Índia: informações históricas

WPO | TBA | Índia: informações históricas. Universidade Federal Fluminense, Curso de Especialização em História Contemporânea, 19 fev. 2005.

 

 

UFF/CEG/EGH/GHT

Curso de Especialização em História Contemporânea

Coordenador: Prof. Dr. Daniel Aarão Reis Filho

Aula: 68 – Índia

Prof.  Wladimir Pomar

Texto Base Indicado

Índia – Informações históricas

 

Preliminares

  1. Os antigos territórios indianos, além da atual Índia, com cerca de 3,2 milhões de km2, incluíam, a noroeste o atual Paquistão, com cerca de 796 mil km2 , a nordeste o atual Bangladesh, com cerca de 144 mil km2, e ao sul o atual Sri Lanka, com cerca de 66 mil km2.
  1. Há vestígios de povoamento humano nos territórios indianos desde o Paleolítico (100 mil anos atrás). Mas datam de 5 mil anos atrás (3.000 AC), no Vale do Indo, as primeiras povoações agrícolas até agora conhecidas. Tinham por base a agricultura de cereais.
  1. Nos 1500 anos posteriores, essas aglomerações se transformaram em cidades-estado, ou centros urbanos fortificados, comandadas por reis (rajás) ou grandes reis (maharajás), configurando-se como culturas ou civilizações próprias. Suas características comuns eram as edificações de ladrilhos, os trabalhos com metais (exceto o ferro), as canalizações urbanas e rurais (estas para irrigação), as embarcações e o comércio fluvial, a escrita, e as representações religiosas antropomórficas (shiva) e animistas (fauna local). A história conhece essas populações do vale do Indo, dispersas por suas cidades-estado, como drávidas.
  1. Por volta de 1500 AC tem início a penetração de populações árias, ou arianas, em migração da Ásia Central para sudeste. Eram tribos de língua indo-européia, dotadas de carros de guerra puxados por cavalos, e armadas com arco-e-flecha, armadura e escudo. Com essa superioridade militar, elas se impuseram paulatinamente aos drávidas, no vale do Indo, e estenderam-se para leste, pelo vale do Ganges. Por volta do ano 600 AC, os arianos estavam estabelecidos em quase todo o vale do Indo, restando apenas algumas cidades-estado sob domínio dravídico no golfo de Cambaia, a sudeste.
  1. Os arianos impuseram aos antigos povos sua estrutura econômica, social e política, assim como sua religião védica. As terras foram repartidas entre os guerreiros (chatrias), os sacerdotes (brahamanes) e os camponeses arianos livres (vaisia), para cultivo e para criação dos rebanhos bovinos e ovinos. Os camponeses servos e mestiços (sudras) trabalhavam as terras para os guerreiros e os brahamanes. Ao mesmo tempo, permitiram a existência de pessoas totalmente desprovidas de meios de trabalho (os párias).
  1. Essa estrutura econômica e social foi juridicamente consolidada no Código de Manu,, entre os anos 600 AC e 250 AC, ao mesmo tempo em que era sancionada divinamente pela religião Veda. Transformou-se, assim, no regime de castas, que impedia qualquer deslocamento social entre elas. No entanto, é justamente nesse período que a religião Veda e os estados arianos sofreram os primeiros choques em seu domínio. Entre 540 AC e 468 AC, surgiram as prédicas de duas novas vertentes religiosas, o budismo e o jainismo. E, a partir de 518 AC, os arianos passam a ser ameaçados por novas invasões de povos ocidentais. Tudo isso os obriga a uma profunda revisão religiosa, que se consolidou, mais tarde, no hinduismo.
  1. A Índia ariana não constituía um estado unificado. Era formada por diversas cidades-estado ou reinos, que travavam guerras entre si. Não conseguem, pois, impedir que os persas, primeiro comandados por Ciro, penetreassm fundo no noroeste da Índia, em 312 AC. Dario I ampliou as conquistas de Ciro, transformando essa região (que hoje faz parte do norte do Paquistão) em satrapias. Entre 327 AC e 325 AC, o macedônio Alexandre, o Grande, derrota os persas, transforma suas satrapias em satrapias gregas, e tenta atravessar a Índia. Enfrenta, porém, forte resistência dos reinos arianos restantes e é obrigado a retirar-se para a Babilônia.
  1. Em 321 AC ocorre a primeira tentativa de unificação dos reinos arianos, feita por Chandragupta, rei que sucede a dinastia Nanda em Magadha, no nordeste. Ele rechaça as tentativas de Seleuco I (antigo general de Alexandre), funda a dinastia Maurya, e amplia seus territórios, embora não consiga dominar todo o território indiano. Isso quase será realizado por Asoka, seu neto, entre 272 e 231 AC, que estabelece sua capital em Pataliputra, sobre o Ganges. Apenas a ponta meridional do território indiano (Pandia, Cola e Kerala), onde os romanos haviam estabelecido os portos de Produke, Kolxoi e Muziris, permanecem fora de seus domínios. A conquista de Kalinga, área litorânea ao sul de Maghada, foi realizada ao custo de 100 mil mortos e 150 mil deportados. Asoka converteu-se ao budismo e pregou a tolerância religiosa.
  1. À morte de Asoka, em 231 AC, segue-se nova divisão em diversos reinos, a sucessão da dinastia Maurya pela Sunga, o estabelecimento de pequenos reinos gregos no Punjab (noroeste), e as invasões escitas (sakas) e dos Yue Chi (povos nômades indo-europeus), a fundação do reino de Kusana em toda a região noroeste, da dinastia Satavahana na região central (Decão), e do estado Ksatrapa na região ocidental (foz do Indo e vale do Narbada).
  1. O estabelecimento da dinastia Gupta, em 320 DC, com sede em Pataliputra, procura reaver a hegemonia perdida com a morte de Asoka, mas não consegue deter as constantes invasões de outros povos pelas fronteiras noroeste (atual Caxemira). Hunos brancos, sasanidas e mercenários turcos e árabes (muçulmanos) sucedem-se entre os anos 400 e 1.030DC. Os muçulmanos avançam e realizam uma profunda penetração pelo território indiano, fundam o sultanato de Delhi, em 1206, e mantêm seu domínio sobre a maior parte da Índia.
