Sinais da ignorância

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Sinais da ignorância, n. 570, 03 out. 2007.

 

 

Pela reação de alguns colunistas da imprensa aos textos Nova História Crítica e História da Riqueza do Homem, tem-se a impressão de que o marxismo, assim como tudo a ele aparentado, voltou a apavorar mentes e corações. Mas não é só esse medo que impressiona. Mais impressionante é que sejam ignorantes sobre tais conceitos, e queiram passar a idéia de saberem como é a “visão clássica do marxismo”.

Sinal evidente dessa ignorância é pensar todo anticapitalismo como marxista, comunista ou socialista. Primeiro porque o comunismo, com forte raiz religiosa, surgiu antes do próprio capitalismo. Segundo porque o socialismo, como utopia de correção das contradições do capitalismo através da educação, surgiu antes do marxismo. Terceiro porque o marxismo apenas comprovou que o capitalismo era uma necessidade histórica e, como tal, também deveria esgotar-se com o tempo.

Ignorância, ainda, porque não sabem que o marxismo possui essa dualidade. Ignoram que, para o marxismo, o produto histórico capitalismo não pode ser extinto enquanto não esgotar as suas potencialidades e contradições. Como não leram O Capital, não sabem que o capitalismo ali analisado é o capitalismo abstrato, isento das interferências históricas que dão, a cada capitalismo concreto, características próprias em cada região do globo.

Se tivessem lido a “visão clássica” de O Capital, ficariam espantados ao encontrar ali um retrato quase fiel do capitalismo desenvolvido da atualidade. Encontrariam não só a tão badalada pujança que ostenta, como também o desolado mundo do trabalho (incluindo os sem-trabalho), que tal pujança procura encobrir no mesmo retrato.

Em O Capital, melhor do que na História da Riqueza do Homem, encontrariam as pistas para entender a dialética da história interna das formações sociais. Estas, para desenvolver plenamente suas potencialidades, são obrigadas a realizar desvios e retrocessos, em meio aos zigue-zagues da dialética da história global. Isso poderia ajudá-los a compreender tanto as vicissitudes do capitalismo, para superar o feudalismo e outros restos históricos, quanto o fato de o marxismo haver assimilado os conceitos de comunismo, socialismo e social-democracia, apesar de sua prolongada disputa teórica contra o comunismo religioso, o socialismo utópico e a social-democracia parlamentar.

Mas essa ignorância não é privilégio. Um sem-número de comunistas, socialistas e social-democratas, que jamais leram O Capital, desdenhou aquela dualidade. Uma parte ignorou a necessidade do esgotamento histórico das potencialidades capitalistas, e só deu atenção a seu aspecto anticapitalista. O resultado é a atual crise do comunismo e do socialismo. Outra parte ignorou a luta de classes, achando ser possível amansá-la através da divisão menos desigual da “pujança” do capital. O resultado é a atual crise da social-democracia. Os antimarxistas, por sua vez, não acreditam naquela dualidade e acham que o comunismo, o socialismo e o marxismo morreram. O resultado é viveram tendo pesadelos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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