanças iniciadas por ele.

Essa suposição de projetos políticos idênticos era alimentada ainda por setores da esquerda, que discordam não só do PT, mas também da candidata escolhida por ele. É isso que explica, em parte, as candidaturas de correntes de ultra-esquerda, a candidatura Marina, e o fato de que uma parte do que poderíamos chamar de esquerda light esteja apoiando Serra.

Essa situação começou a mudar quando a ascensão de Dilma na preferência eleitoral apontou para a possibilidade de vitória no primeiro turno. Ao mesmo tempo, constatou-se que uma parte da direita preferia Dilma a Serra. O editorial da Folha de São Paulo, exigindo que a campanha do PSDB-DEM abandonasse o que qualificou de populismo, foi o chamamento a Serra para romper com a suposta identidade de projetos políticos e adotar uma linha de ataque que recuperasse essa parte da direita para o ninho tucano.

Uma virada desse tipo está longe de pretender o debate político. O projeto político do PSDB-DEM é a retomada da repudiada política de FHC. Colocá-la em debate apenas pioraria as coisas. Nessas condições, a virada na estratégia de Serra só poderia significar a criação de fatos políticos no estilo da velha UDN, dos anos 1950 e 1960, forjando escândalos de consistência duvidosa. Ataques subsidiários às políticas externa, econômica e social, e promessas de todo tipo, que deixam qualquer populista envergonhado, apenas mascaram o jogo truculento.

 

P. – A tentativa do PSDB e da grande imprensa de emplacar sucessivos escândalos políticos midiáticos tem tirado a política do centro do debate?

R – Esse é o objetivo principal: tirar a política do centro do debate. Como a campanha Dilma se esforçou pouco em introduzir esse debate em maior profundidade na campanha, ela talvez tenha dificuldade em se contrapor à ofensiva da grande imprensa na medida do necessário. Para superar essa dificuldade, talvez precise combinar uma série de grandes atos massivos, com um discurso mais focado nas mudanças que darão continuidade aos avanços do governo Lula.

Essa tentativa do PSDB-DEM e da grande imprensa pode até abalar a campanha Dilma e forçar um segundo turno. Mas ela não garante que haja segundo turno, mesmo que a campanha Dilma não reaja à altura, em termos políticos. Nem garante que, havendo segundo turno, Serra ganhe. Ao falhar em seus objetivos, essa tentativa pode representar o fim do mito de que a grande imprensa teria condições de moldar a opinião do conjunto do povo brasileiro, em especial de suas camadas de menor escolaridade. Isto pode significar mudanças na consciência do povo brasileiro, cujas consequências ainda são difíceis de dimensionar.

 

P. – A aposta de Serra, inicialmente, de vincular sua imagem à de Lula dificulta o esclarecimento da diferença entre as candidaturas?

O propósito era esse. Os tucano-pefelistas trabalhavam a hipótese de que, evitando o debate de projetos políticos, Serra poderia apresentar vantagens competitivas imbatíveis. Sua suposta experiência política e tecnocrática falaria mais alto para o eleitorado.

Subestimaram o fator-Lula e o fator-PT, que avalizam o projeto político da candidatura Dilma. É certo que eles não podem tudo. Mas são um diferencial que nenhuma estratégia ou tática política, oposicionista ou aliada, deveria subestimar. Embora a campanha Dilma não tenha se esforçado para realizar aquela diferenciação em termos mais incisivos, aqueles dois fatores representaram os símbolos de esclarecimento para grandes parcelas do eleitorado.

 

P. – A alta popularidade de Lula e a provável transferência de seu prestígio a Dilma é um cenário propício para a candidata não ter que realizar uma demarcação política, como Lula fez no segundo turno em 2006?

Acho que não. As intervenções do próprio Lula na campanha têm mostrado que ele se preocupa em fazer essa demarcação política. E isso ocorre nem tanto como necessidade das questões colocadas pela campanha, mas muito mais pelos problemas a serem enfrentados no futuro.

Em certa medida, a eleição de Dilma será a reeleição simbólica de Lula. No entanto, o governo será o governo Dilma. E se esse governo não tiver claras as demarcações políticas com as forças oposicionistas, assim como as mudanças democráticas e populares que serão necessárias imprimir na sociedade brasileira, bem além daquelas implantadas pelo governo Lula, ele corre o perigo de perder o rumo e o ritmo. É nisso que consiste a atualidade da demarcação política.

 

P – Na sua opinião, qual papel que as candidaturas de partidos mais à esquerda, como o PSOL, PSTU, PCB e PCO, tem cumprido nesse processo eleitoral e qual é a perspectiva desse campo no pós-Lula?

Esses partidos têm pleno direito de ter candidaturas próprias e expor suas opiniões publicamente. Isso representa o grau de conquista democrática do povo brasileiro, que obriga a direita política a conviver com forças que até poucos anos atrás eram impedidas de ter vida legal.

Mas esses partidos ainda não entenderam essa realidade. Seus discursos e seus programas, por um lado, repetem as velhas fórmulas de transformação social, desdenhando uma situação que impõe outros tipos de mediação. Por outro, suas propostas eleitorais são de um economicismo  de fazer corar os reformistas mais renitentes.

Talvez por tudo isso, também não tenham entendido o caráter plebiscitário destas eleições, nas quais está em pauta, sobretudo, o enterro das políticas neoliberais colocadas em prática de Collor a FHC. A direita política entendeu isso, e a toma como batalha decisiva. Portanto, não é por acaso que seus representantes políticos, e toda a grande imprensa, estejam colocando na liça todas as suas armas, mesmo as mais espúrias. Espero que esse campo político saiba tirar as lições dessa situação, mas acho que ainda é cedo para pensar em mudanças significativas.

 

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