A revolução de outubro e os países do Oriente: o caso da China – palestra proferida na USP

WPO | PRO | A revolução de outubro e os países do Oriente: o caso da China – palestra proferida na USP, São Paulo, dez. 2007.

 

 

Quando a Revolução de Outubro de 1917 ocorreu nas terras russas, suas ondas de expansão fizeram-se sentir também em todo o Oriente, principalmente porque o império tsarista derrubado estendia-se até o extremo oriental, e possuía concessões na Mongólia e na Manchúria. A proclamação da república socialista da Mongólia, e a disposição do novo poder dos soviets de tratar os demais países e nações em pé de igualdade, tiveram impacto sobre aquela parte do mundo, ainda dominada pelo colonialismo imperialista do século 19.

No caso da China, os efeitos da Revolução de Outubro de 1917 se dão no contexto de um país com uma tradição de mais de dois mil anos de revoltas e guerras camponesas, e com fortes embriões de um movimento revolucionário de caráter nacionalista e democrático-burguês.  Desde 1905, esse movimento ganhara uma nova configuração, com a fusão da Sociedade ou Liga pelo Renascimento da China (Xin Zhong Hui) e da Sociedade ou Liga pela Regeneração da China (Guang Fu Hui), dando vida à Liga Revolucionária de China (Dong Meng Hui), sob a direção do Dr. Sun Iatsen. Seu objetivo: livrar a China do duplo jugo estrangeiro, representado pela dinastia Qing (manchú) e pelas potencias imperialistas, que haviam retalhado a China em concessões territoriais, alfandegárias, comerciais, de transporte, financeiras, e de extra-territorialidade.

O Dr. Sun Iatsen defendia o ponto de vista de que a libertação da China só poderia ocorrer através da combinação de ações políticas e militares, tendo em conta que a dinastia manchú e o domínio imperialista se sustentavam com o apoio dos contingentes militares dos senhores de guerra e das tropas estrangeiras. Em 1911, depois de uma série de experimentos de revoltas armadas, a Liga Revolucionária aproveita-se das divisões e conflitos entre os senhores de guerra e a monarquia manchú, alia-se a uma parte daqueles, derruba a monarquia e o império manchú, e estabelece a República.

Porém, a Liga Revolucionária não possuía forças armadas suficientemente fortes para contrabalançar o poderio dos senhores de guerra. Estes unificam seus pequenos partidos políticos no que chamaram de Guomindang (Partido Nacionalista) e, sob o comando de Yuan Shikai, o grande senhor de guerra do Norte, afastam a ala do Dr. Sun Iatsen, em 1912. Com isso, embora tenham derrubado a cambaleante dinastia manchú, os mesmos senhores de guerra, que antes a sustentavam, empolgam o poder e mantêm inalteradas a dominação imperialista, e a exploração dos latifundiários feudais e semi-feudais sobre os camponeses.

Em 1914, o Dr. Sun Iatsen reorganiza o Partido Revolucionário Chinês, tendo por base uma parte do Guomindang, com o objetivo de derrubar os senhores de guerra do Norte. A explosão da I Guerra Mundial, nesse mesmo período, tendo de um lado a Prússia e o Império Austro-Húngaro e, de outro, a Grã-Bretanha, França, Rússia, Japão e Estados Unidos, acirrou a disputa inter-imperialista na China e, ao mesmo tempo, alimentou as expectativas das camadas populares e as divisões entre os senhores de guerra.

O governo dos senhores de guerra do Norte sustentou que o apoio da China à guerra contra os alemães e austro-húngaros contribuiria para a suspensão dos “tratados desiguais” e para a devolução das “concessões”. Assim, quando a delegação chinesa se dirigiu à Versalhes, para participar da Conferência de Paz, em 1919, tinha instruções explicitas de exigir o retorno da soberania chinesa sobre os territórios e alfândegas ocupados pelas potências estrangeiras, e sobre os cidadãos que viviam em seu território.

