Amileto

WPO | ROT | Amileto, jul. 2006.

 

 

Adaptação livre de “Hamlet”, de W. Shakespeare

 

UM GRÃO DE REALIDADE

“Aqui é muito longe do mundo, lugar ainda meio sertão, desbravado por nós mesmos, gente fraca, que veio morar há muitos anos,desafiando as feras, o mato bravo, os índios bravos.Cada estradinha dessa foi nós que construímos,o patrimônio, as ruas, até o aeroporto , nós fizemos de mutirão, todo ano limpamos a pista do mato.Mas agora a gente nem sabe mais, chegaram esses Abdalla,gente rica de São Paulo e vieram oprimir o povo, jogar a polícia, jogar pistoleiros em nós, mandando embora, falando que a terra é deles.” (José Rodrigues Vieira, posseiro, in Murilo de Carvalho: “violência no Rio das Mortes”, Movimento no 160, 24/7/78).

“Somos um povo de desmatadores. Desmatamos primeiro Minas.Quando terminou a destoca, o fazendeiro não precisou mais de nós: tocou capim e boi e comprou máquina. Daí, nós viemos pro Norte, caçando serviço, jeito de viver com a família. Agora já desmatamos essa parte sul de  Goiás e não tem mais precisão de nós por aqui. Querem que a gente toque pro Norte, para continuar nossa tarefa:desmatar”(Lavrador,in Boletim no 2  da CPT,jan. /fev.76)

“Eu sou do Maranhão, de um povoado perto de Carolina.Minha herancinha era pouca lá então eu saí procurando um lugar mais liberto pra trabalhar…Quando chegamos aqui não tinha dono, não tinha picada, não tinha marco,não tinha placa, não tinha nada e tinha até  moradores antigos, já de casas velhas. Isso, quando eu cheguei foi  em 1964  e só lá pra 1972  é que chegaram  esses Abdalla falando que era dono.Mas vê bem, quando o pessoal começou o patrimônio, começou a botar roça aqui, tem mais de 20 anos e era sertão bruto sem dono.Como é que apareceu dono só depois de ter a cidade, ter os serviços?” (José Rodrigues Vieira, posseiro, in reportagem citada)

“Cheguei como agrimensor que veio abrir a estrada.Plantei  milho, feijão, mandioca e banana.Quando a roça já estava dando bem,veio um tal de INTERPA(*) dizendo que ia destruir 20 mil lotes. Invadiram minha roça, queimaram minha plantação e venderam as terras.Nunca me indenizaram nenhum tostão”.(Morador de Xinguará__Pará, in Isto É,8/03/78))

(*)INTERPA: Instituto de Terras do Pará

“Os lavradores da região são na maioria retirantes do Nordeste. Vieram procurando a “bandeira verde” do Pe Cícero na mata verde…”( Pedro Casaldáliga__Bispo de São Felix do Araguaia__MT, in CEAS no 20,p.61)

“As empresas chegam à selva com aviões, agrônomos, advogados, ligações políticas, dinheiro do governo  e criminosos de aluguel, conhecidos como capangas, cuja função será impedir a invasão de terras em  litígio por novos posseiros e expulsar famílias das terras  revindicadas pela empresa.”(Norman Gall_”, “,_Caminho para Rondônia”, in” O Estado de S Paulo”26/2/78)

“As  empresas compram, a  baixo preço, grandes áreas de florestas em que talvez haja já posseiros, vivendo… Às vezes os posseiros recebem algum dinheiro para abandonar a terra; outras têm as coisas incendiadas pelos capangas ( e os pequenos lotes de agricultura de subsistência semeados com capim de pasto por aviões da empresa, para impedi-los de plantar mais. Algumas vezes são os capangas que aleijam ou matam posseiros recalcitrantes; outras são estes que armam emboscadas aos capangas e conseguem resistir à expulsão”. (Norman Gall – reportagem citada).

“Ele mandava queimar os barracos, cercou todas as águas existentes na área, furava lata dos que tentavam arranjar água, espancava homens e mulheres e impedia a passagem da gente com piquetes e cercas”. (Posseiros da fazenda Capaz, em Vila Rondon – PA, sobre o americano John Davis, in “O Liberal”).

“É lei da selva. Há gente aqui que aceita matar por CR$400,00.” (Norman Gall – reportagem citada).

“Aonde vamos agora? Lá pro céu? Nasci no Maranhão e de lá corri o mundo. Pará, Mato Grosso, Goiás. Meu destino é percorrer Estado. Eu chego, planto e vem o dono e diz que é dele, me bota pra fora. Eu vou mais longe, lá aonde a estrada não chegou”. (Morador de Xinguara – Pará, in Revista “Isto É”, 8/03/78).

“Se as autoridades não providenciar, logo não vai ter mais onde nós, os posseiros trabalhar, onde ir. Então nós vamos revoltar, porque ninguém vai deixar os filhos morrer de fome”. (Murilo Carvalho – reportagem citada).

A história que segue é um pálido retrato dessa realidade. Esta é muito mais trágica que qualquer ficção.

 

 

ATO I

CENA 1

 

Arena e platéia de um circo mambembe, típico desses que percorrem o interior. Entra o Mestre de cerimônias e passa a apresentar os números, que se sucedem rapidamente mas dão uma visão do que é realmente um mambembe: palhaços com piadas grossas e gastas, crianças contorcionistas, o homem “borracha”, etc. O grande forte do mambembe é o drama, o “Drama de Amileto”, que o Mestre de Cerimônias apresenta de modo empolado, carregando ainda mais no sotaque estrangeiro forçado:

MESTRE DE CERIMÔNIAS – E ahora, mui distinto público, meus señores e mi señoras, el gran circo mambembe tem la honra de presentar el gran espetáculo de la noche: el “Drama de Amileto”, el moço que vingou o assassinato de su padre, cometido pelo próprio tio. Uma história de amor e sangue, de adultério e traiçon, ambiciones e ódios, adonde los que han tramadolos males acabaram caindo em lãs próprias armadilhas que armaram. E, ahora, el drama!!!

Sai o Mestre. Na arena aparece um caminho no meio da mata. Lua de estrelas; os pirilampos alumiam Francisco, espingarda às costas, acocorado no centro do caminho. Surge um vulto: é Bernardo que se dirige para Francisco, sem ainda o haver notado. Leva também espingarda e sacola a tiracolo, assusta-se quando vê o vulto acocorado.

BERNARDO – Francisco?, é mecê?

FRANCISCO – Eu mesmo, compadre. Vamos se achegar.

BERNARDO – Faz tempo que o compadre taí?

FRANCISCO – Faz não! Não deu nem pra enrolar o fuminho.

BERNARDO – A noite tá boa pra esperar. Lua nova, os muruci estão caindo, é cada piseiro de se ver.

FRANCISCO – Só o que não está valendo é a tal aparição. Espanta o bicharedo. Rog’a Deus que deixe a gente em paz.

(Ouvem-se passos. Bernardo e Francisco estremecem. Surgem dois vultos, espingarda e sacola a tiracolo.)

FRANCISCO – Que é? É gente?

BERNARDO – Lá vêm Horácio e Marcelo.

FRANCISCO – (Após os dois chegarem) B’as noite! Cume, prontos pra dormis no mutá?

MARCELO – Hum, dorme quem tem sono ou está em falso pisador. Bernardo disse que vosmicê encontrou uma ceva de primeira.

FRANCISCO – É verdade. Um cafezinho antes de seguir? Não sei pitar sme fazer uma boquinha. (Acaba de enrolar o fumo, tira uma térmica e vai servindo a todos em pequenos canecos).

HORÁCIO – E a tal aparição?

MARCELO – Horário tá pensando que é impressão da gente. Não acredita em visagem. Mas eu quero ver é hoje, se ela aparecer, como vão ficar os fundilhos dele. Só porque foi estudar fora não acredita mais em coisas do mato.

HORÁCIO – Ora! … Não vai surgir aparição nenhuma.

BERNARDO – Não perde por esperar. A espera do mutá pode ficar pra mais tarde. E enquanto aguardamos, deixe que lhe conte o acontecido.

HORÁCIO – Sou todo ouvidos.

BERNARDO – A última noite, quando aquela estrela, que tá por riba do poente, já estava pra sumir, como agora, Marcelo, Francisco e eu …

(Surge a visagem, vestida como um fazendeiro meio antiquado, com um “papo-amarelo” – Winchester 44 – na mão direita. Todos tremem)

MARCELO – Psiu! Pára um pouco! … É ela outra vez, ali!

BERNARDO – Parece o finado Amileto!

FRANCISCO – Já que vosmicê é estudado, fale com ele, Horácio. Espírito respeita gente letrada.

MARCELO – Não se parece com o defunto, Horácio? Olha bem.

HORÁCIO – Demais É mesmo de dar tremedeira.

BERNARDO – Olha, tá com jeito de quem        quer ser falado.

MARCELO – Anda, Horácio, fala com ele.

HORÁCIO – Quem és, que vens perturbar a noite de pacíficos caçadores? Por que estás armado, como se preparasses um tocaia? Fala, pelos céus, eu te ordeno.

MARCELO – Ofendeu-se

BERNARDO – está indo embora.

HORÁCIO – Fala! Fala!

(A visagem desaparece)

FRANCISCO – ele se foi. Não quer responder.

BERNARDO – então, Horácio, que brancura é essa? Vosmicê virou vara-verde? Se esmoreceu? Ainda acha que a gente estava vendo assombração que não existia?

HORÁCIO – Bem sabe Deus, eu não podia acreditar. Faltava a garantia da visão dos meus olhos.

MARCELO – Não é mesmo igual ao velho Amileto?

HORÁCIO – Como és igual a ti. Assim era a roupa que Lee usava e a carabina que levava quando andava nestas terras que inda vão comer meus olhos. É estranho…

FRANCISCO – Exatamente nessa mesma hora morta, desse mesmo jeitim, já por duas vezes ele passou junto a nós.

HORÁCIO – Não sei em que rumo botar meu pensamento, mas se não estou enganado, isso é prenúncio de coisa ruim.

MARCELO – Me responda por favor aquele que souber qual o motivo de tanta zanzeira que está acontecendo neste lugar. É gente dormindo e vigiando as roças; é gente afiando os facões e azeitando as bocas-de-fogo; é gente mandando comprar caroço-de-chumbo dez léguas abaixo. Ninguém tira maiso domingo pra jogar o joguinho de bola: só se vê gente cochichando e ninguém mais dorme sossegado. Alguém pode me informar o que está se tramando?

HORÁCIO – Eu posso; ao menos é o que se diz à boca pequena que corre por aí. Faz muitos anos, o velho Amileto, cuja visão há pouco nos apareceu, veio fugido da seca do Nordeste bater com os costados aqui. Isto aqui era um mundão sem gente e sem dono. Tudo devoluto. Só mata e bicho. Pois bem, o velho naqueles tempos era moço, casadinho de novo. O pai tinha dado pra ele um fazendola. Tinha umas cabeças de gado,  muita minçalha, plantava um bocado de tarefas de algodão e mamona e tirava bastante alqueires de feijão e farinha. Era o que lá se chama um abastado. Mas trabalhava também, que a terra não dava pra ter muito agregado como os proprietários maiores. Esses é que vivem no bem-bom, comerciando na cidade, recebendo a renda dos moradores. Mas o velho Amileto, com a seca se viu no maior aperreioe achou melhor vender tudo, pegar a mulherzinha e mais uns parentes e agregados e se mandar pra cá. Como ele soube desse lugar eu não sei; lá sei que chegou, se botou com os agregados a derribar a mata, queimou, fez força, se arrambou. Com o dinheirinho que a seca não comeu, botou comércio para aviar o pessoal e pouco a pouco se tornou o maioral do lugar. Não era ruim, sem ser bom.

BERNARDO – Lugar que não tem caça, até tatu-peba vira paca.

HORÁCIO – Cobrava de meia dos agregados, mesmo não tendo título das terras, e os mantimentos que aviava fiado, cobrava co juro dobrado. Ninguém era de todo feliz, a não ser o mesmo Amileto, mas também não se morria de fome. Sempre havia o recurso de muita caça e muito peixe: as antas, os queixadas e as pacas chegavam neste lugar mesmo onde a gente conversa. O que mais levava para o campo santo eram as febres.

FRANCISCO – Meu pai contava que matou muita caça da porta lá de casa.

HORÁCIO – Pois bem, sem ser proprietário, já que nunca ningu´pem se incomodou com título de posse – bastava estar assentado no lugar, com roça e o mais – o velho Amileto era o dono. Todas essas redondezas eram da Fazenda Boqueirão. Mas o velho era ladino, não queria briga; sabia que quanto mais gente viesse fazer roça pra cá, melhor pro comércio dele. Por isso, quando vinha alguém que tinha algum recurso e se abancava como posseiro, ele não fazia pendenga. Os agregados também não tinham sujeição eram mais por dívida do aviamento, pois tinha muita terra pra quem quisesse. O velho vivia e deixava viver. Foi assim que isso aqui foi se enchendo de posseiros e de negociantes de toda laia.

MARCELO – Mas o velho não fazia muito empenho, ou porque já era velho ou porque já havia enricado demais.

HORÁCIO – Não sei. A verdade é que ele morreu tempos depois de aparecer o Dr. Fortimbrás. Esse seu doutor é dono de comércio e indústria no Sul e chegou por aqui dizendo ter comprado todas as terras, as da Fazenda Boqueirão e mais o resto das terras de Vila Esperança e parece que mais outro tanto. Comprado do governo, que ninguém aqui tinha título, nem o velho Amileto. E o Dr. Fortimbrás veio carregado de papelada, malas e ainda trouxe de contrapeso uma cambada de jagunços e pistoleiros de aluguel, gente que apaga um por qualquer dois mil-réis. Construiu aquela sede bonita de se ver, contratou peonada, começou estender a cerca – 4 fios, não é brinquedo! – a plantar capim e a botar gado. E vai tomando conta de tudo. Não tolera posseiro e não respeita nem mesmo as terras do velho Amileto, que agora são do irmão e não do filho, como todo mundo pensava que havera de ser. Com a força que a capangada lhe dá, o Dr. Fortimbrás quer transformar isso tudo em terra de gado. Diz que isso é progresso. E a gente que se mude, que vá buscar outro meio de vida. A razão principal de andarmos em apuros, a origem de todo esse desassossego, é essa, afirmo eu.

BERNARDO – Também acho. Na certa é por isso que a alma do velho Amileto anda vagando por aí, armado como se fosse pra guerra. Mas cá entre nós o irmão dele não está só defendendo o que o velho deixou. Parece que aprendeu com o Dr. Fortimbrás: também anda cercando tudo, queimando casa e expulsando posseiro com família e tudo. Ele também aprendeu o progresso; dizem até que já arranjou dinheiro no banco pra aprumar a fazenda.

HORÁCIO – Os grandes brigam e quem apanha são os pequenos. Mas o que a visagem do velho quererá afinal? Os antigos contam que já aconteceu, quando coisas terríveis estavam por vir, dos defuntos deixarem as covas e suas almas penadas vagarem por aí anunciando o Juízo final. O Padre Cícero do Juazeiro fez muitas profecias pros nossos tempos e elas parecem que começam a acontecer.

(Reaparece a visagem. Todos se assustam)

Quietos! Olhem, lá vem ele novamente. Vou tomar coragem e me pôr no seu caminho, mesmo que me cague todo.

(Estende os braços, mas treme todo)

Pára, ó visagem! Se podes causar som ou usar a voz, fala alguma coisa! Se existe alguma boa ação a ser cumprida, que te dê repouso e a mim merecimento, diz qual é: se sabes que desgraça pende sobre teu povo e se o conhecimento a pode evitar, fala! Se durante tua vida na face da terra acumulaste uma fortuna extorquida – motivo porque as almas voltam errantes, segundo dizem – revela se é isso! Se queres que mande rezar uma missa para acabar teu sofrimento, é só dizer!

(Um galo canta, outros respondem)

Ei, pára e fala! Vê se o seguras, Marcelo!

(Marcelo não sabe o que fazer)

MARCELO – Bonito discurso! Devo dar-lhe um tiro de chumbo? Te soverte, alma danada!

HORÁCIO – Se não parar, dá-lhe uma porretada.

BERNARDO – Está aqui!

FRANCISCO – Aqui!

HORÁCIO – Aqui!

MARCELO – Sumiu! (Desaparece a visagem) Ficou intrigado com a gente porque quisemos forçar que falasse. Ele é como o ar e nossos golpes só fazem vento.

HORÁCIO – Ia falar no instante que o galo cantou.

BERNARDO – Então foi sobressalto de ser culposo. Ouvi dizer dos antigos o galo acorda o Sol com seu canto esganiçado e que, quando dá esse aviso, todos os espíritos que vagam por aí, pelo fogo, pelo ar, no mar ou terra, todos voltam correndo pro seu lugar. E pelo que se viu parece que essa é uma verdade verdadeira.

MARCELO – Quando o galo cantou, ele se desmanchou. Dizem que na época do Natal, quando a gente comemora o nascimento de Cristo, o galo canta a noite toda pra não deixar espírito nenhum sair e pra tudo correr na santa paz do Senhor.

HORÁCIO – Também ouvi dizer e em parte creio nisso. Mas olhem, o nascente já está clareando. E nossa espera de caça virou espera de alma do outro mundo. Essa caçada tem que ficar pra outro dia. Acho que a gente devia falar com Amileto… o filho, sobre o que vimos esta noite. Certo que a visagem falará com ele. Concordam? Ele é nosso amigo.

MARCELO – Façamos isso. Sei o lugar onde podemos encontrar com ele mais de jeito agora cedo.

(Levantam-se e saem)

 

 

ATO I

CENA 2

 

(Em frente à casa de Cláudio.Este sai, olha o nascer do Sol.Respira fundo. Vem uma empregada e lhe entrega uma caneca cheia de leite; entra e volta a sair com uma cadeira de espaldar, onde se senta Cláudio. A empregada volta a entrar,enquanto sai Raimunda também carregando uma cadeira.Da casa ao lado sai Apolinário, vê Cláudio e Raimunda, volta a entrar e a sair, agora trazendo uma cadeira:seguem–_no Laertes e Ofélia, Valtemiro e Cornélio, todos vestidos com cores vivas e levando bancos ou cadeiras, e dirigem-se para frente da casa de Cláudio. Cumprimentam respeitosamente a este e Raimunda, antes de sentar-se. Faz-se um circulo. Surge Amileto, todo de negro, sem cadeira; olhos baixos e mal cumprimenta os presentes.)

CLÁUDIO – Se bem que ainda esteja fresca em nossa lembrança o passamento de nosso caro irmão Amileto, e embora a gente traga o coração magoado, o continuamento da vida mostrou que é preciso pensar nele com tristeza sensata, sem todavia porém deslembrar de nós. Portanto, a nossa antiga irmã e cunhada,hoje viúva dona desta fazenda que meu mano, seu pranteado esposo, construiu com a força de sua vontade, o suor de seu rosto e meu modesto ajutório, resolveu aceitar meus bons propósitos e os bons conselhos de vosmicês, se tornando minha esposa.Tocar esta fazenda não era tarefa pra uma mulher e, assim,  tendo um olho brilhoso e o outro lacrimoso, em risos num saimento e em réquiem numas bodas, pondo a balança afio com prazer e dor, fizemos com que tudo ficasse na família.Muito obrigado!

