Oswaldão: o guerrilheiro

WPO | ROT | Oswaldão: o guerrilheiro, s/d.

 

 

(Título tentativo)

PROJETO DE FILME BIOGRÁFICO

 

Índice

 

I. Justificativa

II. Linha biográfica

III. Story line

IV. Quatro cenas paradigmáticas

   1* Abertura

   2* Plot Point 1

   3* Plot Point 2

   4* Final

V. Sinópse

   1* Abertura

   2* Sumário do Ato I

   3* Plot Point 1

   4* Sumário do Ato II

   5* Plot Point 2

   6* Sumário do Ato III

   7* Final

VI. Quatro obstáculos do Ato II

 

 

 

 

 I. Justificativa

1. Biografias e histórias de ação, tanto escritas quanto filmadas, tornaram-se produtos muito apreciados pelo público. Livros servem de base para enredos cinematográficos, filmes estimulam a leitura de livros roteirizados e estes levam novos expectadores às salas de projeção. Forma-se, assim, um círculo virtuoso de mútuo benefício, que incentiva a escrita de livros já na perspectiva de sua futura roteirização para cinema e/ou TV, ou a elaboração de roteiros para filmes que podem transformar-se em livros, tendo em vista a crescente demanda do público por bons temas.

2. Aliado a essa demanda crescente, o fim da Guerra Fria minorou as restrições e preconceitos quanto a enredos envolvendo personagens e situações criadas pela esquerda política. No caso brasileiro, são exemplos significativos dessa nova postura uma série de curtas e longas metragens, de evidente êxito de público e de crítica. Nessas condições, a história de Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa), personagem lendário da guerrilha do Araguaia (1972-74), apresenta um material muito rico para a produção literária e cinematográfica, independentemente do juizo de valor sobre sua atividade e visão políticas.

3. Sua biografia, mesmo se não houvesse participado naquele movimento guerrilheiro, por si só reuniria material suficiente para um belo texto biográfico e para um filme carregado de ação. Entretanto, sua atividade na região do Araguaia, entre 1965 e 1974, potencializa e enriquece sua história, transformando-a numa ação ao mesmo tempo aventureira, vibrante, generosa e trágica. Ela sintetiza toda sua vida, fornecendo os principais ingredientes para a elaboração de um livro e roteirização de um filme biográfico.

 

II. Linha biográfica

1. Osvaldão não tinha formação teórica sólida, nem era um dirigente partidário quando decidiu envolver-se com a preparação do movimento guerrilheiro do Araguaia. Mas, seu modo de vida, sua forma de tratar os moradores da região, sua interação com o ambiente, sua postura diante da vida e do cotidiano, além do porte físico que parecia haver sido moldado para comportar uma grandeza de espírito incomum, transformaram-no num dirigente guerrilheiro e numa das figuras mais respeitadas dos acontecimentos que se desenvolveram naquela região amazônica.

 

2. Suas características pessoais moldaram uma figura de grande valor que podem explicar, em parte, sua postura diante dos desafios que acreditava enfrentados pelos brasileiros naquele momento histórico. Tais características não eram, possivelmente, privilégio seu. Mas ele certamente as encarnou de uma forma que poucos tiveram a oportunidade de encarnar. Suas qualidades o fazem suplantar as deficiências culturais e teóricas, o aproximam intimamente do povo e o fazem enfrentar o perigo e a aventura como uma ação comum de vida. E, por ser como era, paradoxalmente, sua morte melancólica ocorrre num anticlimax.

3. A biografia de Osvaldão deve ter como linha narrativa justamente essas características e qualidades, que a política reforça ou enfraquece à medida que ele a incorpora e a confronta com a realidade. Terá que ser uma biografia romanceada pelo fato primário de que inexiste uma documentação própria sobre o período mais excitante, perigoso e mortal de sua existência. As inumeras histórias orais existentes sobre sua trajetória são, certamente, lendas. Porém, também certamente, devem possuir um cerne verdadeiro que a mitologia popular só fez amplificar.

4. Assim, embora seja necessário e possível um trabalho de pesquisa para levantar o máximo de informações factuais e verídicas sobre Osvaldão, somente a ficção, aproveitando-se das lendas, poderá construir os ligamentos entre os fatos reais de sua vida. Isso, longe de descaracterizar a biografia, talvez até mesmo ajude a ressaltar justamente o que se pretende: construir a verdadeira figura de um homem cheio de vida, transbordante de solidariedade e desprendimento. Um homem capaz de enfrentar os perigos com serenidade, salvar um animal se sua morte era desnecessária à sobrevivência humana e matar um inimigo com a frieza de um combatente experiente.

