[Observações sobre o texto “Eles não usam black-tie: emprego e tecnologia”]

WPO | COR | [Observações sobre o texto “Eles não usam black-tie: emprego e tecnologia”], s/d.

 

 

Caro Samuel,

Foi com prazer que recebi e li, embora de forma meio corrida, seu texto “Eles Não Usam Black-Tie: emprego e tecnologia”. Meu tempo neste momento (viajo domingo para a China), não me permite fazer, como gostaria, observações mais apropriadas. Não para corrigir ou modificar o que V. escreveu, já que concordo com a esmagadora maioria dos argumentos. Mas para complementar alguns pensamentos, tendo em vista que o texto é uma contribuição para o debate profundo sobre o assunto, debate que, infelizmente, ainda não alcançou o tom que precisamos.

De qualquer modo, aproveito a oportunidade para enviar algumas dessas observações complementares, que me saltaram aos olhos:

1. No parágrafo 4, V. fala em “margens de lucro (suficientes apenas para remunerar investidores e manter o nível de investimento necessário à perpetuação da empresa)…”. Do ponto de vista das necessidades do capital, isto seria o mesmo que pedir que ele se suicide. Afinal, ele necessita do lucro não apenas para a perpetuação da empresa, mas para sua reprodução ampliada. O que pode até significar sua destruição, desde que o que surja daí seja um capital ampliado. V. está alerta para esse tipo de interpretação sobre a assertiva acima?

2. No parágrafo 5, V. afirma que “como as mudanças tecnológicas ocorrem, e hoje com velocidade cada vez maior, e os produtores não têm porque se conformarem em obter apenas um mínimo de lucro, aquele modelo se distancia cada vez mais da realidade e sua utilidade diminui para a formulação de políticas de desenvolvimento econômico”. Isso é certo e eu acredito que aí reside uma das contradições mais importantes da atualidade do sistema capitalista. Quanto mais velozes são as mudanças tecnológicas, mais a taxa média de lucro (ou as margens de rentabilidade, como dizem os economistas da atualidade) tende para baixo. E mais os produtores (eu prefiro chamar de donos do capital) são obrigados a malabarismos financeiros, contábeis etc, para elevá-la e poder realizar a reprodução ampliada. Talvez num outro momento valha a pena explorar mais esse assunto.

3. No parágrafo 32, V. diz: “A idéia de que a importação de tecnologia em si pode não ser negativa, devido à crescente aceleração e complexidade tecnológica e ao fato de que nenhum país pode fazer tudo em casa, merece reflexão pois permeia muito do pensamento sobre o tema na periferia. Somente é válida essa idéia se a importação corresponder a um esforço local sistêmico e específico em pesquisa e desenvolvimento para a tecnologia importada ser efetivamente absorvida, aperfeiçoada e adaptada; somente é válida se esse esforço de desenvolvimento local for muito significativo; somente é válida se se considerar que o planeta como um todo produz tudo em casa, e assim é necessário considerar a dimensão dos territórios nacionais, dos recursos, das populações e do estoque de capital e conhecimento para impedir que se aplique ao Brasil, país continental, o que se aplica com razão a um país médio ou pequeno; somente é válida se a possibilidade e a ilusão da rapidez da importação de tecnologia não afetem a estratégia de desenvolvimento científico e tecnológico, que deve ter sempre como meta a maior autonomia possível”. Eu não discordo de nada do que V, diz aí. Porém, eu escreveria afirmativamente, especificando que exigências o país deveria apresentar para as importações de tecnologias. Creio que essa forma positiva deixaria menos flancos abertos para os ataques contrários.

4. No parágrafo 51, V. volta à questão da “política de importação de tecnologia a partir do investimento estrangeiro” dizendo que “na medida em que este não afluir em quantidades suficientes, ou não for suficientemente trabalho-intensivo, não gerará o emprego necessário nem utilizará a tecnologia adequada à proporção relativa de fatores de produção que existe no País”. Gostaria de ponderar que toda política de desenvolvimento tecnológico tende a não gerar o emprego necessário. Na verdade, se queremos gerar emprego e, ao mesmo tempo, realizar a inovação tecnológica, será preciso ter uma estratégia que combine o uso extensivo de tecnologias tradicionais com o uso de novas tecnologias. Creio que esse é um dos grandes desafios da atualidade, em termos de geração de empregos e avanço tecnológico. Se for o caso, poderemos trocar mais idéias sobre o assunto.

5. No parágrafo 61, V diz que “A política de capital estrangeiro deve estar fundamentada na hipótese prudente de que a disponibilidade internacional de capital e a capacidade de atração da economia brasileira, tendo em vista os estrangulamentos do setor externo e a situação social, são de tal natureza que não ocorrerão fluxos semelhantes aos que ocorreram no passado. Assim, o princípio básico deve ser o de fortalecimento do processo de acumulação de capital no país, pelo estímulo à poupança de aplicação produtiva e pelo fortalecimento das empresas de capital nacional”. Gostaria de ponderar com V. que há grande disponibilidade internacional de capital. Embora a crise de 1998 tenha torrado uns 13 trilhões de dólares, o sistema financeiro internacional conseguiu recompor-se e fabricar dinheiro de dinheiro com uma rapidez espantosa. Assim, embora concorde quanto à necessidade da acumulação de capital no país (sem o que também não haverá política tecnológica), também acho que deveríamos ter uma política ativa de atração de capitais internacionais, explicitando nossas exigências para tanto. Por um lado, há muitos capitais temerosos de uma nova queima da bolha especulativa, procurando canais produtivos. Por outro, se não tivermos políticas alternativas positivas, com exigências definidas, seremos chamados de autárquicos xenófobos e não conseguiremos deter o fluxo dos capitais especulativos.

Por fim, acho que seu trabalho poderia dizer alguma sobre a importância de ter, articulado ao núcleo nacional de ciência e tecnologia, um núcleo nacional financeiro capaz de dar-lhe suporte. Com o atual sistema financeiro, qualquer política tecnológica não passará de um sonho  (de verão ou de inverno, tanto faz).

Por favor, leve em conta que tais observações foram um verdadeiro “bate-pronto”, sujeito a fazer a bola passar longe do gol.

 

Abraços

Wladimir

 

 

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *