Relações China-Estados Unidos

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WPO | ART | PAG | Relações China-Estados Unidos, n. 115, p. 6-7, dez. 2012.

 

 

Wladimir Pomar*

As relações China-Estados Unidos, atualmente as duas maiores potências econômicas mundiais, a despeito da competição e dos conflitos potenciais que as separam, não devem sofrer mudanças significativas nos próximos anos, seja pelas decisões do 18º. Congresso de PC da China, seja pela reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos.

Paradoxalmente, a atual política chinesa em relação aos Estados Unidos foi traçada, no início dos anos 1970, em plena revolução cultural, pelo presidente Mao Zedong e pelo primeiro-ministro Zhu Enlai, tendo em conta o declínio dos movimentos revolucionários, a crise evidente da economia e da hegemonia soviética, e a reversão da ofensiva estratégica do socialismo para uma defensiva estratégica de longo prazo. O PC da China começou a trabalhar no sentido de criar um ambiente global de paz, apesar dos conflitos de baixa intensidade em diversas regiões do mundo, evitar assumir qualquer tipo de hegemonia, inclusive para lutar com razão contra as políticas hegemonistas, perseverar nos cinco princípios de coexistência pacífica, não abrir mão da política de uma só China, e alcançar a unificação do país através de diálogos e negociações.

Essa política foi responsável pelo reconhecimento da República Popular da China como um só país, pelos Estados Unidos. Ou pelo reconhecimento de que Taiwan era uma província chinesa, embora rebelde e, portanto, um problema interno chinês. Todos os países que desejassem manter relações diplomáticas com a China deveriam cortar suas relações diplomáticas com Taiwan, embora pudessem e devessem manter suas relações comerciais com a ilha. Em virtude dessa virada nas relações China-Estados Unidos, entre 1971 e 1976 a China viu-se livre do bloqueio que sofria desde 1949, reatou ou atou relações diplomáticas com a maior parte dos países do mundo e a República Popular pode retomar seu lugar na ONU, no Conselho de Segurança e nos demais organismos internacionais multilaterais.

O fim da revolução cultural e a adoção do programa de reforma e abertura, entre 1976 e 1980, sob a direção de Deng Xiaoping, não só confirmaram a linha geral daquela política, como introduziram medidas importantes para consolidá-la, através da abertura econômica aos investimentos estrangeiros em suas zonas econômicas especiais e seus portos abertos e da política de um país, dois sistemas. Os investimentos das corporações internacionais, inclusive norte-americanas, nas zonas econômicas especiais e nos portos abertos, se ajudavam o capitalismo desenvolvido a resolver sua tendência crescente à queda na taxa média de lucro, contribuiu para a China incorporar, a seu parque industrial estatal, novas e altas tecnologias, e ingressar firmemente no mercado internacional. E a política de um país, dois sistemas, através da qual a China pretendia reunificar o país por meios pacíficos, permitindo que Hong Kong, Macau e Taiwan mantivessem seu sistema capitalista e sua autonomia por 50 anos, resultou no retorno de Hong Kong e de Macau à soberania chinesa, e na abertura de crescentes canais de intercâmbio econômico, comercial e político com Taiwan.

Nos quase 40 anos após estabelecerem relações diplomáticas, a China e os Estados Unidos têm enfrentado tanto momentos de intensa cooperação, a exemplo da abertura da economia chinesa às corporações americanas e da compra de bônus do tesouro norteamericano pela China, ajudando aquele país a cobrir seus déficits, quanto momentos de disputa, a exemplo da interceptação de um avião espião dos Estados Unidos sobre Hainan, das divergências em torno do tratamento da política nuclear iraniana e, mais recentemente, em relação à interferência estrangeira nos problemas internos da Síria. No entanto, enquanto nos 20 primeiros anos a China ainda se encontrava numa evidente inferioridade econômica, nos últimos anos houve uma crescente modificação nessa situação.