 

 

III. Story line

1. Osvaldo, um negro alto, forte, bonito e de coração generoso, destaca-se na escola, nos esportes e nas amizades.

2. Ao abraçar a causa da luta guerrilheira, Osvaldo abandona estudos, carreira, amores e família, embrenha-se no Araguaia e transforma-se em Osvaldão.

3. Osvaldão torna-se uma lenda popular e militar, mesmo na tragédia do fracasso da guerrilha do Araguaia.

 

 

IV. Quatro cenas paradigmáticas

 

1

Abertura

Matas do Araguaia, Pará, abril de 1974. O helicóptero faz razantes sobre o casario e as árvores, espantando as pessoas e os animais. Pendurado numa corda, o corpo negro balança, seguindo o volteio da aeronave e dando a impressão de tratar-se de uma estátua de madeira.

Os tripulantes jogam folhetos e berram por alto-falante que aquele fardo é o corpo do Osvaldão, e que a guerrilha havia terminado.

A cena se estende pelo dia todo. No rosto do povo sofrido, aquela visão estranha refletia-se como incredulidade, medo e surpresa.

Só à tarde o helicóptero ganha altura e se dirige para o poente. Seu vulto enegrece, contrastando com o colorido do pôr-do-sol. Mas logo cai a escuridão e o contraste esmaece, até que tudo se confunde na noite estranhamente silenciosa.

Ao longe, um clarão súbito sobe da mata e as chamas lambem a escuridão. As fisionomias das pessoas vacilam entre uma réstia de esperança e o pavor.

 

2

Plot Point 1

Praga, julho de 1962. Osvaldo e Paulo discutem no alojamento da Universidade. Osvaldo está indeciso sobre sua volta ao Brasil, interrompendo os estudos, para engajar-se na preparação da luta armada. Paulo diz que ele está com medo de perder a carreira universitária e que não há outra opção, se quiserem impedir que o Brasil seja recolonizado pelo imperialismo americano. Osvaldo se enerva, tenta explicar que as dúvidas são mais profundas, mas não consegue. Diante da insistência de Paulo, expulsa-o do quarto.

Senta-se abatido e permanece pensativo até a chegada de Nadja. Esta lhe diz que Paulo lhe contara a discussão e indaga o que acontece. Saem para o parque. Na conversa, Osvaldo vai assumindo cada vez mais os argumentos do retorno ao Brasil. Nadja, afirma que irá com ele. Osvaldo a demove dizendo que ela seria um perigo para todo o grupo. Nadja chora, mas Osvaldo permanece inflexível.

 

3

Plot Point 2

Floresta do Sul do Pará/ Araguaia, janeiro de 1974: Osvaldão chega à gleba do Romeu, após passar dias vagando pelas matas em busca de remanescentes da guerrilha. Quer notícias e comida. No caminho, desvia-se de muitas patrulhas.

Acha Romeu esquisito. Ele conta que tinham pegado todo mundo, só faltava ele, Osvaldão. Era bom ele ir pra bem longe. Os soldados não iriam sair enquanto não o matassem.

Arruma uma matula para ele e se desculpa: “Se vierem de novo até aqui e perguntarem, não vou mentir. Não quero confusão com minha família. Que Deus te proteja”. Osvaldo olha com tristeza para Romeu. Toma o rumo da mata e some entre as árvores.

Dois dias depois ouve barulho de helicópteros. Observa que eles voam em circulos, esquadrinhando a área. Estão no seu encalço.

 

4

Final

Floresta do Sul do Pará/ abril de 1974. Osvaldão é caçado implacavelmente. Quase sem forças, procura espigas num milharal e já não consegue manter a regra do silêncio.

Lugarejo do Sul do Pará, no mesmo momento. Maria, a companheira secreta de Osvaldo, sofre as dores do parto e é assistida por uma parteira.

Osvaldão ouve uma voz amiga, entreabre os pés de milho e deixa-se ver. Um tiro ecoa na mata e ele tomba morto.

O helicóptero faz razantes, balançando o corpo negro de Osvaldão. Os tripulantes jogam folhetos e anunciam que Osvaldão e a guerrilha acabaram.

Na gleba do Romeu, grileiros expulsam os posseiros e tomam suas terras.

As cenas se repetem o dia todo. À tarde, o helicóptero se dirige para o poente.

Na Serra das Andorinhas, soldados jogam gasolina sobre corpos de guerrilheiros mortos. No Romeu, jagunços atiram querosene sobre as palhoças.

Nos vilarejos, as pessoas continuam a fixar seu olhar no poente.