E agora vamos ao que mais interessa:como sabem o Dr. Fortimbrás, fazendo fraca idéia do que valemos, ou julgando que morto o nosso irmão—que Deus o tenha em paz_nossa família estivesse desconjuntada e desunida, coligou-se  com o sonho de que se avantaja.E, assim,vem nos importunando com avisos e positivos, para que lhe entreguemos as terras que por direito de primazia, uso e usufruto, são nossas. Não contente com isso, vai estendendo suas cercas para o nascente e pro poente, pra cima e pra baixo e ocupando o que nos pertence.Por isso é que mando vosmicês , Valtemiro e Cornélio, pra capital e pras autoridades com essas cartas  em que exponho a situação e peço providências,  já que foi lá que o Dr. Fortimbrás conseguiu aqueles títulos e o papelório que lhe permite contar com o consentimento da polícia para manter sua própria força e fazer os desmandos que vem fazendo. Com as autoridades vosmicês devem tratar só disso. E no banco, com o gerente, tratar do empréstimo já pedido e providenciar o envio do arame e dos outros trens que Apolinário já deve lhes ter falado.

(Apolinário acena firmativamente com a cabeça)

CORNÉLIO – Estamos cientes.

VALTEMIRO – Faremos tudo à risca.

CLÁUDIO – Não duvido. E agora é bom se apressar senão vosmicêsmperdem a condução.

(Valtemiro e Cornélio levantam-se, cumprimentam todos e saem, levando suas cadeiras para a casa de Apolinário)

E tu, Laertes, que contas de novo? Disseste que querias um favor? Qual, Laertes, que me pediste até hoje que eu não tenha atendido? Ao coração não é a cabeça mais chegada, a própria mão não dá mais assistência à boca do que nós a teu pai, nosso bom capataz e amigo. Que queres, Laertes?

LAERTES – Vim pedir-lhe para retornar á capital, já que o senhor pretendia que eu ficasse aqui para ajudar meu pai no trato da fazenda, agora que os serviços aumentaram muito. Vim ao seu casamento de moto próprio pra demonstrar meus respeitos, mas devo confessar que, cumprido esse dever, meus pensamentos e desejos se voltam para a capital, onde pretendo continuar os estudos.

CLÁUDIO – Agradeço tua atenção. Nosso desejo era que ficasses aqui, ganhando experiência para substituir teu pai, que mais cedo ou mais tarde a Dolorosa o levará, como levará a todos nós. Mas tua vontade é tua vontade. Que dizes, Apolinário?

APOLINÁRIO – Ele arrancou de mim, seu Cláudio, o meu consentimento, que não adianta ele ficar aqui contra a vontade. Vamos ter que pensar em outra pessoa.

CLÁUDIO – Que se há de fazer? Que ele faça bom proveito de seu tempo. E tu, que és meu parente e meu filho, Amileto? Também pretendes nos abandonar?

AMILETO – (À parte) Algo mais do que parente e menos do que filho.

CLÁUDIO – Então, ainda há peso sobre ti?

AMILETO – Não, meu tio, despojaram-me de tudo.

RAIMUNDA – meu bom Amileto, põe de lado essa cara de mau presságio. Faz com que teus olhos olhem com amizade para teu tio. Não procura na poeira, com as pálpebras descidas, teu bom pai – que deus o tenha na santa paz – a todas as horas e a cada momento. Sabes que o vivo há de morrer – é lei geral – passando pelo atual rumo ao outro mundo.

AMILETO – Sim, é geral, minha mãe.

RAIMUNDA – Logo, se é geral, porque te parece uma questão pessoal?

AMILETO – Parece! Não senhora! Não sei o que é “parece”. Minha mãe, não só minha vestimenta como tina, as roupas costumeiras de solene preto, cortadas de suspiros na respiração forçada. Oh não, nem transbordante rio dos meus olhos, nem aparência deprimida do meu rosto, a par dos modos, ares, vestes dolorosos que me revelam de verdade. Isso parece, pois é conduta possível de afetar. Porém, eu tenho isto que sinto cá dentro de mim, e excede o aspecto, e as vestes e hábitos de dor.

CLÁUDIO – Amileto, meu filho, mostrar um traço meigo e de louvar, quando rendes a teu pai – que Deus o tenha – tributos fúnebres. Mas sabes muito bem que teu pai perdeu um pai e que esse pai perdido perda igual já tinha sofrido, e que o sobrevivente teve, por dever filial, que carregar luto por algum tempo. Mas persistir em desconsolo obstinado é agir com teimosia destinada e revelar magoa imprópria de homem macho, tem como um ânimo que não se submete á vontade de Deus. Denota um coração sem fortaleza, inteligência intolerante, entendimento pouco e má educação. Por que deixar que nos afete profundamente, em nossa tola posição, o que sabemos que há de ser e é tão comum para os sentidos como qualquer coisa vulgar? Não! … É pecado contra os céus, pecado contra os que morreram. É pecado contra os sentimentos naturais e absurdo ante a natureza, pois a morte é tão natural quanto a vida. “É assim que tem de ser…”. Nós te rogamos; joga por terra essa mágoa inútil e cogita em nós como num pai. Pois disso fique ciente o mundo: tu és o herdeiro de tudo que nos pertence. E a afeição que te dedico é a mais nobre, em nada inferior a que o pai mais extremoso dedica a seu filho.é por isso que não concordamos com teu intento de retornar à faculdade nas atuais condições em que te encontras. Continua aqui, filho nosso, onde tua mãe e eu podemos te confortar e animar.

RAIMUNDA – Que meus rogos não sejam perdidos, Amileto filho meu. Fica entre nós, não parte.

AMILETO – Eu obedecerei, minha mãe. O mais que possa.

CLÁUDIO – Aí está uma resposta meiga e afetuosa. Esse “sim” de Amileto pôs meu coração a rir de alegria. Hoje, tudo que beber, beberei a sua saúde e tudo será motivo de satisfação: o trabalho será mais livre. E por falar em trabalho, vamos que o dia já vai alto. Estejas em casa, Amileto.

(Saem todos, menos Amileto)

AMILETO – Oh, se esta carne, muito, muito manchada, pudesse se derreter e se transformar em água. Ah, se pudesse virar orvalho! Ou não fosse contra Deus cometer suicídio! … Ó Deus, meu Deus, que fatigantes, insípidas, monótonas e sem proveito as práticas do mundo me parecem! Todas! Que nojeira o mundo, essa plantação de ervas más que crescem até dar semente! Como cobrem coisas de luxuriante e rude natureza!… Chegar a este ponto! Morto só há dois meses, nem tanto, nem há dois; tão bom marido e pai que era, perto do atual, o Sol junto de uma estrela apagada. Tão dedicado à minha mãe… nem consentia que carregasse peso ou trabalhasse. Ó céus! Devo recordar-me? Por que pensar? Fragilidade, tu te chamas mulher! Um mês… Antes de envelhecerem os sapatos com os quais ela seguia o corpo de meu pai à sua última morada. Era outra, em lágrimas… Sim, ela, a mesma. Um animal, meu deus, sem raciocínio, teria erguido seus lamentos por mais tempo.. Casou-se com outro, sim, o irmão de meu pai. Mas que tem menos semelhança com meu pai do que com São Benedito… Num mês, antes mesmo que as lágrimas insinceras secassem sobre seus olhos, ela se casou. Oh, pressa despudorada, atirar-se com tamanho desembaraço nos lençóis do adultério. Isso não é bom, nem pode redundar em bem; mas, arrebenta coração! Tenho de calar-me.

(Aparecem Horácio, Marcelo, Bernardo e Francisco)

HORÁCIO – Oi, Amileto! Bons dias!

AMILETO – Oi! Oh, então és tu, Horácio!

HORÁCIO – O próprio; o amigo de sempre.

AMILETO – E bom amigo. (Apertam-se as mãos) o que te trouxe a Vila Esperança? Marcelo… (Estende a mão)

MARCELO – Como vai?

AMILETO – Bem! Alegro-me em vê-los. (Para Bernardo e Francisco) Com dia, amigos. (Conduz Horácio a parte) Mas, com efeito, que te trouxe até aqui?

HORÁCIO – O simples desejo de aproveitar as férias junto aos meus.

AMILETO – Já tão cedo? Tuas aulas já terminaram?

HORÁCIO – Vim mais cedo para assistir ao enterro de teu pai.

AMILETO – Não brinca comigo, eu te peço, meu colega. Acho que vieste para ver o casamento de minha mãe.

HORÁCIO – De fato um sucedeu-se ao outro.

AMILETO – Economia, economia! Serviram-se os pastéis do enterro, mesmo frios, nas mesas do casamento. Eu antes desejara topar na mata com a onça mais brava do que ter visto semelhante dia, Horácio. Parece que estou vendo meu pai: sim, meu pai.

HORÁCIO – Onde, amigo?

AMILETO – Com o olhar do pensamento, Horácio?

HORÁCIO – eu o vi algumas vezes, parecia um bom homem.

AMILETO – Sim, era no conjunto um verdadeiro homem. Jamais encontrei, jamais, o seu igual.

HORÁCIO – Ainda o vês com os olhos extremados do filho. Acho que vi a última noite.

AMILETO – Quem?

HORÁCIO – Seu Amileto, teu pai.

AMILETO – O meu pai!?!?

HORÁCIO – Contém o teu espanto e ouve-me atentamente durante alguns momentos para que eu possa contar o acontecido. E aqui estão estes amigos que não me deixam mentir.

AMILETO – Pelo amor de Deus, conta logo!

HORÁCIO – Bem sabes que Marcelo, Bernardo e Francisco, além de gente séria e trabalhadora, são dados a caçar de espera. E duas noites em seguida, quando a madrugada já ia em meio, toparam um figura parecida com teu pai. Apareceu diante deles, armada de carabina, andando de um lado para o outro, com lentidão, enquanto eles, apavorados, temendo como geléia, ficaram grudados no mesmo lugar e mudos, sem conseguir dizer uma palavra. Contaram-me logo, por ser amigo deles e por saber-me teu amigo, mas guardaram segredo para os outros. E ontem fui com eles a uma espera e pude comprovar que era certo o que me contaram. A aparição veio tal qual haviam dito e reconheci teu pai; não, estas mãos não são mais parecidas entre si.

AMILETO – Mas onde foi isso?

HORÁCIO – No caminho que vai para aguada.

AMILETO – E não falaste com ele?

HORÁCIO – Falei, mas ele não me deu resposta. Contudo, tive a impressão, em certo momento, que ele erguera a cabeça e ia fazer um gosto, como se quisesse falar-me. Porém, então cantou o galo da alvorada e, a esse canto, ele partiu a toda pressa, esfumaçando-se de nossa vista.

AMILETO – É bem estranho.

HORÁCIO – É tão verdade como é certo eu estar vivo. Pensamos que seria nosso dever contar-te.

AMILETO – Certo, amigos, certo;mas estou confuso. Vocês topariam fazer nova espera esta noite?

TODOS –  Sem dúvida.

AMILETO – Vocês dizem que ele estava armado?

TODOS – Sim, armado.

AMILETO – De espingarda ou carabina?

HORÁCIO – Carabina papo-amarelo.

AMILETO – E seu rosto, como estava?

HORÁCIO – De cenho carregado, parecendo tr mais mágoa que raiva.

AMILETO – e estava pálido ou vermelho?

HORÁCIO – Muito pálido.

AMILETO – Fixava o olhar em vocês?

HORÁCIO – Sim, sem desviar.

AMILETO – Quem me dera estar lá!

HORÁCIO – Também baterias a passarinha como nós.

AMILETO- É provável, bem provável. E demorou-se muito?

HORÁCIO – O tempo suficiente para contar de um a cem, devagar.

MARCELO – Não, demorou mais, bem mais.

BERNARDO E FRANCISCO – É, bem mais.

HORÁCIO – Não quando eu o vi.

AMILETO – Barba grisalha, não?

HORÁCIO – Como se não se barbeasse a uma semana.

AMILETO – Hei de vigiar hoje à noite; ele talvez apareça de novo.

HORÁCIO – estou certo disso.

AMILETO – Se assumir a aparência de meu pai eu lhe falarei mesmo que o inferno escancarado ordene que eu me cale. Peço que vocês mantenham o segredo da visão, como até agora o guardaram, e o que hoje à noite acontecer, façam por entender sem usar a língua. Eu ficarei muito agradecido e vocês podem contar com um amigo certo de minha parte.

BERNARDO – A gente sempre anda preparado pra assombração e não há do que temer. Basta o sinal da cruz e um naco de fumo em rolo forte que ela não faz mal pra gente. Mas, de qualquer jeito, os joelhos sempre se visitam nessa hora.

AMILETO – Sei disso e também não sou curado contra essa doença. Encontro vocês das onze e meia pra meia noite no caminho da aguada. Obrigado e até mais, meus bons amigos.

TODOS – Até mais. (Todos saem, menos Amileto)

AMILETO – O espírito de meu pai, armado! Não, as coisas não estão bem. Suspeito alguma traição. Tomara que a noite chegue logo. Mas até lá, preciso ficar calmo. Inda que a terra inteira os haja de esconder, os atos vis no fim terão que aparecer. (Entra na casa)

 

ATO I

CENA      3

(Em frente à casa de Apolinário, conversam Ofélia e Laertes)

LAERTES-Minha bagagem já está pronta.Não esquece de me escrever toda vez que houver portador, hein mana.

OFÈLIA-Claro que não!

LAERTES-E quanto a Amileto e suas conversas, estána moda os patrões namorarem as filhas de seus empregados. Não passa de um capricho,mais enganoso que uma rosa: perfume gostoso, mas vida curta e espinhos pontudos.

E nada mais.

OFÈLIA-Só isso, nada mais?
LAERTES-Assim é. Quando o homem cresce, ele não cresce apenas em forma e corpo: amplia-se também o ofício da mente e da alma.Talvez ele esteja gostando de ti e seus propósitos sejam de homem direito, mas quem sabe ao certo? Se ele afirma que te ama, toma tenção e eleva a guarda, pois

Se não for verdade ou ele não puder mudar o dito em feito, tua honra é que vai sofrer.E mesmo que não sofra a honra, manchada fica a reputação.. Cuidado mana:faz ouvidos moucos para as canções que ele sussurra, não entrega o coração nem lhe abras o segredo de teu tesouro. Coloca-te longe  dos riscos do desejo.”A virgem  mais arisca ainda concede muito quando  permite que a lua banhe a sua formosura; nem a virtude escapa aos golpes da calúnia; em regra, é antes de o botão se abrir que o verme ataca.”Toma cautela e vive no temor..

Essa a melhor segurança, pois mesmo só, contra sua vontade, a mocidade arde em desejo.

OFÈLIA-Guardarei em meu coração teus bons conselhos. Mas, meu bom irmão, não faças como o monge que vive a colocar espinhos no caminho dos outros, ao passo que ele próprio segue conselhos diferentes dos que diz, na trilha do pecado e da libertinagem..

(Aparece Apolinário)

LAERTES-Não te arreceies.Mas, olha aí papai. Benção, meu pai! (Inclina levemente a cabeça )

Apolinário- Anda, anda, Laertes, que a condução te espera. Deus esteja contigo.Vai com a minha benção. (Coloca a mão sobre a cabeça de Laertes).E guarda bem estes preceitos na cabeça:Não dá língua aos pensamentos nem transforma em ação  os pensamentos impensados. Procura ser amável , mas não vulgar. Com laço firme  amarra no coração os amigos de amizade provada; mas não calejes tua mão dando guarida a qualquer um.Receia entrar em discussão mas, se entrares, que o teu contrário te arreceie. Ouve o que todos dizem, mas  dá tua opinião para poucos;atenta para o que achem mas reserva o juízo.Compra roupas caras, dentro do possível, mas que não dêem na vista:ricas, não berrantes, que muitas vezes o hábito revela o homem .E na capital os de mais alta classe e posição  sabem vestir-se e se queres fazer carreira é entre eles que deves fazer tuas amizades. Não tomes emprestado e tampouco emprestes, que o empréstimo nos faz perder dinheiro e amigo. Mas, sobretudo, sê leal contigo mesmo e, tal como a noite segue o dia, não poderás ser falso com os outros. Adeus, que minha benção faça madurar em teu espírito os conselhos que te dei.

LAERTES – Obrigado, meu pai. Adeus, Ofélia, e não esqueças do que te disse.

(Abraça o pai e a irmã)

OFÉLIA – Tranquei tuas palavras na memória. Mas sei que elas não servem para ti.

LAERTES – Adeus. (Sai)

APOLINÁRIO – Que te disse ele, Ofélia?

OFÉLIA – Algumas coisas de Amileto, pai.

APOLINÁRIO – Bem lembrado. Já andaram me contando que ele tem te procurado diversas vezes e que tens gasto bastante do teu tempo com ele. se isso for verdade, quero saber o que existe entre vocês. A um empregado, mesmo de confiança, é difícil cobrar do patrão a honra que o filho roubou de sua filha.

OFÉLIA – Ora pai, somos só amigos. Ele se tem feito oferecimento de sua afeição, nada mais.

APOLINÁRIO – Ora, afeição! Falas que nem menina boba e inexperiente dos perigos deste caso, acreditas nesses oferecimentos?

OFÉLIA – Por que não haveria de acreditar?

APOLINÁRIO – Pois bem, vou te ensinar. És ainda uma criança e tomaste esses oferecimentos por moeda boa, quando não são. Se queres te oferecer, oferece-te bem mais cara ou logo, logo, me aparecerás com um bebê, isso sim.

OFÉLIA – Ele me fez juras de amor, pai, mas de modo honesto.

APOLINÁRIO – Modo, que modo? Isso é moda dessa rapaziada de hoje. Vamos, vamos!…

OFÉLIA – Por que tomas todos por Laertes? Amileto tem boas intenções.

APOLINÁRIO – Laços para apanhar franguinhas. Eu sei de que maneira se empresta juramentos à língua quando o sangue ferve. Não, filha, não toma por fogo esse clarão que dá mais luz que calor e que se apaga, mera promessa, quando nem chegou a acender. Daqui por diante sê mais cuidadosa com teu recato e te guarda de andar por aí, pelos cantos. Amileto é moço e pode andar de rédea solta, mas tu não. Não ouças nem dês crédito a seus juramentos alcoviteiros que procuram favores nada santos, piando como cobra que encanta o passarinho para melhor engoli-lo. Numa palavra, e claramente, é meu desejo que não percas teu tempo dando trela a amileto. Cedo ou tarde ele volta para os estudos e para as farras e gostaria bem de levar o que por dever deverás oferecer a teu marido na noite do casamento. Ele bem, que gostaria de contar para os colegas como é uma tabaroa na cama, rindo-se do teu engano. Ouves bem o que te digo?

OFÉLIA – Ouço, meu pai. (Saem)

 

 

ATO I

CENA 4

 

(Noite. Horácio, Marcelo, Bernardo e Francisco estão acordados no caminho da aguada. Amileto se aproxima)

AMILETO – Boa noite! Que friagem danada!

TODOS – Boa!

HORÁCIO – No Sul é mais frio, mas a friagem da mata também é de entrar nos ossos.

AMILETO – Que horas são?

HORÁCIO – Ainda não deu meia-noite.

MARCELO – Não, já bateu.

AMILETO – Bateu? Então está chegando a hora da visagem aparecer. Quase que não chego a tempo. Meu tio juntou um bocado de gente para beber e não queria me deixar sair. Está num porre danado.

HORÁCIO – Teu tio é chegado numa garrafa, não é?

AMILETO – Fica que nem mucura. E com isso todo mundo nos tacha de beberrões e a maledicência corre solta. Essa mancha se espalha pra toda a família e não adiantam os feitos bons que a fama é de má reputação. Assim acontece com alguns homens: mesmo que tenham boas atitudes, não conseguem, formar bom juízo entre os outros, seja por força de nascença, pelo humor ou pelo hábito, seja por possuírem marca natural viciosa. E olhe que disso não têm culpa – que a natureza não escolhe a própria origem. A marca do defeito ofusca suas virtudes. Uma pitada de ruindade apaga, muitas vezes, toda a pureza da bondade; uma pequena jaça acarreta o desconceito de qualquer gema.

