China: notícias e realidade

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WPO | ART | PAG | China: notícias e realidade, n. 113, p. 6-7, out. 2012.

 

 

Wladimir Pomar*

Recentemente, a imprensa ocidental ficou alvoroçada sobre o que chamou de desaparecimento do vice-presidente Xi Jinping, que é também membro do Comitê Permanente do Birô Político do PCCh e está cotado para ser o novo presidente da China. Fontes fidedignas teriam afirmado que Xi estava em coma num hospital de Beijing, enquanto outras fontes, também altamente fidedignas, insinuavam que Xi fora vitimado na intensa luta pelo poder, entre os grupos do ex-presidente Jiang Zheming e do atual presidente Hu Jintao, precedendo a realização do 18º. Congresso do PCCh.

Logo depois, Xi foi filmado e fotografado, em visita a instituições de ensino. Aquele pretenso furo jornalístico, a rigor uma desinformação deslavada, faz parte da tradição da imprensa ocidental que, além dos preconceitos raciais, políticos e ideológicos, conhece mal a China e, menos ainda, o Partido Comunista daquele país. Assim, com base na história passada, pode-se considerar que aquelas notícias sobre Xi Jinping abriram a temporada de besteiróis que assolam os noticiários a respeito dos congressos do PCCh. O que vai exigir dos leitores uma atenção redobrada para saber o que realmente está acontecendo.

Por exemplo, tem sido comum a informação de que os delegados aos congressos do PCCh são escolhidos a dedo pelos grupos dominantes, cada um dos quais procura garantir sua hegemonia sobre o partido único que se encontra no poder da China. Essa informação pode ser lida de outra forma, mais próxima da realidade. Os trabalhos de preparação do 18º. Congresso, iniciados em outubro de 2011 e completados em julho deste ano, envolveram os 82 milhões de membros do PCCh, tanto em debates sobre as teses, quanto nas eleições dos delegados às sessões distritais, provinciais e nacional.

Dos 2.270 delegados eleitos para a sessão nacional do congresso, a ser realizada no início do outono do hemisfério norte, cerca de 30% são militantes de base e 70% são dirigentes de nível intermediário e nacional. Em relação ao 17º. Congresso, a participação de militantes de base subiu 2%. Entre todos os delegados, o número de operários cresceu de 71, no 17º. Congresso, para 169, incluindo 26 trabalhadores migrantes. 1.640 delegados ingressaram no PC após novembro de 1976, somando 72% do total, num sinal evidente de que a antiga geração está cedendo seu lugar a uma nova geração.

Outro exemplo pode ser encontrado nas referências à redução do número de delegados camponeses, que continuariam sendo a maioria da população, mas teriam perdido espaço nas políticas do PC e do governo chinês. Tais referências não informam que, em 2011, pela primeira vez na história da China, a população urbana ultrapassou a população rural, iniciando a transformação da estrutura populacional do país, de base rural para base urbana. Embora cerca de 24 milhões de camponeses sejam membros do PCCh, a tendência é que sua participação se reduza por causa das transformações da estrutura populacional e da divisão social do trabalho.

Também não se pode descartar que surjam novas notícias sobre o desaparecimento de alguns altos dirigentes, embora isso tenha ficado desacreditado após a barriga das notícias sobre Xi Jinping. Embora as sessões de debate e eleição de delegados tenham se encerrado em julho, a maioria dos membros do birô político do PCCh continua participando de reuniões e conferências com militantes e dirigentes regionais e de base, numa prática de troca de informações e opiniões que tem uma longa história. A imprensa chinesa dos meses de agosto e setembro tem publicado inúmeras notícias a respeito, mas a imprensa ocidental não dá atenção a elas.

Assim, a imprensa ocidental talvez aproveite o fato de Hu Jintao, Xi Jinping, Zhou Yangkang, Wang Lequan e outros dirigentes do PC estarem dedicando grande parte de seu tempo em rediscutir com diferentes níveis partidários a estratégia de desenvolvimento político da China para informar que isso faz parte da disputa feroz pelo poder. Não faz parte do interesse jornalístico ocidental que os dirigentes do PC se preocupem em consolidar o sistema que tem por base a realização dos grandes ajustes nos congressos do PC, a cada 5 anos, e dos ajustamentos estratégicos intermediários anuais, na Assembleia Popular Nacional, ou Congresso Popular, e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, onde estão representados os outros oito partidos políticos chineses e personalidades sem partido.

Também não parecem ser de interesse jornalístico ocidental os efeitos produzidos pelos sistemas de idade limite e rotatividade de quadros na estabilidade, continuidade política e melhor performance dos funcionários partidários e governamentais. Há duas décadas, essa performance era avaliada pelo crescimento do PIB ou dos investimentos, o que levava aqueles funcionários a se dedicarem principalmente para a atração de investimentos e a construção de estradas e outras obras. Atualmente, o critério de avaliação dos funcionários tem por base o índice de felicidade dos cidadãos e a proteção ambiental, encorajando-os a dar mais importância ao desenvolvimento social e ao bem-estar do povo.

