Tendências desconexas

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Tendências desconexas, out. 2006.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Tendências desconexas

As oposições cifravam esperanças de que a escolha do presidente num segundo turno criaria uma sensação de derrota no PT e em seus aliados. Pareciam esperar que o PT e o presidente fossem incapazes de convencer sua militância, simpatizantes e aliados, de que deveriam engajar-se para obter a vitória na nova rodada eleitoral. Mais uma vez, porém, enganaram-se na avaliação sobre a capacidade de reação petista, e nas estratégias para aproveitar o que parecia haver sido uma vitória política importante, ao obrigar o presidente a disputar uma segunda vez, contra um candidato único da oposição.

O PT e o presidente não se prenderam às prováveis constatações favoráveis. Afinal, eles haviam saído reforçados das eleições, com Lula havendo chegado em primeiro lugar. Tiveram uma vitória importante na Bahia e em outros 3 estados. Reconstituíram sua bancada parlamentar, apesar de todas as previsões em contrário, e passaram para o segundo turno em dois outros estados. Agiram como se houvessem tido uma derrota política, e partiram rapidamente para costurar novas alianças e reafirmar sua decisão de realizar um governo de coalizão. Destituíram o presidente do PT, como responsável político pela ação estapafúrdia do dossiê Vedoin, realizaram a expulsão política dos envolvidos no caso, e se comprometeram publicamente a ir fundo na investigação das irregularidades cometidas por ex-dirigentes.  Além disso, jogaram pesado para diferenciar-se programaticamente da candidatura do PSDB-PFL, especialmente na questão da continuidade dos programas sociais e das privatizações realizadas durante o governo FHC.

Enquanto o PT e o presidente realizavam todas essas manobras táticas de acúmulo de forças, a candidatura tucana parece haver considerado que sua suposta vitória política, de ir para o segundo turno, se consolidaria por si própria. Com isso, deixou que fosse dado destaque ao apoio do ex-governador Garotinho, criando uma crise interna. Deu a impressão de estar despreparada para enfrentar uma disputa programática, mesmo superficial, demorando a ter uma linha coerente sobre  a questão das privatizações. Fez promessas que pareciam desconsiderar a existência do Congresso Nacional. E continuou tomando como centro de seus ataques os supostos atos de corrupção. Com isso, parece haver permitido que o segundo turno se transformasse, não na consolidação de uma vitória política, mas num pesadelo. Todas as pesquisas passaram a apontar uma crescente vantagem para Lula. Vantagem que se confirmou em 29 de outubro, repetindo os números de 2002.

A questão, de agora em diante, passa a ser o que pode acontecer durante o segundo mandato do presidente Lula. Nenhum analista sério acredita que as oposições tentem um “terceiro turno”, um “tapetão”, para obter, na justiça ou por outros meios, o que não conseguiram nas urnas. O próprio ex-presidente FHC, que chegou a pedir o auxílio de um novo Carlos Lacerda, parece haver desistido disso, pelo menos neste momento, adiando o tal “terceiro turno” para as eleições presidenciais de 2010. Assim, tudo indica que as ações políticas a serem desenvolvidas pelas oposições, já a partir de agora, têm como meta estratégica a disputa presidencial de 2010.

Quando conhecidos analistas e cientistas políticos debatiam os possíveis resultados das eleições em seminários e outros encontros, chegando à conclusão que o PT seria um partido derrotado, e o presidente Lula um político sem chances de realizar um projeto real de desenvolvimento nacional, eles na verdade pareciam indicar os caminhos que as oposições deveriam seguir para alcançar a meta de 2010, caso perdessem 2006. Isto é, deveriam manter o PT sob fogo constante, impedindo-o de realizar os ajustes internos necessários, refazer sua política e preparar-se para apresentar um candidato viável à sucessão de Lula. Ao mesmo tempo, deveriam permitir a seus governadores e prefeitos manterem relações institucionais favoráveis com o governo federal, deixando para sua ala hard, quase certamente o PFL e setores do PSDB, fazer de tudo para criar instabilidades políticas e empecilhos à governabilidade.

Ao que tudo indica, essa ambigüidade oposicionista será, provavelmente, a marca política principal dos próximos meses e anos. Enquanto os dois principais candidatos a candidato presidencial oposicionista, Aécio Neves e José Serra, desempenharão o papel de estadistas nas relações com o governo federal, a tropa de choque vai continuar alimentando o clima de confronto, ao mesmo tempo em que acusará o PT e o governo de promoverem o ódio de classe, a corrupção, a degeneração ética, o autoritarismo e outros supostos ou reais defeitos que trouxeram à tona durante a campanha eleitoral. Porém, tal ambigüidade também se refletirá entre os aliados do PT, seja para ganharem maior espaço no governo, seja também para credenciar-se para 2010.

