A crise nos Estados Unidos e na Europa

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WPO | ART | PAG | A crise nos Estados Unidos e na Europa, n. 101, p. 4, set. 2011.

 

 

Wladimir Pomar*

Em geral, a direita diferencia a crise norte-americana da crise européia. A crise dos EUA teria começado pelas loucuras do sistema financeiro, só agora atingindo a capacidade de financiamento do Estado. A crise da Europa, por seu turno, seria uma crise de financiamento do Estado, com desdobramentos financeiros e produtivos. A conclusão lógica é que o problema dos EUA e da UE reside nos programas de bem-estar social.

A esquerda, em geral, deduz que estamos diante de uma crise sistêmica, que coloca a humanidade diante da mais grave crise de sua história. Ela diferiria das anteriores, por ser global, em todos os aspectos. Nessas condições, a crise do núcleo central do capitalismo tenderia a se agravar, despejando parte de seus custos sobre as economias periféricas e dependentes.

Embora apontem aspectos reais da crise atual, essas análises omitem questões relevantes. Em primeiro lugar, a crise econômica ainda não é global, embora a “marola” deva bater na praia de todos os países. Nos EUA ela atingiu o sistema financeiro, as empresas e corporações que procuravam altas taxas médias de lucro através da especulação, e as empresas voltadas principalmente para o mercado doméstico.

Mas as corporações capitalistas norteamericanas, que segmentaram suas operações produtivas por países emergentes, sofreram pouco ou nada. Foram os sistemas produtivo e financeiro internos que desabaram por incapacidade de realização. Sinal de que a crise norte-americana possui um forte componente de superprodução interna, ou de incapacidade de poder aquisitivo da massa de sua população.

A crise do Estado norte-americano, por outro lado, está relacionada, fundamentalmente, com a indústria bélica, e não com programas sociais. As guerras, que nas crises do passado salvaram os EUA, promovendo lucros não só para a indústria de armas, mas também para toda a economia e para o próprio Estado, parece haver se transformado em seu contrário. Ainda produzem altos lucros para a indústria bélica, mas não reavivam a economia, e se tornaram um saco sem fundo para o Estado, por onde somem trilhões de dólares.

A Europa, antes da atual crise de financiamento dos Estados nacionais, já vivia profunda crise de realização produtiva. Ela demorou a acompanhar a crise dos EUA porque não estava tão comprometida com os custos bélicos. E também porque a reação popular às políticas neoliberais obrigava os Estados nacionais a implementar programas sociais que mascaravam a crise de realização. Essa ambigüidade parece ter chegado ao fim, seja através de quebras no sistema financeiro, seja de enfraquecendo os Estados nacionais.

Os governos europeus e dos EUA parecem incapazes de adotar as únicas políticas que poderiam evitar o aprofundamento da crise e dar novo fôlego a suas economias. Isto é, taxar fortemente os ricos e utilizar os recursos para reconstruir a infra-estrutura, gerar empregos e criar novas condições de realização para suas indústrias locais. Nada muito diferente do que Roosevelt fez com o New Deal, na crise dos anos 1930.

De qualquer modo, as corporações capitalistas européias, que adotaram a segmentação da produção por vários países, também estão muito bem, como suas congêneres norteamericanas. Isto pode significar que as economias dos países emergentes, capitalistas e socialistas, já alcançaram uma alta capacidade de realização produtiva e talvez evitem que a tsunami econômica, com epicentro nos EUA e na Europa, chegue de forma destrutiva a seus territórios.

No entanto, a crise pode causar estragos de vulto nesses países. Em 2008, a maior parte das indústrias chinesas voltadas exclusivamente para as exportações teve que fechar as portas, gerando 20 milhões de desempregados. E vários ramos da indústria brasileira, cujos mercados principais eram os EUA e a Europa, tiveram que reduzir sua produção, ou paralisá-la.

A economia brasileira, por seu lado, cresce a ritmos abaixo do necessário para suportar o crescimento da demanda propiciada pelos programas sociais. Também falta um plano consistente de adensamento das cadeias produtivas industriais, que permita não só um programa seletivo de importação de bens de capitais, mas também de atração de investimentos estrangeiros diretos.

O maior volume de investimentos estrangeiros está voltado para a especulação financeira, propiciada pelos altos juros. Estes permitem lucros exorbitantes aos bancos e rentistas, mas impedem maiores investimentos na produção. E a dependência do sucesso de nossa balança comercial às commodities agrícolas e minerais pode trazer problemas de curto prazo, se os preços dessas mercadorias despencarem.

As medidas do Plano Brasil Maior, desonerando as empresas de obrigações tributárias, podem contribuir para elevar a competitividade dos produtos brasileiros, mas reduzem a capacidade de investimento do Estado, e não são capazes de sustentar a competição de longo prazo. E os investimentos de 500 bilhões de reais, até 2014, através do BNDES, estão longe de suprir as necessidades da industrialização brasileira, seja para elevar a oferta de bens e serviços, seja para disputar os mercados interno e externo.

Para proteger o Brasil da crise internacional, além dos planos de industrialização, o governo talvez tenha que ser mais audacioso para resolver os problemas do câmbio, dos juros e do papel das estatais. Estes são os instrumentos fundamentais para reforçar o mercado interno e blindar o país das ondas destrutivas da crise internacional.

Por fim, o Brasil e os demais países do mundo não enfrentarão apenas o problema da crise econômica. O centro do capitalismo mundial também está afundando numa crise política perigosa. Boa parte dos partidos socialistas europeus guinou para o social-liberalismo. Partidos de direita conquistaram vitórias eleitorais em vários países europeus. E, tanto na Europa quanto nos EUA, emergiram correntes políticas nacionalistas extremadas, para-fascistas. O atentado de Oslo é apenas um sinal pálido do que pode estar por vir. Tudo isso indica que, politicamente, o mundo está se aproximando de uma situação idêntica à dos anos 1920 e 1930, que desembocou na segunda guerra mundial.

O problema da atualidade, como demonstraram as guerras do Afeganistão e do Iraque, é que novas corridas imperialistas, em qualquer região do mundo, cogitando formas renovadas de colonialismo, parecem estar fadadas a acelerar a falência dos países capitalistas avançados. Diante de tal condição, aventuras bélicas, como as propugnadas pelo terrorista de Oslo e pelos fascistas do Tea Party, tenderão a ser extremamente destrutivas para toda a humanidade. Talvez tenha chegado a hora do governo brasileiro e da esquerda pensarem seriamente a respeito dessa questão.

Neste cenário, o ponto de segurança – a partir do qual nenhum país conseguiu evitar um pesadelo fascista completo – pode ter passado quando acordarmos no dia 3 de novembro. A partir disso, o resto vai acontecer em agonizante câmera lenta; e o caráter do resto desta década vai depender inteiramente de se os corporatistas, militaristas ou teocratas conseguirão ou não o controle do regime emergente.

 

 

* Wladimir Pomar é militante do PT-RJ

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