Por isso, os problemas chaves a serem discutido pelo 18º. Congresso consistem em assegurar o desenvolvimento econômico e a melhoria do bem-estar da população, e garantir a democracia como uma das principais prioridades da China. Embora o país venha promovendo as reformas de seu sistema político de acordo com suas condições práticas, e tendo a filosofia do avanço gradual como o instrumento mais forte de garantia da democracia social e da democracia política, os delegados ao Congresso estão sendo chamados a discutir a continuidade desse processo como a característica distintiva do sistema político chinês.

No entanto, como a palavra democracia seria proibida na sociedade chinesa, para a imprensa ocidental esse tipo de discussão não passa de teatro. O que ela busca são possíveis dissenções na alta cúpula do PC, reais ou imaginárias. Ou problemas do desenvolvimento chinês, que supõe escondidos do povo e do resto do mundo. É lógico que, sem acesso à imprensa chinesa, muita gente não sabe o destaque que esta tem dado, por exemplo, ao fato de escolas do interior do país só funcionarem porque as crianças levam suas cadeiras para assistir às aulas, enquanto nas médias e grandes cidades as escolas são agraciadas com computadores e outras novidades tecnológicas. Esses dois grupos de estudantes, sob circunstâncias de ensino totalmente diferentes, representam uma importante desigualdade chinesa na distribuição de recursos.

Muita gente também não é informada que os documentos oficiais chineses reconhecem que uma grande parte da população chinesa encontra dificuldades em sua vida, especialmente em educação, saúde e moradia, enquanto outra parte enriqueceu, tornando-se privilegiada, e aquela parcela que vive nas áreas mais desenvolvidas do país se beneficia de melhores serviços sociais. E que, embora essa distribuição desigual de recursos entre regiões e pessoas tenha permitido o crescimento da demanda doméstica e da reestruturação econômica dos últimos 30 anos, ela também vem minando a estabilidade e produzindo muitos conflitos sociais a cada ano.

Dados oficiais chineses mostram que a renda dos moradores urbanos em 2011 foi de 21.810 yuans, equivalentes a 3.435 dólares, enquanto a média da renda dos residentes rurais permanecia em 6.977 yuans, equivalentes a 1.099 dólares. Nesse mesmo ano, o índice Gini, que reflete o gap entre ricos e pobres, permaneceu em 0,3949, perto do nível de alerta de 0,4, estipulado pela ONU. Nessas condições, para o PCCh e seu 18º. Congresso, a igualdade social passou a ser a chave para vencer os desafios que emergiram depois de mais de três décadas de rápido desenvolvimento.

Assim, se há alguma disputa no seio do PCCh, ela está relacionada não a uma luta de grupos pelas benesses do poder, mas à necessidade de enfatizar ou não um sistema de equidade social que assegure ao povo iguais oportunidades de acesso ao desenvolvimento, tornando-se o aspecto chave do futuro da China. O que inclui uma firme política de investigação oficial e punição aos funcionários governamentais e partidários que abusam de seu poder para ajudar filhos e filhas a obterem empregos, prejudicando outras pessoas jovens a aproveitar as mesmas oportunidades e dando ensejo a numerosos escândalos expostos pela imprensa chinesa.

Embora tenha havido mais investimentos em educação e saúde, e esteja em processo de implantação o sistema de saúde pública para cobrir 90% da população, isso não basta. Está evidente a necessidade de reformas mais profundas no sistema de distribuição de renda, que reduzam o fosso entre ricos e pobres. Não é por acaso que, desde o 17º. Congresso, o PC tenha realizado uma intensa campanha interna para que seus militantes, em especial seus funcionários e líderes, adiram firmemente àquilo que denominam natureza do partido e valorização da moralidade, e se tornem exemplos para os outros, adotando um estilo de trabalho que tenha como foco a reforma, a inovação e a verdade, assim como um espírito altruísta e limpo.

Num quadro como esse, independentemente do que seja publicado na imprensa ocidental, o 18o. Congresso do PCCh deve adotar novas estratégias para combater a corrupção atual e futura. O partido e o governo, incluindo a polícia, devem intensificar suas atividades para desmascarar os casos de corrupção, melhorar sua habilidade de interagir com o povo, prevenindo acidentes químicos e nas minerações, restringindo o tráfico de drogas e as fraudes em alimentos, e administrando os incidentes de forma mais apropriada e de acordo com os interesses do povo. Os funcionários em cargos de chefia devem participar ativamente na recepção das petições públicas, de modo a assegurar que elas sejam resolvidas de forma precisa e rápida. Tudo sob a diretriz geral de responder às demandas da população, principalmente aquelas que impactam seus interesses, e assegurem a todos partilhar igualmente dos frutos das reformas.

Desse modo, pode ser previsível que, após esse 18º. Congresso, a reforma política na China se destine principalmente a promover a democracia e o processo de interação governo-povo, permitindo que os problemas sociais e políticos existentes sejam resolvidos sobre amplas bases sociais mais prósperas e menos desiguais. O que demandará a criação de um novo besteirol para continuar difundindo informações de fontes fidedignas que, como bolhas de sabão, se desmancham ao primeiro toque

 

* Wladimir Pomar é jornalista.

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