Pronunciamento feito em ato de translado dos restos mortais de Pedro Pomar para Belém

WPO | PRO | Pronunciamento feito em ato de translado dos restos mortais de Pedro Pomar para Belém. São Paulo, 11 abr. 1980.

 

 

Pronunciamento feito em ato durante o traslado dos restos mortais de Pedro Pomar para Belém, realizado pela ABI de São Paulo, em 11 de abril de 1980.

1. Todos sabem que meu pai era um homem de partido. 40 anos de sua vida dedicou ao PCdoB por estar convencido que assim servia à classe operária e ao povo. E é na mesma condição que desejo salientar esse aspecto fundamental da vida de meu pai, que desejo ressaltar o homem de partido.

2. Há quem pense que ser homem de partido é agarrar-se a dogmas, é considerar o partido como algo perfeito e acabado, imune a erros. Há quem pense que uma crítica a um homem de partido é uma crítica ao partido. E há quem considere uma crítica ao partido como um ataque. Pomar não era esse tipo de homem de partido. Era um intransigente defensor do partido como uma necessidade histórica, como um instrumento que a classe operária necessita para dirigi-la no processo revolucionário. Mas entendia que o partido era composto de homens, um organismo vivo composto por pessoas vivas. Portanto, um organismo com defeitos que só podem ser superados por meio da luta contra os próprios defeitos, por meio da crítica. Por isso estava sempre pronto a reconhecer os erros. Não via nisso nenhum desmerecimento. Ao contrário. Considerava que seu partido só poderia ser encarado seriamente se tivesse a coragem de reconhecer e superar os próprios erros. Por isso, encarava o verdadeiro homem de partido, modesto, sem vaidade, que compreendia a autocrítica como um princípio indispensável para que seu partido cumprisse o que se propunha.

3. Há quem pense que meu pai sempre esteve no topo do partido. Não é verdade. Meu pai ousou divergir numa época em que divergir era considerado o pior dos crimes. E divergiu contra o pêndulo, contra a política sem critério de classe, que ora fazia o partido ir a reboque da burguesia, ora cair no radicalismo pseudo-esquerdista. Nessa luta meu pai jamais esmoreceu, até seu último alento, apesar de em largos períodos ter sido quase relegado ao ostracismo. Jamais abandonou seu posto de luta pela transformação de seu partido num verdadeiro partido de vanguarda do proletariado, para que prevalecesse uma política verdadeiramente de classe, proletária.

4. Há quem diga que Pomar foi um batalhador pela unidade do partido. É verdade. Ele considerava essa unidade a base para alcançar a unidade das forças revolucionárias. A unidade pela qual ele sempre pugnou era uma unidade em torno de princípios ideológicos e políticos de classe, em torno dos interesses fundamentais da classe à qual ele aderiu, a classe operária. Por isso sempre se colocou contra os que, falando em unidade, aplicavam uma política sectária e sem princípios. Essa unidade não era a unidade de princípios de seu partido.

5. Há quem diga que Pomar foi um intransigente lutador contra o liquidacionismo. É verdade. Sua vida foi uma luta constante contra a liquidação do espírito de partido. Por isso sua luta não se restringiu a ir contra os liquidacionistas declarados, contra aqueles que diziam abertamente não haver necessidade de partido, que o partido atrapalhava. Não, sua luta foi muito além. Ele estava convencido da existência de um liquidacionismo muito mais perigoso, muito mais destrutivo. Um liquidacionismo prático que se realiza através de políticas incorretas, sejam reformistas e revisionistas, sejam aventureiras e blanquistas. Políticas que isolam o partido das massas e que acabam permitindo a liquidação de grande número de revolucionários, que acabam permitindo que o inimigo de classe destrua praticamente toda uma geração de antigos combatentes revolucionários. Esse liquidacionismo prático destruiu fisicamente meu pai, mas não conseguiu destruir suas concepções sobre a construção de um partido proletário verdadeiramente revolucionário. E estou certo que um dia tais concepções acabarão prevalecendo.

6. Há quem tenha dito que Pomar era um pacifista burguês. É uma calúnia. Era tão intransigente com o pacifismo burguês dos reformistas e revisionistas, quanto com o aventureirismo blanquista dos voluntaristas. Jamais apoiava um lado para combater o outro. Tinha uma posição de classe definida. Revolução e luta armada são obras das massas em luta, e não obra de grupos, por mais generosas que sejam as intenções. E por considerar a generosidade revolucionária dos que tombaram na luta contra o regime é que meu pai podia, ao mesmo tempo, criticar o voluntarismo e exaltar o heroísmo, a dedicação e o desprendimento dos que pagaram seu tributo de sangue para que a classe operária e o povo brasileiros aprendam o caminho correto de sua libertação.

Em nenhum momento Pomar vacilou ante a necessidade que a classe operária tem de utilizar a violência revolucionária para emancipar-se. Jamais deixaremos que essa calúnia seja difundida impunemente.

7. Há, finalmente, quem diga que Pomar deixou uma herança. É verdade. Ele nos deixou o exemplo de sua vida, um legado de modéstia, de retidão de caráter, de dedicação à classe operária, ao povo e a seu partido, de amor entranhado à verdade, de aversão à vaidade e de constante alerta e combate aos próprios erros. Há quem queira ser dono desse legado. Essa pretensão é uma afronta a meu pai, que sempre se bateu contra o exclusivismo e o espírito de seita. A herança de Pomar, uma herança digna dos melhores revolucionários, não é patrimônio da família ou de qualquer grupo. Ela pertence a todo o seu partido, pertence a todos os revolucionários, à classe operária e ao povo explorado e oprimido. Eu a entrego a vós.

 

Obrigado

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *