O gigante asiático

Conexão

WPO | ENT | CON | O gigante asiático, n. 7, ago. 2006.

 

 

Quando a expressão “negócio da China” era, para empresários brasileiros, sinônimo de transação vantajosa demais para ser verdade, Wladimir Pomar já tentava decifrar os meandros do socialismo-de-mercado do então adormecido gigante asiático. Apaixonado pela cultura chinesa, com a qual travou contato pela primeira vez em 1981, anteviu como poucos o futuro brilhante da economia que mais cresce no planeta – média de 10% ao ano nas duas últimas décadas. Hoje, o país de 1,3 bilhão de habitantes e Produto Interno Bruto de US$ 2,4 trilhões (quatro vezes maior do que o brasileiro) é sonho de consumo para grupos empresariais de todos os portes e nacionalidades. Mas poucos são os executivos habilitados para atuar no comércio com a nova potência mundial.

Pomar é considerado um deles. E jamais duvidou de que chegaria o momento de sentar-se à mesa de negociações comerciais com a outrora fechada China comunista. Militante de esquerda e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, tornou-se consultor de empresas nos anos 90, preparando-se com afinco para a tarefa. Atualmente, o analista político e autor de livros como ‘O enigma chinês’ – Capitalismo ou socialismo (Ed. Alfa Ômega) e ‘A revolução chinesa’ (Ed. Unesp) dirige o Instituto de Cooperação Internacional (Icooi), responsável pela organização da Expo Brasil-China, em Pequim, e também preside a consultoria privada BWP, que assessora o fechamento de negócios sino-brasileiros. A segunda edição da feira ocorreu entre maio e junho deste ano, reunindo dezenas de empresários dos dois países.

A rotina de Wladimir Pomar é atribulada. Inclui uma série de palestras por todo o país. Organizou  recentemente um ‘road show’ para apresentar o Brasil a empresários chineses e passou a trabalhar no segundo número da revista ‘Negócios com a China’, editada pelo Icooi, que deve sair no segundo semestre.

O gigante asiático, adverte Pomar, é um concorrente de peso para o Brasil. “Mas não adianta, num mundo globalizado, ficar chorando. Temos que tirar vantagem onde somos mais competitivos”, prescreve, pragmático, em seu escritório no Centro do Rio, repleto de objetos chineses reunidos ao longo de inúmeros encontros diplomá-ticos e de missões comerciais. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à ‘Conexão’:

 

Cnx: Como começou seu namoro com a China?

Wladimir Pomar: Primeiro, foi o interesse juvenil. Depois, a questão política, já que meu pai foi do Partido Comunista. Em 1981, fui lá pela primeira vez e percebi que a China ia dar um susto no mundo. Eles tinham dado início às reformas rurais e estavam começando a implantar as cinco zonas especiais (pólos industriais voltados para a exportação). A ênfase, na ocasião, era na indústria básica. Depois, equilibraram com indústria leve e agricultura. Mas a escassez de matéria-prima era enorme. Havia uma série de produtos básicos que eram racionados, como roupas de algodão. Havia cartelas de racionamento para comprá-las. Em 1984, voltei ao país e confirmei minha impressão inicial, de que haveria um salto muito grande. Mas até poucos anos ainda achavam que eu era maluco (risos). A China quadruplicou o PIB entre 1980 e 1996, é difícil na história da humanidade encontrar um paralelo. A meta era fazer isso até 2000, conseguiram chegar lá quatro anos antes. Mesmo assim, a maioria dos empresários brasileiros achava que aquilo era uma bolha ou que a imprensa estava exagerando. Em 2004, muitos empresários da comitiva do presidente Lula que esteve no país ficaram impressionados. Quem ainda não tinha ido e guardava uma visão antiga ficou impactado. Ainda se vê muita coisa atrasada, mas a paisagem mudou. Em toda a parte, se vê modernidade, produtos de última geração. A oferta de bens agora é muito diversificada. E tudo muito barato.

Cnx: A primeira Expo Brasil-China reuniu mais de 60 empresas brasileiras em Pequim, pouco depois da visita do presidente Lula ao país. A segunda ocorreu este ano. Quais os frutos colhidos?

WP: A presença chinesa no evento ficou um pouco abaixo do previsto, mas, mesmo assim, a maior parte dos empresários presente acabou fechando algum tipo de negócio, pelo menos no médio prazo. Tirando a Eletrobrás, que firmou contrato para a construção (da usina hidrelétrica) de Candiota (RS). Na China, negócio imediato não existe, tudo é mais demorado. Tirando, é claro, o que eles produzem para exportar. Mas o objetivo era abrir uma porta para o empresário brasileiro e isso foi conseguido.

Cnx: A cultura negocial chinesa ainda é um enigma para o empresário brasileiro?

