[Resposta à revista Conexão]

WPO | COR | [Resposta à revista Conexão] set., 2003.

 

 

Assunto: participação na conexão 
Data: 22/9/2003 17:23:32 Hora oficial do Brasil
De: xcomunicacao@uol.com.br
Para: wpconsultoria@aol.com
Enviado pela Internet (Detalhes)

 

Wladimir,

Gostaríamos que, se for possível, você participasse da próxima edição da Conexão na seção Plural — aquela que fazemos uma mesma pergunta a dois interlocutores que tenham opiniões distintas.

Seria um texto pequeno de três parágrafos, no máximo, e que sai na íntegra, em aspas.

O nosso problema é o prazo que está apertado. Por isso lhe peço para nos responder se aceita ou não com a máxima urgência possível.

Segue a pergunta e o outro participante é o professor Wanderley Reis, da UFMG.

Temos acompanhado seu trabalho no Correio da Cidadania.

O presidente Lula está fazendo tudo aquilo que FHC sonhou e nunca conseguiu: a reforma previdenciária, que retira direitos dos servidores públicos e abre o importante mercado dos fundos de pensão para grupos internacionais; a reforma tributária, que não desonera o custo dos setores produtivos nem dos assalariados, nem apresenta mudanças significativas para a maioria dos estados e municípios.

Novas perdas se desenham com a possibilidade de adesão à Alca, da nova Lei das Falências, da autonomia do Banco Central e da reforma trabalhista, que, finalmente, vai retirar os poucos direitos que restaram aos trabalhadores da iniciativa privada.

Conexão foi a campo e perguntou a duas personalidades de renome nacional:

Com essas ações, o governo Lula atende aos interesses dos grupos internacionais ou do povo brasileiro?

 

Resposta:

A pergunta não é uma pergunta, é uma afirmação. Transforma em caso feito coisas que não passam de verdades parciais e hipóteses. A reforma da previdência retirou direitos dos servidores ou de parcelas dos servidores? O mercado dos fundos de pensão já foi aberto para grupos internacionais? A reforma tributária não desonerou o custo dos setores produtivos ou de alguns setores produtivos? O que significa desonerar o custo dos assalariados? Desonerar a cesta básica, tornando os assalariados mais baratos para o capital, ou aumentar salários e  benefícios, que aumenta seu padrão de vida, mas onera os setores produtivos?

Que mudanças significativas a reforma tributária deveria trazer para estados e municípios?

Negociar a possibilidade de adesão à Alca significa aderir à Alca? Que perdas vão ocorrer com a Lei de Falências? A autonomia do Banco Central é coisa líquida e certa? Quais são as novas perdas desenhadas para os trabalhadores com a reforma trabalhista? Essas seriam perguntas que refletiriam os processos em disputa, e não coisas aparentemente decididas e liquidadas. Por outro lado, há outras perguntas: Por que a reforma agrária não deslancha? A política externa continua sendo de submissão ao Império? As políticas de apoio à economia familiar rural são efetivas ou cosméticas? As políticas de micro-crédito e crédito em geral vão permitir ou não a geração de novos empregos? As mudanças nos marcos regulatórios dos serviços de concessão pública são um avanço ou um retrocesso?

Em outras palavras: por que priorizar apenas alguns aspectos mais em evidência do governo Lula, e nem sequer dar bola para os demais? Isso estaria relacionado com a visão de que um governo popular é homogêneo e pode tudo? Deve-se ou não levar em conta a correlação de forças, que impõe limites aos desejos e planos e obriga a adoção de táticas de concessões e ações parciais? Ao desconsiderar tais questões, a maioria dos setores populares está se desgastando frente às táticas que envolvem as perguntas-afirmações feitas por Conexão, quando deveria estar concentrando esforços na questão chave, que consiste em mudar a correlação de forças.

E, mudar a correlação de forças hoje consiste em reconstituir a força social, isto é, reconstruir a capacidade de luta e de organização das classes populares. Essas classes se encontram fragmentadas e desagregadas em virtude da reestruturação econômica neoliberal dos anos 1990. Superar essa fragmentação, depende fundamentalmente da solução do problema do emprego. Problema que está condicionado pelo tipo de crescimento econômico que for trilhado pelo país. Se for um crescimento baseado apenas na expansão das empresas corporativas, teremos aumento do PIB e manutenção ou aumento das taxas de desemprego. E as classes populares continuarão fragmentadas.

Quem está se preocupando com isso? Quem realmente acha que será decisivo que as classes populares reconstituam sua força social? Quem está pensando que isso é estratégico para que tais classes imponham seus interesses, impeçam que concessões parciais se tornem concessões totais e possam sustentar o governo popular na desejada e projetada mudança de rumo? Sem se voltar decididamente para dar resposta a tais perguntas, as forças populares gastarão o resto de suas energias nas escaramuças a oeste, enquanto a batalha decisiva se trava a leste. E não terão nem força para chorar.

 

 

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