HORÁCIO – (Aparece a visagem) Olha, Amileto, está aparecendo.

AMILETO – Valha-me Deus, nosso Senhor! Sejam teus intentos bons ou maus, contigo tragas ventos do céu ou rajadas do inferno, espírito ou demônio condenado, estás com al aparência que quero te falar. Se chamar teu nome certo terás que me responder, e eu te chamo de Amileto, meu pai, dono da fazenda Boqueirão. Responde! Não me deixas na ignorância. Por que teus ossos consagrados romperam a mortalha dentro de tua cova? Por que a tumba onde te vimos colocado em paz abriu suas entranhas para te devolver? O que é que significa isso de assim armado, ó corpo morto, vires revisitar os raios do luar, tornando a noite pavorosa e nos fazendo a nós – nós que da natureza somos ilusão – sacudir horrorizados a nossa mente com pensamentos que a nossa alma não atinge? Qual motivo disso? Para quê? Que devemos fazer?

(A visagem acena)

HORÁCIO – Está te acenando para que o sigas, como se quisesse ter um particular contigo.

MARCELO – Parece um convite amigo para ir a um lugar mais afastado. Mas não é bom ir.

FRANCISCO – Vamos repetir o sinal da cruz. Se for demônio, vai soltar algum grito e não poderá fazer mal pra gente.

(Fazem o sinal da cruz. Nada acontece: avisagenm continua acenando)

AMILETO – Então tudo bem, irei com ele. senão não falará.

HORÁCIO – Não deves ir.

AMILETO – Por quê? Não há razão alguma para medo. Um alfinete vale mais do que a minha vida e, quanto à minha alma, que perigo há para ela, se é algo imortal, tão imortal como ele? está me acenando novamente. Vou com ele.

HORÁCIO – E se te atrair para as matas profundas, ou para as profundezas das águas, se for feitiço de caipora ou mão d’água? Pode te fazer perder a razão e com isso perdes o rumo e o destino.

AMILETO – Não pára de acenar-me. (Para a visagem) Vai, que irei contigo.

MARCELO – Não, não deves ir.

AMILETO – Distância com as mãos!

HORÁCIO – Sê razoável, não vai.

BERNARDO E FRANCISCO – Já pegou o encantamento.

AMILETO – Minha razão manda que eu vá. Soltem-se, que ele está me chamando. (Desembaraça-se deles e puxa um punhal) Por Deus, farei defunto quem quiser impedir-me. Deixem-me, estou dizendo. Vai, que irei contigo. (A visagem se afasta no rumo de aguada e Amileto a segue)

HORÁCIO – Já não está bem da cabeça.

MARCELO – Vamos atrás. Não devemos obedecer.

HORÁCIO – Vamos, vamos. Em que acabará tudo isso?

MARCELO – Existe alguma cabeça de burro enterrada aqui em Vila Esperança, alguma coisa podre…

FRANCISCO – O céu guiará tudo.

MARCELO – Não, vamos segui-lo.

 

 

ATO  I

CENA 5

 

(Caminho da aguada, bem afastado do ponto em que estavam anteriormente. Amileto faz uma cruz de gravetos e carrega diante de si.. Encontra-se com a visagem.)

AMILETO – Aonde queres me levar? Fala ou não irei mais longe.
VISAGEM – Escuta

AMILETO – Estou à espera.

VISAGEM –É quase hora de voltar pras profundas do inferno. Mas não tenhas pena de mim, ouve só o que tenho pra te revelar.

AMILETO – Estou pronto para ouvir.

VISAGEM – E, quando ouvires, estarás pronto para te vingar?

AMILETO – Quê?

VISAGEM – Eu sou a alma penada de teu pai. Fui condenado a vagar pelas noites e, de dia, a jejuar no fogo até que este consuma as faltas que cometi durante o tempo que estive no mundo dos vivos. Se não estivesse proibido de revelar segredos de onde estou preso, eu te faria algum relato. E, então, teu sangue viraria água, teus olhos iam se esbugalhar e teus cabelos ficariam iguais aos do porco-espinho. Mas eu não posso e é melhor assim. Escuta! Se algum dia amaste teu pai…

AMILETO – Oh Deus!

VISAGEM – Vinga-lhe o assassínio traiçoeiro.

AMILETO – Assassínio?

VISAGEM – Sim, traiçoeiro, e torpe, pois sempre o é. Foi muito mais que torpe, estranho e monstruoso.

AMILETO – Conta logo, para que com as asas rápidas, como as do pensamento ou as do amor inquieto, eu me atire à vingança.

VISAGEM – Pareces disposto. Serias mais parado do que o cevado que no chiqueiro se corrompe em ócio, se não agisses; mas, agora escuta, Amileto. Fizeram crer que uma cobra me picou quando eu estava adormecido na varanda. E assim, forjando essa história de minha morte, enganaram todo mundo. Mas fica sabendo que a cascavel que tirou a vida de teu pai hoje dorme no regaço de tua mãe.

AMILETO – Oh meu Deus! Meu tio então?

VISAGEM – É! Esse animal que não honrou o próprio pai, valendo-se de sua lábia e de presentes – lábia e presentes que possuem o dom de seduzir – vergou os apetites de minha mulher, na aparência casta perante o vergonhoso cio que a tomava. Que despudor, Amileto! Meu amor era tão digno que seguia mão na mão, guardando o voto que eu fizera ao me casar. Ela, porém caiu, cedendo a um miserável cujos dons naturais eram bem pobres em face dos que eu tinha. Assim é: se a virtuosa não se move nunca, ainda que o desregramento venha tentá-la com roupagens belas, já os calores do desejo se enfadam de um leito puro e pastam no esterco. Mas quieto! Penso que farejo o ar da manhã, devo ser breve. Como era meu costume, eu dormia uma tarde na varanda lá de casa; teu tio, aproveitando a hora morta, despejou em meu ouvido um veneno tirado da peçonha da surucucu e que só os índios conhecem o segredo. Como a própria picada da surucucu, esse veneno corre ligeiro os caminhos do corpo e coagula e talha o sangue. Assim fez ele ao meu. Como se eu fosse um lazarento, meu corpo se cobriu com uma crosta nojenta.

Estava eu pois dormindo quando a mão que deveria ser fraterna me me privou da vida, das propriedades e da mulher. Cortou-me em plena floração de meus pecados, sem que tivesse recebido a eucaristia, sem estar preparado, sem extrema-unção; sem haver me confessado e me arrependido de minhas faltas, que não foram poucas, Amileto! Desse modo eu fui mandado a prestar contas… Pavoroso, pavoroso! Mas, qualquer que seja tua ação, não manches teu espírito nem deixes que tua alma trame coisa nenhuma contra tua mãe. Entrega-a ao céu, como aos espinhos que ela traz no peito. Adeus agora: a luz do vaga-lume já vai perdendo o efeito e isso mostra que a manhã vem perto. Adeus, adeus, recorda-te de mim.

(A visagem desaparece; Amileto, perturbado, cai de joelhos)

AMILETO – Firme, firme, não me atraiçoes, coração! Rijas, pernas tremedeiras! Fiquem de pé! (Ergue-se) Lembrar de ti? … Como poderia esquecer-te, fantasma de meu pai? Apagarei tudo o mais que houver na minha memória, tudo o que nela copiaram juventude e observação. Teu mandamento e apenas ele, há de dirigir meu pensamento, sem se misturar com matéria menos alta. Pelos céus! Mulher nociva! Vilão, vilão risonho, mas vilão maldito! Juro, juro que não descansarei enquanto não cumprir essa vingança. (Ajoelha-se e reza)

(Aproximam-se Horácio e Marcelo, tateando no escuro)

HORÁCIO – Amileto! Amileto!

MARCELO – Amileto!

HORÁCIO – Que os céus o guardem!

AMILETO – (à parte) Assim seja. (Levanta-se)

MARCELO – Ei, ei, espera aí, Amileto.

AMILETO – Ei, ei, estou aqui!

(Vêem Amileto)

MARCELO – Então, tudo bem?

HORÁCIO – Como foi?

AMILETO – Não dá nem pra acreditar.

HORÁCIO – Conta, pelo menos.

AMILETO – Não, que vocês vão espalhar a notícia.

HORÁCIO – Que é isso, não me conheces?

MARCELO – Não confias em nós?

AMILETO – Que é que vocês pensam de tudo? Alguém acreditaria? Não existe um vilão em todo este sertão que não seja um patife, sem tirar nem pôr.

HORÁCIO – Pra nos dizer isso não carecia que algum fantasma abandonasse a sepultura.

AMILETO – É certo. Mas acho melhor que a gente se despeça. Cada um para o seu trabalho ou desejo, que não há quem não possua trabalho ou desejo. De minha parte, vou rezar.

HORÁCIO – Estás tantã? O que houve?

AMILETO – Sinceramente, não te intrigues comigo. Por minha fé, perdoem se ofendi vocês.

HORÁCIO – Não houve ofensa.

AMILETO – Houve sim, por São Patrício, Horácio, e ofensa grande. A aparição é de se confiar, mas peço que me entendam e me deixem esfriar a cabeça. Até lá não contem nada a ninguém. E peçam aos outros dois amigos que continuem a guardar segredo.

HORÁCIO – Certo! Estão mais adiante esperando. (Dirigem-se para lá)

AMILETO – Amigos, seria demais lhes pedir que jurassem segredo sobre o acontecido esta noite?

BERNARDO – As juras, seu Amileto, são palavras que o vento que passa não guarda. Só valem quando a gente empenha a honra. E a honra a gente só empenha quando sabe pra modo de quê.

AMILETO – Por mais longe que voe o nosso pensamento, há muito mistério no mundo que ele não pode explicar. A aparição da visagem do meu pai é uma. E o que ela me disse, mais ainda; o desejo de um morte é sagrado. Eu preciso que vocês guardem segredo.

HORÁCIO – O desejo dos mortos só tem valor quando combinam com o dos vivos, Amileto. Se eles deixam esperanças, não faz mal que entrem no Inferno.

BERNARDO – Os mortos, pra descansar, já têm os sete palmos. Pior somos nós, os vivos, que pra viver não querem deixar palmo nenhum. Se vosmicê tá pensando que a alma penada de seu falecido pai – Deus se alembre da alma dele – só descansará se for vingado de alguma tramóia, vosmicê tá enganado.

AMILETO – O que você sabe? Você ouviu? …

BERNARDO – Não, seu Amileto, não ouvi nem não sei nada. Mas alma penada só fica vagando nesses causos. E o espírito do finado Amileto só vai sossegar se vosmicês fizer uma coisa de Valença, se vosmicê desmanchar tudo de errado que seu pai fez em vida e que seu tio piorou mais.

AMILETO – Não falem de meu tio! É um patife! Estou confuso…

BERNARDO – Há gente que morre como passou pela vida; sem fazer bulha. E há morte que serve pra acordar, pra dar vida. Vosmicê tá sendo acordado pela morte do finado seu pai, mas inda tá meio drumindo. Pra acordar de tudo vosmicê precisa ouvir o sofrimento e a voz de seus vizinho, que mal ou bem tinham poucas queixas do velho Amileto. O que ele fez errado é fácil desfazer. Mas porém difícil é pra modo de desmanchar o que seu Cláudio tá armando num lado e seu Dr. Fortimbrás do outro. Vosmicê precisa é ajudar esse seu povo – mecê é o herdeiro legítimo – e vai ver como a alma de seu pai vai ter sossego.

AMILETO – Não sei… Estou perturbado… Mas eu lhes peço, de qualquer modo, guardem segredo, mesmo que me vejam fora do meu juízo. Sinto que vocês são meus amigos e também quero ser amigo de vocês. Mas… vamos, vamos antes que alguém nos veja.

 

 

ATO II

CENA 6

 

(Casa de Apolinário. Apolinário e Reinaldo conversam)

APOLINÁRIO – Entrega pra ele esse dinheiro e essas cartas.

REINALDO – Sim senhor.

APOLINÁRIO – Mas antes porém é preciso se informar do comportamento dele. E pra isso tens que agir com perspicácia… Sabes o que é perspicácia?

(Reinaldo faz gesto negativo)

Perspicácia é ser como o raposão que vê no escuro ou como a onça que, quanto te vê, finge que vai simbora mas dá é um arrodeio pra te pegar de tocaia mais admite. Pra te informares sobre o comportamento dele tens que fazer um rodeio.

REINALDO – Assim mesmo que eu pensava.

APOLINÁRIO – Pois bem, procura primeiro o povo Vila Esperança que mora por lá Conheces alguns e outros podes conhecer por apresentação. Leva a conversa com jeito até chegar em meu filho. Mas não vai direto sobre ele: finge que conheces ele por alto. Vai dizendo: “É, eu conheço o pai e os companheiros dele, e até ele próprio, assim, assim”. Estás ouvindo?

REINALDO – Estou.

APOLINÁRIO – “Assim, assim”. E vai entrando devagar: “Conheço de vista, mas porém se for quem eu estou pensando, é um moço muito livre, e tal e coisa”. E então pergunta o que de melhor te ocorrer, mas nada de maior que o possa desonrar. Cuidado com isso. Descarrega sobre ele esses pecados comuns, de licenciosidade ou desregramento, coisas de gente moça.

REINALDO – Como mulheres, seu Apolinário?

APOLINÁRIO – Correto. Ou a bebida ou mesmo as farras. Mas modera a acusação, faz a coisa com arte…

REINALDO – Mas, seu Apolinário…

APOLINÁRIO – Pra que tudo isso, não é?

REINALDO – É, careço de saber.

APOLINÁRIO – Pois essa é a minha intenção e sou de pensar que é o expediente mais seguro: lanças sobre meu filho essas manchinhas, como aquelas que as mãos deixam às vezes nas roupas e qualquer sabão tira. Ora bem, a pessoa pode ter visto o moço praticar uma das suas e concordará contigo, na certa falando “Seu moço” ou coisa que o valha, ou bem então “amigo” ou “meu senhor”, ou outra forma qualquer de tratar as pessoas com quem se conversa.

REINALDO – É isso mesmo.

APOLINÁRIO – E nesse ponto ele… ele… que é mesmo que eu ia dizer? Pela santa missa, eu ia dizer alguma coisa: onde foi que parei?

REINALDO – Em “na certa falando ‘seu moço’, ou ‘amigo’ ou ‘meu senhor’ ou coisa assim”.

APOLINÁRIO – Isso. Pois bem, dirá que conhece Laertes e contará os acontecidos com ele nas vezes que lhe viu. Desse jeito, usando a isca da mentira, pegamos o peixe da verdade; rodeando a caça, pisando leve e enxergando longe, colhemos as diretivas que queremos. Deus também chega ao certo escrevendo torto. Assim descobrirás tudo o que for sobre o meu filho. Me entendeste bem?

REINALDO – Entendi.

APOLINÁRIO – Com esse mesmo jeitim quero que te informes sobre as terras. A sublevação está armada: o Dr. Fortimbrás reclama os seus direitos, o seu Cláudio os dele. E os posseiros também dizem ter direitos. No meio estamos nós, tu e eu, empregados. Se agente não souber em que pé as coisas estão, acabamos feito cana em moenda: só bagaço. Procura o seu Antônio, aquele funcionário que veio aqui e mais os outros que estão na lista; vai almoçar com eles, paga as contas e, conversa vai conversa vem , vai arrancando o que é de interesse. PerspicáciaPerspicácia

REINALDO – Não se avexe que vou me informar de tudo.

APOLINÁRIO – Então vai e boa viagem. Que Deus te proteja.

REINALDO – Obrigado. Bença! Até mais. (Sai)

(Entre Ofélia agitada)

APOLINÁRIO – Que houve?

OFÉLIA – Amileto… Parece que não está bem… Apareceu aqui todo pálido, tremendo, meio descomposto, completamente areado.

APOLINÁRIO – Será que ficou leso?

OFÉLIA – Não sei, mas a situação dele é de dar pena.

APOLINÁRIO – E que te disse ele?

OFÉLIA – Pegou meu pulso e segurou firme; depois, recuando até a distância de meu braço e colocando assim a outra mão na testa, começou a olhar o meu rosto com tanto tento como se fosse fazer um retrato dele. E ficou assim um tempão. Depois, sacudiu um pouco o braço, moveu por três vezes a cabeça para cima e para baixo e deu um suspiro tão fundo que o corpo inteiro tremeu. Por fim, me deixou livre e saiu pela porta, andando de costas, sem despregar os olhos de mim.

APOLINÁRIO – Fazia tempo que não falavas com ele?

OFÉLIA – Nem tanto. Mas estava mais fria com ele, pr anão ter pega com o senhor.

APOLINÁRIO – Será que ele era mesmo sincero quando dizia que te amava? Praga de suspeita! Em nossa idade – pelo céu! – é tão normal exagerarmos por enchança de cautela como é por demais comum que a discrição falte aos mais moços.

OFÉLIA – Como também quem está acostumado a agir errado sempre pensa que os outros lhe são iguais.

APOLINÁRIO – Isso não vem ao caso. O diabo é que nesses assuntos do coração os causos podem dar nos piores resultados. O tal amor é uma paixão que pode destruir como qualquer outra. Pode enlouquecer a mais normal das criaturas. Preciso falar com seu Cláudio.

OFÉLIA – Já era tempo de deixarem que cada um escolhesse o deu destino. O seu Cláudio, como o senhor, não só querem mandar no gado e na lavoura, como querem que os filhos sigam todas as suas vontades e desejos. Eu só segui o meu conselho, meu pai, porque não estava certa dos sentimentos de Amileto. Mas não creio que seu amor por mim seja única causa de sua perturbação.

APOLINÁRIO – De qualquer modo vou falar com seu Cláudio. Calar será pior.

 

 

ATO II

CENA 7

 

(Casa de Cláudio.Valtemiro e Cornélio entram. Chegam também Apolinário e Raimunda)

CLÀUDIO —Bons dias!Como foram de viagem? Andem… Sentem…Sentem… Contem logo as novidades.

VALTEMIRO – Fizemos tudo como o senhor traçou. Falamos com o diretor do Instituto das Terras e ele disse que ia mandar sustar o processo do Dr Fortimbrás. Estava  na certeza que as terras eram devolutas de lei  e de gente

Conforme tinha dito o Dr Fortimbrás. Agora não está mais.Disse que não tem gente pra mandar fazer a discriminação e a demarcação, mas que vai ser preciso  fazer um acordo com o Dr Fortimbrás  porque o que está feito está feito.

CLÀUDIO —Com isso vou perder metade do que é meu, deixado por meu irmão.E  sobre os posseiros, o que foi que ele falou?

VALTEMIRO – _Que era melhor fazer tudo pacificamente,procurando acordo e pagando alguma coisa pelas benfeitorias deles. Se  começar a haver muita reclamação, vai ficar mais difícil pra resolver a situação como o senhor quer.

CLÀUDIO – É  porque ele não conhece a praga da teimosia dessa gente.Não

querem indenização, ou quando querem é um mundão de dinheiro como se fossem os donos verdadeiros das terras. Que mais?

VALTEMIRO – O mais que ele faz questão é que o senhor e o Dr Fortimbrás  façam um concorde, pois se continuarem brigando e, juntando mais o causo  dos posseiros, aí vai ficar tudo mais embrulhado e ele não sabe o que pode acontecer.

APOLINÁRIO – Como se fosse fácil fazer acordo com o Dr. Fortimbrás. Onde já se viu onça faminta dividir carniça?

CLÁUDIO – É, não vai ser fácil… E no banco, tudo bem?

VALTEMIRO – Nem tanto. Conversar com gerente de banco é mais difícil que pegar muçu com as mãos. Promessa é muita, mas dinheiro que é bom… E diz que agora há aperto no crédito, que os projetos têm que ser examinados melhor, e mais um monte de conversa pra modo de dizer que só podia liberar uma parcela. Os pedidos vieram todos, mas a sobra foi nenhuma.

