China deve passar Estados Unidos como maior economia nos próximos anos, avalia Pomar

Rádio Brasil Atual

WPO | ENT | RBA | China deve passar Estados Unidos como maior economia nos próximos anos, avalia Pomar; 17 mar. 2011.

 

 

São Paulo – Para o analista político e escritor Wladimir Pomar, as previsões sobre o crescimento econômico chinês – que estabeleciam que o país se igualaria aos Estados Unidos nos anos 2020 – podem estar equivocadas. Em entrevista à Rádio Brasil Atual, Pomar disse que a China ainda é um campo de investimentos pouco explorado pelo capital estrangeiro e pode se tornar a maior economia do mundo ainda nesta década.

Além de economia, a política, os direitos humanos, a organização do trabalho e da sociedade chinesa também foram tema da conversa. Confira a seguir a íntegra da entrevista de Wladimir Pomar ao Jornal Brasil Atual:

Como entender o crescimento econômico da China de hoje e a previsão de que ela venha a ser a maior economia do planeta em pouco tempo?

A previsão, que havia já na década de 70, início da década de 80, é que a China ficaria ombro a ombro com os Estados Unidos na década de 2020, entre 2020 e 2025. Esta previsão está se consumando. Se os Estados Unidos continuarem em crise e não conseguirem superar essa crise, provavelmente em 2020 a China já estará passando os Estados Unidos.

Quer dizer, a previsão está um pouquinho antecipada do que se imaginava, é isso?

Exatamente.

Por quê? Por que os Estados Unidos estão estagnados ou por outros motivos?

Não, a estagnação atual dos Estados Unidos teria um papel importante nisso, mas o mais importante é o crescimento da própria China. Ela vem crescendo a uma taxa inclusive superior ao que deveria ser, porque o ideal pra China seria crescer 7%, 8% ao ano, e ela vêm crescendo nesses últimos 30 anos a uma taxa de 10%, 11%, 12%, o que pressiona matérias primas, transportes, inflação. Então, o grande esforço deles agora é reduzir o crescimento para 7% pra ter mais equilíbrio econômico interno.

Você é ex-preso político, filho do dirigente Pedro Pomar que foi assassinado pelos militares em 1976. Sobre a questão dos direitos humanos na China, como você encara essa questão?

Vamos voltar um pouco atrás. Logo depois da guerra civil, que terminou em 49, os chineses se dedicaram a resolver três grandes problemas do povo: comida, vestuário e habitação. Então, durante toda a década de 50 e em parte a década de 60, eles conseguiram resolver isso, dar alimentação pra todo mundo, habitação para todo mundo.

Hoje em dia, indo à China, você ainda encontra prédios desse período, que foi um grande processo de construção de apartamentos, de casas para a população, que não é uma população pequena. Então, os problemas básicos do povo chinês foram resolvidos nesse período. O que aconteceu depois?

Aconteceu que você tinha um igualitarismo na China, com o pleno emprego. Eles faziam o sistema de três por um, que era um trabalho para três pessoas. Então havia, digamos assim, uma pobreza generalizada, porque a produção era pequena, havia inclusive racionamento, mas todo mundo comia, todo mundo vestia, dentro de determinados limites relacionados com a produção.

Depois da experiência da (chamada) Revolução Cultural, eles entraram em um processo de desenvolvimento desigual. Eles achavam que não dava pra todo mundo ficar rico ao mesmo tempo e criaram o negócio do enriquecimento em ondas, ou seja, um desenvolvimento desigual, mas permanente.

Então, vamos tomar dois parâmetros. No início da década de 80 você tinha na China 1 bilhão e 100 mil habitantes, (dos quais) 700 milhões eram pobres e 400 milhões abaixo da linha da pobreza. Se você olhar hoje, de 1 bilhão e 300 mil habitantes, a China tem cerca de 400 milhões de pessoas de classe média alta, uns 500 milhões de classe média e baixa, e o resto ainda pobre. Criou desigualdade, mas cerca de 800 milhões de pessoas foram tiradas da linha da pobreza, o que é uma novidade no mundo.