Para surpresa geral, porém, o Japão apresentou um tratado secreto, assinado pelo falecido presidente Yuan Shikai (morrera em 1916), no qual o governo chinês se comprometera a permitir que, terminada a guerra, o Japão ocupasse as antigas concessões alemães, como a cidade de Qingdao. Os Estados Unidos, que até então vinham defendendo as pretensões chinesas, por corresponderem ao desejo norte-americano de mercado livre e aberto a todos, recuaram de sua posição e deixaram a China sozinha. Em protesto, a delegação chinesa se retirou e retornou à China.

A essa altura, a repercussão da Revolução de Outubro de 1917, nas suas diversas interpretações (marxista, comunista, socialista, maximalista etc) já se materializara na formação de inúmeros círculos marxistas e de outros tipos, e na simpatia de grupos intelectuais nacionalistas e democráticos chineses, que difundiam os novos acontecimentos. A decisão do governo dos soviets, de revogar os tratados desiguais e devolver as concessões arrancadas pelo império tsarista à China, despertou fortes simpatias. Mas foi a recusa das potencias imperialistas em atender às reivindicações nacionais, e o gesto da delegação da chinesa, retirando-se da Conferência de Versalhes, que levou à explosão do Movimento 4 de Maio de 1919.

Este movimento mobilizou grandes contingentes da população urbana, trazendo à tona novos atores sociais, como os estudantes, os novos intelectuais e os operários. Introduziu, assim, um novo elemento na história chinesa, até então marcada quase exclusivamente por revoltas camponesas, e pela incapacidade destas em romper com o ciclo de renovação dinástica. Na crista desse novo processo, o Dr.Sun Iatsen reorganizou o Guomindang, editou os Três Princípios do Povo (Nacionalismo, Democracia e Bem-Estar do Povo), fundou a República de Cantão (Guangzhou) e lançou um chamamento para derrubar os senhores de guerra do Norte.

Desse modo, a eclosão do Movimento 4 de Maio, em meio às repercussões da revolução e da constituição de um governo soviético no antigo império tsarista, impulsionou tanto o movimento nacionalista e democrático, quanto o movimento socialista e comunista. Quando a III Internacional, com sede em Moscou, enviou G. Voitinski à China, em 1920, para fazer contato com os círculos marxistas, estes já estavam em pleno processo de unificação para fundar o Partido Comunista, o que ocorreu em 1921. Ainda neste ano, o governo soviético enviou Mijail Borodin à China, como seu delegado junto ao governo de Cantão e ao Guomindang. Borodin, que permaneceu na China até 1927, desempenhou papel importante na adesão do PC à III Internacional, em 1922, e na aliança entre os comunistas e os nacionalistas do Guomindang, em 1924.

A fundação e funcionamento, entre 1923 e 1930, da Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente, em Moscou, para formar quadros dos países asiáticos, era expressão da importância que o poder dos soviets dava aos movimentos revolucionários do Oriente e, também, do desejo de orientar o processo revolucionário naquela região. Assim, embora a Internacional Comunista e o PC Soviético firmassem que as revoluções nos países orientais estavam voltadas para quebrar os grilhões feudais (e semi-feudais) e coloniais (e semi-coloniais), o que pesou mais fortemente, como influência da revolução russa na visão teórica que os novos partidos comunistas asiáticos, foi o padrão de uma revolução concentrada nas cidades e na classe operária, só depois espraiando-se para as áreas rurais e os camponeses.

No caso chinês, esse padrão foi testado muito cedo na prática da aliança do PC com o Guomindang, para organizar e realizar a Expedição Militar contra os Senhores de Guerra do Norte. Esta aliança teve a forma peculiar de ingresso do PC no Guomindang. O Dr. Sun Iatsen reformulou os Três Princípios do Povo, que passaram a ser Nacionalismo, Reforma Agrária Anti-Feudal e Socialismo, assim como as Três Grandes Políticas do Povo, que passaram a ser Aliança com a URSS, Cooperação com os Comunistas e Assistência aos Camponeses e Operários.