CLÁUDIO – Tá bom, é assim mesmo. Quem não chora não mama. É melhor vocês irem descansar. Mais tarde conversamos melhor.

(Valtemiro e Cornélio saem)

APOLINÁRIO – Não vejo onde isso vai dar… Bem, sem Cláudio e Dona Mundinha, querer saber por que o dia é dia, a noite é noite e o tempo é tempo seria o mesmo que perder o dia, a noite e o tempo. Logo, se a brevidade é a alma do bom senso, direi logo qual é o causo: o vosso filho endoideceu. Doido, digo eu, pois não vejo como havera de definir a insânia. A insânia é alguém estar insano. É, é isso mesmo.

RAIMUNDA – Mais sustança e menos confeito, cumprade.

APOLINÁRIO – Juro, Dona Mundinha, não tenho a arte por ofício. Ele está doido, é bem verdade; e é bem verdade que é pena; e é pena ser verdade. Eu lhe vi descomposto e descobri essa carta (tira um papel do bolso) que escreveu para minha filha. E sou de pensar que aqui está a causa desse efeito, ou melhor, a causa do defeito, porque esse efeito que é defeito há de ter causa. (Lê) “Ao ídolo de minha alma, à celestial Ofélia”. A minha ciência é que seu Amileto escrevia coisas diferenças, mas ouçam: (Lê) “Em seu superiormente alvo seio estas…”

RAIMUNDA – Foi Amileto que enviou isso a ela?

APOLINÁRIO – No fim está o positivo dele. (Lê) “O mundo é infinito? O homem descende do macaco? Podes duvidar dessas coisas, suspeita que a verdade esteja a nos lograr, mas de que te amo não duvides um momento. Querida Ofélia, não sou hábil na rima, não tenho arte para medir os meus gemidos, mas acredita que meu amor por ti é insuperável, ó minha insuperável amada. Adeus. Teu para sempre. Amileto”.

CLÁUDIO – E daí? Mesmo que ele esteja assim enrabichado, não quer dizer que esteja doido.

APOLINÁRIO – Vosmicê me conhece bem. Se assim penso é porque Ofélia viu Amileto esquisito o bastante areado. Eu tinha lhe proibido de aceitar o namoro de Amileto porque desconfiei que era coisa dessa mocidade de hoje; não é mais como antigamente, que namoro era coisa séria. E eu não queria que a gente ficasse a perigo de se intrigar por causa de fogo de cabrito novo. Mas porém agora, depois do que está acontecendo, parece que os sentimentos do moço eram de valença e ele ficou perturbado.

CLÁUDIO – Será isso?

RAIMUNDA – Pode ser; acontece.

APOLINÁRIO – Já se deu o caso de eu ter dito “É assim”, quando era de outro jeito?

CLÁUDIO – Que eu saiba, não.

APOLINÁRIO – Pois então o melhor era a gente pegar a certeza do causo.

CLÁUDIO – Mas como se haverá de ter certeza se essa mocidade toda anda meio maluca?

APOLINÁRIO – Isso lá é verdade. Também não se respeitam mais os velhos. Não adianta nem lhe dizer que vou desobrigar Ofélia da proibição porque hoje quase me passe uma carraspana, parecendo ela o pai e a filha.

RAIMUNDA – Não diga!

APOLINÁRIO – Digo sim. Nas bastam os posseiros pra nos apoquentar, nem a capangada do Dr. Fortimbrás, e ainda por cima os filhos…

(Amileto aparece, olhar perdido)

RAIMUNDA – Olha o Amileto.

APOLINÁRIO – Deixem eu falar com ele. pode ser que comigo, que não sou da família, ele se abra. (Cláudio e Raimunda saem. Apolinário aproxima-se de Amileto)

APOLINÁRIO – Como vai, Amileto?

AMILETO – Bem, Deus lhe pague.

APOLINÁRIO – Amileto, não me reconheces?

AMILETO – Claro, és o dono da zona.

APOLINÁRIO – Eu? Não senhor!

AMILETO_Quem dera que fosses homem de tanta virtude.

APOLINÁRIO_De virtude?

AMILETO_Sim;ter virtude, no jeito em que está o mundo, é ser único entre os cem mil.

APOLINÀRIO_Isso lá é certo.

AMILETO_Pois a terra que é boa para uns, nem sempre é pros outros…Tens uma filha?

APOLINÀRIO_Tenho.

AMILETO_ Não a deixes andar ao sol.O sol faz a terra parir e, então, é uma benção; mas se fizer tua filha parir, o que será? Cuidado com isso , amigo (Alheia-se)

APOLINÁRIO_( Para o público) Que acham disso? Sempre insistindo em minha filha, embora não me tivesse reconhecido; imaginem, disse que eu era dono da zona. A doidice  já vai longe, bem longe; pra dizera verdade eu também passei muitos extremos por amor em minha mocitude, bem próximos deste …Vou falar de novo com ele. Que estás pensando,Amileto?

AMILETO_Palavras, palavras, palavras.

APOLINÀRIO_Qual a questão?

AMILETO_Entre quem?

APOLINÀRIO _Quero dizer, a questão sobre o que estás pensando.
AMILETO_(Avançando sobre Apolinário, que recua) Calúnias, amigo, calúnias;penso que os velhos têm barbas grisalhas, faces  enrugadas, olhos que choram leite grosso da seringueira e goma de maniva; mas não sabem discernir nada de nada, além de possuírem pernas frouxas. Apesar de eu estar pensando em tudo isso, não me parece bem dize-lo, pois tu mesmo , meu velho, haverás de chegar à minha idade…se puderes andar como um caranguejo.

APOLINÁRIO_(Para o público)É doidice, mas há método nela.Não queres sair desse ar ?

AMILETO_Quando estiver na cova.

APOLINÁRIO_(Para o público) Com efeito, será sair do ar. A doidice, às vezes voa por onde a razão e a lucidez não chegam. Em que pensas mais?

AMILETO – Na cova… na cova grande que uns vermes que se consideram gigantes estão cavando para si. Pois, se não fosse assim, por que quererias tanta terra? Pra aumentar os puteiros?

APOLINÁRIO – Quem quer terra? Eu?

AMILETO – Não és meu tio? Quantos quilômetros já tem tua cerca? Estás ao menos dando cova aos que moravam em cima e enxotaste desse mundo?

APOLINÁRIO – Amileto, estás me confundindo com teu tio Cláudio. Eu sou Apolinário…

AMILETO – Ah, é verdade! Mas são tão parecidos. Tu tramas, ele aceita; ele manda, tu fazes;tu fazes, ele encobre. Dois irmãos… Tu eras irmão de meu pai?

APOLINÁRIO – Não. (À parte) Está doido varrido.

AMILETO – É, é verdade. De meu pai não eras, mas de meu tio és. Se fizeres bem, ficarás iço como ele: basta preparar direito a rede e a cova.

APOLINÁRIO – Amileto, vou andando; tomo a liberdade de retirar-me.

AMILETO – de mim não podes tomar nada de que eu não me separe de boa vontade: menos a minha vida, menos a minha vida.

APOLINÁRIO – (Saindo) Até logo!

AMILETO – Velho ambicioso e fofoqueiro! Se puder mata o patrão e toma tudo, como aquele tomou do irmão.

 

 

ATO II

CENA 8

 

(À caminho da aguarda, Amileto encontra-se com Ofélia)

AMILETO – (Fala sozinho) Ser ou não ser, lutar ou não lutar. O que será mais nobre: sofrer passivamente todos os azares da vida ou insurgir-me contra a maré das privações e em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir: nada mais. Bastaria um sono e todas as angústias e as mil pelejas naturais – herança do homem – estariam acabadas: morrer para dormir… é um fim que muita gente deseja com fervor. Dormir… talvez sonhar. Mas aí é que está o obstáculo: quando nos libertarmos da barafunda desta existência, os sonhos que vamos ter no repouso da morte nos fazem hesitar. E é essa suspeita que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios. Quem sofreria os relhos e as afrontas do mundo, o agravo do opressor, o desprezo do orgulhoso, toda a dor do malfadado amor, a insolência oficial, as transgressões da lei, as mediocridades que o mérito paciente tem de suportar dos nulos – quem o sofreria quando pudesse quitar tudo com a ponta de um punhal? Quem carregaria fardos, gemendo e suando sob a vida fatigante, quem se deixaria expulsar de suas terras, vendo seu rancho ser queimado e sua roça destruída, se o receio da morte – essa região desconhecida cujas divisas jamais viajante algum atravessou de volta – não nos fizesse fraquejar a resolução, nem nos fizesse tolerar os nossos males de preferência a voar para outros não sabidos? O pensar assim nos acovarda e assim é que a decisão vacila e a pele se cobre com a brancura pálida da melancolia. Pior, desde que a gente se enrede em tais pensares, não há empresa, por maior que seja, que não mude de rumo e não cesse até mesmo de se chamar ação… Quieto, lá vem Ofélia!

OFÉLIA – Amileto! Onde vais?

AMILETO – Por aí. E tu, que fazes?

OFÉLIA – Estou voltando da Baixa. Tem mais um curso de alfabetização lá.

AMILETO – E em ti, tu pensas?

OFÉLIA – Como?… Que pergunta!!! Cada um pensa em si, mas quem muito exagera nesse sentido, não vive. O que vale a nossa vida se não doamos um pouco dela em benefício dos outros, mas ainda dos que sofrem?

AMILETO – Eu sofro. E o que fazes por mim?

OFÉLIA – Só recebe quem também sabe dar. Tu por acaso sabes? Tu só queres para ti, só te preocupas com os teus problemas, mesmo que o mundo à tua volta esteja em chamas.

AMILETO – É verdade. Melhor fora se minha mãe não me houvesse trazido ao mundo; sou demasiado soberbo, vingativo, ambicioso, com mais crimes ao meu dispor do que pensamento para abrigá-los, imaginação para dar-lhes forma ou tempo para cometê-los. Que adiantam indivíduos como eu entre o céu e a terra? Somo todos uns patifes rematados.

OFÉLIA – De que adianta se flagelar. Estás no mundo, queiras ou não, e às vezes não é tão fácil sair dele. Dizem que andas doido, mas eu não acredito.

Que há contigo? Por que não abres teu coração? De que valeram nossas juras? Nossas promessas, onde andam?

AMILETO – Não acreditas, não acreditas… mas no que acreditas? No meu amor? Não devias. Se casares, te darei esta praga como presente: sejas tão casta como a indiferença, tão pura como a gema do diamante, não escaparás à calúnia. (Anda de um lado para o outro) Ou, se tiveres que casar, casa com um desses tabaréus que costumas ajudar, pois um homem avisado logo descobrirá o chifre que colocarás nele.

OFÉLIA – Queres me ofender, mas bem sei que isso é encenado e não vem dentro de ti. Olha, Amileto, desconfio que coisa muito séria e pesada vai em teu coração, mas acho errado que te amargues desse jeito e não procures consolo e conselho com aqueles que podem te ajudar por serem teus amigos. Quando uma coisa assim vai na alma da gente, o perigo é deixar que fique encubada e, ao sair da casca, vire fúria ou loucura. Por que deixar que toda essa força exploda dentro de ti, quando a podes usar em tanta coisa útil? Tu bem sabes o que os posseiros estão sofrendo, o padecimento das famílias, gente sendo expulsa a ponta-pé e a golpe de facão, e nada fazes quando poderias muito.

AMILETO – (Perturbado) Também tenho ouvido falar, e muito, de como te pintas e andas saracoteando por aí, na casa de uns e de outros com essa história de ajudar aos que necessitam. Vives por aí imitando as crianças, apelidando as criaturas de Deus e fazendo tua malícia passar por ignorância. Foi isso que os padres e as freiras te ensinaram? Vamos, chega, foi isso que me pôs maluco. Digo-te, não mais teremos casamentos. Hão de viver os já casados – todos, exceto um – os restantes permanecerão como se encontram. Vai, vai cuidar de tua vida! (Continua seu caminho, gesticulando. Ofélia, muda, parece desconsolada)

(Amileto continua andando e se encontra com Horácio)

HORÁCIO – Ei! Onde vais? Estás sentindo alguma coisa?

AMILETO – O mesmo de sempre. Digo o que não sinto e firo a quem não devo. Todo meu ser é um só e dolorido nervo e basta um senão para que eu perca o domínio de mim próprio.

HORÁCIO – Teus olhos estão voltados para dentro e só vêem teus sofrimentos. Por que não olhas para fora?

AMILETO – Encontraste Ofélia?

HORÁCIO – Não. Por quê?

AMILETO – Dizes o mesmo que ela. Não te disso nada?

HORÁCIO – Por que diria? As verdades gerais não têm dono;são ditas por muitos das formas mais diversas.

AMILETO – Mas que queres que eu faça se sofrimento encobre minha vista e turva meus sentidos?

HORÁCIO – Já te disse: olha para fora. Não precisas olhar muito longe, basta reparar à tua volta. O que mais vale aqui? O homem ou o boi? O pobre veio para cá, suou pra amansar a terra e a mata. Quantos dos seus enterrou nessa mesma terra que planta? Quanto dor não sentiu de cansaço, de estrepada, de colheita ruim, de picada de cobra, de tremura de tersã, de febre braba? E olha que essa dor vem de longe, sempre renovada, e mais renovada e reforçada quando depois de tanta trabalheira é enxotado da terra como bicho danado…

AMILETO – Mais sempre foi assim…

HORÁCIO – É, sempre foi. Dês que Deus criou os ricos e os pobres, uns pra ter as coisas e os outros pra servir,pra trabalhar, não é assim?
AMILETO – …???

HORÁCIO – Mas eu pergunto quem deu essas terras pra teu tio e pro Dr Fortimbrás?Teu tio pegou o que era de teu pai, que por direito não passava de um posseiro como os outros. Era mais rico, é verdade, mas direito mesmo não tinha mais do que ninguém, pois isso tudo era e é terra devoluta.E agora teu tio vai lançando a cerca, cercando tudo com arame, do mesmo jeito que o Dr

Fortimbrás. E quem resiste eles apertam, cada um a seu modo, como a gente aperta semente de cacau para tirar apolpa.

Lembras do Chico da Zefa, aquele cabra trabalhador como quê? Hoje está enterrado com 3 tiros nas costelas e a mulher e os filhos estão no mundo, com a casa queimada, sem ter nenhum arrimo.E quantos não estão assim porque dois tocos da peste, ruins que nem desgraça ou bosta de porco, resolveram que essa terra toda é deles?E tu… Olha, vem gente.

AMILETO – Quem são?

HORÁCIO – Espera É Bernardo e outros… São amigos. (Bernardo e outros se aproximam)

BERNARDO – Boas tardes.

AMILETO e HORÁCIO – Boas

OS OUTROS – Boas

HORÁCIO – Tudo bem, Bernardo? Alguma novidade? (Acocoram-se todos)

BERNARDO – O de sempre.Estamos voltando da casa do Filipe. A jagunçada do seu Dr Fortimbrás foi lá amedrontar ele pra sair de cuia vazia, mas nós fomos falar pra ele agüentar que nós estamos com ele.

HORÁCIO – E se eles continuarem a queimar as casas e as roças?Como é que fica?

BERNARDO – A coisa tá difícil. O mais fácil pro corpo é a sepultura e nem essa pra nós querem dar direito. Mas porém agora agente arresolveu resistir e a maior fraqueza é desistir da coisa começada.Seu Cláudio e o seu Dr. Fortimbrás querem ser donos de tudo sobre a terra, mas isso ninguém pode ser Deus fez a terra para os homens e os animais; não deu pruns poucos os títulos pros outros o cativeiro, que quem não tem terra é mesmo que ser escravo. Quando  a gente chegou  aqui tudo era mato bruto. Derribamos a mata, fizemos o roçado situamos a mandioca, o bananal e as fruíteiras; se a gente fosse caboclo sem talento não tinha nada disso não.Agora querem tocar a gente, mandam derribar nossos cercados pro gado deles comer a maniva, o legume, tudo… A gente veio de longe pra fugir do cativeiro e quando espera lá vem ele de novo. Parece que não tem mais terra pra cristão viver…Já tamos cansados de ser que nem jumento de tropeiro que apanha, trabalha, sofre que faz dó, mas na hora que o dono balança a cuia de milho, desaba abanando o rabo.

AMILETO – Por  que vocês não vão pra mais longe?Para um lugar onde não haja essa disputa toda?

BERNARDO – Pra acontecer tudo de novo? E pra modo de que a gente tem que sair fugindo feito cão danado, se fomos nós que amansamos tudo aqui? Pra modo de que sempre nós é que precisamos viver como retirantes, sempre tocados, sem terra? Adespois que está tudo limpo, situado, chegam os ricos e carimbam a terra com a bosta do boi. Pronto, a terra é deles e agente é que tem de se tocar.Que diferença faz com o tempo do cativeiro? Também naqueles tempos a nossa vida  não valia nada, era como uma vela acesa: um sopro, pronto, acabava. Mas porém a gente morria como cristão, enterrado no chão santo e com uma cruz em riba da cova … Agora, matam o posseiro  de tocaia, estrepam na ponta dum  pau e quando é encontrado já tá com os olhos furados pelos urubus e a carne podre. Vida safada essa!

FRANCISCO – Eles tão derribando o resto da mata, vão derribando e tomando devagarinho  as colocações e cercando tudo. A posseirada procura os seus direitos e não acha. O que a gente quer é possuir um pedacinho de terra e

Não ser sujeito a ninguém, não dever obrigação. A terra tem que ser certa porque não adianta a gente vivermos numa terra assombrados. A gente precisamos viver também, precisa ter terra pra viver sossegado. Porque não adianta chegar num local, fazer uma benfeitoria, botar roçado, tanto o homem como a mulher, plantar macaxeira, milho, ter criação de galinha, de porco, pra depois botarem a gente pra fora  da colocação.

OUTRO – Da terra a gente tira o de comer, o de vestir, o remédio, tudo.. Mas os homens chegam e dizem que a terra é deles.. E quando a gente  procura os direitos, dizem que a justiça da terra deles é eles mesmo. E quem já viu justiça pobre? Gente desse sertão vive e morre sem ser alembrado. Então a gente achou que os pobres mesmo é que precisam se alembrar deles e acabar com esse esmorecimento que bate no povo quando chega a capangada pra tocar a gente. Por isso, é que agora tá todo esse burburim.

 

 

ATO II

CENA 9

 

(Casa de Cláudio. Cláudio e Apolinário conversam)

APOLINÁRIO – Não há como duvidar: Amileto está doido. Está esquisito. Fala atrapalhado, mas não perdeu o senso; não parece ter perdido a moral, o que não seria perder muito; e, o mais estranho, não perdeu o ânimo, com o que perderia tudo. É uma doidice diferente, com certa lógica. Só pode ser mal do coração.

CLÁUDIO – Pensei que os moços de hoje não tivessem mais disso. Amor! Ele não é disso. Algo lhe vai na alma, algum secreto que pode se tornar perigoso ao virar notícia. Algum mau pensar criou raiz no seu espírito e a cabeça, sempre martelando a mesma coisa, o tira da conduta usual. Que lhe parece?

APOLINÁRIO – Ainda acredito que o amor desenhado foi o começo e a origem do que lhe acontece. Vosmicê deve agir conforme o seu agrado. Seria conveniente que Dona Mundinha falasse com ele sem rodeios para que ele revelasse o que lhe atormenta. Se ele não se abrir, seria bom que fosse mandado pra qualquer sitio onde a prudência indicasse. Já é muita coisa ter esses posseiros e o Dr. Fortimbrás para azucrinar a vida da gente.