  1. Os muçulmanos implantam na Índia um despotismo teocrático-militar, não mais com base no hinduismo, que substituíra o budismo como religião dominante, mas com base no islamismo. Aniquilam o budismo indiano, destruindo seus templos, monastérios e manuscritos, e exigem que os hinduístas paguem tributos especiais para praticar sua religião. Como sua principal preocupação era a extração dos tributos, eles estipulam um rígido sistema fiscal, que não só aumente a riqueza através da expansão da produção (tecidos, especiarias, açúcar), mas garanta que parte dessa riqueza seja transferida para a sede do império árabe. Com isso, incrementam o comércio com o mundo islâmico ocidental, mas aumentam os problemas financeiros do sultanato.
  1. Os dominadores muçulmanos doam, temporariamente, os domínios feudais a altos funcionários ou guerreiros turcos, árabes, indianos e mongóis, não se importando em constituir uma nobreza feudal hereditária. Apesar de agravar as constantes disputas pelo trono, o sultanato de Delhi consegue estender seu domínio ao Decão e rechaçar as invasões mongóis. Estes conseguem apenas manter-se no reino Bahmani, embora por quase 180 anos (1347 a 1527).
  1. A extensão do domínio territorial muçulmano ao Decão coincide com uma grave crise financeira do sultanato e o início de sua decadência. Em 1340, os indianos conseguem fundar o reino independente de Vijayanagar (cidade da vitória), ao sul do Decão, convertendo-a no principal centro de resistência ao domínio islâmico. Apesar dos esforços do sultanato de Delhi em favorecer a agricultura através de obras de irrigação, o reino hindu consegue estender-se às custas do reino Bahamani e dos desmembramentos do Decão. Em 1388 o imperador mongol Timur Lenk (Tamerlão) invade o norte da Índia e destrói Delhi, anexando o Punjab a seu domínio.
  1. As tentativas de domínio mongol da Índia se estendem até 1636. Em 1504 eles criam o Império do Grão Mogol, conquistando sucessivamente Agra e os rajputs de Khanua, dominando toda o norte da Índia. Em 1601, haviam ocupado toda a Índia. Durante seu domínio, eles incentivaram o casamento dos nobres mongóis com princesas indianas, suprimiram o regime fiscal implantado pelos árabes, implantaram uma burocracia centralizada, com a participação dos hindus, proibiram os suicídios rituais e publicaram um édito de tolerância religiosa, embora tenham tentado implantar o culto do deus Sol. Em 1636, os sultões do Decão rendem vassalagem ao Grão Mogol, mas o luxo cortesão desmedido, os altos tributos que os camponeses precisam pagar, as divisões e conflitos em torno do trono e a chegada da primeira onda colonial européia à Índia, aceleram a decadência de seu Império.
  1. Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calcutá, na costa sudoeste da Índia. Entre 1505 e 1515 Portugal cria os primeiros elos do império português na Índia, estabelecendo feitorias em Goa, Ceilão e Diu. Retiram do território ouro, diamantes, salitre, corantes, café, açúcar, pimenta, canela, algodão, lã, tecidos e ópio, através de suas companhias mercantis. Em 1612, a Inglaterra também define a sua política colonial e passa a participar ativamente na expansão marítima, na pilhagem dos novos territórios, na guerra contra seus concorrentes e no comércio mundial, principalmente através da Companhia das Índias Orientais. Derrota os portugueses na batalha de Surat, em 1614, e ocupa Madras, em 1639, Bombay, em 1661 e Calcutá, em 1696, como bases para sua futura expansão na Índia. A França, por sua vez, também organiza uma Companhia das Índias Orientais, em 1644, e funda feitorias em Chandernagore e Pondicherry, no litoral oriental da Índia.
  1. O Império Grão Mogol alcança o auge de sua expansão territorial em 1691, ao mesmo tempo em que se vê dilacerado por conflitos internos, que aparecem emoldurados por conflitos religiosos. Aurengzeb, o último grão mogol importante, tenta impor os rituais islâmicos de sua seita minoritária sunita, restaurando os impostos discriminatórios (jizya), perseguindo islamitas xiitas e hinduístas, e destruindo templos dessas correntes religiosas. Isso leva à revolta sikh e dos estados vassalos do Rajput, e à organização militar dos marathas (os mais antigos povoadores do Decão), para defender o hinduismo dos ataques que vinha sofrendo. Em 1765, a Índia está livre dos imperadores mongóis, mas permanece um mosaico de pequenos e grandes reinos, mandados por príncipes (rajás e maharajás). A sociedade de castas continua intocada, enquanto os príncipes hindus conflitam, principalmente sob o manto do hinduismo e do islamismo.
  1. A Companhia das Índias Orientais inglesa intervém nas disputas entre os príncipes hindus, sob o velho lema dividir para reinar, primeiro para assegurar-se o domínio comercial, depois, com o apoio militar da metrópole, para obter privilégios tributários e administrativos e o controle político e, finalmente, implantar o domínio britânico. Entre 1757 e 1803, conquista a supremacia sobre Bengala, Audh, Bihar e o Ceilão, e ataca a Liga dos Marathas e os reinos de Nizam e Mysore, os três principais inimigos da Inglaterra. Conseguiu desbaratar a primeiro, desarmar o nizan de Heiderabad, e avassalar o terceiro. Finalmente, conquistou Delhi, Agra e Bengala meridional. Depois disso, avançou sobre o Nepal, em 1814, tornando-o parte do Império Britânico e transformando os gurkas em guerreiros auxiliares, para o domínio sobre a Índia e para as guerras em outras partes do mundo.
  1. A partir de 1817, quando ocorreu nova guerra contra os marathas e os rajputs, a Inglaterra passa a anexar a seu domínio indiano os principados carentes de herdeiros e os territórios limítrofes. O Tenasserin, o Arakan e o Assam, pertencentes à Birmânia, são incorporados em 1826, após a primeira guerra anglo-birmanesa. A guerra para conquistar o Afeganistão, entre 1839 e 1842, fracassa. O Punjab é anexado em 1849, a Baixa Birmânia em 1852, o Butão em 1865, como estado-tampão, o Beluquistão em 1876, o restante do território birmanês em 1886, e o Sikim em 1890, como outro estado-tampão. Em 1904, após uma sangrenta expedição militar a Lhasa, a Inglaterra garante seus privilégios comerciais no Tibet.
  1. Desde 1858, após a vitória sobre a insurreição dos cipaios (tropas indianas), com a ajuda de tropas gurkas e sikhs, e a dissolução da Companhia das Índias Orientais, a Índia fora convertida em Domínio Britânico, sob a regência de um vice-rei. E, em 1876, a rainha Vitória incorporou a seu título o de Imperatriz da Índia.

