[Resposta a Adalberto Martins, o Pardal]

WPO | COR | [Resposta a Adalberto Martins, o Pardal], s/d.

 

 

Para: CONCRAB

A/C Adalberto Martins

 

Estimado Companheiro Adalberto

Desculpe se demorei a responder sua enquete. Estou sobrecarregado de trabalho, mas mesmo assim acho importante contribuir com vocês. Assim, aqui vão de forma resumida e pontuada as observações sobre as duas questões colocadas por vocês:

 

I – Que análise V. faz da correlação de forças políticas e sociais na sociedade brasileira, no período 89/99, tendo em vista as transformações desejadas?

1. Do ponto de vista social (classes sociais):

a) A burguesia sofreu um interessante processo de diferenciação interna. No campo da grande burguesia, a burguesia transnacional penetrou mais profundamente, assumindo o controle dos principais setores econômicos (inclusive aqueles que eram cativos da grande burguesia nacional, como o setor bancário). As burguesias rural, industrial e comercial sofreram um sério processo de desgaste, enquanto a maior parte da burguesia financeira se fortaleceu, principalmente a associada ao capital transnacional. No campo da média burguesia ocorreu um sério processo de desagregação de diversos setores econômicos, a ser melhor estudado.

b) A pequena burguesia (classes médias) foi a mais atingida pelo processo de transnacionalização da economia brasileira: enquanto uma parte conseguiu associar-se a setores burgueses mais fortes, a maior parcela teve que migrar para seus estratos inferiores, para a classe trabalhadora ou até mesmo para os estratos marginalizados. Ocorreu uma quebradeira generalizada naqueles estratos de pequenos proprietários ligados aos setores industriais, agrícolas e comerciais e o desemprego atingiu fortemente seus estratos assalariados.

c) A classe trabalhadora assalariada foi fortemente atingida pelo desemprego e pelo processo de exclusão social em curso. A classe trabalhadora fabril foi numericamente reduzida, enquanto não houve um aumento significativo da classe trabalhadora empregada no comércio, serviços e atividades agrícolas.

d) A massa de marginalizados, aqui sendo considerada como classe exclusivamente em virtude de seu número, cresceu em decorrência dos processos de diferenciação e exclusão que atingiram a pequena burguesia e a classe trabalhadora. É provavelmente hoje o setor social numericamente mais vasto da sociedade brasileira.

e) A classe trabalhadora, com seus estratos fabrís, rurais, comerciais e de serviços, embora tenha sido eventualmente reduzida, continua sendo a classe socialmente mais forte, em virtude do grau de concentração que ainda possui e da organização que ainda mantém.

2. Do ponto de vista político (e ideológico):

a) A burguesia mantém a hegemonia ideológica e política sobre a sociedade brasileira, influenciando fortemente vastos setores das classes trabalhadoras e das classes médias e, principalmente, dos marginalizados. Detém o poder de Estado, possui uma poderosa máquina de propaganda e agitação (meios de comunicação), coloca a seu serviço a maior parte da intelectualidade e tem preponderância nas instituições políticas, culturais e sociais. Apesar disso, a burguesia tem dificuldade em unificar-se em torno do atual projeto hegemônico da burguesia transnacional, o que se reflete nas constantes disputas políticas internas e na instabilidade política. Tudo gira em torno da posição que cada estrato deve ocupar no novo pacto de dominação patrocinado pela burguesia transnacional.

b) A pequena burguesia continua dividida entre seu desejo de se transformar em burguesia (sonho cada dia mais distante para a maioria) e sua situação subordinada que, na maior parte dos casos, tende a fazê-la transitar para estratos sociais inferiores. Isso se reflete, politicamente, nas vacilações e oscilações das classes médias, que ora pendem para a direita ou o centro, ora para a esquerda e para a extrema esquerda, ora para a capitulação desbragada, ora para o radicalismo afoito. Do ponto de vista ideológico, o neoliberalismo acirrou a ideologia privatista da pequena burguesia, apesar de sua situação social haver piorado. Basicamente por isso, setores da pequena burguesia preferem procurar novas alternativas burguesas para fazer frente à globalização destrutiva do que aliar-se ao projeto socialista, nebuloso para elas do ponto de vista da propriedade.

c) A perda da força social relativa da classe trabalhadora refletiu-se na falta de empuxo dos movimentos sindical e político, na confusão de idéias quanto às reformas neoliberais e nas indefinições sobre as estratégias e as táticas dos trabalhadores e das camadas oprimidas. Dessa maneira, as tendências de divisão da burguesia não têm sido aproveitadas convenientemente para acumular forças. E parece predominar entre parcelas consideráveis dos políticos que devem representar os interesses da classe trabalhadora a idéia de chegar ao poder, a longuissimo prazo, através da conquista parcelada de governos locais e central, com a aquiescência da burguesia.

