[Respostas à Maria Carolina]

WPO | COR | [Respostas à Maria Carolina], mar.-mai. 2003.

 

 

Assunto: Re: Entrevista
Data: 24/3/2003
Para: mccristianini@uol.com.br

 

Oh Mária Carolina

O que V. me pede não é uma entrevista, é a feitura de um livro. Mas, mesmo assim, vamos lá, aos poucos, que meu tempo anda escasso. A cada dois a três dias enviarei resposta a alguns dos itens perguntados por V.

1) Como a economia chinesa está estruturada atualmente?

O que significa “estruturada” para V? Pelo tipo de propriedade?, pelos departamentos da economia?, por ramos produtivos?, pelas formas de gestão?

Do ponto de vista da propriedade, é uma economia de múltiplos tipos de propriedade (estatal, coletivo, privado nacional, privado estrangeiro e muitos tipos de propriedade mista). As empresas estatais representam cerca de 30% do total, as coletivas 45% e as privadas e mistas 25%. As empresas estatais têm papel preponderante nos setores estratégicos, mas em geral não são monopólios.

A agricultura é considerada um setor forte e estratégico (cerca de 500 milhões de toneladas de grãos por ano), mas os setores industrial e de serviços são aqueles que estão se desenvolvendo mais rapidamente (mais de 10% ao ano).

A China possui hoje cadeias produtivas completas ou quase completas em todos os ramos de sua economia, desde a produção de bens de consumo corrente e de baixo valor agregado, até as indústrias espacial, aeronáutica, eletrônica e biotecnológica, de altíssimo valor agregado.

A estrutura gerencial varia muito. Encontra-se desde sistema de gestão eleitos diretamente pelos funcionários, em muitas estatais e empresas coletivas, quanto sistemas gerenciais profissionalizados, contratados no mercado de trabalho, seja nas estatais e coletivas, seja nas empresas privadas.

 

2) É possível conciliar reformar econômicas com um regime político comunista?

O que V. chama de “regime político comunista”?

Do ponto de vista conceitual, um regime político comunista seria aquele em que o Estado teria perdido suas funções de consensuamento e/ou coerção e deixado de existir como instrumento à parte e sobre a sociedade civil. A administração das coisas teria passado a ser realizada através da associação voluntária dos membros dessa sociedade. Ou seja, estamos falando de uma sociedade em que a produtividade, a abundância e a cultura devam ter alcançado um alto grau de desenvolvimento, em que a propriedade privada tenha se tornado algo supérfluo e desnecessário e em que todos os membros da sociedade possam ter acesso aos bens materiais e culturais que precisam, de acordo com as necessidades de cada um.
Nesse sentido, o regime político chinês não é um regime político comunista. É um regime político dirigido pelo partido comunista, mas sua base social é uma frente única das classes sociais trabalhadoras e de setores da burguesia chinesa. Em outras palavras, o regime combina socialismo e capitalismo numa certa dose, mas trabalha no sentido de que o capitalismo ajude ao desenvolvimento socialista. Para procurar garantir que isso se dê sem muitos traumas, do ponto de vista político o PC combina democracia (principalmente na base e nos setores intermediários) e centralismo (principalmente no topo), tendo por eixo representativo o sistema parlamentarista (assembléias populares eleitas a cada cinco anos) e por eixo de participação direta o sistema de consulta política permanente, através da conferência consultiva política do povo chinês.

Do ponto de vista prático, esse regime político é o que tem se mostrado mais capaz, em todo o mundo, de combinar crescimento econômico com distribuição de renda e de ampliar, paulatinamente, as esferas de participação democrática econômica, social, cultural e política.

Por hoje é isso.
Abraços
Wladimir
 

Assunto: Re: Entrevista
Data: 25/3/2003
Para: mccristianini@uol.com.br

 

Cara Maria Carolina

V. pergunta:

3) A privatização das empresas estatais será uma medida necessária para sustentar o crescimento da economia e a entrada de capital estrangeiro?