Não tem nada igual em escala mundial que tenha sido feito. Esse é o problema mais sério que eles encaram como questão dos direitos humanos. Uma parte do mundo ocidental enfrenta a questão dos direitos humanos como se fosse única e exclusivamente problemas de direitos políticos, liberdade disso, liberdade daquilo, não levando em conta o problema dos direitos à vida, direito à habitação, à comida, que é uma questão central para os chineses.

Os países que estão se desenvolvendo, como o Brasil, estão explorando parcerias com a China.  Como você está acompanhando, particularmente, o caso da Petrobras, fazendo uma parceria com a China, e de outras empresas ligadas a energia, produtos químicos etc.?

No caso da Petrobras, que obteve um empréstimo de 10 bilhões de dólares em troca de produtos – porque a Petrobrás na realidade vai pagar esse investimento ou financiamento com a produção -, é um processo bastante promissor do ponto de vista da própria Petrobras.

Você tem hoje empresas chinesas vindo investir no Brasil, porque estão se internacionalizando. A China é um mercado ainda pouco explorado, os empresários brasileiros ainda não têm audácia. Alguns tiveram e estão muito bem, mas outros ainda são temerosos.

E para investir na China há uma série de exigências colocadas pelos chineses…

Mas, mesmo hoje, as exigências que os chineses fazem são as de qualquer país. Hoje, não; hoje já tem um montão de empresas que já são puramente estrangeiras e que estão localizadas lá. Agora, é lógico, os chineses não admitem investimento em determinadas áreas que são perigosas, ou que são poluentes, ou onde a produção já atingiu um nível elevado.

Então precisa se enquadrar um pouco no que eles chamam de guia de investimentos estrangeiros. Mas eles estão muito abertos para investimento. O pessoal brasileiro que foi pra lá, da indústria de calçado (por exemlo), está muito bem, tendo um êxito muito grande.

Os Estados Unidos devem dinheiro para a China?

Hoje a China é a segunda maior nação que tem títulos do tesouro americano acumulados.

Só o tamanho da China explica esse desenvolvimento econômico? E as políticas que foram implantadas também explicam ela se tornar uma economia maior antes do que era esperado?

Você tem uma série de fatores. Um planejamento macroeconômico e macrossocial muito bem feito, de longo prazo. O chinês não pensa em termos de 4 ou 5 anos, ele pensa no mínimo em termos de 30, 50 anos, Depois, um acompanhamento da execução do planejamento de forma bastante séria, uma combinação muito grande de diferentes formas de propriedades, desde as formas públicas, estatais, até as formas privadas individuais, Uma agilidade pra combinar as coisas, combinar tecnologia nova mantendo as tecnologias tradicionais que permitem a manutenção do emprego. Então, é toda uma série de fatores que contribuem pra isso.

E quando muitos criticam que o produto chinês tem trabalho escravo. Como você responde a isso?

Do ponto de vista econômico, isso seria um horror porque o trabalho escravo não tem valor agregado. As pessoas não entendem de economia e acham que o trabalho escravo é uma vantagem. Não é. O trabalho escravo economicamente está superado. Além disso, se você pegar a escala da produção chinesa, de 60 milhões de televisores por ano, 100 milhões de não sei o quê… 80 milhões de não sei o quê… você vai ver que precisava todo mundo ser escravo.

Então não existe isso?

É lógico que você tem fenômenos como no Brasil e em outros países também de exploração de trabalho escravo. A diferença é que lá o Estado entra pesado pra coibir isso, pra impedir que essa coisa ocorra. É um país continental, com uma população só comparável à da Índia, então é impossível que tudo seja perfeito. A China não é toda perfeita, tem problemas, mas não é nunca nessa escala que as pessoas às vezes supõem.

Do ponto de vista político, como você explicaria a China hoje? É uma democracia, ou não é uma democracia?

Do ponto de vista político, a China é um país socialista, que admite a existência de propriedades capitalistas e privadas, que combina isso de uma forma bastante acentuada e que utiliza determinados métodos de participação social e de participação política que vão marchando cada vez mais pra um processo mais amplo de democratização.

Os direitos individuais são assegurados e ela tem consciência que precisa avançar muito ainda no processo de participação democrática, e está avançando nesse rumo, mas do jeito dela e no ritmo dela, não no ritmo que outros querem impor.

 

 

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