CLÁUDIO – Pois seja. É bom que faças isso. Não estou apreciando nada o jeito dele. Nem é seguro para nós que nessa loucura fique vagando à solta, com tudo o que está acontecendo por aí.

APOLINÁRIO – Sim senhor. (Sai)

(Cláudio fica só, andando de um lado para outro)

CLÁUDIO – Meu crime já tresanda aos céus. Já sinto sobre mim a maldição primeira, a mais antiga, a de matar o próprio irmão! Não consigo rezar: a culpa é ainda mais forte que o desejo. Ainda que o sangue fraterno aumentasse ao dobro esta maldita mão, haverá chuva nos céus para lavá-la e deixá-la sem manchas? Qual é a serventia da misericórdia, senão a de encarar o crime? E que há na prece, além do duplo poder de prevenir para que não caiamos, e de nos perdoar, quando caídos? Erguerei portanto os olhos. A minha falta é coisa passada; mas que forma de oração é a melhor que me cabe? “Perdoai o infame crime cometido?” Não pode ser: estou de posse de tudo pelo qual matei: terras, propriedades, ostentação, mulher. Terá perdão quem guarda o que alcançou por crime? O curso deste mundo está podre: o delito, quando o dinheiro vai na frente da mão, quase sempre afasta a justiça. É comum o prêmio da maldade comprar a lei. Porém lá em cima não é assim. Não há escapatória; lá o efeito é recebido segundo a sua verdadeira natureza. Somo senão forçados a depor em frente ás nossas próprias faltas… Que fazer? Que resta? Prova a força do arrependimento. O que não pode ele? porém, o que é que pode se alguém não consegue se arrepender? Arrependimento, consolo tardio dos fracos… miserável situação! Danada de alma que quanto mais luta para fugir, mais presa fica! E os posseiros que mandei dar cabo? Mas esses não contam… valei-me meu Senhor, para que eu tente! Verguem-se joelhos endurecidos! Coração de espinhos de tucum, fica suave como as carnes de algum recém-nascido! Tudo pode arranja-se ainda. (Ajoelha-se)

(Amileto entra e vê Cláudio ajoelhado)

AMILETO – Eu poderia agir agora, é o momento, agora que ele está rezando: – e vou agir. (Tira um punhal) Vou mandar esse peste para o outro mundo e assim fazer vingança. Mas, espera. É preciso que isso seja ponderado: um patife me assassina o pai; por causa disso, eu, filho único, despacho esse miserável… Não, isso é refrigério e paga, não vingança. Ele colheu meu pai farto de pão, impuro, quando floriam plenamente os seus pecados, com o vigor da primavera… E quem, exceto o céu, sabe como ele está na prestação de contas? Pesado deve ser seu castigo. Por acaso estarei vingado se colher este aqui enquanto ele purga a alma, quando está pronto e preparado para o transe? Não. (Guarda o punhal) De volta, lâmina. Sentirás o mais negro punho quando ele estiver na zonzeira da bebida ou empolgado pela fúria do desejo, ou no prazer pecaminoso de seu leito; ou no jogo, blasfemando ou cometendo um ato que não enseje salvação. Derruba-o então de pernas para o ar e de alma negra e condenada como o inferno onde cairá. Essa tua reza é um remédio que te serve unicamente para alongar um pouco essa existência doente. (Encosta-se à parede)

CLÁUDIO – (Erguendo-se) Minhas palavras voam, os pensamentos não; sem pensamento as preces não vão para o céu. (Sai sem ver Amileto)

(Amileto anda de um lado para o outro. Entra Raimunda)

RAIMUNDA – Ó Amileto! Eu te procurava.

AMILETO – Então, mãe, de que se trata?

RAIMUNDA – Tu ofendeste muito o teu pai, Amileto.

AMILETO – Ó minha mãe, muito ofendeste meu pai.

RAIMUNDA – Vamos, vamos, com língua doida repondes.

AMILETO – Ora, ora, com língua má me acusas.

RAIMUNDA – Que dizes?

AMILETO – De que se trata agora?

RAIMUNDA – Esqueceste quem eu sou?

AMILETO – Não, por Jesus, não: és a dona da casa, a esposa do teu cunhado e – antes não fosses – és minha mãe.

RAIMUNDA – Pois vou trazer então quem possa falar contigo. (Saindo)

AMILETO – (Segura-a pelo braço) Vamos, vamos, senta. Não te moverás, não sairás daqui sem que eu ponha na tua frente um espelho onde vejas o fundo de tua alma.

RAIMUNDA – Que queres fazer? Estás doido? Vou chamar teu pai. (Solta-se com um gesto brusco e sai. Amileto fica só)

AMILETO – Terá que ser agora. (Ouve-se passos, Amileto e Arranca o punhal e esconde-se ao lado da porta. Entram Raimunda e Apolinário). Como? Um rato? Um rato! Um mi-réis que ele vai morrer. (Dá uma estorada em Apolinário).

APOLINÁRIO – Oh! Estou morto!

RAIMUNDA – Ai de mim! Que fizeste?

AMILETO – E que sei eu? Não teu marido? (Vira Apolinário de frente)

RAIMUNDA – Que feito impensado, que ação sangrenta. Oh, Amileto, por que fizeste isso?

AMILETO – Sangrenta, sim. Quase tão má, boa mãe, como matarum pai e desposar um irmão.

RAIMUNDA – Matar foi o que eu disse. (Para Apolinário_ Adeus, tolo intrometido e temerário. Te tomei por alguém maior; aceita a sorte. Bem vês que há perigo em ser xereta. (Vira-se para a mãe) Ora, pára de torcer as mãos; calma, senta. E deixa-me ouvir teu coração. Eu o conseguirei se ele ainda não se tornou de ferro, impenetrável aos sentimentos.

RAIMUNDA – O que fiz eu para levantares a voz e ofensas Amim?

AMILETO – O que fizeste? Um ato, só um ato que mancha a graça da vergonha, que chama de falsa a virtude, que torna os votos do casamento perjuro como um jogador de dados. Um ato que arranca a própria alma do corpo do consórcio e faz da religião mais meiga um palavreado sem sentido. Sim, um ato perante o qual se afogueia o Céu, e a Terra treme de aflição como na expectativa do Juízo Final.

RAIMUNDA – Ai de mim, que ato?

AMILETO – (Leva-a para junto dos retratos na parede) Olha aqui, nestas fotos, a representação fiel de dois irmãos. Vê a inteireza deste rosto, sua fronte altiva, o olhar imperioso e ameaçador, uma atitude igual à de uma águia quando pousa na castanheira que beija o céu. Tudo afiançando que ali estava um homem. Este era teu marido. Olha agora o outro. Aqui está teu marido, espiga carunchada mirrando o irmão sadio. Tens vista? Deixaste de te avigorar neste belo maná para engordar nesta secura? Ah! Tens vista? Não podes dizer que é amor: em tua idade a excitação do sangue é dócil, faz-se humilde, serve ao bom senso. E que bom senso trocaria um pelo outro? Claro, tens sensações, ou não terias desejos. Mas a convulsão colheu-te os sentidos, pois o alheamento não era assim, nem os sentidos são escravos tão cegos da loucura: guardam algum senso para serví-los em tamanha diferença. Que diabo: assim te iludiu na cabra-cega? Os olhos sem o tato; o tato sem a vista; o ouvido sem as mãos e a vista; o olfato só. Ou só parte, doente, de um sentido veraz. Não poderiam extraviar-se desse modo. Vergonha! Onde é que está a vergonha? Inferno rebelde, se poder te revoltar pelos ossos de uma matrona, deixa que a castidade seja cera para a juventude fogosa e se derreta nesse fogo. Publica a inexistência de qualquer afronte quando os desejos da mocidade atacam: o próprio orvalho também queima ativamente e até a razão se torna alcoviteira da libertinagem.

RAIMUNDA – Não! Não fales mais. Fazes que eu volte o meu olhar para o interior de minha própria alma, onde diviso manchas negras que não sairão jamais.

AMILETO – E isso para viver no suor malcheiroso de um leito ensebado, onde fazes o amor…

RAIMUNDA – Chega! Chega! Essas palavras entram pelos meus ouvidos como punhais. Basta, Amileto querido, basta!

AMILETO – Um assassino e pulha, um vigarista que não vale um vigésimo do dízimo de meu pai, um bobo entre os bobos, um ladrão de gado, de bens e mando que roubou do armário as escrituras de posse e colocou no bolso…

RAIMUNDA – Oh, basta! …

AMILETO – Um traficante…

(Amileto olha espantado como se estivesse vendo o fantasma)

Valei-me anjo dos céus!

RAIMUNDA – Ai! Está doido!

AMILETO – Como te sentes, mãe?

RAIMUNDA – Ai, como te sentes? Isto sim. Fixas o olhar no ar e falas com ele; teus olhos vigiam como se vissem algo; teus cabelos se levantam e ficam em pé como se ganhassem vida. Aonde olhas?

AMILETO – Para ele, para ele! olha o seu brilho pálido! Para o ar. Não, não me fites com esse olhar de piedade. Acabarás transformando as minhas duras intenções: então aquilo que preciso consumar não apresentará seu aspecto verdadeiro, as lágrimas acabarão substituindo o sangue.

RAIMUNDA – Com quem falas?

AMILETO – Não vês nada?

RAIMUNDA – Nada, embora veja tudo quanto existe.

AMILETO – Não ouviste nada?

RAIMUNDA – Nada, a não ser a tua voz.

AMILETO – Pois vê, olha aí, olha como ele se retira! Meu pai, nas vestes que trazia quando vivo, vê como ele sai, agora.

RAIMUNDA – É tua cabeça que cria essa ilusão; a insânia é hábil em criar formas vazias.

AMILETO – Insânia! Não, meu pulso bate compassado e faz, tal como o teu, boa música. Na foi loucura o que eu disse. Põe-me à prova e eu te repetirei tudo, palavra por palavra, coisa de que a loucura fugiria aos saltos. Mãe, pelo amor de Deus, não esfregues tua alma com esse ungüento enganoso de crer que é minha insânia que fala, em vez de tua falta; isso somente cobriria levemente a ferida, enquanto tudo seria minado por baixo, arruinando-a sem ser vista. Confessa-te ao céu, arrepende-te do passado, evita pecar no futuro. Não espalhes estrume sobre as ervas más, o que as faria mais exuberantes. Perdoa à minha retidão estas palavras: na gordura em que ofegam estes nossos tempos, a honestidade tem que pedir desculpa à corrupção, curvar-se e pedir permissão para fazer-lhe o bem.

RAIMUNDA – Ó Amileto, partiste em dois meu coração.

AMILETO – Põe fora a parte pior: vive mais pura com a outra metade. Aquilo que prejudica é melhor se botar para fora. Boa noite. E não tornes ao leito de meu tio: se não és virtuosa, faças por ser. O hábito é um monstro que nos devora a percepção dos maus costumes, mas é também um anjo que nos permite a prática dos atos bons. Ainda uma vez boa noite. Quanto a este senhor, estou arrependido. (Mostra Apolinário) Mas foi o céu que assim dispôs, para punir-me por meio dele, e a ele com o que eu lhe fiz. Vou escondê-lo e dar total satisfação por essa morte. Assim, mais uma vez boa noite. Isto começa mal e pior será o restante. (Vai saindo mas volta) Uma palavra mais, mamãe.

RAIMUNDA – Que farei?

AMILETO – Nada daquilo que eu disse. Deixa que o inchado te atraia ao leito, bandalho te belisque a face e ao te chamar “Minha gatinha” por um par de beijos imundos, ele faça com que lhes reveles tudo: que eu realmente não estou louco, mas apenas dissimulo. Seria bom que lhe dissesses isso. Pois quem – tirante uma princesa, bela casta e prudente das histórias da carochinha – esconderia tal coisa vital de um sapo, de um morcego, de um chopim? Quem faria isso? Não, malgrado o bom-senso e a puridade, entra na cesta para ver em que dá isso. E rebenta a nuca na queda…

RAIMUNDA – Fica tranqüilo…

AMILETO – Sabes que querem me mandar para algum lugar longe do mundo?

RAIMUNDA – Ai! Sim, sim. Mas não é bem isso.

AMILETO – Veremos se não é uma cilada. Este homem vai fazer com que eu me mova rápido com meus pertences. Vou arrastar suas vísceras para o outro quarto. Mãe, boa noite de verdade. Enquanto vivo, como este capataz era falador e avoado: e ei-lo bem grave, bem discreto, bem calado… Vamos, senhor, pôr um final em seu caso. Boa noite, mãe.

(Sai arrastando o corpo; Raimunda cai em prantos)

 

 

ATO II

CENA 10

 

(Casa de Cláudio. Raimunda continua soluçando, caída. Entram Cláudio, Rosemiro e Gaudêncio)

CLÁUDIO – (Erguendo Raimunda) Que aconteceu? Tuas lágrimas são sentidas, devem ter motivos profundos que merecem explicação. Que é de teu filho?

RAIMUNDA – Deixem a gente sozinhos por um instante. (Saem Rosemiro e Gaudêncio) Oh, foi horrível!

CLÁUDIO – O que foi, Mundinha? Como está Amileto?

RAIMUNDA – Louco, tal como o vento e a castanheira lutando para ver qual o mais forte. Num acesso desgovernado, ao ver Apolinário entrar grita: “Um rato, um rato!” E assim pensando puxa a faca e mata o bom velho sem o ver.

CLÁUDIO – Terrível! Se fosse eu que tivesse entrado, seria o mesmo. Livre, ele ameaça a nós todos: a ti, a nós, a cada qual. Como iremos prestar contas desse crime? Vão nos culpar, pois já devíamos ter aprisionado e colocado fora de nosso caminho o jovem doido. Mas nós o amávamos tanto que não queríamos saber o que convinha. Do mesmo jeito o portador da doença malsã: pra manter secreta a doença ele deixa que ela lhe roa até a medula da existência. Onde está ele?

RAIMUNDA – Foi colocar o corpo do infeliz nalgum retiro. Sua loucura é tão pura côo o ouro no meio da ganga, pois ele chora o sucedido.

CLÁUDIO – Ora vamos, Mundinha. Tão logo toque o Sol no topo das árvores, vamos fazer com que bote o pé na estrada. É preciso que fique escondido por algum tempo, até acharmos uma solução para o feito. Temos que desculpar seu crime pela doidice. Ei, Gaudêncio! (Entram Rosemiro e Gaudêncio) Amigos, peguem algum ajutório e vão procurar Amileto. Em sua leseira, matou Apolinário e depois saiu puxando o corpo por aí. Vão atrás dele, falem macio com ele e tragam o corpo para a capela. Avise, por favor. (Saem)

Vamos, Mundinha, procurar os amigos que têm algum siso para que saibam o que pretendemos e nos aconselhem nessa hora precisa. Minha cabeça está confusa.(Antes que saiam, chegam várias pessoas. Cláudio fala com todos e depois pede que  a maioria se retire, só permanecendo 3 de mais idade , parecendo comerciantes e funcionários) Já íamos procurá-los.. Amileto está doido, maluco mesmo, e acabou matando Apolinário, pensando matar um rato. Mandei que o buscassem e procurassem o corpo. É muito perigoso que Amileto ande solto por ai. Mas não convém lhe impormos o rigor da lei, pois ele é querido pela população, que não estima com o juízo mas com os olhos. E quando é assim, o que preocupa é o relho no culpado e não o  crime. Para bem levar as coisas é melhor  que ele  suma no oco do mundo até  as coisas amansarem. Para aliviar  enfermidade desesperada temos que usar mezinha desesperada. Outra não há.

(Entram  Rosemiro, Gaudêncio e outros)

Então? Que aconteceu?

ROSEMIRO – Não conseguimos que contasse onde escondeu o corpo.

CLÀUDIO – Sim, e ele, onde está?

ROSEMIRO – Ai fora, e bem guardado.

CLÁUDIO – Tragam, tragam ele logo para dentro.

ROSEMIRO – Ei! Tragam Amileto.(Entra Amileto, escoltado)

CLÀUDIO – Vamos, Amileto: onde está Apolinário?

AMILETO – Num repasto.

CLÀUDIO -Num repasto?Onde?

AMILETO -Não onde come, mas onde  é comido.Certa reunião de vermes está com ele agora: o verme é o único rei. Fazemos com que todos os peões comam para trabalhar e trabalhem para nos cevar. E nós nos cevamos a nós mesmos para as larvas..O fazendeiro gordo e o mendigo esquelético são apenas comidas diferentes, dois pratos diversos, mas destinados a uma só mesa:este é o final.

CLÁUDIO – Que lástima! Que lástima!

AMILETO – É possível que alguém pesque com o verme que comeu o fazendeiro e depois coma o peixe que engoliu o verme.

CLÁUDIO – Que queres dizer com isso?

AMILETO – Nada, apenas mostrar como um fazendeiro pode viajar pelas entranhas de um  mendigo.

CLÁUDIO – Onde está Apolinário?

AMILETO – No céu – manda ver, já que lá não podes entrar. E se te disseram que lá não está, vai tu mesmo procurar no outro paradeiro. Mas se realmente não o encontrares dentro de um mês, haverás de descobri-lo pelo olfato ao passares em frente da despensa.

CLÁUDIO – Vão buscar.

AMILETO – Não se apressem. Ele ficará esperando até que vocês cheguem. (Saem)

CLÁUDIO – Embora o que fizeste no magoe, para tua própria segurança terás que te afastar daqui hoje mesmo. Prepara-te para ir para a quinta do compadre Argileu, no rio do Peixe.

AMILETO – No rio do Peixe? É uma boa caminhada.

CLÁUDIO – Certo. E terás que ir de canoa e de a-pé. Sairás logo à noitinha, com Rosemiro e Gaudêncio.

AMILETO – Bom.

CLÁUDIO – É o que acharias se soubesses a nossa intenção.

AMILETO – Tenho um anjo da guarda que sabe. Vamos, porém! Para o compadre Argileu! Adeus querida mãe.

CLÁUDIO – Teu extremoso pai, Amileto.

AMILETO – Minha mãe – pai e mãe são marido e mulher; marido e mulher, uma só carne; logo, minha mãe. (Volta-se para Rosemiro e Gaudêncio) Vamos.

(Sai)

CLÁUDIO – (Para Rosemiro e Gaudêncio antes de acompanharem Amileto) Sigam-no bem de perto. Não dá para levar os animais. Assim, partam logo que a tarde cair. E levem essa carta para entregar em mãos do compadre.

(Saem todos, exceto Cláudio)

CLÁUDIO – Se nalguma coisa prezas minha amizade, compadre Argileu – e posso, à força, te mostrar o que ela vale – não negligenciarás no mandato que seguiu na carta. Prepara uma tocaia bem feita e tira Amileto do nosso caminho. Não esmoreças, Argileu, que esse rapaz é como a sezão que ataca meu sangue e me enfraquece a cada tremedeira. Suceda o que de bom me possa acontecer, minha alegria não retornará enquanto eu não souber cumprido esse mandato. (Sai)

 

 

ATO III

CENA 11

 

(Um caminho. Amileto, Rosemiro e Gaudêncio seguem por ele, o dia já claro. Encontram uma cerca onde trabalham alguns peões)

AMILETO – Bons dias. Já cedo no trabalho, hein!

UM PEÃO – Bons dias. É a necessidade que faz o galo cantar mais cedo e tirar a gente da rede.

AMILETO – Que mal pergunto, de quem é essa cerca?

O PEÃO – É do seu Dr. Fortimbrás, sim senhor.

AMILETO – Fortimbrás? Até aqui ele anda cercando?

O PEÃO – É cerca de não acabar mais. Nós fizemos uma empeleita pra modo de esticar umas 6 mil braças de cerca de 4 fios de arame. O seu Dr. Fortimbrás quer plantar capim em tudo e jogar o gado aí dentro logo, logo. Diz que é também pra não deixar roubar as madeiras de lei.