WP: Sim. Os chineses têm agilidade muito grande para vender, mas, para importar, investir, aceitar investimento, é tudo mais complicado. A cultura negocial deles é diferente. É preciso ter espírito de negociar a médio e longo prazos. Nós temos cultura mais próxima da americana. Propomos um negócio e queremos fechar na hora. Eles não. Querem ver o projeto e muitas vezes o brasileiro não tem um consistente para mostrar. E, de outro lado, coisas que são claras para nós, às vezes, eles não compreendem. Quando uma negociação engrena, acreditamos sempre que vai dar certo. E, com o chinês, não é assim. Querem conhecer você, saber de onde você vem, qual a sua experiência, qual a sua história, querem contar a história deles, enfim, criar uma base cultural para negócios futuros. Isso, para o empresário brasileiro, tanto como para o americano, é considerado perda de tempo. Aí fica complicado.

Cnx: Que papel as tradings brasileiras podem desempenhar nesse processo de aproximação com a China?

WP: A China não é um só mercado. Cada província tem 40 milhões de habitantes, são no mínimo 25, 30 mercados diferenciados. Se o trader brasileiro fala que vai vender na China, pode estar certo de que não vai. Ou vende para uma província específica ou vai para uma grande municipalidade. Só Xangai, por exemplo, tem 18 milhões de habitantes. A partir daí, vai focar onde a competição é maior, onde é menor. É preciso estudar melhor esse mercado multifacetado. Não pode chegar e achar que vai vencer na China facilmente. Tem que ter conhecimento sobre os nichos de mercado. Acredito que há muitas oportunidades. Seja na área de alimentos, seja em setores tecnológicos nos quais eles estão mais atrasados do que nós, seja em máquinas e equipamentos em que eles estão um pouco mais avançados. Mas é preciso que se entre firme nestes segmentos.

Cnx: Os empresários brasileiros reclamam muito de invasão dos produtos chineses, a preços baixíssimos.

WP: Têm um lado de razão. A China é um concorrente, e vai ser cada vez mais. E não adianta, num mundo globalizado, ficar chorando. Temos que tirar vantagem onde somos mais competitivos. Quem não fizer isso, ficar achando que com salvaguarda ou com protecionismo se resolve tudo, vai sumir. Os chineses estão no caminho certo. Nós é que estamos no caminho errado. Somos pouco competitivos, não buscamos novas oportunidades. Por exemplo: o pessoal do setor de couro está sendo ousado, foi para a China e está produzindo lá, a custos mais baixos, deixando para fazer aqui só os produtos de maior valor agregado, voltados para a classe A. Não adianta querer brigar com os chineses. É a velha máxima: “Se não pode vencer seu inimigo, alie-se a ele”.

Cnx: Mas assim não vamos nos tornar um grande exportador de produtos básicos para a China?

WP: Essa é uma posição passiva. A China não precisa de minério de ferro de alta qualidade, como o nosso? O que fazer? Negociar com eles. Vamos fazê-los investir aqui, em ferrovias de bitola larga, em portos para escoar produção. Não dá para achar que é possível parar de vender. Eles vão buscar em outro lugar, como a África.

Cnx: Uma crítica feita ao governo Lula é que o Itamaraty tem priorizado países de menor expressão na balança comercial e outros emergentes, do chamado grupo dos BRICs (Rússia, Índia e China, além do Brasil). Mas isso nem sempre tem se traduzido em bons negócios. Os chineses dificultaram as importações de soja e os russos criaram embargo à carne nacional. O senhor acha que a política de comércio exterior deve privilegiar esses países ou os principais mercados mundiais, como os Estados Unidos e a União Européia?

WP: Nosso futuro está na diversificação dos mercados. Não só do ponto de vista geográfico. Os chamados emergentes são importantíssimos. A China, a Rússia, a Índia, a África do Sul, daqui a 10, 20 anos, serão os maiores mercados do mundo. Não podemos deixá-los de lado. Mas se começarmos a só reclamar… Mais protecionismo do que nos EUA, não existe. Mas, com isso, vamos abrir mão dos EUA? Claro que não, temos que negociar, tentar penetrar nestes mercados, ter estratégias específicas. Como vamos, por exemplo, aproveitar a capacidade que o chinês tem hoje de exportar capitais? Eles têm enormes excedentes (de recursos) e podem se tornar um dos grandes investidores no Brasil. Nossa taxa de investimento ainda é baixa: 20% do PIB não é nada, precisamos chegar a 25%, 30% para obter crescimento consolidado. Acho um erro não trilharmos esse caminho. Às vezes, é claro, há uma dicotomia entre o que se apresenta como política geral e o que se aplica. Acho que, no caso do comércio exterior, a política está correta, mas não a estamos aplicando com a agilidade necessária.