Essa “privatização” é um mito ocidental. Os chineses continuam mantendo as estatais como seu principal instrumento de aplicação das políticas econômicas governamentais. O que mudou em relação às estatais?

1º – Elas conquistaram autonomia, isto é, elas atuam no mercado como qualquer outra empresa, sem privilégios. Em outras palavras, elas precisam controlar a qualidade, ter produtos que atendam às demandas, ter eficiência e rentabilidade. Como empresas estatais elas firmam um contrato de responsabilidade com o governo, assumindo as benesses quando obtêm lucros e as conseqüências, quando têm prejuízos. Esse contrato, assim como os programas de produção das estatais são discutidos nas assembléias dos trabalhadores da empresa, que assume coletivamente os encargos e benefícios dessa autonomia. Assim, as estatais chinesas funcionam agora sob um sistema misto de auto-gestão e subordinação a seu proprietário coletivo, a sociedade.

2º – As estatais estão deixando de ser empresas monopolistas. Isto é, na China podem existir duas ou mais estatais atuando e concorrendo entre si e concorrendo com empresas coletivas e privadas do mesmo ramo ou setor. Todos os monopólios estatais estão sendo desmontados paulatinamente.

3º – O processo de modernização das estatais está em curso e é um projeto de longo prazo, que visa implantar sistemas empresariais modernos na maior parte delas. É preciso levar em conta que as estatais chinesas funcionavam antigamente recebendo verbas estatais para produzir e entregar sua produção às empresas monopolistas, também estatais, de comércio, que realizavam a comercialização e repassavam ao Estado os resultados financeiros. Era um círculo aparentemente virtuoso que tinha o defeito fatal de produzir por metas quantitativas, desprezando as demandas reais do mercado.

4º – Agora isso acabou. As estatais devem ter seu próprio capital, captar recursos bancários e financeiros no mercado para seus projetos de expansão (logicamente, pagando os juros e serviços financeiros correspondentes) e atender ao mercado com eficiência, de modo a ter rentabilidade e poder realizar sua reprodução ampliada. É lógico que isso não poderia ser feito de um dia para o outro. Mesmo porque, o aumento da produtividade e a rentabilidade só pode ser obtido reduzindo o número de trabalhadores e aumentando o valor produzido pelos que permanecem. Em termos concretos, isso significa desemprego. Então, no processo de transição, as estatais precisaram arcar com a realocação dos empregados excedentes, de modo a evitar que a taxa de desemprego subisse além de certo patamar suportável. Com isso, atualmente ainda restam uns 30% a 40% de estatais que ainda dão prejuízo.

5º – Uma estatal que dá prejuizo e é irrecuperável (algo muito comum entre as empresas privadas) vai seguir o mesmo caminho destas. Isto, vai ser fundida com outra empresa que possa recuperá-la (outra estatal, ou uma empresa coletiva, ou mesmo uma empresa privada); ou vai ser arrendada por uma outra empresa, para ser recuperada; ou vai ser liquidada, isto é, vai decretar falência. Como V. vê, há uma pequena chance de que alguma estatal desse tipo venha a ser “privatizada”, mas isso certamente é uma pequena percentagem do total.

Como V.pode notar, o crescimento sustentado só foi possível porque as estatais chinesas aguentaram o principal peso das reformas, evitando os traumas mais graves. Sem elas, o desemprego poderia ter estourado e as empresas estrangeiras não teriam podido instalar-se no país com a segurança necessária. E a China dificilmente teria podido seguir um plano macroeconômico tão eficiente nos recentes 22 anos. O resto, como disse, á apenas mito ocidental.

 

 

Assunto: Re: Entrevista
Data: 4/4/2003
Para: mccristianini@uol.com.br

 
Cara Maria Carolina

Desculpe ter ficado algum tempo sem continuar as respostas. de vez em quando caem sobre a nossa cabeça trabalhos inadiáveis, o que se há de fazer.