Clarões sobem da mata, o fogo lambendo a escuridão. O helicóptero descarrega sua carga fúnebre sobre os corpos em chamas, enquanto os jagunços queimam as palhoças dos posseiros.

Um choro de criança nascendo ecoa forte. Maria dá à luz o filho de Osvaldão.

 

 

V. Sinópse

 

1

Abertura

Matas do Araguaia, Pará, abril de 1974. O helicóptero faz razantes sobre o casario e as árvores. Pendurado numa corda, o corpo negro segue o volteio da aeronave, dando a impressão de tratar-se de uma estátua de madeira.

Os tripulantes jogam folhetos e berram por altofalante que aquele fardo é o corpo do Osvaldão, e que a guerrilha havia terminado.

A cena se estende pelo dia todo. No rosto do povo sofrido, aquela visão estranha refletia-se como incredulidade, medo e surpresa.

Só à tarde o helicóptero ganha altura e se dirige para o poente. Seu vulto enegrece, contrastando com o colorido do pôr-do-sol. Mas logo a noite cai rápidamente e o contraste esmaece, até que tudo se confunde na noite estranhamente silenciosa.

Ao longe, um clarão súbito sobe da mata e as chamas lambem a escuridão. As fisionomias das pessoas parecem vacilar entre uma réstia de esperança e o pavor.

 

2

Sumário do Ato I

Passa Quatro/MG, 1951. Osvaldo, taludo nos seus 12 anos, entre um banho e outro de rio com os amigos, ajuda o pai, um padeiro negro e alto, que fala francês, a entregar pães. No retorno de uma dessas entregas, ouve o delegado dizer que vai prender seu irmão João por receber jornais “subversivos”. Mais tarde, no Colégio Marista, lê sua redação “A rebelião dos anjos contra São Pedro”, porque o santo proibia leituras. Os padres obrigam o pai a retirá-lo da escola.

São Paulo,1954. Já fisicamente grande, Osvaldo estuda na Escola Politécnica. Mas a perseguição a um professor “boa praça” leva-o a dirigir uma greve dos estudantes. Após o final do movimento é convidado a pedir transferência. Muda para o Rio.

Rio, 1955. Mora com a irmã Irene e estuda no curso industrial da Escola Técnica Nacional-ETN. Pratica esportes, principalmente basquete, lançamento de peso e box.

Rio/ETN, 1956/1958. Osvaldo já é um negro alto e forte, de chamar atenção. Inicia o curso técnico. De sua turma faz parte Valter, que servia o exército e começa o curso atrasado. Conhecem-se de maneira enviezada, mas acabam fazendo amizade, que se transforma em companheirismo político, ao saberem-se leitores dos mesmos livros e simpatizantes da mesma causa. Osvaldo é apaixonado por Zélia, mulata encorpada e bonita, que corresponde a seu amor. Terminado o curso, Osvaldo consegue uma bolsa para a universidade na Tchecoeslovaquia. Nos 3 anos que passa lá, não esquece Zélia, mas não resiste ao assédio feminino loiro, em particular de Nadja, alta como ele e bonita como Zélia.

Praga, julho de 1962. Pedro, velho conhecido e dirigente do PCdoB, conversa com Osvaldo e alguns outros estudantes brasileiros sobre a situação do Brasil. Relata a decisão de preparar-se para a luta armada, em virtude dos planos das elites em subordinar ainda mais o país a seus interesses. E diz que eles serão recebidos de braços abertos e incorporados àquela missão, se voltarem ao Brasil.

 

3

Plot Point 1

Marianskie Laskie,  final de 1962. Quarto no alojamento da universidade.  Paulo havia chegado de Praga para conversar com Osvaldo:

Osvaldo

_ Agora, com a cabeça fria, não sei mais se foi a decisão certa. Nem terminamos o curso…

Paulo

_ Mas o Brasil tá na bica de uma revolução e você fica pensando no curso! Porra, depois que a gente vencer você pode pensar no curso à vontade!

Osvaldo

_ Porra? Que porra? E quem disse que a gente vai vencer? Eu não estou pensando em voltar porque a gente vai vencer. Eu estou pensando é no que vai acontecer ao Brasil e se eu estou preparado pra enfrentar tudo isso. Se você pensa que a coisa vai ser mole, seus motivos são outros.

Paulo

_ Olha, se você está com medo é melhor não ir…

Osvaldo

_ Sai, sai, antes que eu perca a paciência…

Paulo sai e Osvaldo fica só. Dúvida, arrependimento, certeza…   –  esses sentimentos transparecem em seu rosto. A chegada de Nadja os interrompe.

