Uma vitória suada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Uma vitória suada, n. 730, 04 nov. 2010.

 

 

A eleição de Dilma Roussef, é evidente, não foi uma vitória decisiva, daquelas que mudam a correlação política de forças e criam as condições para avançar na realização de mudanças mais profundas na sociedade. Foi uma vitória suada. Pelo lado negativo, resultou tanto dos erros de sua campanha no primeiro turno quanto do fato de que o PT e a esquerda, em geral, abandonaram o trabalho de massas já há algum tempo.

Pelo lado positivo, não há dúvida de que foi uma vitória importante, devida tanto à correção dos rumos da campanha durante o segundo turno quanto à mobilização de parte considerável da militância de esquerda, que se deu conta de que o “quanto pior melhor”, assim como uma vitória da direita, seria um grave erro e uma derrota estratégica.

Ainda pelo lado positivo, na análise da vitória de Dilma não se pode desprezar o fato de que as camadas populares tomaram partido. Enquanto a classe média rachou, aliás, como quase sempre acontece, os proletários e demais setores pobres da população urbana e rural reiteraram sua confiança de que a continuidade das políticas do governo Lula é o que mais lhes interessa. Nesse sentido, a clivagem social continua sendo uma marca característica das três últimas eleições presidenciais no Brasil.

É essa clivagem social que tende a aprofundar o processo de polarização da sociedade brasileira, apesar de uma parte da burguesia nacional e internacional estar se beneficiando, como não poderia deixar de ser, com os programas governamentais de desenvolvimento das forças produtivas do país. A necessidade de aumentar a capacidade produtiva do país, como condição para redistribuir renda e melhorar as condições de vida do conjunto da população, só pode ser realizada com o concurso de diferentes formas de propriedade, como nossa própria história tem mostrado.

O problema, para a burguesia nativa e estrangeira, é que elas não querem a participação da propriedade pública, estatal e sob outras formas, nesse processo. Elas pretendem fazer isso sozinhas. Além disso, mesmo tendo alta lucratividade, elas não querem ter uma parte de seus lucros apropriados pelo Estado para redistribuição aos trabalhadores e aos pobres. Assim, vivem a ambigüidade de serem beneficiadas pelas políticas de crescimento de governos de esquerda e, ao mesmo tempo, se sentirem lesadas dos recursos que consideram seus, mas são “desviados” para programas sociais.

Esse é o mesmo sentimento de parte considerável da classe média, proprietária ou não. Talvez há muito tempo esse setor não esteja em condições financeiras tão boas quanto na atualidade. Apesar disso, acha que poderia estar melhor se o governo não “gastasse tanto dando dinheiro pra pobre e alimentando vagabundo”, como é comum se ouvir em rodas de restaurantes e botecos.

Esses setores são incapazes de enxergar suas diferenças econômicas e sociais com a burguesia, e de que não estão melhores porque é justamente a burguesia que se apropria da maior parte das riquezas geradas pelo trabalho, tanto dos proletários quanto das próprias classes médias. Em conseqüência, na política, assumem as mesmas reclamações e lamúrias da burguesia, assim como suas propostas. Propostas que, no final, vão se virar também contra as camadas médias.

É com base nisso que, no discurso de reconhecimento da eleição de Dilma, o derrotado Serra não só proclamou uma vitória política das forças que o apoiaram, como prometeu guerra sem quartel pelas liberdades, democracia e pela nação. Ou seja, partindo do pressuposto de que obteve sucesso em impedir Lula de transferir toda sua popularidade para a candidata da coalizão dirigida pelo PT, e em conquistar 44% dos votos válidos, Serra se colocou na posição de comandante de uma luta continuada contra o próximo governo.

Talvez seja útil ao PT e à esquerda refletirem sobre o significado dessa postura da direita. Ela pode nos ajudar a aprofundar um debate, mais que necessário, sobre o significado de liberdade, democracia e nação, para a direita e para a esquerda, provavelmente como eixos principais das lutas que já estão batendo às nossas portas. Ou tal significado é desnudado para o conjunto da população brasileira, em especial para os pobres, os trabalhadores e as classes médias, ou a direita pode se apropriar dessas bandeiras para implantar o seu inverso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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