 

4) A China não acabará rumando para uma sociedade cada vez mais capitalista para manter o desenvolvimento econômico?

O que é uma sociedade “cada vez mais capitalista?”. Se é uma sociedade que “cada vez mais” não se incomoda com o desemprego conjuntural e estrutural, então a China não está nesse caso. Mas isso é uma discussão pouco científica. O problema é que, para desenvolver a economia e colocá-la no ponto de fazer com que as relações produção (ou, mais propriamente, de propriedade) possam ser socializadas, é necessário alcançar um alto grau de desenvolvimento das forças produtivas (desenvolvimento tecnológico em máquinas, equipamentos, unidades produtivas, infra-estrutura, capacitação da força de trabalho etc). Do ponto de vista histórico, se a sociedade ainda não alcançou esse estágio de desenvolvimento, ela precisa dar um curso mais ou menos livre às diversas formas de propriedade (ou aos diversos tipos de relações de produção) para desenvolver as forças produtivas. Foi essa imperiosidade histórica que obrogou a China a fazer um recuo estratégico e permitir a ação das forças capitalistas no desenvolvimento das forças produtivas.

Pensando no futuro desse desenvolvimento é que a China não abre mão da propriedade pública (estatal e coletiva), já que esta é fundamental, do ponto de vista econômico, para decidir se a China marchará para o desenvolvimento do socialismo ou do capitalismo. É evidente que a coisa não se reduz a isso. A presença da propriedade capitalista gera problemas sociais, ideológicos, culturais, comportamentais, políticos contraditórios com o socialismo que podem desempenhar papel importante no rumo futuro. Mas isso vai depender da capacidade ideológica e política dos socialistas chineses, de saberem demonstrar que o socialismo é superior (no sentido de garantir bem-estar e democracia econômica, social e política para todo o povo) ao capitalismo.

Eu diria que até agora, apesar da presença capitalista no funcionamento da sociedade chinesa, o socialismo ainda é predominante (o que pode ser verificado, além da presença das empresas públicas e outras coisas, pela preocupação com o crescente bem-estar da população, com a elevação da cultura, com a luta incansável contra a corrupçaõ e os crimes econômicos etc). De qualquer modo, como os próprios chineses admitem estar na fase inferior de construção do socialismo, só o futuro dirá se eles terão sucesso ou não na superação dessa fase e evitarão o predomínio do capitalismo.

 

 

Cara Maria Carolina

Desculpe meus atrasos. Choveu sobre minha cabeça um aguaceiro de trabalho e isso está atrapalhando minhas respostas. De qualquer modo, aqui vai mais uma.
5) Em novembro de 2001 a China foi admitida na Organização Mundial do Comércio. No entanto, algumas condições foram impostas, como tratar o país como uma “non-martket economy” durante os próximo 15 anos. Essa medida é justa com o país? Isso não acabará trazendo prejuízos para a economia?

Se tomarmos os diversos parâmetros relativos à definição de uma economia de mercado, como comportamento governamental, liberdade econômica, acesso à produção e liberdade comercial e financeira, pode-se afirmar que a China está acima da média dos 60% exigidos para ter o status de “economia de mercado”.

O tratamento de “non-market economy” permite aos demais países entrar com processos anti-dumping contra a China, prejudicando seu comércio internacional. Do total de 1979 investigações sobre denúncias de dumping ocorridas no mundo todo entre 1995 e 2000, 278 relacionam-se com a China, representando 14% do total.

Apesar disso, as exportações da China cresceram 22% em 2002, e suas exportações 21%, alcançando um comércio exterior global de 620 bilhões de dólares, o quinto maior do mundo. Então, apesar das restrições que ainda pesam sobre a China, ela parece estar se saindo bem com sua entrada na OMC.

 

6) Quais as relações econômicas entre Brasil e China hoje?