 

As correntes religiosas indianas

  1. Os Veda, um conjunto de livros sagrados (sânscritos), constituem o primeiro escrito em língua indo-européia. O Rigveda, com 1028 hinos, é de 1.000 AC. O Samaveda, o Yayurveda e o Atharveda, os Brahamanas e os Upanishadas são posteriores. Eles codificam os deuses, a doutrina, os ritos, os sacrifícios, a estrutura de castas e a exegese da religião védica.
  1. O termo Veda significa saber ou sabedoria sagrada. O núcleo doutrinário védico é a yoga, ou o desejo de libertação mediante a fusão com a realidade suprema. Entre os deusas védicas encontram-se Rita (a verdade, uma força universal de caráter impessoal), Varuna (deusa dos juramentos), Mitra (deusa dos contratos), Ushas (deusa da Aurora), Agni (deusa do Fogo), Surya (deusa do Sol), Indra (deusa da Guerra), assim como diversos outras. A exegese dos Veda é exclusividade dos sacerdotes (brahamanes).
  1. Hinduismo foi a denominação que os invasores muçulmanos impuseram à religião védica. Mas, entre os anos 600 AC e 300 AC, o hinduismo realiza uma profunda re-interpretação dos textos védicos, após o surgimento do budismo e jainismo, transformando-se na religião e cultura predominente. Ele se apresenta como a continuidade da religião védica, adepto da Sanâtama Dharma, ou lei cósmica universal sem origem, um equilíbrio instável entre os deuses e os demônios. Acrescenta, porém, a doutrina da transmigração, aos rituais e aos sacrifícios védicos, destinados a preservar aquele equilíbrio.
  1. A doutrina hinduísta da transmigração justifica a ordem social e religiosa existente em função dos méritos e dos erros das vidas anteriores. A partir dessa visão da vida, para alcançar a libertação (moksha), como renunciantes (sannyasin), os hindus devem pagar suas dívidas aos deuses e aos ancestrais, primeiro como estudantes (brhmacarya) e, depois, como senhores da casa (grihastha). O hinduismo, desse modo, integrou o ideal budista da renúncia à religião védica. Ao mesmo tempo, foi obrigado, pelos colonizadores ingleses, a abandonar os rituais antigos, que incluíam os sacrifícios humanos.
  1. O budismo surgiu, nos anos 600 AC, como reação ao bramanismo védico. Gautama Buda (o Iluminado), um chátria (guerreiro), começa a predicar a libertação das reencarnações mediante o auto-aperfeiçoamento. Os aspectos essenciais do budismo consistem no reconhecimento da existência humana como um sofrimento, no reconhecimento do desejo como a causa (kharma) desse sofrimento, na consciência da necessidade de suprimir o kharma para ser libertado, através do caminho, ou iluminação, que leva ao Nirvana (extinção), como propósito último da vida.
  1. Após a morte de Buda, o budismo não consegue firmar-se como religião unificada, dividindo-se em inúmeras seitas e escolas antagônicas. Durante o reinado de Asoka, nos anos 300 AC, o budismo torna-se uma religião com vocação universal, expandindo-se através de missionários, que se espalham principalmente pela Ásia. Isso, porém, ao invés de unificá-lo em torno de uma doutrina e uma igreja comuns, transforma o budismo num agregado ainda maior de seitas, que se distinguem não apenas em virtude das interpretações em torno do pequeno veículo tradicional (hinayana), e do grande veículo reformado (mahayana), mas também em torno de vários outros pontos doutrinários.
  1. Após um novo apogeu, por volta dos anos 4 e 5 de nossa era, o budismo sofre na Índia o ataque conjugado do hinduismo, que integrara a renúncia budista à sua doutrina, e do islamismo dominador, que o ataca também através de perseguições e destruição de seus templos. No período contemporâneo, o budismo resta como religião minoritária na Índia (cerca de 3 milhões de fiéis).
  1. Vardhamana, ou Mahavira (Alma Grande) ou Jaina (o Vitorioso), também aparecido nos anos 600 AC, prega, por seu lado, que o sofrimento terreno é conseqüência da fusão do espírito (jiva) com a matéria (ajiva). Como o budismo, ele se coloca contra o bramanismo védico e busca libertar o ser humano dos sofrimentos inerentes à existência. Tal libertação só seria possível separando-se espírito e matéria, através da mortificação. Isto inclui o ascetismo, a maceração e o jejum, até a morte. O núcleo doutrinário do jainismo consiste na ahimsa (não fazer mal a criatura alguma) e na negação de himsa (a violência).
  1. Historicamente, o jainismo seguiu uma trajetória idêntica à do budismo, dividindo-se em ramos (os shvetambara, ou vestidos de branco, e os digambara, ou vestidos de espaço, ou nus) e seitas diversas. Essas seitas espalharam-se por grande parte do território indiano, contando hoje com cerca de 2 milhões de fiéis, uma minoria religiosa.
  1. O islã penetrou na Índia através das invasões de turcos, árabes, persas, afegãs e mongóis, que tiveram início no ano 711 de nossa era, e estenderam-se até o começo da dominação britânica, em 1772. O dogma principal da religião fundada por Maomé, no século VII, é a existência de Deus (Alá), como criador do universo, ser supremo único, perfeito, e juiz de todos os homens. Reitera, pois, o monoteísmo do judaísmo e do cristianismo. Mas, ao contrário destes, o Islã coloca o crente em relação direta com Deus, sem intermediários, através dos cinco atos essenciais que cada um deles deve praticar: a profissão de fé (Chahada), as abluções diárias, na direção de Meca (Salat), o jejum durante o Ramadã, a peregrinação à Meca (hadjdj), pelo menos uma vez na vida, e o pagamento da esmola legal (zakat).
  1. Embora não exista um clero para colocar os crentes em relação com Alá, o Islã possui os homens da lei (mufti), que interpretam as questões jurídicas, e os juizes (qadis ou cádis), que velam pela aplicação da lei corânica (sharia), isto é, pela interpretação do Corâo. Formaram-se, assim, Estados muçulmanos, dirigidos por imas ou califas, encarregados não só de chefiar a administração do Estado, mas também de fazer aplicar a lei corânica. A guerra santa (jihad), sob o manto do Islã, serviu de base à expansão do império muçulmano na Índia, primeiro comandado pelos árabes, depois pelos omíadas, abássidas, turcos-otomanos e, finalmente, pelos mongóis.
  1. Nessas condições, o islamismo na Índia esteve sempre associado ao Estado, seja denominado sultanato (como o de Delhi), reino (como os de Bengala, Malva e Gujerat) ou Império (como o Grão-Mogol). Durante sua dominação sobre a Índia, os muçulmanos tentaram destruir tanto o hinduismo, quanto o budismo. As raízes do hinduismo, porém, mostraram-se muito resistentes, enquanto o budismo foi quase totalmente liquidado. Durante a dominação britânica, os muçulmanos viram-se privados de um Estado próprio. O que os levou a reivindicá-lo, no processo da luta pela independência, e levou à criação do Paquistão, primeiro, e Paquistão e Bangladesh, depois. Hoje, os muçulmanos são a segunda maior religião existente na Índia, com cerca de 20% da população.