d) As camadas marginalizadas da população só têm exprimido suas preferências políticas durante as eleições e, na maior parte das vezes, têm votado com a direita ou o centro. Por outro lado, parcela considerável dessas camadas tende cada vez para o uso de formas extra ou anti-sociais de sobrevivência, realizando uma redistribuição de renda por meios violentos. Nas grandes cidades brasileiras há uma guerra civil não declarada, com com a existência de poderes paralelos ao poder de Estado, em geral nas mãos de quadrilhas e traficantes, que muitas vezes reprimem o movimento social com a mesma brutalidade das forças repressivas do Estado.

e) Desse modo, a correlação de forças é francamente favorável à burguesia, embora existam fraturas em seu meio. Por outro lado, na base da sociedade flui uma situação de descontentamento e protesto que pode explodir como força social potente. Isto não significa que tal força social penda para a política de esquerda, já que os referenciais políticos desta se enfraqueceram muito e deixaram de ser visíveis para as grandes massas da população. O fato de que o PT seja preferido por 13% do eleitorado, apesar da crise em que o país está afundado, não mostra mudanças significativas em relação a 10 anos atrás (o eleitorado cativo do PT é, há muito tempo, 10 a 15%). Seria preciso que aquela preferência houvesse saltado para 26% para supor uma visibilidade efetiva.

f) Para mudar essa correlação de forças serrá preciso que a esquerda se integre aos movimentos sociais existentes e que mostram tendências de crescimento, em especial aos sindicatos de trabalhadores, aos sem-terra e a movimentos com raízes mais profundas nas camadas populares. Além disso, é fundamental ter uma postura de oposição ao governo sem disfarces, combinando-a com uma propaganda de desmascaramento da burguesia brasileira, dizendo claramente que tipo de reformas estruturais pretende (reforma agrária, socialização dos meios estratégicos de produção, reforma do sistema financeiro, repactuação dos contratos com os capitais estrangeiros). É preciso, também, adotar táticas que mobilizem os trabalhadores e as camadas populares, atraiam parte da pequena e da média burguesia, dividam a burguesia e isolem a grande burguesia transnacional e brasileira associada.

 

II – De que maneira esta correlação de forças se expressou na luta social do campo?

1. Mudando o perfil do campesinato. Até a década de 60, o camponês que tentava alguma luta pela terra era o agregado do latifúndio (meeiro, terceiro etc), que às vezes se libertava dessa subordinação e tornava-se posseiro. A luta pela reforma agrária, nesse sentido, era travada principalmente na luta pela posse nas fronteiras agrícolas e não na luta pela divisão do latifúndio. Da década de 70 para cá a fronteira agrícola dos estados mais antigos e, de certa forma, também no centro-oeste e na Amazônia, se esgotou. Isso, aliado ao fracionamento das propriedades, à introdução das culturas comerciais mecanizadas e à reestruturação industrial (+ recessão), deixou sem perspectivas os antigos pequenos proprietários expropriados das terras. Os sem-terra ganharam volume num momento em que alguns teóricos da esquerda diziam que os problemas agrário e agrícola no Brasil tinham sido resolvidos pelo capitalismo, com novas técnicas e mecanização.

2. Fazendo a reforma agrária ressurgir porque a única saída que restava aos sem-terra, para sobreviver, era retomar a terra e fazê-la produzir. Isso num momento em que o campesinato como classe também havia se reduzido consideravelmente e sua força social era aparentemente menor. Aparentemente porque, ao contrário do antigo camponês semiservil, o atual tem experiência da propriedade e da produção autônoma, com a mente livre da suposição de que trabalhava a terra por favor do latifundiário. Isto dá ao sem-terra uma qualidade de luta mais avançada. Por outro lado, isso entra em contradição com as possibilidades que o capitalismo brasileiro oferece para o desenvolvimento da pequena economia familiar, ou seja, nenhuma. O que obriga os sem-terra que reconquistaram a terra a, no mínimo, combinar a economia familiar com algum tipo de cooperativismo e ajuda mútua para enfrentar a escala do capitalismo rural.

3. Abrindo a possibilidade da reforma agrária transformar-se numa bandeira dos trabalhadores urbanos, dos marginalizados e até de alguns setores minoritários da burguesia. De qualquer modo, essa possibilidade não se concretiza espontaneamente. E sem essa aliança dos sem-terra e demais camponeses com as camadas urbanas, os camponeses correm o risco de ficar isolados, sofrendo golpes sérios em sua luta. Adotar táticas para ampliar ao máximo o apoio urbano à luta social no campo é uma das questões chaves do movimento do campo, para sua sobrrevivência e desenvolvimento.

 

Desculpe não poder me alongar mais. Coloquei aquilo que me veio à cabeça como o mais significativo. Abraços e Reforma Agrária!

 

Wladimir Pomar

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *