Burguesia puxa o freio

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WPO | ART | PAG | Burguesia puxa o freio, n. 118, p. 3-4, mar. 2013.

 

 

Wladimir Pomar*

Apesar das informações tranquilizadoras sobre as disposições de investimentos do empresariado brasileiro e internacional, não há dúvida de que a burguesia puxou o freio das inversões. Mesmo porque as informa- ções tranquilizadoras são taxativas quanto ao fato de que a burguesia só voltará a investir se o governo tiver a capacidade de convencer o setor privado a ampliar seus investimentos.

Não deixa de ser algo inusitado que os capitalistas não se orientem mais pela mão invisível do mercado, mas sim pela mão visível de uma parte do Estado. Se isso se confirmar, deve haver algo de errado. Afinal, o que sempre moveu os investimentos do capital foi a taxa de lucro, ou a taxa de rentabilidade, como preferem chamá-la os alunos de Mises, Hayek, Friedman e companhia limitada.

Pelo menos nos últimos 30 anos de história brasileira, a maior parte do empresariado nativo se acostumou a elevar essas taxas através dos ganhos no mercado financeiro. Afinal, esses juros, segundo qualquer analista razoavelmente informado, eram indecentemente elevados. O Brasil se transformou num mercado altamente lucrativo para os investimentos de curto prazo do capital. Isto ajudava empresas industriais a elevar seus lucros sem elevar a produção e ter que enfrentar a competição no mercado.

Esse cassino financeiro, aliado às privatizações de empresas estatais, e à desnacionalização de parte considerável do parque industrial brasileiro, conduziu a uma desindustrialização perversa, até hoje não avaliada adequadamente pelos economistas. Essa situação só começou a mudar no governo Lula, através do que podemos chamar de um movimento de flanco. Mesmo sem mexer nas taxas indecorosas de juros, pelo temor de retaliações do sistema financeiro, o governo incentivou o aumento do consumo através da elevação do salário mínimo e dos programas sociais contra a pobreza. Isso estimulou o crescimento da produção de alimentos e dos setores industriais de bens de consumo corrente.

Paralelamente, a alta demanda internacional de commodities agrícolas e minerais, promovida pelos países em desenvolvimento que haviam ingressado na industrialização e na distribuição mais efetiva da renda, puxou as exportações brasileiras. Desse modo, apesar dos altos juros, a combinação do crescimento do consumo interno com o aumento Burguesia puxa o freio da demanda dos mercados internacionais induziu um crescimento econômico mais consistente, embora relativamente baixo para as necessidades do país.

Esse pequeno crescimento colocou à mostra o descalabro da infraestrutura herdada dos governos neoliberais. As ferrovias estavam desmanteladas e entregues a alguns monopólios privados. Os portos e aeroportos eram uma aula de ineficiência e altos custos. As estradas de rodagem, com exceção daquelas entregues a empresas privadas e altos pedágios, eram uma sucessão infindável de crateras. A energia chegara a seus limites. As comunicações haviam melhorado, mas se tornaram uma das mais caras do mundo. Há mais de 20 anos sem investimentos, manutenção e modernização, a malha logística brasileira era um empecilho a qualquer processo de desenvolvimento.

O crescimento via consumo, tanto interno, quanto internacional, também trouxe à tona a insuficiência dos investimentos públicos e privados, que se mantinham em níveis muito baixos, em geral inferiores a 19% ao ano. Qualquer pressão maior do consumo, que não encontre uma oferta adequada de bens, tende a elevar preços e, portanto, a inflação. Não por acaso, a baixa oferta relativa de alimentos tem sido o principal fator de pressão inflacionária.

Afinal, as camadas populares beneficiadas pelo salário mínimo e pelos programas de combate à pobreza e à miséria foram as que mais aumentaram sua participação na população brasileira. Para elas, a primeira demanda a ser atendida teria que ser a dos alimentos. Se antes essas camadas sociais tinham um almoço ou meio-almoço por dia, agora estão tendo três. Isso significa crescimento na demanda de alimentos, exigindo medidas mais sérias e ousadas para reforçar a agricultura familiar. Enquanto os preços dos alimentos continuarem promovendo piques de alta, eles darão munição aos neoliberais para pressionar a alta dos juros.

Além disso, também cresceu a demanda por bens de consumo corrente, com compras facilitadas pelo crediário. Assim, tanto a elevação da oferta de alimentos e de bens industriais de consumo, quanto a redução dos custos de logística, tornaram indispensável a retomada da industrialização e a reconstrução e modernização da infraestrutura.