 

A política imperialista britânica

  1. A transformação da Índia em colônia britânica está inserida na nova onda de expansão colonial promovida pela revolução industrial dos séculos 18 e 19 na Europa. As novas potências industriais buscavam novas fontes de matérias primas minerais e agrícolas para seus processos produtivos e buscavam novos mercados para seus produtos fabris. Já não se tratava mais de descobrir novos territórios. O mundo existente estava razoavelmente conhecido e, de certa maneira, colonizado. Tratava-se, portanto, de realizar uma nova divisão colonial, tendo por base as demandas das indústrias.
  1. A Inglaterra perdeu os Estados Unidos, em 1789. Seus privilégios comerciais na América Latina estavam sendo contestados. Nas “colônias brancas”, como Nova Zelândia e Austrália, surgiam movimentos pela autonomia. As colônias africanas já não forneciam a lucratividade de antes. De traficante negreira, a Inglaterra transformara-se em defensora do fim do tráfico escravo e da escravidão. Internamente, prosseguia o incremento populacional, a expansão urbana e o êxodo rural. O país era pressionado a encontrar novas portas internacionais para onde direcionar seus migrantes. Por outro lado, a indústria britânica enfrentava crescente concorrência comercial dos produtos franceses, alemães, japoneses e norte-americanos. Precisava, urgentemente, assegurar as vias de tráfego marítimo internacional para seu comércio de importação e exportação, garantir o fornecimento de matérias primas baratas para sua indústria e mercados seguros e exclusivos para seus produtos.
  1. China, Índia e América Latina tornaram-se as áreas prioritárias de expansão dos mercados ingleses, segundo sua nova política colonial, traçada em 1812. Para assegurar as vias de tráfego para essas áreas, a Inglaterra lançou-se à conquista de novos territórios, quase sempre com a ajuda de suas canhoneiras. Colônia do Cabo, em 1814, Singapura, em 1819, Ilhas Malvinas, em 1833, Áden, em 1839, Hong Kong, em 1841, Natal e Estado de Orange, entre 1848 e 1954, Transval, em 1852, Canal de Suez, em 1875, Chipre, em 1878, Egito, em 1882.
  1. Em 1880, a Grã-Bretanha controlava 46% de todo o comércio mundial, incrementando-o constantemente. A Inglaterra expandiu seus investimentos na metrópole e nas novas colônias e territórios, assegurando tudo isso através dos domínios territoriais. Em 1914, início da decadência do Império Britânico, a população de suas colônias era 8 vezes superior à população da metrópole, enquanto a superfície desta era 94 vezes inferior ao império colonial. O Império Britânico conseguira reunir sob sua coroa 23% da população mundial e 20% da superfície do planeta.
  1. Um empreendimento de tal vulto necessitava ter uma sólida justificação ideológica. Os interesses econômicos e imperialistas precisavam ser revestidos de uma roupagem menos vulgar. O dever de fomentar o progresso e a civilização no mundo, inspirado no puritanismo, transformou-se em missão histórica. Thomas Carlyle estabeleceu as bases ideológicas da Inglaterra como nação predestinada a cumprir essa missão universal. Charles Dilk criou a imagem da Grã Bretanha num “mundo cada vez mais inglês”. E Rudyard Kipling procurou exprimir literariamente o “dever do homem branco” e aquela missão britânica.
  1. À medida que a Inglaterra colonizava a península indiana, firmava sua posição na China, e ocupava outros territórios asiáticos, ela se viu às voltas com as potências industriais européias e os Estados Unidos. Estes últimas se restringiram, inicialmente, a disputar a hegemonia sobre a América Latina, estimulando os movimentos pela independência. Mas, na Europa, a Inglaterra vê-se diante da conformação de pactos e alianças diversas, seja para manter os territórios europeus, seja assegurar a expansão colonial.
  1. Os movimentos de poder na Europa a sacudiram durante todo o século 19. Primeiro foram as guerras napoleônicas, resultantes da revolução francesa de 1789, que se estenderam até 1815. Depois, as restaurações da contra-reforma, as revoluções liberais e as insurreições operárias, entre 1815 e 1870, incluindo expedições e choques militares entre as diferentes potências européias. Em 1870, estalou a guerra franco-prussiana, seguida da insurreição da Comuna de Paris e da proclamação do II Reich alemão, por Bismarck.
  1. Esses acontecimentos, em especial a proclamação do II Reich e a política de alianças de Bismarck, intensificaram os acordos e alianças na perspectiva de uma nova guerra européia relacionada com as ambições alemãs. No início do século 20, configuram-se dois blocos de potências em oposição: de um lado, Alemanha e Áustro-Hungria; de outro, Inglaterra, França e Rússia, a chamada Entente Cordial. As disputas européias conduziram a França e a Inglaterra a uma aliança, apesar da França haver conquistado Calcutá e boa parte da Índia meridional, sendo derrotada em Plassey, quando a Inglaterra assegurou sua soberania sobre o território indiano.
  1. A Inglaterra procurou sempre manter sua hegemonia diante das demais potências imperialistas. Primeiro, através da expansão sobre áreas ainda “livres” ou “abertas”. Segundo, por meio de uma política armamentista que assegurasse sua supremacia naval. Terceiro, pela consolidação do Império. Neste aspecto, a Inglaterra abandonou a política de câmbio livre e criou uma confederação imperial das “colônias brancas”, que se manteriam unidas pela língua,pelos privilégios econômicos e pela Corôa. Austrália, Nova Zelândia, Terranova e União Sul Africana ganharam o estatuto de Domínio da Commonwealth. Em 1914, quando na Europa estourou a I Guerra Mundial, opondo os dois blocos imperialistas, o Império Britânico era constituído pela Metrópole (Inglaterra), Domínios, Protetorados e Colônias.