Nadja

(em tcheco)

_ O que há? O Paulo me contou que você não está bem…

Osvaldo

(em tcheco)

_ É um fuinha presunçoso. Sabe tudo e tem certeza sobre tudo, o pobre coitado. Ele também te contou o que nós decidimos?

Nadja faz um gesto negativo com a cabeça.

Osvaldo

(em português)

_ Nós vamos voltar para o Brasil.

Nadja olha espantada e senta na cama.

Nadja

(num português com sotaque)

_ Voltar? Por quê? O que está acontecendo?

Osvaldo

_ Vamos sair. Ao ar livre conversamos melhor.

Andam lentamente pelas ruas e praças de Marianskie Laznie.

Osvaldo

(tentando ser didático)

_ No Brasil vai haver um golpe militar. Vão impor uma ditadura. É um momento muito importante, e nós temos que estar lá pra resistir.

Nadja

_ Mas o que vocês vão fazer lá? Morrer?

Osvaldo

_ Talvez. Pelo menos a gente não foge da luta. Mas o que a gente quer é organizar a luta armada, porque no Brasil não tem outra solução. A nossa história foi sempre a das elites pisando o povo com as armas, ou com a enganação.

Agora elas resolveram, mais uma vez, pisar com as armas. Então, só nos resta enfrentar com as armas também.

Nadja

_ Mas pra isso é preciso ter gente disposta e preparada. Se não houver, do que adianta vocês irem?

Osvaldo

_ Se tiver gente preparada, melhor. Se não tiver, a gente prepara. Quase sempre as coisas grandes começam do zero. Lá, como aqui, também tem partido comunista. E, ao contrário daqui, tem camponês oprimido e lutando pela terra, tem trabalhador miserável querendo uma vida digna, tem estudante revoltado. Eu acho, branquela, que pela primeira vez em muitos anos, o povão talvez tenha oportunidade de fazer uma briga pra valer.

Nadja

(sem vacilar)

_ Então eu vou com você!

Osvaldo

(Surpreso)

_ Como é que é?

Nadja

_ Eu vou com você. Eu não tenho medo, eu sou atleta, sou miliciana, sei mexer com armas. Mais do que tudo, eu te amo. Você entende?

Osvaldo

(após um momento sem saber o que responder)

_ Nadja, Nadja, é impossível. No interior do Brasil, você vai ser um perigo pra nós e pra você. Vão logo identificar a gente como estrangeiro, e aí a coisa

pega. Vamos ser logo descobertos. É duro, minha querida, mas vamos ter que nos separar.

Puxa-a para junto de seu corpo e abraça-a longamente. Palavras não adiantam mais: dos olhos de ambos correm lágrimas.

 

4

Sumário do Ato II

Contexto – Rio de Janeiro, início de 1963. Osvaldo, Paulo e Márcio retornam ao Brasil. Osvaldo é deslocado para a Chapada Diamantina/BA, junto com Carlo, para iniciar sua adaptação à área rural. Quase são presos porque a polícia desconfia deles. Quatro meses depois são enviados para receber treinamento militar na China.

Pequim, abril de 1964. Osvaldo e os demais preparam-se para retornar ao Brasil quando recebem a notícia do golpe militar. Osvaldo decide retornar via França e Caiena.

Brasil, final de 1964/1966. Osvaldo chega através da Guiana, Amapá e Belém, refazendo contato com a direção da organização. É enviado para Cristalândia, no centro-norte de Goiás, onde se torna garimpeiro de cristal de rocha e conhece Maria. Em 1966 recebe ordens de se deslocar para o Bico do Papagaio (norte de Goiás) e Sul do Pará. Passa por São Sebastião, Xambioá e outros lugarejos, faz garimpo, torna-se mariscador e, com o tempo, estabelece uma posse no Gameleiro. Ganha fama de bom mariscador e caçador e faz amizade com muita gente, de quem se torna compadre. Torna-se Osvaldão. Leva Maria e sua família para o Araguaia, mas mantém secreto seu relacionamento.

Gameleiro, 1966/72. Organização do destacamento armado com a chegada de outros companheiros. Osvaldo é o comandante, Zeca o subcomandante. De dia são lavradores, confundindo-se com a população local. À noite, treinam ou estudam. Às vezes, penetram profundamente na mata, treinam orientação e sobrevivência e fazem exercícios de tática militar, sem serem vistos. O aprendizado é desigual. Osvaldo não tem confiança no grupo. Cultiva o hábito de entrar só na mata, para refletir e encontrar-se secretamente com Maria. Acha o grupo mais preparado para morrer do que para matar, e considera isto derrota certa. Em 1971, o comando discute opções para iniciar a guerrilha, inclusive a hipótese de ataque a Araguaina. Osvaldo opina não estar preparado. Considera melhor que a luta comece por ações do próprio povo, sem identificá-las com a guerrilha. É criticado, mas o plano não é levado adiante. Neste meio tempo, contra a opinião de Osvaldo, o comando libera Regina do seu grupo (e que vivia assediando-o) para tratar da saúde no Sul. Ao chegar lá, a família faz acordo com os militares e a entrega para interrogatório. Quase simultaneamente, Camargo e Carla fogem para o Ceará e são presos. A preparação da guerrilha é descoberta por duas pontas.