AMILETO – E os posseiros das beiras? Vai ficar tudo dentro da cerca?

O PEÃO – Fica não senhor. O gerente do seu Dr. Fortimbrás já mandou aviso que é pra modo deles desocuparem os sítios. Tem uns que se assentaram faz poco e queriam arrendar, mas é tudo mesmo sopra gado. Nada de agregado nem rendeiro, que o homem só quer pasto. Mas têm uns aí dizendo que não saem não.

AMILETO – Quer dizer que vão brigar?

O PEÃO – É… tá parecendo. Não vai ser coisa fácil não. O seu Dr. Fortimbrás tem muito homens e o gerente diz que também tem os soldados pra ajudar a arrancar os moradores. Ter terra hoje tá a maior dificuldade.o que sobra é trabalhar de pião rodado e ainda corre o risco de levar chumbo em vez de receber o pagamento.

AMILETO – Mas não são vocês mesmo que ajudam a pôr fogo na casa dos moradores?

O PEÃO – Somos não. Isso é coisa da jagunçada contratada sopra modo desse serviço. É gente da pior. São eles também que ficam vigiando a gente pra não fugir. Nós tudo fomos ajustados por um “gato” com as maiores promessas. Tudo era pra ser do melhor: salário, alojamento, comida, tudo … Mas porém quando a gente chegou aqui a conversa foi outra. A mentira só aturou mesmo o tempo que levou pra verdade chegar: a comida é repunante; os alojamentos são uns trastes sem serventia, quando chove é uma goteirada que ninguém consegue tirar um sono; o salário a gente nunca vê. Inté hoje ainda tamos devendo a viagem e o armazém faz as dívidas crescerem que nem mato ruim. É que nem ser cativo. E se a gente tenta fugir, a jagunçada tá aí mesmo…

AMILETO – E por que vocês saíram da terra de vocês? Lá não estava bom?

O PEÃO – Como era de não sair de lá se não havia mais terra pra plantar nem trabalho pra arrumar o de cumer? Nem de alugado tava dando mais; os homens tão virando tudo em pasto pra botar boi, ou então trabalhando só com máquina. Pra eles é muito bom que dá mais dinheiro. Mas porém pra pobreza só é perdição: quem tem terra pouca é apertado inté vender; quem era morador tem que sair que patrão nenhum quer mais rendeiro por lá. O jeito que tinha era ficar de bóia-fria pegando o serviço que aparecer ou então se mandar pra esse oco de mundo onde sempre haverá de aparecer uma posse ou umas empeleitas boas de se juntar algum dinheiro. A gente nunca que ia maldar que a coisa era preta desse jeito: posseira tá é levando ferro em brasa e pião tem que andar sem se espritar senão a coisa fica feia pro lado dele.

AMILETO – Quantas almas e quanto esforço para alimentar a ambição de uns. Isso é um tumor que vai rebentando por dentro e por fora não mostra qual a causa do rompimento. Mas não há de ser nada: Deus está velando por nós.

O PEÂO – Tomara, seu moço. Às vezes a gente inté  duvida que Deus teja se alembrando : é tanta miséria, tanto crime, tanta perdição. A  gente entra aqui

na fazenda como gente , mas só sai fugido, como se fosse assassino. Eles botam os pistoleiros atrás e matam mesmo. Só mesmo  no  desespero quando  a  maleita bate firme e o remédio que sobra é a fuga .Porque peão não é atendido nem na segunda fala.. A primeira é quando a gente se queixa da doença e depois da segunda é a terceira: não fala mais.O Quelé veio comigo do Maranhão; não tinha nem 18 anos, queria fazer a  vida, enricar.Ai deu uma febre danada e ele ficou prostrado na mata. Então foram na sede chamar o gerente pra buscar ele lá, na caminhoneta. Mas o gerente disse  que a camioneta estava desmantelada e não mandou buscar o menino na mata. O

Quelé ficou lá no mato morrendo e o gerente não quis fazer nada. Ele diz que

não tem obrigação, não assina carteira nem nada pra não ter essa obrigação.O Quelé morreu antes da gente conseguir chegar com ele no povoado.Trouxemos na rede presa na vara se revezando. Inté  que o pobrezinho não pesava muito.E pra terminar, não pagaram nem o  salário da derriba  que era pra gente mandar pra família dele.

AMILETO – É, Deus  precisa mesmo se lembrar deste mundo. Vamos  chegando que a caminhada é longa. Obrigado pela atenção. BBom dia para todos. Até mais.

PEÕES – Bom dia. Siga na paz do Senhor.

(Rosemiro e Gaudêncio seguem adiante)

AMILETO – Como falam contra mim os incidentes, como me agrilhoam a desafronta tardia! Que é um homem, se apenas dormir e alimentar-se são o seu bem mais alto e o preço do seu tempo?um animal, nada mais. Certo, aquele que nos fez com o dom do raciocínio, de tão longo alcance que vê atrás e adiante, não nos presenteou essa capacidade ou a razão divina para mofar sem uso. Deve ser portanto esquecimento bestial, ou alguma hesitação covarde de meditar com preciso nas conseqüências, que eu viva só para dizer “Devo fazer tal coisa”, pois possuo razões, vontade, força e meios para consumá-la… Essa meditação, se for dividida, há de mostrar uma parte de juízo e três de covardia. E tudo me ferroa. Aqueles peões são testemunhas. Alugados por um ambicioso que faz muxoxo às conseqüências desconhecidas expõe o que é mortal e não seguro àquilo que a fortuna, a morte e o risco se abalançam por uma casca de ovo, uma nesga de terra que por maior que seja jamais vai fartar seu apetite, eles cercam a si próprios e aos seus quase se darem conta. Mas os outros são grandes na defesa de seu sítios… Se deveras grande não é mover-se sem possuir grandes motivos. É com grandeza achar razão de briga numa simples ninharia se a dignidade está em jogo. Como é que fico eu, pois, eu cujo pai foi morto e aviltado a mãe, estímulos de sobra para a razão e o sangue, e deixo tudo em paz. Ao passo que descubro, para minha vergonha, a morte ameaçando inúmeras famílias que caminham para a tumba. Lutam por uma nesga onde sequer conseguem tirar o sustento e que talvez nem lhes sirva de abrigo para recebê-los depois da morte. Será sangrento o que pensar daqui por diante, ou tudo o que eu pensar será sem valor. (Sai)

 

 

ATO III

CENA 12

 

(Um caminho. Horácio encontra-se com Bernardo, Marcelo e outros)

HORÁCIO – As coisas andam ainda mais confusas na vila. Laertes voltou e quer vingar a morte do pai. A filha do velho Apolinário ficou tantã e anda por aí fraca do juízo.

BERNARDO – É pena. Era a única que prestava na família. Dava o maior apoio aos pobres.

OS OUTROS – É sim!

HORÁCIO – Pois é. Não sei se ela está assim pelo pai ou pelo Amileto. Ou pelos dois.

BERNARDO – Seja o que for, as coisas só vão piorar. É bem capaz que a gente do Dr. Fortimbrás aproveite isso tudo pra modo de aumentar o fuxico e entrar por dentro das terras do seu Cláudio. Os homens dele continuam expulsando o pessoal sem pagar nem indenização e eu já soube que estão planejando cercar a aguada. O que eu não sei é se o seu Cláudio vai topar isso. Por que pra fechar só se for os dois conjuminados. E eles andam brigando que nem cachorro e onça acuada.

HORÁCIO – Cercar a aguada? E como é que vai ficar o povo todo pra apanhar água? E os animais?

MARCELO – É o jeito melhor pra tocar a gente. Essa é a única aguada boa que se tem pra tirar água de beber e de fazer comida. Sem essa água o pessoal não pode trabalhar e sem trabalho não se vive.

(Aproxima-se um peão)

PEÃO – Boas! Que mal pergunto, onde é que eu encontro um seu Horácio?

BERNARDO – Pra modo de que é que vosmicê quer falar com ele?

PEÃO – Pra entregar uma carta do seu Amileto. (Mostra a carta)

BERNARDO – Foi ele mesmo que te mandou?

PEÃO – O próprio. E mandou também duas cartas prum seu Cláudio. É esse mesmo o caminho?

HORÁCIO – É esse mesmo. A do Horácio pode entregar que a gente dá pra ele. (Recebe a carta) Obrigado! Na vila tem pouso e o de-comer.

PEÃO – Inté mais pra vosmicês.

TODOS – Inté!

HORÁCIO – (Abre a carta e lê em voz alta) “Horácio, muita coisa aconteceu desde que si daí. Por tudo isso que te contarei quando nos encontrarmos, resolvi voltar. Estou seguindo com um circo que vai ser armado aí. O que tenho para dizer te fará perder a voz. Do teu amigo, Amileto”. Agora é que as coisas vão feder. (Saem)

 

 

ATO III

CENA 13

 

(Casa de Cláudio. Este e Laertes conversam)

CLÁUDIO – Agora que sabes a verdade deves me  considerar novamente como o amigo que sempre fui. Ouviste bem que quem matou teu pai queria a minha vida.

LAERTES – Claro. Mas diga uma coisa: por que não agiu contra esses malfeitos?

CLÁUDIO – Por dói motivos que talvez sejam fracos para ti, mas que são fortes para mim. Vive Mundinha, mãe que é de Amileto quase tão  só de olhá-lo. E ela, para ventura ou desgraça minha, é tão importante para mim que não posso magoá-la. O outro motivo porque não pude entregá-lo para prestar contas à justiça é a amizade que lhe devota o Zé-povinho. Esta, mergulhando em seu afeto as faltas dele, tal como o boto volta ao rio depois de desencaminhar as moças, converteria em ornamento as cordas com que o amarrássemos. E assim, as minha flechas, de madeira leva para agüentar tão forte vento, voltariam ao meu próprio arco, sem chegarem ao seu alvo.

LAERTES – E assim me encontro com o pai morte e a irmã apalermada. Que posso fazer a não ser vingar-me?

CLÁUDIO – Não deixes que isso te tire o sono. Não pense que somos de matéria bronca e mole, a ponto do perigo nos puxar os cabelos e ainda acharmos divertido. Logo teremos boas notícias. Teu pai me era caro; e eu também o sou. E isso, ao que espero, te dará a entender…

(Entra o peão portador das cartas)

Que há? Que queres?

PEÃO – Cartas pro seu Cláudio. É vosmicê? São de seu Amileto. Diz que uma é pra mãe dele.

CLÁUDIO – De Amileto? Quem trouxe?

PEÃO – Eu mesmo, nhô sim!

CLÁUDIO – Muito bem, dá aqui. (Pega as cartas) Já se arranchou? Vai lá pra cozinha e fala com as mulheres. (Sai o peão) Ouve o que ele manda dizer, Laertes. (Lê) “Senhor. Por esta ficará sabendo que nu amanhã chegarei em casa. E aí chegando, relatarei o motivo de meu regresso inesperado e, mais que inesperado, estranho. Amileto”. Que dizer disto? Voltaram Rosemiro e Gaudêncio? Ou, simples impostura, nada disso existe?

LAERTES – Reconhece a letra?

CLÁUDIO – Sim: de Amileto. “Nu…” e no canto aqui diz: “Sozinho num circo”. Tens explicação?

LAERTES – Estou confuso, mas que venha! Me dá conforto ao coração dolorido o fato de eu viver para atirar-lhe ao rosto: “Olha o que tu fizeste”.

CLÁUDIO – Sendo assim, Laertes, deixa que eu te conduza.

LAERTES – À vontade, contanto que não queira impedir a desforra.

CLÁUDIO – Se ele voltou de fato, abandonando a viagem, vamos fazer com que se meta numa empreita já madura em meu juízo e onde ele terá que cair. Por essa morte não soprará um simples vento de censura. Até a mãe dele não desconfiará de nada, falando em acidente.

LAERTES – Às ordens, seu Cláudio. E ainda melhor se planejar de forma que eu seja o executor.

CLÁUDIO – É verdade que teu pai te era caro? Ou és como a pintura de uma dor – rosto convulso, porém sem coração?

LAERTES – Por que pergunta?

CLÁUDIO – Não que eu suponha que não amavas teu pai. Mas sei que o amor é criado pelas circunstâncias. E, vejo em ocorrências que me dão a prova, que o tempo lhe esmorece o fagulhar e as chamas. Há por dentro da própria chama da afeição uma espécie de torcida ou de mecha que a abranda. Não perdura em igual bem-estar, pois o que é bom em demasia morre de excesso. O que queremos consumar devemos consumar no instante em que o queremos. Pois muda esse “queremos”, a sofrer quedas e tantos adiamentos quanto são os rios, e são as mãos e os acidentes. O “devemos” é nessa altura como um lágrima de sangue que dói para derramar. Mas indo ao vivo da ferida: -Amileto voltou. Que tencionas fazer para demonstrar, mais com atos que com falas, que és filho do teu pai?

LAERTES – Cortar-lhe a goela em plena Igreja.

CLÁUDIO – O crime, com efeito, não deveria achar asilo sagrado quer que fosse, nem vingança conhecer quaisquer fronteiras. Mas, bom Laertes, é melhor agir assim: fica em tua casa. Amileto será inteirado de teu regresso, mas lhe diremos que estás conformado e tudo esquecido. Armaremos alguma coisa onde haja muita gente e lá, com punhal de ponta envenenada e golpe traiçoeiro, sem que ninguém note, lhe darás a paga pela morte de teu pai. Bastará um arranhão um pouco mais fundo.

LAERTES – É o que farei. Mas vamos pensar em mais alguma coisa, pois se este fracassa, teremos que ter outro.

CLÁUDIO – É verdade. Se a má execução nos deixa o monde à mostra, melhor é não tentar. Logo, este projeto deve ter às costas um outro para o caso de necessidade. Calma, vamos ver. Faremos tudo numa discussão com os posseiros. Amileto ás vezes quer tomar o partido deles, esquecendo que se eles vencem, também ele perde. O mesmo fazia tua irmã. Bem, mas isso não vem ao caso. Vamos aproveitar a situação para acertar as contas com Amileto e também com os posseiros. Se falhar o plano do punhal envenenado, armamos uma confusão onde uma bala achará o rumo de Amileto. Disso te encarregarás e nosso intuito se consumará… Mas quieto, vem alguém aí.

(entra Raimunda, chorando)

Mundinha, o que tens, que aconteceu?

RAIMUNDA – Um infortúnio sempre segue ao calcanhar de outro, tal a pressa com que se seguem. Tua irmã se afagou, Laertes.

LAERTES – Como? Afogou-se! Onde?

RAIMUNDA – Onde há um chorão, pra baixo da guarda. O igarapé havia tomado água e ela resolveu atravessar assim mesmo. A correnteza carregou com ela que acabou presa nos ramos do chorão. Quem viu diz ela não fez força nenhuma pra se salvar.

LAERTES – Mas, afogou-se, então?

RAIMUNDA – Afogou-se, afogou-se.

LAERTES – Pobre Ofélia! De que vale chorar, se tens excesso de água? Todavia, é humano, persiste a natureza em sustentar seu hábito, diga a vergonha o que quiser. Cessando o pranto, terá findado em mim a parte feminina. Já vou. (Vai saindo)

CLÁUDIO – Vamos juntos. Vamos, Mundinha. Tive o que fazer para acalmar-lhe a raiva! E veio outra desgraça. Temo que a cólera retorne. Vamos juntos, vamos. (Seguem Laertes)

 

 

ATO IV

CENA 14

 

(Cemitério. Coveiros conversam)

COVEIRO 1 – Deve ser enterrada em sepultura  cristã aquela que por própria

Conta acha a sua salvação?

COVEIRO 2 – E que outro tipo de sepultura existe? O padre disse que vai encomendar  sua alma. Portanto, abre logo a cova.

COVEIRO 1 – Como pode isso, a menos que ela tenha se afogado em defesa própria?

COVEIRO 2 – Ora,decidiram que assim foi.

COVEIRO 1 – Deve ser se ofendendo, não pode ser de outra forma.Este é o ponto:se me  afogo por conta própria, isso mostra um ato, e um ato tem 3 partes, a saber:pensar, fazer, consumar; logo, ela se afogou por conta própria.

COVEIRO 2 – Não, ouve bem , mestre coveiro.

COVEIRO 1 – Com licença.Aqui está a água-_bem..Aqui está o homem—certo. Se  o homem vai `a  água e se afoga, de qualquer modo, queira ou não

queira, ele vai presta atenção nisso. Mas se a água vai a ele e o afoga, ele não se afoga—logo, aquele que não é culpado de sua própria morte  não abrevia sua própria vida.

COVEIRO 2 – Mas é essa a lei?

COVEIRO 1 – Sim por certo que é.

COVEIRO 2 – Queres saber a verdade?  Se ela não fosse  filha de gerente de fazendeiro, não teria enterro cristão.

COVEIRO 1 – Ora, tu disseste, e é uma lástima  que  os grandestenham neste mundo o privilégio de se afogar  ou se enforcar mais do que os seus irmãos em Cristo… Vamos, minha pá!  Não há gente fina mais antiga do que os jardineiros, escavadores e coveiros__continuam o ofício de Adão.(entra na cova aberta)

COVEIRO 2 – E Adão era gente fina?

COVEIRO 1 – Foi o primeiro a andar armado.

COVEIRO 2 – Ora, não trazia nenhuma arma.

COVEIRO 1 – O que, és pagão? Como entendes as Escrituras? As Escrituras dizem que Adão cavou: podia ele cavar sem estar armado de braços? Vou te fazer outra pergunta. Se não me  responderes certo, confessa que és um asno.

COVEIRO  2 – Vamos a ela.

COVEIRO 1 – Quem é que constrói mais maciço que o pedreiro, o fazedor de barcos , o carapina?

COVEIRO 2  – O construtor de cadeias, pois essa  construção dura mais do que mil ocupantes.

COVEIRO  1  – Aprecio a tua sabedoria .Vai bem a cadeia_mas vai bem como?

Vai bem para aqueles que vão mal. Ora , vais mal dizendo que a cadeia é mais maciça do que a Igreja__logo , a cadeia pode ir bem  para ti.Outra vez, vamos.

COVEIRO 2 – “Quem constrói mais maciço que o pedreiro, o fazedor de barcos, o carapina”?

COVEIRO 1 – Sim, responde e encerra essa canseira.

COVEIRO 2 – Claro, agora sei dizer.

COVEIRO 1 – Diz, então.

COVEIRO 2 – Por Deus, não sei..

COVEIRO 1 – Deixa de malhar a cabeça por causa disso, pois o burro teimoso não anda mais depressa por força das pancadas.E quando fizerem outra vez essa pergunta, responde:”o coveiro”.As  moradas que ele fazz duram até o Juizo Final .Vamos, vai até o boteco e traz um caneco de cachaça. ( sai o Coveiro 2)

(Amileto e  Horácio se aproximam)

COVEIRO 1 – (Cava e canta)

Quando eu amava amava, e jovem era eu,

Parecia excelente

Fazer os dias curtos em proveito meu

Oh, não me parecia conveniente.

AMIELTO – Esse tipo não tem consciência de seu trabalho? Olha como canta abrindo a cova!

HORÁRIO – O hábito lhe deu a isso um caráter indiferente.

AMILETO – É isso mesmo. A mão que pouco trabalha tem o tato mais delicado.

COVEIRO 1 – (Canta)

Porém a idade, com passos ocultos,

Em sua garra me colheu;

E para a terra me embarcou,

Como se assim jamais tivesse sido eu.

(Joga uma caveira)

AMILETO – Essa caveira possuía língua e antigamente podia cantar! Como esse cara a atira ao solo, como se fosse a queixada de Caim, que cometeu o primeiro assassinato! Essa pode ter sido a cabeça de um enganador, que esse asno agora sobrepuja; de alguém que teria gostado de enganar a Deus, não pode?