 

O domínio britânico da Índia

  1. O domínio britânico sobre a Índia combinou a administração direta sobre certas regiões e territórios, com o protetorado sobre outros. Na administração direta, os ingleses não admitiam qualquer participação dos nativos hindus. O Serviço Civil da colônia era totalmente ocupado por ingleses, marginalizando os indianos de participarem na administração pública e nos conselhos de governos provinciais. Nos protetorados, como o Nepal, Butão e Sikim, a administração era realizada pelos nativos, embora devessem solicitar autorização aos ingleses para qualquer passo a ser dado.
  1. Tendo a Índia como um grande mercado, os ingleses a inundaram com seus produtos industriais. Isso causou a liquidação da economia rural autárquica indiana, até então predominante. Por outro lado, a introdução de grandes plantations de algodão, chá, juta, índigo e papoula, com capitais britânicos, desapropriou das atividades agrícolas parte importante dos camponeses, obrigando-os a migrar para as cidades em busca de trabalho e sobrevivência. Isso agravou os problemas relacionados com a superpopulação e com a urbanização, gerando um imensa e miserável processo de favelização.
  1. Ao mesmo tempo, para garantir a comercialização dos produtos importados da metrópole e a exportação dos produtos agrícolas e minerais produzidos na colônia, os britânicos instalaram uma rede ferroviária, até então inexistente no país, e modernizaram os portos. Também introduziram novos sistemas de irrigação nas áreas de plantations, embora deixassem ao abandono os sistemas de irrigação existentes nas zonas de predomínio de culturas de pouco interesse comercial.
  1. O império britânico também implantou o sistema de ensino inglês, marginalizando a cultura e as línguas indianas. Ao mesmo tempo, porém, estimulou a formação de uma elite cultural indiana em seus colégios e universidades metropolitanos. Pretendia que essa elite se europeizasse e colaborasse com o “processo civilizatório” que os ingleses proclamavam estar levando à Índia.
  1. No entanto, o domínio britânico sobre a Índia produziu um continuo processo de descontentamento e resistência. Além da continuada resistência dos marathas e rajputs, com insurreições e ataques aos britânicos, a elite cultural que os ingleses pensavam europeizar a seu favor, acabou seguindo outro caminho. Ela entrou em contato com as idéias nacionalistas, liberais e socialistas em ebulição na Europa e foi incentivada a participar da resistência e da luta contra o domínio britânico. Surgiram núcleos nacionalistas conspirativos em Londres, Paris e outras cidades da Europa.
  1. Esse processo foi acompanhado da constituição de novos movimentos religiosos, que procuraram reformar as antigas religiões ou retornar a elas. Por outro lado, em 1885 foi fundado o Congresso Nacional Indiano (Partido do Congresso), que passou a lutar abertamente pela participação ativa na administração do país, pela outorga de direitos eleitorais e pela admissão de funcionários hindus no Serviço Civil.
  1. O agravamento do êxodo de camponeses sem posses para as cidades, as epidemias de 1896-97 e a vitória do Japão na guerra contra a Rússia, em 1905, reforçaram a penetração popular do Partido do Congresso, incentivaram os boicotes aos produtos têxteis britânicos, a realização de atentados terroristas por nacionalistas extremados, e a fundação da Liga Muçulmana como porta-voz da minoria islâmica.
  1. A eclosão da I Guerra Mundial, em julho de 1914, não envolveu diretamente a Índia. A única potência asiática que poderia aproveitar-se dos problemas europeus da Inglaterra, o Japão, fez uma aliança com o Império Britânico para apoiá-lo em suas operações navais, em troca de apropriar-se das possessões alemãs na Ásia, em especial na China. Pela primeira vez na história, vasos de guerra japoneses penetraram no Mar Negro, para dar apoio às operações navais britânicas.
  1. Por outro lado, as repercussões do conflito mundial repercutiram fundamente na Índia. O fortalecimento da consciência nacional e do princípio de autodeterminação dos povos, as controvérsias sobre os tratados de paz, as dificuldades para a recuperação econômica européia e mundial, a crise da democracia liberal, a revolução russa e a emergência do primeiro estado socialista na Europa, o fracasso da Sociedade das Nações, a emergência de movimentos operários e de partidos comunistas em grande número de países, inclusive países coloniais, colocaram a supremacia européia no mundo e, portanto, a inglesa, em crise.
  1. Em 1916, hindus e muçulmanos exigiram, em conjunto, a autonomia do país, ao assinarem o Pacto de Lucknow. Os contínuos levantes populares culminarm, em abril de 1919, no massacre de Amritsar. Tropas britânicas chacinaram mais de mil indianos que, embora rebelados, encontravam-se desarmados. Os protestos posteriores levaram os ingleses a realizar, em dezembro, a reforma Montagu-Chelmsford, prevendo a divisão de poderes entre o governo central e as províncias (diarquia), que deveria conferir a hindus os ministérios da agricultura, indústria, educação e saúde, enquanto os ingleses manteriam sob seu controle a polícia, os impostos diretos e a defesa.
  1. É neste momento que a pregação de Mohandas Gandhi, o Mahatma (Magnânimo), com sua luta pela independência (swaraj), baseada na verdade ideal (satya), na não-violência (ahimtsa) e na purificação pelo amor ao próximo (brahmajarya), alguns dos preceitos da tradição religiosa hindu, começam a mobilizar grandes contingentes da população. Eles boicotam a compra do sal e alastram a resistência passiva (satyagraja), ou desobediência civil, às ordens inglesas. Os britânicos condenam Gandhi a seis anos de prisão, em 1920, e implantam um governo ditatorial. Não conseguem, porém, deter a crescente mobilização popular. Vêem-se obrigados a indultar Gandhi, em 1924, ao mesmo tempo que o Partido do Congresso, influenciado pelo movimento de Gandhi, avança em suas reivindicações, exigindo a estatuto de Domínio para a Índia.