Atualmente, a China é o maior exportador mundial para os Estados Unidos, enquanto este é o maior importador de produtos chineses. A China é, também, o maior credor estrangeiro dos Estados Unidos, uma situação que seria impensável até poucos anos atrás. Em termos gerais, vários especialistas norteamericanos e europeus acreditam que a China e os Estados Unidos possuem grandes interesses comuns na economia global, na estabilidade financeira, no livre comércio, na nãoproliferação nuclear e nas mudanças climáticas. E que, embora o conflito entre ambos seja possível, a interdependência entre ambos os países desempenha um papel de freio a tal possibilidade.

Obama tem declarado que os Estados Unidos continuarão trabalhando com a China para estabelecer uma forte parceria cooperativa, e contribuindo para que os dois lados reforcem suas relações bilaterais. Segundo ele, o governo norte-americano deseja desenvolver o Diálogo Estratégico e Econômico e os contatos de alto nível entre os dois lados, de modo que as duas nações expandam a cooperação econômica e comercial e tratem adequadamente os demais problemas que afetam a ambos. Nesse sentido, os Estados Unidos estariam dispostos a resolver os problemas internacionais perigosos através de meios pacíficos e a não interferir em disputas que afetam a soberania dos países.

O empenho da China parece estar voltado fundamentalmente para evitar a possibilidade de um conflito entre as duas partes, embora seus líderes tenham consciência de que isso não depende exclusivamente da China, nem do possível desejo de Obama. O relatório de Hu Jintao ao 18º. Congresso do PCCh, ao enfatizar que todos os seres humanos compartilham um destino comum e que cada país deveria promover o desenvolvimento em comum de todas as nações, na verdade conclamou os Estados Unidos a participar conjuntamente desse processo, promovendo a paz global, a estabilidade e o desenvolvimento comum, e tornando o sistema internacional mais equitativo, justo, inclusivo e harmônico. Além disso, ele apelou a um novo tipo de relações de longo prazo com os demais países, tendo por base estabilidade e crescimento.

Em outras palavras, ao invés de atacar os Estados Unidos por sua política internacional hegemonista de intervenção, exploração, desigualdade, injustiça e criação de distúrbios, a China opõe seu soft power a cada uma das ações norte-americanas que expressam aquela política e, ao mesmo tempo, chama os Estados Unidos a participarem de uma política que é justamente o oposto daquela. Essa tática, aliada a uma forte relação de interdependência econômica entre os dois países, coloca as classes dominantes norte-americanas diante de situações inusitadas, como ficou evidente no debate entre os candidatos republicano e democrata na recente eleição presidencial norte-americana. Enquanto Romney prometia garrotear a China, impondo restrições ao comércio e a outras relações com a China, Obama perguntava o que ele faria quando os chineses começassem a cobrar os títulos do tesouro em suas mãos. Em termos concretos, pode-se deduzir daí que, além dos interesses comuns de cooperação, deve-se esperar competição e atritos em torno de assuntos como comércio, investimentos, propriedade intelectual, inovação tecnológica e política cambial.

Em resumo, a China trabalha a longo prazo para evitar guerras e não dar pretexto aos Estados Unidos para qualquer reação impensável, de modo a completar o desenvolvimento de suas forças produtivas materiais e humanas, estabelecer uma alta civilização material e cultural, e conformar uma multipolaridade global que permita aos diversos países do mundo um desenvolvimento sustentado. É lógico que isso depende da própria China manter sua política de evitar qualquer tendência hegemônica e de competição com outros países em torno de recursos naturais, mercados e poder militar. E depende, ainda, da China evitar as crises financeiras e econômicas globais, tendo por base o desenvolvimento de seu próprio mercado interno, a redução permanente de suas desigualdades internas, e a manutenção do aspecto socialista de sua transição como predominante.

 

* Wladimir Pomar é filiado ao Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro.

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