Um pouco da história do Tibet

Teoria & Debate

WPO | ART | TDB | Um pouco da história do Tibet, n. 77, mai.-jun. 2008.

 

 

O PIB chegou a 12%, agricultura e pecuária aumentaram a produção e são 2,81 milhões de habitantes com 47 mil monges e 93 Budas vivos

por Wladimir Pomar*

 

O Tibet, de repente, deixou de ser o assunto do dia da mídia. Mas, não há dúvida de que os acontecimentos naquela região continuam despertando indagações e interesse. Em muitos casos, alimentados pelo desconhecimento sobre sua história e sua situação atual.

Na Antiguidade, o “teto do mundo” era habitado por tribos, que guerreavam entre si por terras e escravos. Só no século 7o , coincidindo com a centralização dinástica Tang (618-907), a tribo Spurgyal se impôs, fundou o reino Tubo, e iniciou um longo relacionamento com o império chinês.

Já o budismo penetrou no Tibet por intermédio do casamento do rei Songtsan Gambo, de Tubo, com as princesas Wencheng, da dinastia Tang, e Bhributi, do Nepal. Elas o presentearam com estátuas de Buda, levaram artesãos para construírem os mosteiros Jokhang e Ramoche, e foram acompanhadas de monges budistas.

Mas o budismo só se firmou após séculos de disputa com as antigas religiões Bon e xamanista e após tornar-se religião da nobreza Tubo. Para isso, absorveu as prédicas e os conteúdos daquelas religiões, elaborou suas próprias escrituras, criou um sistema monástico de estudo e de meditação próprio, e tornou-se um ramo especial do budismo, o lamaísmo.

Em 1271, quando os mongóis de Kublai Khan estabeleceram a dinastia Yuan na China, o Tibet já era governado por uma teocracia, embora tutelada.

A nobreza lama, além de exercer o poder religioso, também detinha os poderes político, econômico e social. A servidão feudal era predominante, havendo áreas onde persistia o escravismo.

As dinastias Ming e Qing, sucessoras da Yuan, mantiveram a tutela sobre a teocracia tibetana. Por outro lado, a nobreza lamaísta dividiu-se em disputas por terras e servos, e pelo predomínio monárquico, resultando na formação de diferentes seitas, formalizada na reforma religiosa do século 15.

A partir de então, as seitas Nyingma, Sagya, Gagyu e Gelug se revezaram no poder teocrático. A Gelug, a mais poderosa, criou o sistema de reencarnação do Buda Vivo, através do Dalai Lama e do Panchen Erdeni, como tentativa de evitar conflitos sectários. Para permitir sua perpetuação, o lamaísmo obrigou as famílias tibetanas a prover, a partir do século 16, um de seus filhos para tornar-se monge ou monja. A parcela de monges e monjas na população chegou, no início do século 20, ao auge de 25%.

Após a Revolução de 1911, que derrubou a monarquia Qing e fundou a República, o Tibet passou a ser uma das 22 províncias da China, tutelada por um Conselho para os Assuntos Mongóis e Tibetanos. Porém, o domínio local teocrático e a servidão não foram tocados.

 

Uma pitada de história contemporânea

Os ingleses, que haviam tentado uma concessão em Lhasa, no século 19, também não obtiveram apoio quando voltaram a propor a separação do Tibet, durante a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos, num documentário cinematográfico de seu Departamento de Guerra, intitulado A Batalha da China, reconheceram o Tibet como parte inalienável da China, o que só mudou em 1951, no final da guerra civil chinesa, quando as tropas do Exército Popular de Libertação chegaram ao Tibet.

Nessa época, a região ainda vivia da criação de gado, de pequenas plantações e do artesanato. A nobreza lamaísta mantinha os poderes econômico, religioso e político. Um estamento de 100 mil monges e monjas, ou 10% da população, servia à nobreza na difusão religiosa e na observância da ordem pública. A produção econômica provinha do trabalho dos servos da terra, que constituíam a maioria da população. Nas áreas mais afastadas, a escravidão resistia.

O novo governo chinês reconheceu o Tibet como região autônoma, evitando, porém, realizar reformas sociais imediatas. Apenas em 1957, em concordância com o 10º Panchen Erdeni, começou a discutir reformas democráticas na agricultura, na vida social e no Estado.

A inevitável perda dos servos, com a reforma agrária, e do poder político, com a separação entre Estado e religião, levou parte da nobreza lamaísta, insuflada por agentes estrangeiros, à insurreição. Sua derrota, em 1959, marcou o fim da servidão, separou o exercício do Estado do exercício da religião e abriu a possibilidade dos tibetanos de escolherem entre ser lamas ou ter uma vida secular.

O Ocidente subverteu a história, já que seria incompreensível para seus povos a defesa da servidão e de uma teocracia. De lá para cá, a propaganda anti China apresenta a questão tibetana como de independência nacional e preservação cultural, pretensamente perdidas pela “invasão” chinesa. Em vários momentos, essa propaganda fabricou notícias de que o governo chinês destruía os mosteiros e monumentos religiosos tibetanos, inclusive o Palácio Potala.

 

Situação pós-1951

O Tibet passou a reverter o declínio populacional dos séculos anteriores, em virtude das calamidades naturais, doenças e condições sociais precárias. Entre os séculos 18 e 20, tinha havido um decréscimo de 800 mil almas. De 1951 a 2006, porém, a taxa de crescimento populacional foi sempre mais alta que a taxa média da China, como um todo.