Cnx: O comércio com a China poderia fortalecer as relações bilaterais?

WP: Sim. Nossa corrente de comércio com a China já chegou a US$ 14 bilhões, o que não é nada para eles, apenas 1% do total. Mas cresceu sete vezes nesta década e (a balança) é sempre favorável a nós. Por que não aproveitamos melhor isso? A culpa é do chinês? Não, é nossa.

Cnx: Mas o superávit brasileiro não se deve basicamente ao minério de ferro e à soja?

WP: Não só. No início, grande parte do nosso superávit era proporcionado pelos aviões da Embraer. Depois, a empresa instalou fábrica lá, em regime de parceria, e isso mudou. Hoje é minério e soja, sim, mas também autopeças, embora ainda sejam poucas as empresas do setor que estão operando lá. Os fabricantes do Brasil deveriam fazer mais acordos com os chineses, para ganhar mercados.

Cnx: Essas empresas não acabariam assim deslocando toda a produção para a China?

WP: Esse é um risco. Se uma empresa consegue se instalar na China, é porque tem tecnologia melhor do que a deles. Mas o negócio é continuar investindo em diferencial tecnológico. Se conseguir isso, o empresário nacional terá sempre uma ponta de vantagem. Só que às vezes temos um problema: transferimos tecnologia e ficamos parados em termos de inovação.

Cnx: E exportamos empregos.

WP: Isso vai continuar acontecendo durante um tempo. Até que o salário cresça na China, e também nos países vizinhos, atingindo os padrões internacionais. Nos últimos anos, cerca de 500 milhões de trabalhadores desta região entraram no mercado. Isso implicou necessariamente um rebaixamento do custo do trabalho internacional. Só vai haver um equilíbrio quando houver um nivelamento. Enquanto isso, se não perdermos empregos para a China, perderemos para a Índia.

Cnx: Como o senhor avalia os custos de mão-de-obra na América Latina e na Ásia?

WP: O custo do trabalho na China é menor do que no Brasil, embora o salário real seja maior do que o do trabalhador brasileiro: US$ 50 lá compram muito mais do que aqui. Mas eles conseguiram vantagens competitivas extraordinárias, realizaram investimentos pesados na área de infra-estrutura, oferecem muita rapidez no transporte e no embarque de mercadorias. Esse é um problema para nós. Há quantos anos não se investe, no Brasil, em infra-estrutura, em inovação? Nossa mão-de-obra é cara e não tem poder de compra. Nem qualificação.

Cnx: Muitos brasileiros se impressionam com a realidade chinesa, onde muitas vezes os trabalhadores migram para as grandes cidades em busca de emprego e moram nas próprias fábricas. O avanço econômico não se traduziu em benefícios proporcionais à população?

WP: É comum na China funcionário morar na fábrica ou em vilas próximas, não é só com os migrantes que isso acontece. É parte do processo de industrialização do país. Até 1984, 1985, quando começaram as reformas urbanas, eram as empresas que cuidavam da parte social, não havia atividades universais, como previdência pública. Isso vem mudando paulatinamente. Hoje as pessoas têm condições de conseguir emprego sozinhas. Antes, era o governo que estipulava em que a pessoa ia trabalhar. Havia uma política de pleno emprego, com três trabalhadores para cada posto de trabalho. Além disso, era preciso obter autorização e provar que se tinha emprego certo para se viajar para outra cidade e morar lá. Existem restrições até hoje, numa tentativa de evitar o inchaço urbano, mas já foi mais rígido. Recentemente, houve também um esforço para regularizar a situação dos migrantes. Eles têm, como nós, um problema sério com a informalidade, especialmente no setor de construção civil. Por isso, o governo chinês está brigando para que as empresas regularizem a situação de seus funcionários, inclusive em termos de moradia. E bate firme nas multinacionais, na questão da sindicalização, que os estrangeiros não aceitavam. Tiveram uma disputa muito séria com a (rede norte-americana de supermercados) Wal-Mart nessa questão. Mas o ritmo é outro, eles não resolvem tudo de chofre: vão aos poucos, tudo é feito passo a passo.

Cnx: Comparado com o ambiente de negócios em outros países…

WP: É pouquíssimo. E mesmo assim aprovar estas medidas foi complicado, porque o Congresso representa interesses. Num regime político em que se tem que fazer composição com outros partidos para governar, as limitações são muito grandes. Lula ganhou porque o lado de lá estava dividido. Para governar, no entanto, as dificuldades são maiores. Não tinha expectativa de que o presidente pudesse fazer mais do que está fazendo. O PT tinha problemas internos não resolvidos e, no governo, isso poderia acabar aflorando, como aconteceu. Por sorte, ocorreu bem antes do processo eleitoral. Mas o PT ainda vai ter que resolver esse passivo com a população brasileira.

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