No processo de preparação da Expedição do Norte, os soviéticos contribuíram com a formação técnica dos oficiais. Chiang Kaishek (Jiang Jixie), que era o comandante militar da Expedição, chegou a fazer um curso na União Soviética, enquanto esta enviou Galen, ou Blücher, para ser assessor militar do Governo Revolucionário de Guangzhou. No entanto, a composição social da Expedição incluía forças muito diferenciadas. Além dos nacionalistas e comunistas, faziam parte dela vários senhores de guerra do Sul, camponeses e trabalhadores urbanos sem partido.

Nessas condições, essa Expedição, também conhecida na historiografia chinesa como 1ª. Guerra Civil Revolucionária, entre 1925 e 1927, teria inevitavelmente que sofrer fortes tensões internas. A mais séria delas veio à tona quando a passagem das tropas expedicionárias pelas províncias sulistas serviu de estopim para levantes e movimentos camponeses, e para a organização de bases guerrilheiras rurais. A participação de quadros e militantes do PC nesses movimentos, apesar da resistência da direção do PC em considerá-los importantes para a revolução chinesa, aguçou as contradições entre os senhores de guerra e os camponeses, e entre o Guomindang e o PC.

Tais contradições chegaram ao ponto de ruptura com a tomada de Shanghai por levantes operários e tropas dirigidas pelos comunistas. Chiang Kaishek, que assumira a direção do Guomindang após a morte do Dr. Sun Iatsen, em 1925, exigiu que os comunistas depusessem as armas, no que foi atendido pela direção do PC em Shanghai, mas não pelos demais corpos expedicionários dirigidos pelos comunistas, nem pelos camponeses.

Este foi o pretexto para o golpe militar de Chiang, e os massacres de Shanghai e Nanjing, contra os comunistas, em 1927. Por um lado, o golpe serviu para selar o acordo de Chiang e dos senhores de guerra do Sul com os do Norte, para terminar a Expedição, manter intocados o domínio latifundiário sobre a terra e os camponeses, e não ameaçar a dominação estrangeira. Por outro, ele levou ao levante da guarnição militar de Nanchang, à revolta camponesa da colheita de outono, e à formação do Exército Vermelho, dando início à 2ª. Guerra Civil Revolucionária, agora opondo o PC ao Guomindang.

O golpe do Guomindang também obrigou a direção do PC a se refugiar nas bases rurais, e a conviver com a força do movimento camponês, começando a mudar, na prática, a linha geral da revolução chinesa. A URSS e a Internacional Comunista ainda tentaram influenciar o PC Chinês, enviando Voitinski, Besso Luminadze, M.N.Roy e Jacques Doriot à China, para reforçar o papel das cidades e da luta operária como direção e força fundamental da revolução chinesa. E a URSS também ofereceu Moscou para a realização do III Congresso do PC Chinês.

Esse congresso, com a presença, entre outros, de Qu Qiubai, Zhu Enlai e Liu Bocheng, reafirmou a linha de luta anti-imperialista e anti-feudal, mas não conseguiu resolver a questão das suas estratégias e táticas principais. A direção do PC Chinês, mesmo localizada nas bases rurais, continuava designando pejorativamente a luta camponesa como “guerrilheirista”, e procurou usar o Exército Vermelho para comprovar a correção de tomar as cidades como centro do processo revolucionário. Fez várias tentativas para tomar cidades médias e grandes, a última das quais foi Wuhan, em 1930, todas elas tendo fracassado.

Apesar disso, as bases rurais haviam se reforçado e dado surgimento às primeiras áreas territoriais com conselhos governamentais camponeses, os soviets. O que lhes permitiu derrotar, ainda em 1930, com as táticas de guerrilha e guerra de movimento do Exército Vermelho, a primeira das cinco campanhas de cerco e aniquilamento lançadas pelas tropas do Guomindang, para liquidar o PC e as bases rurais dirigidas por ele.