Num contexto desse tipo, o PT deverá ficar, inevitavelmente na berlinda de oposicionistas e/ou aliados. Para alguns deles, a força do PT se exauriu e não terá influência no governo, porque quem saiu vitorioso das eleições teria sido o lulopetismo. Para outros, o PT mais atrapalha do que ajuda. Ainda para outros, o PT deve reduzir sua presença no Planalto, deixando Lula organizar um governo de coalizão, como se o governo Lula não tivesse sido, desde o início, um governo de coalizão. Assim, as tendências presentes sinalizam que o principal inimigo a ser enfrentado pela oposição, e também por aliados, durante os próximos quatro anos, não deverá ser Lula e seu governo, mas única e exclusivamente o PT.

Diante disso, uma das possibilidades é que as principais correntes internas do PT aceitem o capuz e decidam “não atrapalhar”, imolando-se no apoio acrítico ao governo de coalizão e às forças políticas de centro e de centro-esquerda que dele participam. Isso talvez represente uma abdicação prévia a qualquer papel relevante em 2010. Mas, se a discussão interna no PT não aceitar esse papel, é quase certo que buscará outras alternativas, uma das quais pode consistir em considerar-se uma das diversas forças da coalizão, com os mesmos direitos de disputar as políticas do governo.

Isso ocorrendo, o PT tende a ser empurrado para a esquerda, menos por sua vontade, e mais pela ação da direita oposicionista e dos aliados da coalizão, como aliás ocorreu durante a campanha eleitoral, que na realidade teve início com as denúncias envolvendo Waldomiro Diniz. Bem vistas as coisas, parece ter sido o açodamento tucano-pefelista, na CPI do chamado mensalão, ao expressar o desejo de acabar com a raça petista, que levou Lula e o PT a socorrer-se mais firmemente do apoio das camadas mais pobres da população, o que trouxe à tona antigas e profundas divisões de classe da sociedade brasileira. Foi aquele mesmo desejo que levou o PT a livrar-se, embora ainda parcialmente, de grupos privados que o estavam dominando, e reagir com uma eleição interna que causou surpresa mesmo aos mais otimistas em seu meio.

Sendo empurrado para a esquerda, o PT se verá obrigado a discutir se seu papel deve cingir-se à democratização do capitalismo ou se, além desta, deve ter em seu horizonte a construção de uma sociedade socialista. Não havendo qualquer muro que separe irremediavelmente uma coisa da outra, apesar das confusões reinantes na sociedade e no próprio PT a respeito, na prática isso pode significar que o PT se baterá não apenas pelo crescimento econômico, mas também pela maior distribuição da renda, pelo aprofundamento da atual política externa, pelo fortalecimento político e econômico do Estado, por uma maior participação popular e social no controle democrático dos diversos organismos estatais, incluindo não apenas o executivo, mas também o judiciário e o legislativo, e pela realização de reformas cujos focos principais sejam a democracia e as camadas populares.

O primeiro embate para definir os próximos rumos políticos, incluindo os rumos do PT, talvez se centre na pauta de reformas que órgãos da imprensa e correntes políticas de centro e de direita tentam impor ao segundo governo Lula. Como acentuam muitos analistas, não havendo diferenças entre as propostas estruturais dos dois candidatos, seria de supor que o novo governo Lula realizará as mesmas reformas prometidas por Alckmin, embora com ênfase e formato variados. Nesse sentido, também não haveria porque considerar a vitória de Lula uma vitória da esquerda contra a direita, ou dos pobres contra os ricos. Afinal, setores da própria esquerda têm frisado, constantemente, a inexistência de diferenças consistentes entre as duas campanhas. Não haveria, pois, motivos para adotar outra agenda para o país, nem para radicalizar o jogo com a oposição.

Dependendo da resposta que o PT der a tais desafios, talvez saibamos qual será sua postura e política de médio e longo prazos. É lógico que esse partido ainda terá outros desafios internos a resolver, relacionados com suas políticas passadas, o predomínio, em sua direção, de grupos que alguns chamam de “paulistas”, a utilização de métodos que se chocam com suas proposições, e a suposta discrepância entre “burocratas, eleitos pela militância”, e “os eleitos pelo povo”. O PT pode não conseguir dar uma resposta satisfatória a todos esses desafios e tendências desconexas, mas daí a pretender que esse partido não terá papel saliente na política brasileira será o mesmo que acreditar que estavam certos os que, em 2005, vaticinaram a sua destruição.

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