As relações Brasil-China aumentaram bastante em anos recentes, saltando de cerca de 2 bilhões de dólares para mais de 4 bilhões de dólares. Mas isso representa menos de 1% do comércio total da China e está longe de aproveitar a potencialidade e a complementaridade dos dois países. Além disso, o intercâmbio restringe-se a alguns poucos produtos.

Como as relações Brasil-China ganham cada vez mais a importância de parceria estratégica, o novo governo brasileiro tende a intensificar essas relações. A presença do presidente Lula e de alguns de seus ministros num seminário sobre as relações Brasil-China, a realizar-se no dia 30/04 no auditório do BNDES, no Rio, indica a importância que o assunto merece. Assim, é provável que nos próximos anos o intercâmbio econômico, comercial, tecnológico e científico entre os dois países alcance um patamar bem superior ao atual.

Por ora é isso.
Abraços
Wladimir

Assunto: Re: Entrevista
Data: 29/4/2003
Para: mccristianini@uol.com.br

Cara Maria Carolina

Continuando as respostas:

 

7) Qual a importância das ZEEs na economia chinesa?

As ZEE desempenharam um papel importante no desenvolvimento chinês no processo inicial das reformas. Elas funcionaram como instrumento básico para a atração de capitais e tecnologias estrangeiras. Durante os dez a quinze primeiros anos das reformas, os capitais estrangeiros investidos nas ZEE tinham que realizar joint-ventures com alguma empresa chinesa e produzir apenas para o mercado externo.  Vistas cruamente, elas funcionaram como plataformas de exportação para as empresas chinesas (em geral estatais e coletivas) associadas a empresas estrangeiras e como plataformas de internalização de tecnologias, realizadas pelas empresas chinesas. Isso permitiu que a China ampliasse sua presença no mercado internacional e, ao mesmo tempo, modernizasse suas empresas domésticas para o padrão de competição das empresas internacionais. Portanto, a China praticou tanto abertura (transformando alguns enclaves de seu território em áreas de investimento estrangeiro e ampliando sua participação no mercado internacional), quanto protecionismo (evitando que as empresas estrangeiras mais competitivas participassem do mercado doméstico). Apenas à medida que as empresas chinesas foram melhorando seu padrão tecnológico e ganhando poder de competição com as empresas estrangeiras, é que o resto do mercado chinês vem sendo aberto, mesmo assim paulatinamente.
8) Em contraste ao crescimento de aproximadamente 8% ao ano, a China ainda enfrenta problemas sociais como a desigualdade entre as zonas mais e menos desenvolvidas. É possível que esses problemas sejam resolvidos com uma política socialista aberta ao mercado estrangeiro?

A China ainda vai enfrentar problemas sociais (e de outros tipos) durante um certo tempo. Aliás, problemas sempre haverá, mas de natureza diferente. Entre 1949 e 1957, o problema chave da China foi acabar com a fome e a miséria crônicas de sua população, o que foi conseguido em menos de uma década. Depois de 1957 até 1978, seu problema foi garantir uma vida pobre, mas digna, para todos os seus habitantes e encontrar o caminho mais adequado para um desenvolvimento sustentável. As tentativas igualitaristas (Grande Salto e Revolução Cultural) não conseguiram dar um salto no padrão produtivo e no padrão de vida, no máximo socializando a pobreza. A partir de 1978, o recuo estratégico de combinar diferentes formas de propriedade e o planejamento macroeconômico com o mercado tem permitido desenvolver com rapidez as forças produtivas (expressa tanto no crescimento do PIB, quanto no avanço tecnológico e no adensamento das cadeias produtivas) e o padrão de vida da população. O crescimento da renda desta tem sido de 5% a 6% ao ano, embota não de forma igualitária. De qualquer modo, a previsão chinesa é de que até 2010, os chineses de menor padrão de vida estejam num nível que eles chamam “relativamente abastado”, algo como a nossa classe média de nível médio. Entre 1990 e 2000, a China reduziu de 250 milhões para 30 milhões o número de chineses vivendo abaixo da linha da pobreza e é possível que no final de 2003 não haja mais nenhum chinês vivendo nesse nível. Como se pode notar, há uma permanente afluência em ondas da população chinesa aos bens de consumo, à educação e cultura, à saúde e outros bens tangíveis e intangíveis. Esses problemas poderão ser resolvidos com a política socialista de transição (que inclui a presença de vários tipos de propriedade, inclusive estrangeiros), mas certamente surgirão outros que só poderão ser resolvidos com um patamar supeiror de organização social.