Pinch 1 – Barranca/Araguaia, abril de 1972. Osvaldo, Nurks e outros vão ao terecô da Joana Quitéria. Lá, Osvaldo fica surpreso ao ver Maria. O olhar de ambos se cruza mais de uma vez e ele entende que ela precisa lhe falar. Naquela noite, Osvaldo teve que encontrar um pretexto para não voltar para o Gameleiro com o grupo. Encontra-se com Maria perto da casa dela e é avisado que há tropas na região.

Contexto – Volta de madrugada e nota movimentação estranha no Araguaia e nas estradas vicinais. Por precaução, esconde-se várias vezes e depois caminha batido somente pela mata. Encontra tudo calmo no Gameleiro, mas coloca o

destacamento em alerta. À noite, chega a notícia de que tivera inicio uma campanha das forças armadas para prendê-los. A retirada é feita em ordem, mas acelerada. Osvaldo orienta o grupo a evitar choques com as tropas, neutralizar os bate-paus e não dizer que são guerrilheiros. Para todos os efeitos, vão para a mata porque o exército está a serviço dos grileiros e quer tomar suas terras. Logo adiante, o comando revoga essa orientação e cria uma crise no destacamento.

As Forças Armadas mal penetram nas matas. Andam pelas estradas e picadas. Mesmo assim, há confrontos com os guerrilheiros. Num deles, Osvaldo e Zé Carlos são surpreendidos por uma patrulha. Osvaldo reage instantaneamente, matando um sargento e ferindo um soldado. Os demais dispersam-se e voltam apavorados para seu acampamento. Contam histórias de um negro enorme, que os surpreendeu de emboscada. Também para os militares, Osvaldo se transforma em Osvaldão.

Osvaldão teima que os grupos devem evitar confrontos com as tropas, mas o comando reitera em ordenar emboscadas. Osvaldão obedece, mas desenvolve a tática da guerra psicológica nos acampamentos inimigos. Sua fama corre ainda mais durante a 2ª campanha, entre setembro e outubro de 1972.

Mid Point – Serra das Andorinhas, dezembro de 1972. Reunião do comando da guerrilha. A tônica  é triunfalista. Osvaldão é, novamente, a voz discordante. É, então, acusado de colocar em risco a segurança da guerrilha ao manter um amor secreto. Osvaldão rebate violentamente a acusação. Em São Paulo, parte do Comitê Central partidário cai nas mãos dos órgãos de repressão, vários de seus membros são assassinados e um relatório do comando guerrilheiro é apreendido.

Nele, o comando reconhece a habilidade militar de Osvaldão, mas o acusa de defensivo.

Contexto – Durante 1973 o comando empurra os destacamentos para ações ofensivas que ganhem a participação do povo. Osvaldão pressiona para os destacamentos eliminarem os bate-paus, como faz com Pedro Mineiro. Cobra contato com a direção partidária no Sul e chama a atenção para a presença de gente estranha na região, comprando terra ou se estabelecendo como negociante. E, continua se encontrando com Maria num esconderijo só conhecido pelos dois.

Esconderijo de Osvaldo e Maria, outubro de 1973. Osvaldo já espera por ela, que chega assustada e preocupada. Conta que há pequenos grupos de gente estranha zanzando por toda parte e que as tropas estão prendendo os moradores. Osvaldo rebate que as patrulhas guerrilheiras não haviam detectado muitas tropas. Maria confirma que as tropas são mesmo poucas. O que ela estranha é o pessoal barbudo e cabeludo, tudo armado, andando palas trilhas.

Pinch 2 – “Descaracterizados”! Osvaldo se dá conta de que seu receio está se concretizando. Eles confundiram as patrulhas e informantes guerrilheiros. A movimentação indica que está em curso nova ação de vulto das forças armadas, com táticas muito mais perigosas.  Decide contatar logo o comando para propor uma retirada estratégica. Despede-se sem que Maria tenha chance de lhe dizer que leva um filho dele no ventre.