Na industrialização é preciso adensar as cadeias produtivas e modernizá-las, fazendo com que o Brasil ingresse na utilização das ciências como forças produtivas. Na reconstrução da infraestrutura é preciso fazer com que os custos de logística caiam sensivelmente, tornando mais competitivas as exportações de manufaturados brasileiros e baixando os custos dos importados.

Enfrentar essas duas missões estratégicas exige a elevação das taxas de investimentos. O que continua enfrentando pelo menos dois obstáculos sérios. Um, o contingenciamento dos recursos públicos, em particular pela exigência dos superávits primários garantidores do pagamento da dívida pública. Outro, as taxas de juros, que servem para atrair capitais estrangeiros de curto prazo. Apesar desses obstáculos o governo Dilma cifrou suas esperanças, com certa razão, na participação dos capitais privados. Para isso, empenhou-se na redução dos juros e na efetivação de outras medidas que permitissem taxas de rentabilidade razoáveis aos investidores privados, incluindo os financiamentos a juros subsidiados do BNDES.

Mas o empresariado privado brasileiro não se deu por satisfeito. Na prática, praticou uma rebelião pacífica, puxando o freio dos investimentos. Por que? Porque, para ele, a taxa de rentabilidade dos investimentos é menor do que a taxa de juros. Seguindo a psicologia especulativa, o investidor brasileiro prefere investir no mercado financeiro, na especulação, por mais que o risco aqui seja maior do que em obras garantidas pelo governo. Parece haver esquecido o que ocorreu com a Sadia e outras empresas que jogaram pesadamente seus capitais na ciranda financeira e os viram se tornar cinzas.

Além disso, acostumado à formação de cartéis para acertar a divisão dos projetos, o empresariado brasileiro tem a mania de dar preços baixos às obras, na certeza de que farão repactuações sucessivas, que multiplicam os custos dos empreendimentos e, também, os lucros auferidos. Todo o mercado sabe disso. Mas o governo avisou que não mais permitirá isso, conforme está demonstrando nos reajustes que vêm ocorrendo na Petrobras e em outras estatais.

Além disso, a decisão governamental de fazer com que estatais participem dos consórcios construtores, para controlar procedimentos e custos reais, passou a incomodar, e muito, os investidores. Não é por acaso que uma das principais reivindicações da burguesia, para retomar os investimentos, consiste em fazer com que o aumento dos investimentos públicos se dê unicamente através da iniciativa privada.

Em outras palavras, o governo está numa queda de braço com o setor privado para fazer com que ele participe da reconstrução da infraestrutura, mesmo que só com dinheiro público. A burguesia quer ter certeza que seus lucros serão muito maiores dos que as taxas de juros, que ainda estão altíssimas. Portanto, para ela tanto faz que não haja queda nos custos de logística, certamente um dos principais fatores do chamado custo Brasil.

Algo idêntico ocorre no processo de industrialização. As multinacionais, que dominam setores inteiros da economia brasileira e praticam preços mais altos do que os do mercado internacional, não querem competidores. Não querem rebaixar preços, mudar seus sistemas de precificação, nem enfrentar os desafios da queda das taxas de lucratividade. Fazem tudo a seu alcance para levar o governo a beneficiá-las. Reivindicam a redução de tributos e, mais ainda, a imposição de regras que impeçam a entrada de outros competidores, estrangeiros e nacionais, no mercado industrial brasileiro.

Os lobbies das multinacionais produzem promessas às pencas para fazerem crer que aumentarão seus investimentos industriais. Na prática, muitos desses investimentos são adiados para o dia de são-nunca, e várias de suas linhas de produção são fechadas e transferidas para países de custos mais baixos. Paralelamente, fabricam argumentos e mais argumentos para provar que os culpados por tudo isso são os chineses.

Portanto, seja na reconstrução da infraestrutura, seja na aceleração da industrialização, a burguesia puxou o freio. Como Roosevelt, Getúlio, e Juscelino descobriram há tempo, para domar a burguesia e fazê-la investir, só usando unhas e dentes. Esse é o problema que está colocado para o governo Dilma. Ou ele doma a burguesia, ou esta o coloca no paredão do crescimento pífio.

 

* Wladimir Pomar é militante petista e colaborador da Fundação Perseu Abramo.

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