 

Cara Maria Carolina

Vamos tentar encerrar a maratona:

9) O que mudou para a população desde a abertura econômica?

R) Muita coisa. Mudou principalmente a situação de escassez, uma das principais características do período que vai até o início dos anos 80. O povo chinês hioje tem acesso a uma quantidade e variedade de bens inexistentes antes. Mudou também seu padrão de vida. A renda média cresceu entre 5% e 6% ao ano. A elevação do padrão de vida é possível ver a olho nu em qualquer cidade e no campo chineses.

Por outro lado, as reformas econômicas também trouxeram insegurança, disparidades de renda e outros males típicos das economias de mercado, como as fraudes na qualidade e no preço de produtos, a ambição de enriquecer à custa dos demais etc etc. A insegurança está relacionada principalmente com o fim do pleno emprego. Hoje qualquer pessoa tem liberdade para trocar de emprego, mas as empresas também têm liberdade para demitir empregados. Assim, se antes o Estado era o “´paizão” que garantia emprego para todos, mesmo às custas da produtividade e da própria produção, hoje essa garantia não existe mais, embora esse processo continue sendo realizado progressivamente, para evitar choques e traumas. As empresas estatais possuem programas de reciclagem e realocação dos excedentes, existem várias agências de fomento para incentivar os desempregados a abrirem seus própios negócios e o seguro desemprego torna-se cada vez mais universal. De qualquer modo, para muitos a perspectiva de ter que lutar no mercado de trabalho gera insegurança.

A disparidade de renda rompeu com o igualitarismo anterior. O governo chinês chegou à conclusão de que o igualitarismo, embora constituindo uma meta humanista, só pode ser praticado quando sua sociedade alcançar um alto grau de desenvolvimento material e cultural de suas forças produtivas. Praticá-lo nas condições de forças produtivas ainda pouco desenvolvidas transformou o igualitarismo num empecilho ao desenvolvimento daquelas forças produtivas. O lema “enriquecer em ondas”, em que os mais avançados puxam os mais atrasados, procura justificar o fato de que a adoção de diferentes formas de propriedade gera diferentes estratos de renda, ao mesmo tempo que adota um sinal de alerta para evitar que essas disparidades criem polarizações antagônicas. De qualquer modo, embora econômica e socialmente necessária nesta etapa que os chineses chamam de “estágio inferior de construção do socialismo”, a disparidade social é um defeito e um risco.

Apesar desses problemas, a população chinesa hoje está em condições muito melhores do que antes das reformas. Dos 250 milhões de chineses que viviam abaixo da linha da pobreza, antes de 1990, hoje só restam cerca de 15 milhões nas regiões mais atrasadas do país. E tudo indica que o plano de alcançar um padrão de vida “medianamente abastado” para o conjunto da população chinesa, por volta de 2010, terá sucesso. Teremos, então, uma Bélgica de 1,28 bilhão de habitantes.

 

10) No último Fórum Econômico de Davos aconteceram algumas discussões sobre as economias asiáticas. O Secretário para Comércio, Indústrias e Tecnologia de Hong Kong, Henry Sabor Ying-iene, argumentou que a China não poderá sustentar o crescimento econômico somente com exportações e que é preciso desenvolver a economia doméstica para aumentar o consumo. Qual a sua opinião sobre isso?