Contexto – O comando não acredita que a 3ª campanha esteja em curso. Teima que a extensão das tropas inimigas é bem menor. Mas as baixas guerrilheiras se sucedem. Em dezembro, o comando se reune e, apesar de reticente em reconhecer o vulto da 3ª campanha, decide concentrar todos os destacamentos num só e reorganizar os comandos, para qualquer eventualidade. Osvaldão protesta: a concentração das forças guerrilheiras, em vez de protegê-las, torna-as mais vulneráveis aos ataques inimigos. No final, o comando decide voltar atrás, não pelos argumentos de Osvaldão, mas por considerar que a logística para os grupos concentrados num único destacamento ficará muito difícil.

Osvaldo se retira no rumo do Gameleiro com o que sobrara de seu destacamento. Antes despede-se de Jorge, que se retira no rumo do Caiano. O comando e parte do seu grupo de apoio continuam acampados no mesmo local.

 

5

Plot Point 2

Osvaldão

(à frente do destacamento, em voz baixa)

_ Ninguém deixa rastro, entendido? E ouvido aberto e olho vivo!

Todos meneiam a cabeça afirmativamente. A marcha continua. A mata é fechada e o silêncio é sufocante. De repente, soam estalos secos e o grupo estaca. O som da metralha torna-se mais nítido.

Osvaldão

_ É pro lado do comando.

Beto

_ Também tem ronco de avião e helicóptero.

Osvaldo

(reunindo o grupo em circulo, fala baixa, mas firme)

_ Tudo indica que o comando foi atacado. Eu vou voltar pra ver o que aconteceu…

Nurks

(interrompendo)

_ Você não pode ir. Está no comando. Deixa que eu vou.

Osvaldo

_ Nada disso. Eu tenho que ir. Só eu sei como localizar o pessoal do comando, se sobrou algum. Vocês seguem com cuidado, de jeito algum andem nos piseiros. Sigam direto pra Extrema, que a gente se encontra lá daqui a uma semana.

Todos se entreolharam.

Nurks

_ Pra Extrema?

Osvaldão

_ Exatamente. É uma retirada estratégica. Agora, sigam!

Olha o grupo sumir entre a folhagem e segue no rumo oposto. Quanto mais se aproxima do acampamento do comando, mais nítidamente ouve o ronco dos helicópteros e os tiros. Começa a reparar em piseiros dentro da própria mata. Contorna a área para evitar confrontos. Ouve ruidos e camufla-se rapidamente. Jorge e Zezim caminham cuidadosamente. Para alertá-los, emite o pio do inhambu. Os dois agacham-se e Zezim responde como jurití. Osvaldo repete o inhambu, acercando-se deles.

Osvaldão

_ Vocês já têm idéia do que aconteceu?

Jorge

_ A área esta coalhada de soldados e capangas. Não deu pra chegar muito perto, mas tem helicóptero retirando corpos. O comando caiu…(A voz fica embargada e Jorge mal contém o choro).

Osvaldão

_ Então é bom a gente sair logo daqui e ir prum lugar mais seguro. Logo logo os helicopteros estão sobre as nossas cabeças.

Andam bastante antes de Osvaldo acenar para um alto.

Osvaldão

_ Acho que aqui dá pra gente conversar, mas não por muito tempo. Não há mais dúvida do tamanho da campanha inimiga. O golpe no comando é mortal e só nos resta a retirada, pra ver se a gente ainda salva alguma coisa.

_ É melhor a gente verificar mais.

Zezim

_ Verificar o quê? Será que você não vê a gravidade da coisa?

Jorge

_ Nós não podemos abandonar os companheiros assim.

Osvaldo olha com compaixão para Jorge.

Zezim

_ O que você quer? Morrer também? Você acha que isso resolve?

Osvaldo

_ Vamos parar com isso. Você tem que ir com o Zezim para o Sul. Tem que tentar contato com o partido, contar o que aconteceu e ver o que é possível fazer. Eu vou reunir quem sobrou, retirar o grupo pro mais longe possível e tentar sobreviver. Agora é hora de sobreviver!

Jorge fica calado. Zezim olha para ele com atenção. Jorge se levanta lentamente, abraça Osvaldo com força. Zezim faz o mesmo e os dois se retiram juntos. Osvaldo ainda espera um pouco e some na mata. Caminha sem parar, mas repara que seguem tropas na frente, no rumo de seu grupo.

Osvaldo

(murmura)

_ Merda! Estão na pista da turma.

