Sobre Gaza

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Sobre Gaza, n. 640, 12 fev. 2009.

 

 

Para não dizerem que não falei de Gaza, e evitar mal-entendidos dos que estão buscando pelo em casca de ovo, sou contra o terrorismo, de qualquer tipo. Seja dos que aparentemente se colocam à esquerda, seja dos que se utilizam do Estado. Também separo, como a navalha de Ockham, a responsabilidade dos governos da responsabilidade de seus povos. E não aceito que seja justificável responder ao terrorismo de um tipo com terrorismo de outro tipo qualquer.

Por tudo isso, a ação do governo de Israel contra Gaza é inaceitável e não admite vacilações dos que abominam o terrorismo como forma de luta ou ação estatal. O terrorismo do Hamas, lançando foguetes contra populações civis em Israel, não justifica, de modo algum, o genocídio das tropas israelenses contra a população civil de Gaza. Esteve certa a diplomacia brasileira, assim como o secretário-geral da ONU e muitas outras personalidades mundiais, ao condenar a ofensiva das tropas israelenses e abominar o massacre de civis.

O argumento de que a população civil de Gaza apóia o Hamas e serve de escudo a seus militantes é o mesmo argumento do Hamas para jogar foguetes sobre a população israelense, assim como foi o argumento dos nazistas para massacrar a população civil do Gueto de Varsóvia e de muitas outras cidades, durante a segunda guerra mundial. São argumentos que foram julgados como crimes de guerra.

Apesar disso, o Estado israelense considera de extrema injustiça comparar suas ações às praticadas pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, e continua achando legítimo e compreensível destruir a infra-estrutura urbana das cidades da Faixa de Gaza, bombardear alvos civis e matar civis indiscriminadamente.

Seus argumentos, divulgados por defensores brasileiros da ação israelense: o conflito contra os palestinos teria razões históricas; resultaria do ódio “fundamentalista”, da ausência de democracia e de Estado de direito do lado palestino; resultaria, ainda, da presença de formas de opressão às mulheres nos países árabes, assim como do não-reconhecimento, pelo Hamas, do direito à existência do Estado de Israel. Não aceitar tais “verdades” seria uma expressão de anti-semitismo.

Suponhamos que aceitemos essas “verdades”. As razões históricas para a ocupação das terras palestinas teriam sido justas. Todos os palestinos teriam ódio fundamentalista e seriam terroristas. Na Palestina não existiria democracia e suas mulheres viveriam sob opressão. E nenhum palestino reconheceria o direito de existência do Estado de Israel.

O problema consiste em que, mesmo que fosse verdade, nada disso justifica operações militares para extirpar ódios, impor sistemas políticos e fazer com que o Estado de Israel seja reconhecido. Mesmo porque, como a experiência histórica tem mostrado, guerras com tais motivos só agravam ódios e distorções, a não ser que extirpem povos inteiros.

Historiadores e militantes de direitos humanos israelenses, que se colocaram contra a guerra de seu governo, já denunciaram que é justamente esse o real objetivo do governo de Israel. É pena que somente os fundamentalistas, os desavisados e os desinformados não vejam essa verdade.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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