R) Isso é verdade. E a China já introduziu mudanças importantes em seus planos de longo prazo para consolidar sua economia doméstica como a principal base de seu desenvolvimento. Embora tais mudanças estivessem previstas desde meados dos anos 1990, elas tornaram-se realidade em parte forçadas pelas crises financeiras de 1997-1999 e, em parte, pelas próprias pressões internas de sua economia.

Crescimentos muito rápidos, de 9% ou mais anualmente, causavam pressão demasiada sobre as matérias primas, os transportes e os preços, gerando também pressões inflacionárias. Foi isso que ocorreu em 1993 e 1994, quando a inflação chegou a mais de 20%. Dese 1999 a China vem procurando crescer a taxas entre 6% e 8% ao ano, “moderadamente rápidas”. Essa mudança no ritmo de crescimento econômico foi a primeira de uma série de ajustamentos.

A segunda, também já em curso desde a segunda metade dos anos 1990, foi o descolocamento do eixo principal de desenvolvimento das regiões litorâneas orientais para as regiões centrais e ocidentais do país, que englobam mais de 70% da superfície total da China e cerca de 60% de sua população, e são as mais atrasadas. Nos próximos 20 anos, essas regiões devem apresentar o mesmo desempenho que as regiões litorâneas apresentaram entre 1980 e 2000. Um exemplo disso é o Tibet, que hoje é a região de mais rápido desenvolvimento em toda a China.

Outra mudança importante consistiu em transformar o mercado interno chinês num mercado consumidor de massa. Para estimular essa mudança o governo elevou as pensões e as aposentadorias, aumentou os salários dos funcionários públicos (que estavam muito abaixo dos empregados das empresas estatais, coletivas e privadas), instituiu o 13º salário anual e reduziu as aliqüotas do imposto de renda das pessoas físicas e os impostos sobre os camponeses, o que representou uma elevação de cerca de 30% na renda de grande parte da população.

Ao mesmo tempo, o governo transformou as quatro principais datas nacionais (Ano Novo, Ano Novo Lunar, Dia do Trabalhador e Dia da Proclamação da República Popular) em feriados de uma semana, permitindo que o comércio funcione e estimulando a oferta de pacotes turísticos internos, o lazer e o entretenimento. Em 2002, o valor do comércio doméstico foi de US$ 790 bilhões, enquanto o valor do comércio externo foi de US$ 620 bilhões. O comércio doméstico deve consolidar-se ainda mais nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, as reformas continuam, concentrando-se atualmente na consolidação do sistema bancário e financeiro nacional e na elevação da gestão empresarial, principalmente na estatais, ao nível científico.

 

11) O senhor acredita que o crescimento continuará na próxima década ou a economia entrará em crise?

R) A China tem potencial e dinamismo internos para continuar crescendo a taxas “moderadamente rápidas” de 7% nos próximos 20 a 30 anos, pelo menos. A não ser que as condições internacionais sofram uma radical transformação, e que os dirigentes chineses cometam erros macroeconômicos e macrosociais graves, a China deve dobrar seu PIB de 2000 em 2010, e dobrar o PIB de 2010 em 2020. Em termos concretos, isso significa, pela paridade do poder de compra, que o PIB chinês alcançará US$ 10 trilhões, em 2010, e US$ 20 trilhões, em 2020.

Isso não significa que a China não possa sofrer crises conjunturais por motivos diversos. É muito difícil realizar reformas econômicas, sociais, culturais e políticas da envergadura das que a China vem realizando, sem que haja atritos de diversas ordens, ainda mais se levarmos em conta o seu passivo histórico, e o tamanho do país e de sua população. É como se estivéssemos assistindo ao movimento de placas tectônicas, que em geral causam tremores, terremotos e maremotos. É um grande feito que, nos últimos 25 anos, a China só tenha se visto às voltas com os tremores de 1989 e que, em geral, ela tenha conseguido manter sua estabilidade econômica, social e política, principalmente se olharmos o resto do mundo.

 

 

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *