Sem batalha decisiva

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Sem batalha decisiva, set. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Sem batalha decisiva

A sorte está lançada e, como quase sempre ocorre, a batalha decisiva ainda não foi travada.

É verdade que a oposição tucano-pefelista talvez não tenha jogado a sua cartada mais forte. Mas não há muita dúvida de que seu movimento de flanco falhou. Visava retirar o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, colocar em seu lugar um cavalo de batalha e, através dessa mexida de peças, chegar ao impeachment do presidente Lula. Essa manobra, apesar de inteligente, talvez tenha apenas confirmado que a oposição, se ainda tem armas letais em seu poder, elas quase certamente são aquelas de efeito bumerangue, perigosíssimas para quem as usa.

Nessas condições, a eleição de Aldo Rabelo, o candidato do governo à presidência da Câmara, pode representar bem mais do que uma simples vitória governista. Pode ser uma inflexão na ofensiva oposicionista, ou na defensiva governista, criando uma situação em que a oposição, a partir do caso Waldomiro Diniz detendo a iniciativa política e desgastando o PT e o governo, seja obrigada a ver-se confrontada com a inversão desse processo de desgaste.

O rearranjo das forças internas do PT, legitimado pela presença massiva da militância no processo eleitoral, também aponta para uma nova postura frente ao governo. Embora tenha reiterado que pretende ver o sucesso do governo e apóie a reeleição de Lula, deu sinais consistentes de que tem críticas à política econômica e social do governo, assim como aos objetivos e métodos de suas alianças. Deve-se esperar, pois, que a nova direção petista seja pressionada a ser mais ativa e crítica diante das políticas e medidas governamentais. O que pode ser vislumbrado pela nota que a direção executiva de transição tornou pública, logo após os resultados do PED.

Nesse quadro, a articulação de um novo arco de alianças não deve incluir apenas os partidos de esquerda e um reforçado PMDB, como desejavam os setores petistas mais à esquerda. Haverá tentativas de manter nesse arco alguns outros partidos de centro e de centro-direita. No entanto, nesse novo processo de alianças a direção petista deverá enfrentar novos desafios. Terá que ater-se às propostas políticas comuns e à construção de um método de relacionamento que evite desastres como os cometidos pelos dirigentes do antigo grupo majoritário. Mesmo porque, sem a definição desse método em sua política de alianças, o PT dificilmente terá condições para passar à ofensiva política, manter o apoio de sua militância, e evitar a continuidade ou a repetição da crise.

Por outro lado, embora a oposição tenha perdido boa parte de seu gás com a dificuldade na produção de provas mais contundentes nas CPI’s, e com o fracasso de sua manobra de substituição do presidente da Câmara por um deputado de sua confiança, ela ainda não se considera na defensiva. Afinal, ela está sendo reforçada, paradoxal, mas previsivelmente, pela santa aliança com a ultra-esquerda. Esta estará sempre pronta a desembainhar espadas e eriçar lanças toda vez que os alvos sejam o PT ou o governo Lula, independentemente da causa. O que permitirá à oposição tucano-pefelista contar com uma tropa de choque afoita e disposta a manobras mais arriscadas, resguardando-se da responsabilidade por possíveis fracassos.

Se isso é uma probabilidade com ares de certeza, a oposição também terá que levar em conta uma nova postura do PT, como partido, e de seus parlamentares e dirigentes petistas não-envolvidos em casos de corrupção, que são a maioria, como indivíduos. Em conjunto, ou individualmente, revigorados pela resposta da militância durante o PED, todos tenderão a uma atitude crescentemente crítica, seja para tomar as decisões internas sobre a aplicação do programa partidário, seja discutir os projetos provenientes do governo, seja ainda para responder à oposição e encostar contra a parede parlamentares e dirigentes do PSDB e PFL envolvidos em assuntos de caixa 2 e casos de corrupção.

Acredita-se que a mobilização para garantir a vitória de Aldo Rebelo tenha sido apenas uma amostra do rearranjo de forças do PT. Se isso for verdade, talvez a batalha decisiva tenha que ser adiada para outubro de 2006, bem depois do que a oposição gostaria e supunha possível.

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