  1. Diante da não-concretização da reforma Montagu (diarquia), o Partido do Congresso aceita a proposta de Constituição de Motilal Nehru, em 1926, e dá um ultimatum à Grã-Bretanha, para que esta conceda o status de Domínio no prazo de um ano. Mas Gandhi, embora atuando em conjunto com o Partido do Congresso em muitas ações, avança suas reivindicações. Exige não apenas independência, mas também reformas sociais e econômicas contra os monopólios britânicos, e melhoria das condições de vida dos 60 milhões de párias (intocáveis). Em 1930, durante a segunda Campanha de Resistência Passiva, os ingleses prendem Gandhi e 60 mil nacionalistas, mas são obrigados a fazer um acordo com Gandhi, em Delhi. Comprometem-se a liberar todos os presos e iniciar, em Londres, as Mesas Redondas para discutir a independência. Em troca, a desobediência civil seria paralisada.
  1. Os ingleses, porém, não fazem concessões durante as Mesas Redondas. Em razão disso, em 1932 retornam os movimentos de desobediência civil. Diante de seu crescimento, em 1935 os ingleses decidem instaurar a diarquia, mantendo sob seu controle apenas os ministérios do Exterior e da Guerra. Os demais deveriam ser indicados pela Assembléia Legislativa. As províncias ganharam autonomia, mas o vice-rei e os governadores mantiveram o poder de decretar medidas extraordinárias.
  1. Durante as eleições de 1937, o Partido do Congresso obteve a maioria em 6 das 11 províncias, entrando em vigor a nova Constituição. A Birmânia foi separada da Índia e recebeu o status de Colônia. A essa altura, os ares de uma nova guerra mundial voltavam a escurecer não apenas os céus da Europa, mas também os da Ásia. Aqui, o Japão vinha realizando um rearmamento acelerado e não escondia suas pretensões de assenhorear-se da China e tomar para si todas as colônias das potências européias. Desde 1931 vinha praticando uma política de agressão e de expansão na China. Em 1936, aderiu ao Pacto Anti-Komintern, juntamente com a Alemanha, voltado para o ataque à União Soviética. Ao mesmo tempo, denúnciou o Pacto de Washington, que limitava a expansão de sua marinha de guerra. E, em 1937, tomando como pretexto um incidente entre tropas chinesas e japonesas na ponte Marco Pólo, em Pequim (Beijing), deu início oficial à ofensiva para ocupar toda a China.
  1. Na Europa, com a ascensão do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, a corrida armamentista ganhou corpo e havia poucas dúvidas de que a guerra por uma nova divisão territorial do mundo seria desencadeada. Hitler criou o III Reich, exigiu a revisão do Tratado de Versalhes e rechaçou a política de “segurança coletiva”, proposta pela França. Em março de 1935, voltou a instaurar o serviço militar obrigatório na Alemanha e, um ano depois, ocupou a Renânia. Em novembro de 1936, assinou com o Japão o Pacto Anti-Komintern, ao qual aderiu a Itália em novembro de 1937. Numa conferência secreta, ainda em novembro de 1937, deu a conhecer a seus generais seus planos de guerra, com vistas à “conquista de um novo espaço vital” para a Alemanha.
  1. Nessas condições, a Inglaterra viu-se obrigada a fazer concessões aos nacionalistas indianos, tendo em conta o contexto internacional de uma nova conflagração mundial. Mesmo porque uma corrente política hindu, o movimento Azad Hind (Índia Livre) e seu INA (Indian National Army, ou Exército Nacional Indiano), dirigida por Subhas Chandra Bose, defendia a unidade com o Japão, contra os ingleses. A situação britânica complicou-se ainda mais em 1940, quando Gandhi lançou sua terceira Satyagraja, com o apoio de Jawaharlal Nehru, do Partido do Congresso.
  1. Nesse momento, o Japão instalava em Nanquim (Nanjing) um governo títere, dirigido por Wang Ching Wei, que fora figura de proa no Partido Nacionalista Chinês (Guomintang). E a Inglaterra, juntamente com a França, declaravam guerra à Alemanha, em virtude da invasão à Polônia. E, na própria Índia, a Liga Muçulmana, dirigida por Mohamed Ali Jinnah, lançava seu Plano Paquistão, propugnando a criação de um estado islâmico independente, separado da federação indiana. Apesar dessas pressões, apenas em 1942 a Grã-Bretanha decidiu promoter à Índia o status de Domínio, após terminada a guerra. Gandhi respondeu, porém, exigindo que a independência total.
  1. A ofensiva japonesa, após o ataque de surpresa a Pearl Harbour, dirigiu-se em três direções. A primeira, para o sul, visando a conquista das Filipinas e das Ilhas Holandesas (Indonésia). A segunda, para o oeste, visando Hong Kong, a Indochina, a Tailândia, a Malásia e a Birmânia, colocando-se portanto em condições de ameaçar a Índia. A terceira, para o leste, para a ocupação das ilhas da Oceania, abrindo condições de atacar o Hawai. O Japão chegou a exercer, nessa ocasião, o domínio sobre 450 milhões de habitantes,e contar com importantes fontes de matérias primas asiáticas, agrícolas e minerais, para suas indústrias bélicas.
  1. Diante disso, os ingleses aceitaram negociar a independência indiana e conseguiram que a Índia participasse, de algum modo, do esforço aliado contra o Japão. Tropas indianas realizaram operações bélicas, juntamente com os ingleses e australianos, e as matérias primas agrícolas e minerais indianas contribuiram para a produção das armas inglesas e norte-americanas. Em 1946, seguindo os acordos realizados, o governo inglês acertou a criação de uma Assembléia Constituinte e de um governo indiano de transição para a independência, que foi proclamada em 1947.