Em 2006, o Tibet alcançou 2,81 milhões de habitantes, com uma taxa natural de crescimento de 11,7%, e a expectativa de vida passou de 35,5 anos, em 1951, para 67 anos. Da população total, 92% eram tibetanos e 8% eram de outras etnias, como as Han, Hui, Moinba, Lhoba, Naxi, Nu, Derung, Deng e Sherpa.

A agricultura, a pecuária e as atividades florestais, realizadas por camponeses independentes, aumentaram sua produção. Pela primeira vez na história, a região tibetana abriu-se para a instalação de indústrias e para a de serviços de transporte e de telecomunicações modernos. Entre 1999 e 2006, o PIB do Tibet cresceu a uma taxa média superior a 12% ao ano, uma das mais elevadas da China, enquanto o PIB per capita alcançou 10 mil yuans (US$ 1.485). E, em 2006, a região começou a fazer pleno uso da ferrovia Qinghai–Tibet, ampliando a ligação entre as localidades.

No Tibet, existem 1.700 mosteiros lamaístas, com 47 mil monges e monjas residentes. Há 88 mosteiros Bon, com 3 mil monges residentes, e 93 Budas Vivos, com 130 mil seguidores. O islamismo e o cristianismo são pequenos em número de seguidores e em influência. Há quatro mesquitas, com 3 mil crentes, e uma igreja cristã, com setecentos seguidores. Já o xamanismo, sem corpo teórico, nem locais especiais para rituais e organização, se restringe às áreas remotas.

Assim, embora suas condições de relevo sejam extremamente difíceis, e ainda permaneçam áreas sem os benefícios da civilização, o Tibet tem se transformado, com a melhoria das condições de vida de grande parte de sua população. E suas tradições culturais e seus monumentos têm sido conservados, como pode testemunhar e relatar o crescente número de turistas estrangeiros.

O governo chinês mantém, há muito tempo, uma política de abertura para conversações com o 14o Dalai Lama, incluindo seu possível retorno à terra natal. Desde 1960, foram inúmeras as conversações entre os dois lados. De 2001 a 2006, ocorreram seis encontros, com o governo da China jamais tendo deixado de reconhecer o Dalai como líder religioso do lamaísmo.

O que o governo chinês não reconhece é a existência de um “governo tibetano no exílio”, nem aceita que tal “governo” pretenda separar o Tibet da China, ou que o assunto tibetano seja transformado em questão internacional Para a China, o Tibet, assim como Taiwan, é parte inalienável do país, portanto, um assunto interno.

Em 2006, com o desenvolvimento da região, o Dalai declarou-se disposto a abandonar as pretensões de independência e retornar ao Tibet. Ao que parece, no entanto, os compromissos com seus sustentáculos materiais, nos Estados Unidos e na Europa, o fizeram retroceder. Havia a suposição de que as Olimpíadas de Beijing apresentariam, ao Dalai e seus seguidores exilados, a oportunidade de uma nova insurreição, que colocaria o governo chinês frente à necessidade de fazer concessões radicais.

Os movimentos dos exilados tibetanos, articulados com organizações estrangeiras antichinesas, passaram todo o ano de 2007 preparando um levante no Tibet, na comemoração dos 47 anos da revolta de 1951. Porém, os distúrbios em Lhasa e em outras cidades de maioria tibetana, em março de 2008, não contaram com nenhum apoio maciço.

Longe de serem comparados aos conflitos populares de Los Angeles ou dos arredores de Paris, contra a brutalidade policial, os acontecimentos no Tibet assemelharam-se apenas aos distúrbios de skinheads, após jogos de futebol. Apresentaram fortes componentes racistas, causaram incêndios em sete escolas, cinco hospitais, 120 casas e 908 lojas, mataram dezoito civis e um oficial de polícia, e feriram 382 civis e 241 policiais, a maioria dos civis era de outras etnias e religiões presentes no Tibet.

As manifestações em várias cidades pelo mundo, insufladas fortemente pela mídia, visando deter a marcha da tocha olímpica, foram minguando à medida que os fatos se esclareciam e depois que imigrantes e estudantes chineses passaram a organizar manifestações maciças de apoio às Olimpíadas de Beijing contra as atividades de secessão do Tibet. O próprio Dalai Lama viu-se obrigado a condenar os atos de violência e o boicote às Olimpíadas e a solicitar contatos com o governo da China, o que ocorreu, no início de maio, em Shenzhen.

A China continua se opondo a qualquer atividade que procure dividir o país, incitar a violência entre as etnias e sabotar os Jogos Olímpicos. Ela declara que continuará se esforçando para desenvolver o Tibet, do ponto de vista econômico e social, manter a estabilidade política e garantir a liberdade de culto para as religiões presentes lá e no restante do país. Ao mesmo tempo, continua aberta ao diálogo com o 14o Dalai Lama e a seu retorno ao Tibet.

Desde que, é lógico, ele pare de incitar a secessão. Afinal, a Região Autônoma do Tibet, no sudoeste da China, tem 1,22 milhão de quilômetros quadrados, um oitavo da superfície do país, o que equivale à soma das áreas de Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda e Luxemburgo. Além disso, os 3.842 quilômetros de fronteiras da China com Mianmar, Caxemira, Índia, Butão e Nepal estão localizados no Tibet.

 

*Wladimir Pomar é membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate, autor de O Enigma Chinês.

 

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