Acelera o passo, mas não os alcança antes de ouvir o ruido da metralha e dos helicópteros. Desvia seu rumo e anda até cair a noite. Protege-se no tronco de uma sumauma e tenta dormir. Está só e sente-se só. Na sua solidão, murmura uma ladainha torcendo para que Jorge e Zezim consigam despistar as tropas.

 

6

Sumário do Ato III

Janeiro de 1974. Osvaldo anda em círculos, na esperança de encontrar algum remanescente. Tenta encontrar alimentos em alguns depósitos, mas encontra-os vazios, com piseiro de soldado pra tudo que é lado. Come frutos do mato e caça com armadilhas: não pode atirar em caça nem fazer fogo. O movimento aéreo e dos soldados continua. Acerca-se de algumas localidades onde tem conhecidos, mas encontra-as cercadas por arame farpado e vigiadas por patrulhas. Dirige-se à gleba do Romeu para saber notícias e conseguir comida. No caminho, tem que se desviar de muitas patrulhas. “É sinal que ainda tem gente por aí. Se não há mais ninguém, o que procuram?”

Alcança a gleba 15 dias depois. Redobra os cuidados. Acha Romeu meio esquisito. Ele conta que tinham pegado todo mundo, só faltava ele, Osvaldão. Alguns tinham mostrado os esconderijos de comida e depois haviam sido fuzilados. As patrulhas eram para o pegar. Os povoados haviam sido cercados e todos os que eram acusados de serem amigos dos guerrilheiros tinham sido presos, até as freiras. Era bom ele ir pra bem longe. Os soldados diziam que não podiam sair de lá enquanto não o matassem.

Arruma uma matula para ele e se desculpa: “Se vierem de novo até aqui e perguntarem se você apareceu, não vou mentir. Não quero confusão com minha família. Que Deus te proteja”. Osvaldo olha com tristeza para Romeu. Toma o rumo da mata e some entre as árvores. O jeito é seguir para o oeste, atravessar o Xingu, mariscar por lá e sobreviver até as coisas se acalmarem.

Dois dias depois ouve barulho de helicópteros. Observa que eles voam em circulos, esquadrinhando a área. “Ah, Romeu, Romeu! Você bem que podia ter ficado quieto. É bem capaz que eu tenha entrado na mata e você saído para avisar que eu estive em sua casa. Agora eles estão no meu encalço”.

Não há tempo nem para preparar armadilhas. A matula acaba, apesar da parcimônia. Até comer fruta é difícil, para não deixar rastro. Dá para sentir que eles estão na trilha, quase pisando no calcanhar. Em alguns momentos chega a cruzar com patrulhas. Aos poucos as forças se esgotam. Já não sabe quanto tempo está fugindo: um mês, dois, três meses? Todo esse tempo atrás de um só homem?

Abril de 1974. Osvaldo está esgotado. Senta-se à beira de um igarapé, que ora parece acercar-se, ora distanciar-se. Recosta-se num tronco e entre a folhagem avista um milharal. Um brilho de esperança aparece em seus olhos.

No vilarejo da Bacaba, Maria sente as dores do parto e os pais chamam a vizinha parteira. O fogo é atiçado e uma panela com água é colocada sobre a trempe. Panos limpos são separados, enquanto Maria se contorce sem gemer.

 

7

Final

Osvaldo atravessa o igarapé com dificuldade, avança pelo capão de mato e alcança o milharal. Não se esforça em manter silêncio. Come as espigascom sofreguidão. Estanca de repente, ao ouvir uma voz.

Osvaldo (murmura)

_ É o Piauí.

Entreabre as folhas do milharal e deixa-se ver. Um tiro ecoa e ele tomba morto.

Neste momento, na Bacaba, Maria sente uma dor mais forte.

Parteira

_ Faz força, minha filha, que a criança sai.

O helicóptero faz razantes sobre o casario e as árvores. Pendurado numa corda, o corpo negro balança, seguindo o volteio da aeronave e dando a impressão de tratar-se de uma estátua de madeira.

Os tripulantes jogam folhetos e berram no altofalante:

_ Esse aí, pendurado, é o Osvaldão. Os terroristas da mata acabaram. A Pátria está livre desses bandidos, defloradores de moças e ladrões de terra. A paz voltou ao Brasil, graças às Forças Armadas.

Na gleba do Romeu, grileiros expulsam os posseiros e tomam suas terras. Sobre as matas, à tarde, o helicóptero se dirige para o poente. Na Serra das Andorinhas, soldados jogam gasolina sobre corpos de guerrilheiros mortos. No Romeu, jagunços atiram querosene sobre as palhoças. Nos vilarejos, as pessoas continuam a fixar seu olhar no poente.