 

A Índia independente

  1. A proclamação da independência da Índia, ao invés de dar lugar a festejos generalizados, desembocou imediatamente em graves conflitos entre hinduístas e muçulmanos. A formação do Paquistão, também em 1947, pelas províncias de maioria muçulmana, levou a um massivo movimento migratório, a rebeliões raciais e religiosas e a grande marasmo econômico. As províncias de Sind e Beluquistão constituíram o Paquistão Ocidental. Já a província de Bengala Oriental, distante 1.700 km de Sin e Beluquistão, formou o Paquistão Oriental. Os principados muçulmanos de Hiderabad e Caxemira questionaram essa partição e terminaram por serem anexados pela Índia. É em meio a esses conflitos que Gandhi é assassinado, em 1948, por um hinduísta.
  1. Logo após a proclamação da independência, o governo interino do primeiro-ministro e ministro do Exterior Jawaharlal Nehru conseguiu elaborar a Constituição da União Hindu (Bharat). Esta dava uma nova organização político-administrativa para o país, com 27 Estados Federados (com governos e parlamentos próprios), 6 territórios e um protetorado (Sikim). Nas eleições gerais de 1951, o Partido do Congresso foi sufragado com 75% dos votos, e manteve Nehru como primeiro-ministro.
  1. Os problemas mais graves com que se deparava a Índia independente eram a superpopulação, a fome e a pobreza. O governo do Congresso adotou o sistema de planos qüinqüenais. Procurou fazer uma reforma agrária com doações voluntárias de terras, nacionalizou os bancos, as companhias de seguros e a aviação. Procurou criar uma indústria pesada, com investimentos estrangeiros (siderúrgicas de Rourkela e Bhilai) e desenvolver a exploração de suas matérias primas, ao mesmo tempo que se esforçou para ampliar a educação e a cultura. No entanto, apesar de todos os esforços, a renda nacional caiu e o aumento anual da população beirou 15 milhões de pessoas.
  1. O governo do Congresso também procurou superar os tabus religiosos, como o das vacas sagradas, abolir as castas, reduzir a ignorância e demonstrar que avançava no rumo de um estado democrático. No entanto, quando os comunistas venceram as eleições no estado de Kerala, em 1958, não titubeou em dissolvê-lo à força. E foi impotente para controlar a natalidade excessiva, evitar as lutas religiosas e lingüísticas e prevenir-se contra as catástrofes naturais.
  1. Nesse período de polarização internacional entre os Estados Unidos e a União Soviética (Guerra Fria), Nehru instituiu uma política exterior de “neutralidade dinâmica”, desempenhando papel de mediador nas grandes crises mundiais. Em 1954, durante a visita do primeiro-ministro chinês, Zhu Enlai, à Índia, ambos proclamaram os “Cinco Princípios de Coexistência Pacífica” –  soberania, igualdade de direitos, não interferência nos assuntos internos, aspirações pacíficas e aversão a qualquer agressão e intervenção externa  –  mais tarde aceitos na Conferência dos Países Não-Alinhados, em Bandung, Indonésia.
  1. Apesar disso, a política da Índia em relação à Caxemira acirrou suas contradições, tanto com o Paquistão, quanto com a China. Em 1947, tropas hindus participaram ativamente da insurreição contra o principado feudal e ocuparam quase toda a região, com exceção de Gilgit. Apesar de ser uma região de maioria muçulmana, foi anexada compulsoriamente à Índia. O armistício proposto pela ONU apenas confirmou a divisão de Caxemira, mantendo uma situação instável.
  1. A isso agregou-se o fato de que, após a proclamação da República Popular da China, em 1949, esta não reconheceu a linha Mac Mahon, imposta pelos ingleses para demarcar as fronteiras setentrionais do Império Britânico da Índia. A China reclamava que essa linha havia avançado no território do Tibet, região que estava sob a proteção da China desde o século 12. Em 1959, durante a insurreição de uma parte dos lamas tibetanos, contra a reforma agrária e a proibição da servidão no Tibet, a Índia não apenas permitiu a entrada de agentes estrangeiros na região, como deu guarida aos tibetanos que seguiram o Dalai Lama, após a derrota da insurreição. As tropas chinesas ocuparam então as fronteiras, de acordo com os antigos traçados, deixando de levar em conta a linha Mac Mahon. Os conflitos fronteiriços com a China prolongaram-se até 1962, entre outras coisas colocando em evidência as fragilidades dos exércitos indianos.
  1. Nesse mesmo período, a Índia completou a anexação à sua soberania dos territórios ocupados por Portugal (Goa e Diu) e as feitorias francesas (Pondichery e Chandernagor). Nehru morreu em 1964, mas o Partido do Congresso continuou no poder até 1977, quando foi substituído pela oposição nacionalista. A antiga hegemonia do Partido do Congresso fora sendo paulatinamente corroída pelas dificuldades econômicas, pelo aumento dos antigos problemas que avassalavam o país (superpopulação, fome e pobreza) e pela multiplicação de conflitos regionais, étnicos e religiosos. Em 1984, a primeira-ministra Indira Gandhi, do Partido do Congresso, foi assassina por um sikh de sua guarda pessoal.
  1. As tentativas de colocar os sikhs sob a tutela do governo central, dissolvendo o governo sikh do Pendjab e instalando uma administração subordinada, provocaram uma onda de atentados terroristas. Em 1989, o Partido do Congresso foi derrotado pelo Partido Nacional, que conseguiu agrupar em torno de si diversos partidos da oposição. Mas o governo do Partido Nacional não conseguiu ver-se livre de graves conflitos étnicos na Caxemira, nem de violentas demonstrações contra sua pretensão de permitir o acesso das castas inferiores aos cargos públicos. Apesar da troca do primeiro-ministro, em fins de 1990, os distúrbios étnicos se alastraram ao Assam, Hydebarad, Aligarth e Agra, e as negociações com os sikhs do Pendjab não tiveram sucesso.
  1. Esse ambiente conflituoso continuou durante a campanha de eleições gerais de 1991. O ex-primeiro-ministro e principal dirigente do Partido do Congresso, Rajiv Gandhi, foi assassinado num atentado a bomba, que matou outras 16 pessoas. Vitorioso nas eleições, o Partido do Congresso esforçou-se em dar continuidade às reformas econômicas que vinha tentando implantar desde o governo de Indira, especialmente a abertura da economia ao capital estrangeiro e a privatização de empresas estatais. A resistência popular a esse programa enfraqueceu o Partido do Congresso e, em 1996, o levou à sua maior derrota, desde que foi fundado.
  1. A vitória coube ao Partido Baratya Jamata, partido caracterizado como hinduísta e hostil aos muçulmanos e demais religiões. Entretanto, apesar de vitorioso, o Jamata não conseguiu coligar-se a outros partidos para obter a maioria, sendo substituído pela Frente Unida, uma coalizão de 14 pequenos partidos de esquerda e de centro-esquerda. A continuidade dos problemas sociais e políticos, assim como o envolvimento de um pequeno partido integrante da Frente Unida no assassinato de Rajiv Gandhi, conduziu a uma nova crise política e à convocação de novas eleições gerais, que marcaram o ressurgimento do Partido do Congresso, agora sob a direção de Sonia Gandhi, viúva de Rajiv.

 

A literatura indiana

  1. A literatura indiana, embora possua um fundo cultural comum, tem suas expressão nos quatro grandes grupos ou famílias lingüísticas do país: o indo-ariano, o dravídico, o sino-tibetano e a austro-asiático. As principais línguas indo-arianas são o indi, o bengali e o urdu, que agrupam cerca de 70% da população. O grupo dravídico inclui o tâmil, o malaiala, o kanara e o telugu, abrangendo mais de 20% da população. Os grupos sino-tibetano e o grupo austro-asiático (munda) abragem menos de 3%.
  1. As mais antigas obras literárias foram escritas em sânscrito, perpetuado até hoje como língua sagrada e erudita. Elas remontam ao período védico (segundo milênio AC), com as quatro antologias Veda. A estas se ligam, mais tarde, os Brahmana, os Aranyaka e os Upanishads, que constituíram o período de transição entre a literatura védica e o hinduísmo (século VI a IV AC). A literatura de consolidação do hinduísmo desenvolveu-se até o século X de nossa era, com o Mahabharata, o Ramayana, o Pancatranta, o Kama-Sutra, o Panini, o Bharata e uma grande diversidade de textos épicos, históricos, religiosos, poéticos, gramaticais, de dramaturgia e técnicos. O budismo e o paninismo também produziram obras em sânscrito. Hoje, ainda são produzidas em sânscrito pequenas epopéias, dramas teatrais e novelas.
  1. Os textos bengali mais antigos, os cantos carya, essencialmente religiosos, são posteriores ao século X de nossa era.  Somente a partir do século XV apareceram obras de vulto, tanto biográficos, quanto romances e poesias narrativas. A partir do século XVIII, já sob o domínio inglês, assistiu-se a um renascimento da literatura bengali, que teve em Rabindranath Tagore a sua expressão máxima.
  1. A poesia hindi também é posterior ao século X de nossa era. Durante seu desenvolvimento histórico, a literatura hindi produziu as narrativas de guerra, a poesia bhakti, o sufismo muçulmano, a retórica e a adaptação em prosa de obras sânscritas. A prosa hindi moderna apareceu no século XIX, estimulada pelo nacionalismo e pelas correntes filosóficas e literárias ocidentais, como o marxismo, o existencialismo e outras.
  1. A literatura malaiala é uma das mais difundidas na Índia, por sua variedade em prosa e verso. Ela surgiu entre os séculos XII e XIII, com o Ramacaritan, unindo o sânscrito e o malaiala e introduzindo na literatura de Kerala todas as figuras retóricas do Kavya. Atualmente é internacionalmente reconhecida, através de vários escritores contemporâneos.
  1. A literatura tâmil surgiu no início da era cristã, tendo sofrido a influência do sânscrito, da poesia da devoção (bhakit), dos poetas medievais profanos, do canto devoto popular (kisttanai), do islamismo e do catolicismo. A prosa erudita e o romance tâmil desenvolveram-se a partir do século XIX.
  1. A literatura telugu desenvolveu-se, a partir da música e do sânscrito, desde o século XI de nossa era. As narrativas telugus em verso e prosa tiveram seu apogeu no século XVI, ao mesmo tempo em que as gramáticas e os dicionários consolidavam o idioma, no século XVIII. No século XIX a literatura tulugu firmou-se como expressão moderna.