Em 1931, o Japão ocupa a Manchúria, como parte de seu plano global de expansão imperialista asiática e mundial, explicitado, em 1927, no memorando do barão Tanaka, então seu ministro do exterior. Os japoneses implantam um governo fantoche, tendo à frente o antigo imperador Qing, Pu Yi, e iniciam seus preparativos para passar à segunda fase do plano Tanaka, a invasão da parte central e sul da China. Apesar das evidências, a direção do Guomindang despreza o perigo nipônico e rechaça a proposta de enfrentá-lo com uma nova aliança entre os dois partidos, feita pelo PC. Chiang Kaishek mantém sua decisão de combater os comunistas como inimigos principais, e continua com suas campanhas de cerco e aniquilamento.

Entre 1931 e 1934, as tropas do Guomindang lançaram mais três campanhas de cerco e aniquilamento, todas derrotadas pela combinação das táticas de guerrilha com a guerra de movimento, que tinham como linha mestra não a defesa do território, mas a conservação de suas forças militares e a destruição das forças do inimigo. Em 1935, porém, frente à 5ª. campanha do Guomindang, a direção do PC destituiu o comandante político e militar do soviet da área Hunan-Jiangxi, Mao Zedong, de modo a garantir que suas ordens de defesa territorial das bases fossem fielmente cumpridas.

O cumprimento dessas ordens leva o Exército Vermelho à derrota, colocando-o diante da necessidade de realizar uma retirada estratégica, rumo às bases rurais do norte do país, para salvar seus 300 mil homens. Já em meio à retirada, o comitê central do PC realiza uma reunião de emergência na cidade de Tsunyi, durante a qual introduz mudanças profundas em suas linhas de ação, tanto de ordem política e militar, quanto organizativa.

Em termos políticos, o PC mantém a classe operária como força dirigente do processo revolucionário chinês, mas reconhece que o campesinato constitui a força fundamental. Também mantém a necessidade de construir uma forte aliança entre a classe operária, o campesinato e a burguesia nacional. Mas assume que, naquele momento preciso, diante da ameaça do Japão, o imperialismo japonês passava a ser o inimigo principal. Isso significava desenvolver esforços para suspender a guerra civil e estabelecer uma aliança com o Guomindang (o que pressupunha aliar-se também a alguns setores latifundiários que concordassem com a defesa nacional). Nesse sentido, a retirada estratégica deveria transformar-se de retirada para salvar forças, em retirada para enfrentar a ameaça japonesa.

Em termos militares, a direção do PC concordou que a guerra prolongada seria a forma principal da luta revolucionária na China, devendo assumir as características de cerco das cidades pelo campo e combinação da guerra de guerrilhas com a guerra de movimento, só admitindo a hipótese de travar guerra regular de defesa de território na fase avançada do acúmulo de forças. Em termos organizativos, Mao Zedong assumiu a secretaria geral do PC, enquanto Zhu De assumiu o comando do Exército Vermelho.

A partir desse momento, a influência da revolução russa e da URSS sobre o PC e a revolução chinesa tornou-se apenas simbólica. O PC chinês passou a caminhar totalmente com suas próprias mentes e pernas, levando em conta suas condições históricas e suas realidades conjunturais. A análise política que tomou o Japão como principal inimigo, e a aliança com o Guomindang como essencial para a sobrevivência da China como nação, mostrou-se correta.

Ela permitiu ao PC tratar corretamente o incidente de Xian, de 1936, salvando Chiang Kaishek da morte por seus próprios generais anti-japoneses. Foi a base das concessões necessárias para suspender a guerra civil e consolidar a aliança com o Guomindang, reconhecendo o governo deste como o governo nacional, e admitindo que o Exército Vermelho fosse transformado no 4º. e no 8º. Corpos de exército do Exército Nacional da China. E levou o PC a perseverar na estratégia de ser a força principal da guerra contra o Japão, mesmo antes da ofensiva geral nipônica de 1937, e sair fortalecido no final da guerra de resistência.

Em 1946, no curso das negociações de paz entre o PC e o Guomindang, a URSS reconheceu o governo do Guomindang, na suposição de que o PC seria derrotado numa nova guerra civil. Em 1950, após a proclamação da República Popular da China, Stálin reconheceu haver cometido um sério erro de avaliação.

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