HORÁCIO – Pode.

AMILETO – Ou de sacristão, capaz de dizer: “Bom dia, caro senhor! Com está estimado senhor?” Este pode ter sido o fazendeiro fulano, que desdenhava o cavalo do fazendeiro sicrano quanto tinha intenção de comprá-lo barato, não pode?

HORÁCIO – Pode.

AMILETO – Ora, é isso mesmo. E agora pertence à senhora Vermina, desqueixado e golpeado no cocoruto com a pá de um coveiro; eis uma bela mudança. Quem dera pudéssemos vê-la! Custou tão pouco a formação desses ossos, que servem apenas para fazer farinha? Só de pensar nisso os meus me doem.

COVEIRO 1 – (Canta)

Uma enxada, uma pá, uma pá

E também a envolvente mortalha:

Oh uma cova se fará,

Que tal a tal hóspede bem calha.

(Joga outra caveira)

AMILETO – Olha outra. Não será – quem sabe – a caveira de um advogado? Onde estão agora suas distinções, suas chicanas, seus processos, seus direitos de posse e suas tramas? Como é que suporta que esse coveiro rude lhe aplique cacholetas com uma pá imunda, e não lhe fala num processo por lesões corporais? (Pega a caveira) Hum! Esse indivíduo talvez tenha sido em seu tempo um “grileiro”, com seus títulos patrimoniais ou cartas de doação forjadas para transformar em seu domínio pleno a propriedade pública e a dos outros. É este o final de tais “rolos” e o resultado de tantas vigarices? Ficar com o crânio cheio de pura sujeira? As próprias escrituras de suas terras dificilmente caberão nesta caixa (bate na caveira) e o próprio dono não possui mais terras do que cabe nela, não?

HORÁCIO – Nem mais um grão que seja.

AMILETO – O papel não é feito da celulosa das árvores?

HORÁCIO – Sim, e de outros vegetais.

AMILETO – São estúpidos como árvores e vegetais os que põem no papel a sua segurança. A lei não vale nada contra a morte. Vou falar com esse cara. (Adianta-se) De quem é a sepultura, amigo?

COVEIRO 1 – Minha. (Canta) Oh, uma cova se fará

Que a tal hóspede bem calha.

AMILETO – Penso que é tua, realmente, pois estás nela.

COVEIRO 1 – Estás fora dela, portanto não é tua. Por minha parte, não estou fazendo nela, e todavia é minha.

AMILETO – Mentes ao dizer que é tua por estares nela. É par o morto, não para o vivo, portanto mentes.

COVEIRO 1 – É um vivo desmentido; logo, voltará de mim para ti.

AMILETO – Para que homem a cavas?

COVEIRO 1 – Para homem nenhum.

AMILETO – Então para que mulher?

COVEIRO 1 – Para nenhuma tampouco.

AMILETO – Quem é que vai ser enterrado nela?

COVEIRO 1 – Alguém, que era mulher mas, paz à sua alma, está morta.

AMILETO – Que preciso é este sujeito! Temos que falar direito senão o duplo sentido nos perderá. Por Deus, tomei nota disto nestes último 3 anos, Horácio: o tempo se fez tão agudo, que o pé de um camponês se aproxima do calcanhar de um fazendeiro a ponto de esfolar-lhe a frieira… Há quanto tempo és coveiro?

COVEIRO 1 – Entre todo os dias do ano, comecei neste serviço aquele dia em que o seu Dr. Fortimbrás pisou a primeira vez nessas matas dizendo que as terras devolutas eram dele. A partir daí o serviço só vem em aumento.

AMILETO – E quanto tempo faz isso?

COVEIRO 1 – Não sabes? Qualquer bobo sabe. Foi 6 meses antes do dia em que o velho Amileto morreu. E agora, pelo que dizem, o filho ficou louco e foi mandado de volta para o Sul.

AMILETO – Sim, com efeito; por que o enviaram para o Sul?

COVEIRO 1 – Ora, porque estava louco. Lá ele ficará bom do juízo ou, se não ficar, lá isso não tem muita importância.

AMILETO – Por que?

COVEIRO 1 – Não perceberão a loucura dele; lá todos são tão loucos como ele.

AMILETO – Como foi que ficou louco?

COVEIRO 1 – De modo muito estranho, dizem.

AMILETO – Estranho como?

COVEIRO 1 – Por fé, perdendo o juízo.

AMILETO – E que deu lugar a isso?

COVEIRO 1 – Lugar? Endoideceu aqui mesmo. Há 10 anos que moro aqui.

AMILETO – Que tempo leva um homem para apodrecer na terra?

COVEIRO 1 – Por fé, se não estiver podre antes de morrer – pois hoje em dia temos muitos cadáveres engalicados que mal resistem ao sepultamento – durará uns 8 ou 9 anos. Um curtidor durará 9 anos.

AMILETO – Por que mais do que os outros?

COVEIRO 1 – Ora, o ofício lhe curte tão bem a pele, que esta o protegerá da água bastante tempo; a água destrói qualquer filho-da-mãe de cadáver. Aqui está uma caveira – está enterrada faz muitos anos.

AMILETO – De quem era ?

COVEIRO 1 – De um filho-da-mãe louco, de quem julgas que tenha sido?

AMILETO – Não sei. Mas como cheira mal. Irra!… (Depõe a caveira) Aonde podemos chegar, Horácio! Uma pessoa, por mais importante que tenha sido, acaba virando pó e a gente pode bem dar com ela servindo de enchimento numa choça de taipa.

HORÁCIO – Não estás exagerando?

AMILETO – Não, nem um pouco. Segue o meu raciocínio: – Fulano morreu, Fulano virou pó, o pó é terra, da terra fazemos o enchimento; e por que com essa massa de enchimento, na qual ele se converteu, não podiam rebocar uma choça de taipa?

Finado e feito argila, o imperador Pedro II pode vedar alguma fresta contra o vento. Um homem coroado, que mandou tanto tempo, agora está tampando paredes contra a chuva do inverno! Mas quieto, olha quem vem lá! Minha mãe, meu tio, um bocado de gente. (entra o cortejo conduzindo Ofélia num caixão aberto e, acompanhando-o, Laertes, Cláudio, Raimunda e um padre)

AMILETO – De quem é o enterro? Só pode ser de gente conhecida. Vamos evitar que nos vejam. (Retiram-se e sentam ao lado, meio escondidos)

(O cortejo chega junto à cova. O padre faz a encomendação de praxe).

LAERTES – Baixem-na à terra. E que dessa carne pura nasçam violetas! (O caixão é colocado na sepultura) Ouçam o que eu digo: quando estiverem no inferno, minha irmã será um anjo auxiliador.

AMILETO – Como? Ofélia!…

LAERTES – Maldição par aquele que te privou do juízo! Esperem, não a cubram de terra até que a estreite mais uma vez nos braços! (Salta na cova) Joguem agora a terra sobre o vivo e a morta até converter o chão num monte.

AMILETO – (Adianta-se) Quem é esse homem que lança maldições sem saber das razões mais profundas da alma?

LAERTES – (Pula da cova e se agarra com Amileto) Que o diabo leve tua alma!

AMILETO – Tu não rezas direito. Tira esses dedos do meu pescoço, peço-te.pois se não sou irrefletido nem colérico, tenho contudo em mim algo de perigoso que deve ser receado pelo teu juízo. Retira a mão.

CLÁUDIO – Desatraquem os dois.

RAIMUNDA – Amileto! Amileto!

TODOS – Separem, separem!

HORÁCIO – Calma, Amileto, calma!

(São separados)

AMILETO – Ora, quanto a este assunto eu lutarei com ele até que as minhas pálpebras não mais se movam.

RAIMUNDA – Que assunto, meu filho?

AMILETO – Eu amava Ofélia: 40 mil irmãos, somando o seu amor, não chegariam nunca ao meu total. Que é que farás por ela?

CLÁUDIO – Ele está maluco, Laertes.

RAIMUNDA – Pelo amor de Deus, deixem ele em paz.

AMILETO – Pelas chagas de Cristo, dize o que farás. Carpir? Lutar? Ficar em jejum? Dilacerar-te? Beber vinagre? Devorar um jacaré? Eu farei tudo isso. Vieste aqui para chorar? Para me desafiar, pulando em sua cova? Ordena que te enterrem vivo junto dela e eu agirei igual. Se falas de montes, deixa que atirem sobre nós milhões de alqueires. Não, se o que queres é papaguear alto, eu gritarei ainda mais, seguindo o teu exemplo.

RAIMUNDA – Isso é loucura; tenham paciência que logo o acesso passa e ele sossegará.

AMILETO – Ouve, por que me tratas assim? Sempre fui teu amigo, mas isso pouco importa: por maior que seja a força, o gato há de miar e o cão terá seu dia.

CLÁUDIO – Por favor, vai com ele Horácio. (Saem Horácio e Amileto)

(À parte para Laertes) Reforça tua paciência com a fala que tivemos ontem à noite, vamos dar ao combinado pronta execução. Logo veremos a hora, mas enquanto isso, paciência, paciência…

 

 

ATO   IV

CENA  15

 

( Caminho da aguada: Amileto, Horácio , Marcelo, Bernardo e outros numa roda  )

AMILETO  – Vamos ao caso.Lembram  como   saí daqui na boca da noite, fugido, mais o Rosemiro e o Gaudêncio? Pois bem, caminhamos a noite toda

e mais o dia e resolvemos pousar na entrada da segunda noite.Armamos as redes e o cansaço nos empurrava para o sono.Os dois logo ressonavam, mas uma espécie de luta em meu coração não  me deixava dormir.Eu me sentia

pior que um condenado. Alguma coisa me incomodava. Por que o  Cláudio

entregara a Rosemiro e não a mim a carta para o seu compadre Argileu?
HORÁCIO – É verdade! Por que?

AMILETO – Resolvi  tirar tudo a limpo.A insensatez às vezes nos vale quando falham os melhores planos. Levantei sem fazer bulha, apalpando de leve as roupas, encontrei o envelope..Consegui descolar na fumaça da fogueira.Fui pra trás de umas moitas e com a lanterna ajudando, li o bilhete.Sabem  o que dizia? Que o Argileu, pelos antigos motivos que ligavam  ele e meu tio, e pelo fato de eu ser um matador e um demo, deveria logo que lesse a carta, sem mais demora, preparar uma tocaia e acabar comigo.

HORÁCIO – Será  possível?

AMILETO – Aqui está a carta.Queres ler o que diz ou queres escutar o modo como agi?

HORÁCIO – Conta, conta.

AMILETO – Correndo o perigo da armadilha, nem mesmo havia pensado no que está escrito e já a cabeça começava a preparar o salvamento. Eu me assentei e fiz outra carta, caprichando a letra. Fiz com Cláudio, lembrando as dívidas e as contas do Argileu, e também as amizades e os futuros favores. Por isso tudo, mal lesse o escrito que seguia, sem discutir nem um pouco nem bastante caso, mandasse seus cabras dar morte imediata aos portadores, sem mesmo dar-lhes tempo de confessa-se. E que mandasse o resultado pelo sobrinho Amileto que seguira com os dois por motivo de ser de confiança.

HORÁCIO – E aí?

AMILETO – Dobrei tudo do jeito da outra, botei no envelope e consegui colar novamente, botei tudo no lugar onde estava. Andar de gato não acorda sono pesado. Voltei pra rede e de manhã seguimos viagem.

HORÁCIO – Desse jeito Gaudêncio e Rosemiro caminharam para a morte feito gado?

AMILETO – Pois se eles casaram com esse ofício, homem! Não, não me pesam na consciência; a perdição vem deles terem, eles próprios, se insinuado. É perigoso alguém, de condição mais baixa, colocar-se entre o bote e as pontas dos facões de adversários fortes.

BERNARDO – É verdade. Isso acontece com quem é pau-mandado e pistoleiro de fazendeiro e grileiro. Os dois já tinham um bocado de mortes e malvadezas nas costas. Tinham sido bate-paus em São Domingos antes de seu Cláudio trazer os dois pra cá. Foi bem pregado.

AMILETO – Pensem bem no que é capaz esse meu tio. Nem parece que foi irmão d meu pai. Que nem Caim, matou o irmão e prostituiu  minha mãe tomou tudo que por direito era meu e ainda quis apanhar no anzol a minha própria vida. Não é de todo justo pegar-lhe com este braço? Não é ser um excomungado deixar que esse verme continue a praticar seus crimes?

BERNARDO – Nesse mundo tem gente que não vale o que come. E são os que mais comem. Não pense vosmicê que é o primeiro a sofrer o engano desse homem. O causo do seu Amileto dói mais em vosmicê porque é própria carne. E os causos nossos doem mais porque é a nossa carne e é também o nosso viver. Como é que a gente pode continuar vivendo se tiram de nós os meios com que a gente se sustém: a terra e a água?

HORÁCIO – Não pode!

BERNARDO – Pois é. Mas porém seu Cláudio e seu Fortimbrás, cada um mais ganancioso que o outro, tão fazendo de tudo pra expulsar a gente das terras. É certo que eles também andam se matando e se roubando, mas até nessabriga os que sofrem mais somos nós. Vosmicê sabe bem. Nós não temos escrituras, mas as deles também não têm cadeia, são falsas. E nós tamos aqui desde quando o velho Amileto se assentou. As leis do usucapião valem nada mais não? Os direitos são nossos e por isso a gente está arresistindo, apela pras autoridades, conversa. Quando é preciso, bota bate-pau pra correr. Nós não queremos violência, mas se a gente tem que morrer de fome é melhor morrer brigando. Agora tão querendo fechar a aguada pra modo de os moradores não terem onde apanhar água. Nós não vamos deixar não senhor.

AMILETO – Mas isso é verdade  mesmo?

MARCELO – É de gente que ouviu a trama dos dois. Quando é contra a gente eles esquecem a diferença e se juntam. Mas tomara que não seja verdade.

AMILETO – É, tomara. De qualquer modo vou dar um jeito no meu tio. Esse caso é meu e quero que esse segredo não saia dessa roda.

TODOS – (Concordam com gestos diversos)

AMILETO – Amanhã inaugura o circo, vocês já sabem? Pois é, na sessão eu vou dar um modo de fazer que todo mundo saiba que Cláudio matoumeu pai. Vocês não precisam se meter, deixem por minha conta. Se depois eu não cosneguir fugir, não faz mal: minha promessa estará cumprida.

BERNARDO – É, tamos sabendo. Mas vosmicê tome cuidado pro seu Cláudio não lhe acabar primeiro. Ele anda de muita conversica com aquela bisca do Laertes, que é tão bom como o velho Apolinário…

MARCELO – Bom pras profundas…

BERNARDO – É, é isso mesmo. E vamos indo, minha gente, que já é tarde. Intém amanhã. (Todos levantam-se e despedem-se. Amileto e Horácio continuam juntos e caminham para a casa de Cláudio. No caminho encontram Eurico, um comerciante e fazendeiro amigo de Cláudio)

EURICO – Boas, Amileto!

AMILETO – Boas. (Para Horácio) Conheces este mosquito?

HORÁCIO – Mal e mal.

AMILETO – Maior é a tua felicidade, pois é um pecado conhecê-lo. Possui terras, muitas e férteis; se um burro for dono de gado, a mesa de meu tio há de ser seu cocho. É um papagaio, mas como digo, um asno que meu tio gosta de ter à mesa.

EURICO – Cheguei hoje e já estive com seu tio. Ele havia me pedido pra conversar com o juiz da comarca sobre o seu caso pra ver se podia ser alegada legítima defesa. Já dei a resposta pra ele. o juiz disse que pode e que vai ser um caso fácil.

AMILETO – E se eu responder que não é.

EURICO – Se você disser, não será. Mas não vejo como…

AMILETO – Como o que me aparece. Não é assim que se faz?

EURICO – Bem, mas eu estava dizendo…

AMILETO – Que está frio, o vento vem do sul.

EURICO – É, é certo. Está frio.

AMILETO – Mas pro meu gosto está abafado.

EURICO – É, é, muito abafado. Mas como eu ia dizendo, seu tio quer ver você pra falar sobre o caso do juiz. Por sorte lhe encontro.

AMILETO – Quem, o juiz?

EURICO – Não, não, o juiz eu encontrei antes; depois, encontrei seu tio; e agora você. Bem, bem, o pedido foi bem feito; agora é só providenciar. Vou andando que ainda tenho alguns negócios para acertar antes de seguir viagem.

HORÁCIO – Lá vai o chopim.

AMILETO – Antes de mamar ele já fazia rapapés ao peito que o aleitava. Assim, esse indivíduo e muitos outras da mesma ninhada que, bem sei, a nossa idade sem juízo aprecia, apenas apanharam o palavreado da moda e as exterioridades sociais. Isso é uma espécie de cobertura espumosa que os torna aceitáveis mesmo para as pessoas de julgamento sensato. Mas, se soprarmos esses indivíduos para experimentá-los, as bolhas rebentam. Esse é um deles. Comercia com Cláudio e Fortimbrás e, se puder, faz com que os dois se matem dependendo do lucro que possa ter. E é capaz de derramar as lágrimas mais sentidas pelo acontecido. Se meu tio o colocou na trama é porque boa coisa não estão pensando. (Seguem para a casa de Cláudio)

 

 

ATO IV

CENA 16

 

(Casa de Cláudio. Cláudio, Laertes, Amileto e Horácio)

CLÁUDIO – Oi, Amileto. Espero que estejas melhor. Gostaria que esquecêssemos o que passou e não guardasses rancor de Laertes. Ele é um bom rapaz e também estava perturbado. Vamos, apertem-se as mãos.

AMILETO – Desculpa, Laertes.bem sabes que não anda muito bem da saúde e isso às vezes me atrapalha o juízo.

LAERTES – Está certo, eu me dou por satisfeito. O que aconteceu, aconteceu, já sei que não foi de propósito. Melhor continuarmos amigos.

CLÁUDIO – Isso mesmo. E para selar o trato, vamos todos juntos amanhã ao circo, na inauguração. Concordas, Amileto?

AMILETO – Tudo bem, não há porque recusar.

CLÁUDIO – Ótimo! Bom, vou ter que sair para acertar uns negócios.

LAERTES – Eu também, até logo. (Saem Cláudio e Laertes)

HORÁCIO – Tramam alguma coisa.

AMILETO – Eu sei, e é para amanhã. Não podes calcular a angústia que me oprime o coração – pouco importa porém.

HORÁCIO – Nesse caso…

AMILETO – É uma bobagem; mas uma espécie de pressentimento que talvez fosse mais comum de perturbar mulher.

HORÁCIO – Por que não arranjas um jeito de não ir?

AMILETO – De modo algum; não devemos desdenhar o presságio. Há uma providência evidente na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia – estar pronto é tudo. Já que ninguém sabe, por coisa alguma do mundo, o momento exato de morrer, por que nos preocupamos? Além do mais, se eles tramam alguma coisa, eu também tramo. Ficam elas por elas. (Saem)

 

 

ATO  V

CENA  17

 

(No circo, ainda vazio, Amileto conversa com os atores)

AMILETO – Rogo que vocês digam o trecho como lhes mostrei. Mas não gesticulem demais, serrotando o ar com a mão. Fica ridículo um ator dilacerar uma paixão até a pôr em trapos, em verdadeiros molambos e rachar os ouvidos das pessoas da platéia, que na maior parte são incapazes de apreciar coisa diversa de confusas pantomimas e barulheira.

ATOR –  Tem razão. Mas nossos recursos são pobres e temos que fazer do que gostam, senão ficamos vazios.