 

A Índia atual

  1. A Índia atual, ou Bharat no idioma hindi, tem seu território limitado pelo Mar de Omã, a oeste; pelo Paquistão, a noroeste; pela China, Nepal e Butão, ao norte; por Bangladeshi e por Miamar, a nordeste; pelo Golfo de Bengala, a leste; e pelo Oceano Índico, a sudeste a sul. Sua capital é Nova Delhi e suas línguas oficiais são o hindi e o inglês. Sua divisão político-administrativa inclui 24 estados e sete territórios.
  1. A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com mais de 1,2 bilhão de pessoas em 2003, devendo ultrapassar a China em poucos anos, apesar de possuir menos da metade do território daquela (3,2 milhões de km2 contra 9,5 milhões de km2). Cerca de 25% dessa população concentra-se em pouco mais de uma dezena de centros urbanos com mais de um milhão de habitantes, enquanto os 75% restantes espalham-se por mais de 700 mil aldeias.
  1. Sua agricultura ainda ocupa 60% da população, utilizando 160 milhões de hectares, ou 50% de sua superfície total. 80% dos agricultores trabalham em áreas inferiores a 2 hectares, produzindo principalmente trigo, no vale do Ganges, e arroz, também no vale do Ganges, em Bengala e nas costas do Decão, como alimentos básicos da população. A produção anual desses cereais – cerca de 60 milhões de ton de trigo e 110 milhões de ton de arroz  —  não teria condições de suprir as necessidades do seu contingente populacional, se este tivesse um padrão alimentar superior ao atual, muito baixo.
  1. A agricultura comercial, herdada do período colonial, inclui as culturas do amendoim, algodão, juta, tabaco e chá, mas o aumento de sua produção tem sido limitado pela fraca mecanização e pouco uso de fertilizantes. A Índia é o maior produtor mundial de chá. O país também possui o maior rebanho bovino do mundo (cerca de 200 milhões de cabeças), mas a proteína animal é toda proveniente da pesca (cerca de 3 milhões de ton/ano), porque a hinduísmo proíbe o consumo de carne bovina.
  1. A Índia também é relativamente rica em recursos naturais. Carvão, petróleo, bauxita, manganês, ferro e pedras preciosas são relativamente abundantes. O potencial hidrelétrico permite um amplo aproveitamento para a geração de eletricidade, complementado por centrais nucleares. Aproveitando-se de seu domínio da energia nuclear, a Índia tornou-se uma das poucas potências do mundo a construir um arsenal nuclear e uma indústria de fabricação de mísseis.
  1. Tendo por base alguns de seus recursos minerais (carvão, ferro, manganês etc), a Índia construiu uma forte indústria siderúrgica, que produz cerca de 80 milhões de ton/ano, complementada pelas indústrias metalúrgica, têxtil e química, além de uma diversificada indústria de bens de consumo cotidiano e uma florescente indústria eletrônica em alguns pontos do território. A indústria indiana emprega cerca de 25% da população ativa, mas não tem sido capaz de absorver a crescente migração da população rural para as grandes cidades.
  1. O comércio externo indiano é relativamente pequeno (apenas 10% do PIB), orientado especialmente para os Estados Unidos, União Européia e Japão, e tendo por base seus produtos primários (chá, juta, algodão) ou secundários de baixo valor agregado (tecidos). Suas importações abrangem matérias-primas agrícolas e minerais, alimentos, produtos semi-manufaturados e manufaturados, e bens de capital. Sua balança comercial inclui os recursos provenientes do turismo de estrangeiros e as remessas dos indianos emigrados, mas tem apresentado déficits constantes.
  1. Os emigrados indianos, em geral com formação escolar superior, constituindo uma mão-de-obra altamente qualificada, são uma das manifestações mais evidentes das contradições da Índia moderna. Sua enorme população inclui uma elite relativamente numerosa (cerca de 15%, ou 150 milhões), com condições de estudar no exterior e obter altas qualificações culturais, científicas e técnicas. No entanto, parte considerável dessa elite não encontra lugar no lento desenvolvimento da economia e da sociedade indiana, tornando-se uma mão-de-obra relativamente barata para as indústrias de altas tecnologias e de informática dos Estados Unidos e Europa.
  1. Durante os anos 90, a Índia abriu-se aos capitais estrangeiros e realizou uma série de reformas liberalizantes (privatizações, redução dos investimentos públicos, flutuação do câmbio etc). Embora tenha conseguido algumas taxas positivas de crescimento econômico, elas foram insuficientes para reduzir os problemas históricos com que a Índia se confronta.
  1. A estratificação social, religiosa e regional continua, Suas raízes são muito fortes na Índia. Persistem, na prática, as diferenças de castas e classes. Metade da população indiana vive num estado crônico de má nutrição. As taxas de mortalidade infantil e analfabetismo permanecem elevadas, e a renda per capita e a expectativa de vida ainda são baixas, colocando o país entre as 20 nações mais pobres do mundo. Cerca de 300 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.
  1. Os conflitos étnicos e religiosos, entre as diferentes etnias e seitas hinduístas, e entre hinduístas e muçulmanos, ainda são constantes, causando problemas ao desenvolvimento econômico e social. Há um forte movimento separatista no estado Tamil Nadu e no estado de Caxemira. Em relação a este estado, a Índia permanece enfrentando pendências com o Paquistão, outra potência nuclear asiática.

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