Clarões sobem da mata, o fogo lambendo a escuridão. O helicóptero descarrega sua carga fúnebre sobre os corpos em chamas, enquanto os jagunços queimam as palhoças dos posseiros.

Um choro de criança rompe o silêncio e parece tornar mais rubro o clarão ao longe. As fisionomias dos moradores passeiam do pavor à esperança.

Fim

 

 

VII. Quatro obstáculos do ato II

 

1

1º Obstáculo

Chapada Diamantina, 1962. Osvaldo e Carlo trabalham no sítio do Geraldo. Aprendem a trabalhar na roça, preparar a mula para viagem, cozinhar na trempe de lenha, andar no mato. Nas visitas, conversam muito, querem ensinar as pessoas a fazer as coisas de outro modo, arriscam opiniões políticas. Um velho morador comenta que eles são pessoas boas, sempre prontas a prestar ajutório. Por isso, sempre poderão contar com a ajuda dele. Se eles fizeram algum desfeito na cidade grande, só pode ter sido por defesa própria. Então, eles deviam ter cuidado, porque algum outro podia ter inveja. Osvaldo e Carlo não prestam muita atenção. Continuam sem mudar seu modo de agir. Até que um destacamento de polícia chega ao sítio e o sargento comandante quer saber quem são eles. Foi um sufoco pra provar que eles não tinham conta alguma a ajustar com a lei. Foi aí que se deram conta de que erros bobos poderiam colocar toda a preparação a perder.

 

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2º Obstáculo

Gameleiro, abril 1972. O destacamento B, de Osvaldão, retira-se. Perde um combatente, que não seguiu as instruções de andar pela mata. Osvaldão define a estratégia a seguir: 1º) escapar aos golpes, evitando confrontos com o inimigo; 2º) declarar-se vítimas dos grileiros e jamais falar em guerrilha; 3º) liquidar os bate-paus e os jagunços em lugar dos soldados; 4º) evitar que o povo sofra mais do que já sofre, despistando o inimigo sobre o apoio que presta ao destacamento. Zeca, o sub-comandante, reage violentamente. No primeiro encontro com o Comando, após o ataque das Forças Armadas, Osvaldo recebe ordens opostas. Osvaldo não concorda, tenta demover o comando, mas não consegue. Declara, então, que Zeca está mais de acordo com esta orientação e deve assumir o comando do destacamento em seu lugar. O destacamento entra em crise.

 

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3º Obstáculo

Serra da Andorinhas, dezembro 1972. Reunião do comando da guerrilha. Mário avalia que a 1ª e a 2ª campanhas das Forças Armadas foram derrotadas e constituiram uma grande vitória das Foga. Em vista disso, a guerrilha deve concentrar-se na propaganda armada, na organização popular e no ataque às tropas remanescentes. Osvaldo levanta questões: a guerrilha teve 14 mortos e vários feridos, enquanto as Forças Armadas tiveram dois mortos e alguns feridos. Para a guerrilha esta desproporção não é uma tragédia? Por que a 2ª campanha do inimigo foi tão curta? Não é estranho que, em plena área conflagrada, tenha aumentado o número de pessoas comprando terras legalizadas, tudo com cara e jeito de paulista e mineiro como os membros da guerrilha? Isto tudo não indica que o inimigo está mudando suas táticas?

O silêncio com que Osvaldo foi ouvido é logo substituido por quase todos o acusando de pessimista e defensivo. Paulo insinua que suas dúvidas relacionam-se com suas novas relações afetivas, que colocam em risco a segurança da guerrilha, e exige que ele as confesse. Osvaldo reage com violência e o clima no comando fica péssimo.

 

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4º Obstáculo

Gameleiro, final de setembro de 1973. Osvaldo instrui as patrulhas da guerrilha para detectar movimentos de tropas inimigas. Mas as informações continuam unânimes: não há aumento de tropas em nenhum lugarejo, nem nas estradas. Há muito peão de madereira e de castanhal, mas tropa não. Osvaldo sai para a mata, e deixa Beto no comando. Anda com cuidado, fazendo os despistes. Encontra-se com Maria no esconderijo dos dois. Ela diz que quase não tem tropa, mas que tem muita gente estranha por toda parte, andando em grupos pequenos. E que as tropas e a polícia começaram a prender muita gente. Osvaldo pergunta como são as pessoas estranhas. Maria responde que barbudos e cabeludos, muitos até parecendo guerrilheiros, mas com cara de poucos amigos. Osvaldo conclui que são tropas descaracterizadas e que alguma coisa séria deve estar se armando. Decide fazer contato imediato com o comando e parte sem que Maria tenha a chance de lhe dizer que tem um filho dele no ventre.

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