AMILETO – Eu sei. Mas não custa tentar ajustar o gesto à palavra, a palavra ao gesto, com o cuidado de não ultrapassar a natural moderação. O exagero foge ao propósito do drama: o objetivo deste, a princípio e agora, nas capitais e no interior, foi e é oferecer como que um espelho à natureza, mostrar à virtude os seus próprios traços, à zombaria a sua própria figura, à sociedade a sua verdadeira forma e imagem. Ora, o exagero ou a deficiência, embora façam rir o pouco experiente, desgosta o judicioso.

ATOR – mas o exagero e a deficiência também existem na vida. E o judicioso só chega a tanto depois de ganhar experiência.

AMILETO – Eu sei, eu sei. Mas nem por isso os atores devem gritar e mugir tanto que nos levem a pensar que os homens tenham sido feitos por aprendizes da natureza. Não se pode imitar a humanidade de forma tão desumana.

ATOR – Fazemos força. Bem, com licença, que vamos nos preparar. (Sai por trás da cortina)

(Chegam diversas pessoas, inclusive Horácio)

HORÁCIO – Oi, Amileto. Já tão cedo?

AMILETO – Oi, Horácio. Vim conversar com os artistas, viajamos juntos. Mas escuta amigo Horácio: tu és um amigo de verdade; és um daqueles nos quais tão bem se ajustam as paixões e o tino. E são bem-aventurados porque para a Sorte eles não são o gado que obedece conforme o jeito que ela toca o búzio. Dá-me o homem que não seja escravo da paixão e eu porei no fundo do meu coração, no coração do coração, onde eu guardo a tua amizade. Mas basta. Cláudio virá ver o drama: uma cena aproxima-se de como meu pai foi morte. Quando chegar o trecho peço que prestes atenção no meu tio: se a culpa que ele esconde não sair da furna, então as visagens que vi não passaram de alucinações e minhas suspeitas nada valem. Observa-o com atenção que cravarei o meu olhar no rosto dele. Confrontando depois nossas impressões, chegaremos a uma conclusão certeira.

HORÁCIO – Certo. Hoje o circo vai lotar.

AMILETO – Estão chegando. Vamos nos sentar.

(Entram Cláudio, Raimunda, Laertes e outros. O circo vai se enchendo)

CLÁUDIO – Eh, Amileto, ficamos esperando por ti pra virmos juntos. Não foi o que combinamos?

AMILETO – Aqui pelo menos a casa é minha, já que é de todos. E eu posso cevar o capão que quiser.

CLÁUDIO – Não sei o que queres dizer. Tuas palavras não me dizem respeito.

AMILETO – Não, nem a mim que as soltei. (Para Laertes) É verdade que fazias teatro na escola?

LAERTES – É. Representei algumas vezes e até que bem.

AMILETO – E que papéis fizeste?

LAERTES – O último que fiz foi o do imperador Júlio César. Era assassinado pelo próprio afilhado Bruto.

AMILETO – Ato de Bruto abater um tolo tão importante. Oh, vai começar.

(Entra o Mestre de Cerimônias: apresenta os números de forma empolada, sotaque estrangeirado. Palhaços, contorcionistas, etc. revezam-se. Afinal o Mestre de Cerimônias apresenta o grande espetáculo da noite)

MESTRE – E agora, estimado e grandioso público, temos a honra de apresentar-vos o grande drama “A rainha que esqueceu seu amor”. (Sai)

(Aparecem dois atores: um rei e uma rainha)

ATOR–REI –

Já tanto tempo faz que neste solo

Muitas colheitas passaram e em teu colo

Vezes sem conta adormeci; belos noturnos

Já completaram doze vezes trinta turnos

Desde que nos ligou amor o coração

Em mútua e sacrossanta união.

ATRIZ-RAINHA –

Outras tantas jornadas dêem-nos Sol e Lua

E nesse prazo nosso amor não se destrua!

Mas, infeliz de mim! Andas tão doente agora,

Tão longe da alegria e bem-estar de outrora,

Que me aflijo por ti. Percebo-me agoniada,

Mas tal não deve preocupar-te em nada,

Pois na mulher receio e amor andam a par.

Ou ela não os sente, ou sente a fartar.

Tu já tiveste prova desse meu amor,

E se ele é forte, também o é o meu temor:

Se o amor é grande, é medo a mínima apreensão;

Onde um receio medra, ai medra a paixão.

ATOR-REI – É certo, amor, tenho de um breve te deixar;

Minhas forças vitais já cessam de operar.

Querida e honrosa ficarás neste famoso

mundo: talvez quem sirva, meigo, para esposo

Encontres e…

ATRIZ-RAINHA –

Não prossigas a este respeito!

Seria um outro amor traição neste meu peito!

Valha-me um novo enlace como se fora um castigo,

Só tem marido novo quem matou o antigo.

As razões que conduzem a segundas bodas

Não são de amor: lucro, eis o que impele a todas.

Mato de novo o meu esposo falecido

Ao me beijar no leito o meu atual marido.

ATOR-REI –

O que disseste – penso – é o que achas realmente,

Mas quebrantamos decisões freqüentemente

De escravo da memória o intento não nos passa.

Forte ao nascer, possui vitalidade escassa;

No galho, como um fruto verde, ei-lo seguro,

Mas cairá espontaneamente de maduro.

De todo em todo é inevitável que esqueçamos

De nos pagar o que a nós m,esmo nos devemos,

E o que intentamos no calor de uma paixão,

Mal finda esta, esquece-a a nossa decisão.

A força da alegria ou bem das aflições

Destrói consigo mesma as suas intenções,

E onde a alegria folga, a dor põe seu lamento,

Se à toa ri a dor, chora o contentamento.

Fugaz é o mundo: não é pois de se estranhar

Que o próprio amor varie acompanhando o azar

Pois esta é uma questão que permanece em tela:

A sorte guia o amor, ou este guia àquela?

Se o grande cai, vão-se os favoritos; se o mendigo

Sobe ao poder, seu inimigo vira amigo.

O amor é escravo da fortuna, e de tal guisa,

Que já não perde amigos o que não precisa.

E se na adversidade se prova o amigo falso,

Amadurece um inimigo em ta percalço.

Mas, onde comecei, ai vou terminar:

Correm-nos tão contrários a vontade e o azar,

Que irá sempre o que tivermos planejado:

O pensamento é nosso, não o resultado.

Pensas que não terás segundo casamento,

Porém eu morto, morrerá tal pensamento.

ATRIZ-RAINHA –

Negue-me pão a terra, luz o firmamento,

Descanso a noite, o dia todo entretenimento,

Mudem-se fé e esperança em desesperação;

Oh! Que eu aspire ao banco e à cela do ermitão!

O contrário ante o qual o gozo empalidece

Combata e arrase tudo quanto me apetece,

Que a provação eterna venha me acossar

Aqui e no além, se novamente eu me casar!

AMILETO – E se ela quebrasse o voto!

ATOR-REI –

Solene jura! Deixa-me um instante

Meu ânimo entorpece, e o dia entediante

Quero iludir com o sono. (Deita e adormece)

ATRIZ-RAINHA –

Que te embale a dormência,

E nunca nos separe amarga contingência! (Sai)

AMILETO – Mãe, que está te parecendo a peça?

RAIMUNDA – A dama faz proteste demais, penso eu.

AMILETO – Mas manterá a palavra.

CLÁUDIO – Escutaste o argumento? Não contém nenhuma ofensa?

AMILETO – Não, não, tudo não passa de brincadeira, veneno de brincadeira, não existe nenhuma ofensa.

(Entra outro ator, segurando um frasco. Caminha em direção ao rei adormecido, ameaçador)

ATOR –

Negro o desígnio, exata a droga e pronta a mão.

Ninguém! Justo o tempo e aliada a ocasião,

Ervas que à meia-noite fostes apanhadas

E da peçonha da surucucu infectadas;

Oh, roube-lhe, veneno, a vida neste instante

Com teu poder natural, mágico e horripilante.

(Derrama o veneno no ouvido do rei adormecido)

(Cláudio empalidece e parece passar mal)

E agora, com esta pedra fora do caminho,

Tudo livre para fazer um novo ninho

Com a viúva nova e rica; e com as terras

Um novo império, de campos e serras

Antes que rei invasor, de seu fortim,

Me tome tudo, tim-tim por tim-tim.

(Começa a dançar em roda)

AMILETO – (Olhando para Cláudio, comenta com Horácio) Viste amigo Horácio o pálido no rosto de Cláudio?

HORÁCIO – Sim, observei muito bem. (A platéia toda cochicha entre si)

(Para um soldado)

SARGENTO DA POLÍCIA – Esse drama está parecendo com a história deo velho Amileto e do seu Cláudio. Hum, isso não está cheirando bem, vai acabar dando em confusão.

CLÁUDIO – (Para Laertes) O bandido fazendo vez de doido, bestando por aí; deve ter arranjado esse drama com os artistas pra ver o que eu fazia…

LAERTES – O que tem isso a ver com você?

CLÁUDIO – Deixa pra lá. Vai te preparando que vou armar uma confusão e é hora de colocar nosso plano pra funcionar. Não vai…

(Chega um soldado da polícia e comunica em voz-alta para o sargento)

SOLDADO – Tá a maior confusão no caminho da aguada. O gerente e os peões do seu Dr. Fortimbrás querem cercar o caminho e tem um monte de posseiros que não quer deixar. Pe bom o senhor ir lá.

(Murmúrios generalizados. Todos se levantam e saem)

TODOS – Vamos, vamos lá.

 

 

ATO V

CENA 18

 

(De um lado do caminho, os posseiros, destacando-se Bernardo, Horácio, Francisco, Marcelo; do outro, o gerente e jagunços; meio `a parte, peões. Chega o pessoal que estava no circo: uma grande parte juntasse aos posseiros, outra fica à parte junto com os peões; Cláudio e Laertes juntam-se ao gerente.. Amileto vacila, mas acaba ficando com os posseiros.O sargento e os soldados interpõem-se entre os posseiros eos jagunços, mas de frente para os posseiros. CLÁUDIO__O bandido não defende nem o que é dele.Allém de assassino, fica do lado dos baderneiros

AMILETO – Assassino é quem mata o próprio irmão para lhe roubar os bens e a mulher.Se há alguém que deve ser preso é ele .

SARGENTO – Calma, calma, isso agora não vem ao caso. Assunto de família  não se mistura com isso..Vamos se espalhar e deixar quem tem de trabalhar fazer o seu serviço.

BERNARDO – Cumé  que é isso, seu sargento.Quer dizer que o sr. tá  aqui

pra garantir que  cerquem a aguada e deixem o povo todo sem ter onde apanhar água pro de cumer e beber?

SARGENTO – A terra é dos homens e eles tem direito de cercar o que é seu.  O jeito é cada um furar seu poço.

MARCELO – A aguada é de serventia pública  e não pode ser cercada. Além do mais aqui as terras são todas devolutas e é dono quem chegar primeiro. E dês os primeiros que o caminho e a aguada são de serventia geral.

CLÁUDIO – O primeiro aqui fui eu e quem está cercando sou eu de comum acordo com o Dr. Fortimbrás.

AMILETO – Esse meu tio mente como ladrão de cavalo. Os primeiros foram meu pai e outros posseiros que sempre respeitaram a aguada. E meu pai nunca expulsou ninguém das terras nem queimou casas nem mandou matar ninguém como faz essa jagunçada.

GERENTE – Essa conversa já tá demais da conta. Vamos acabar logo com isso que os peões têm de trabalhar. É só dar as ordens, sargento.

SARGENTO – Calma, calma, muita calma. Aqui cada um tem as suas razões e as minhas ordens são para evitar atritos.

FRANCISCO – Olha, seu sargento. Aqui todo mundo era pobre, mas vivia; quando chegou esse seu Dr. Fortimbrás e o seu Cláudio tomou o que era do irmão, chegou a fome e a desgraça. Nunca mais gente teve jeito de colher uma roça sossegado. Quem não aceita trabalhar de peão e não vai simbora, ele manda queimar tudo: a casa, as roças e a gente mesmo, que bala de carabina também queima. Tá todo mundo aí de prova pra provar que o que tou dizendo é verdade. E o campo santo tá cheio de cruzes pra gente contar a história de cada morto direitinho. Se cada uma cruz desse 3 anos de cadeia pros mandantes, seu Dr. Fortimbrás e seu Cláudio nunca mais viam o sol nascer redondo.

BERNARDO – Paguei um preço muito caro pra ter minha terrinha aqui. Morreu 3filhos e a mulher nesse chão bruto o sangue deles taí. Eu não comprei a terra, mas eu amansei ela. E todos que tão aqui fizeram do mesmo jeitim. Agora não deixam a gente trabalhar, que é a maior capacidade que deus deu pra gente. Vivem implicando, fazendo tudo que é malvadeza pra tocar a gente daqui. Até a água que é coisa que cristão nenhum deve negar aos outros, querem tirar de nós. Mas já tamos cansados de tanta mudança. Já mudamos demais da conta, sempre deixando nosso suor e nosso sangue pra trás, na terra que valorizamos com o nosso trabalho. E a gente sempre sai com quase nada, mais pobre do que chegou. Por isso, é que enquanto tiver um apelo e um morador em redor a gente fica. E não vamos deixar botarem cerca nessa serventia. Se a gente deixar é o mesmo que deixar botarem a canga no nosso pescoço.

(Há um movimento no grupo dos peões. A maioria deles passa para o lado dos posseiros)

UM PEÃO – E já é tempo também, seu sargento, das autoridades saberem os horrores que a peãozada passa na mão desse gerente. A gente vive que nem escravo. Eles sempre dão um jeito da gente não receber nada: vendem tudo muito caro no armazém e tamos sempre devendo. E com dívida não deixam ninguém sair. A jagunçada tá aí mesmo pra garantir essa ordens. Desse jeito a gente nunca consegue pagar a dívida, sempre fica devendo mais, vira cativo deles. E quem tenta fugir desse cativeiro é morto, não tem apelação. Não foi poucas vezes que a gente encontrou sepultura com mais de um corpo quando tava roçando e derribando mato. Tudo corpo de pião morrido de doença e de morte matada. Mas qual é a diferença entre morrer de doença sem receber socorro e morrer de tiro de um jagunço?

OUTRO PEÃO – Não tem nenhuma, mas se vosmicê for contar tudo que é corpo  encontrado vai ver que são emparelhadas as mortes de tiro e de doença.e quem comanda tudo é esse gerente aí. Agora com tanta testemunha o seu sargento tem que garantir a nossa vida pra gente ir simbora. Porque o boato que corre entre os peões é que a polícia quando pega peão fugido prende, dá o maior pau e devolve pra fazenda.e peão fugido devolvido é peão morto.

SARGENTO – A polícia existe para garantir a ordem. Os peões fugidos prendemos é porque havia queixa de roubo contra eles.

PEÕES – Tudo mentira. Ninguém é ladrão, não. Inté a roupa os que fugiam deixavam. Come que pode ser ladrão?

GERENTE – P senhor tá dando muita conversa pra esses vagabundos e ladrões. Vamos logo acabar com isso, sargento, que a gente tem que fazer a cerca.

AMILETO – Ninguém vai fazer cerca nenhuma.

CLÁUDIO – Cala boca, seu intruso. Não se meta nesses assuntos. (Para Laertes) Se prepare que vai sair confusão e é hora de botar nosso plano em ação.

GERENTE – (Para peões e jagunços) Vamos, pessoal, vamos logo enterrar as estacas e esticar o arame.

POSSEIROS – Vai não!

(Arma-se grande confusão. Ouve-se imprecações e, em dado momento, tiros. Após estes todos saem, exceto Amileto, Cláudio, Laertes, 1 posseiro, o gerente, 1 jagunço e 1 soldado – mortos – e mais alguns feridos, gemendo pelos cantos)

 

 

ATO V

CENA 19

 

(Os mortos espalhados conforme caíram. Retornam Horácio, o Sargento e 3 soldados de polícia e examinam os corpos. Afastados pelos cantos, grupos cochicham)

HORÁCIO – Que desgraça!

SARGENTO – (Para um soldado) Vai na casa do enfermeiro e fala pra ele vir aqui. Só pra descarrego e pra atender os feridos. Depois avisa o Toinho pra preparar o jipe: tem que ir na comarca buscar o doutor pra fazer o exame antes de enterrar e também precisa passar de lá um rádio pro delegado regional.

Diacho! O demo quando não vem manda sempre um portador. Eu bem que disse pro gerente que era preciso tomar tenência com o serviço pra não ter merma. (Dirige-se ao soldado anterior) Vai, vai fazer a tua parte enquanto eu preparo os dizeres do rádio. (Saem)

HORÁCIO – Que desgraça!

(Chega Bernardo)

BERNARDO – A ignorância é danada pra provocar tudo que é tragédia, seu Horácio. Quem diria que ia acabar dando nessa mortandade.

HORÁCIO – É, o que vai ter de polícia aqui amanhã… O melhor é recolher o seu povo e se preparar para o que der. Enquanto os espíritos estiverem desnorteados, mais desgraças podem ocorrer.

BERNARDO – Lá isso é verdade. Pode ser que com essa desgraceira a justiça de Deus, que tarda mais não falha, venha chegando e os casos de terra fiquem em paz por uns tempos. Mas porém pode ser também que o seu Dr. Fortimbrás, que agora está sozinho, resolva aproveitar pra querer tomar tudo de uma vez. E, nesse causo, eu não sei o que vai ser. Eu só sei, Horácio, que essa terra tem visgo e nós já cansamos de rodar de um canto pro outro e sofrer como cachorro danado. Mas de tanto sofrer a gente já aprendeu o jeito e ganhou coragem. E ter coragem é saber sofrer. A coragem dos fracos é maior que as injustiças dos homens porque sem sofrimento também é maior. Pobre nunca tem alegria a não ser depois de muita dor e se Deus marcou a hora não há bicho ou cristão que se salve. É por isso que dessa vez a gente não arreda o pé das posses. Que Deus livre a gente do pior. Inté mais, Horácio. (Sai)
HORÁCIO – Se eu pudesse, viajava com o vento. Mas não, eu devo ficar. Só assim poderei contar ao mundo, que não sabe como estes fatos sucederam, tudo que aconteceu e que ainda pode acontecer. E o que pretendo contar são ações carnais, mortes fortuitas e desgraças; execuções ditadas pela manha e a coerção e no remate, intenções mal consumadas que acabaram recaindo sobre aqueles que as tramaram. Afinal, quem em muitas pedras bole, uma lhe cai na cabeça. Mas não só isso. Pretendo contar a vida desse povo errante e retirante, que desde muitos séculos vem sendo tocado feito rebanho para abrir as novas frentes agrícolas e nunca é deixado trabalhar em paz. Povo que às vezes perde a fé e a esperança, (pois se o mundo fosse bom o dono morava nele) mas que logo depois ergue de novo a cabeça para esse mesmo Deus que o abandona e em seu nome suporta os maiores sofrimentos e no mais das vezes morre na desgraça vendo a fartura ao seu redor. Por que esse povo, cuja melhor qualidade é a simplicidade e cuja maior infelicidade é a submissão, apesar de tudo, consegue suportar as humilhações sem cair no servilismo e se endurece sem perder a ternura, quase nunca.

Vós e o mundo, que nem de longe imaginam  como a fome é tirana, nem que a coragem do dia-a-dia dessa gente vem do seu aprendizado com o sofrimento, bem poderiam acordar com as mortes deste drama, e com as verdadeiras que todo dia são noticiadas.E também endurecer o coração sem nunca perder a ternura, já que se a terra deve ser de todos por que é de Deus, um dia isso terá que ocorrer por bem ou por mal. Continuar retirante quando não houver para onde ir é que não será  possível.

(Chega o sargento, todos se aproximam  dos cadáveres, levantam-nos e os carregam para fora do palco.)

 

 

Rio de janeiro, 14 de julho de  2006

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *