Ruídos estranhos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ruídos estranhos, n. 860, 23 mai. 2013.

 

 

Acontecimentos recentes me fizeram retornar a décadas atrás. Naquela ocasião, uma parte da esquerda brasileira culpou os que denunciavam a preparação de um golpe militar como responsáveis por terem levado os militares, com o apoio de forças reacionárias e conservadoras civis, a desencadeá-lo. Argumentavam que o golpe militar de primeiro de abril de 1964 fora uma reação às ameaças de luta armada de uma parte da esquerda. E que, se tal parcela da esquerda não houvesse organizado grupos armados, urbanos e rurais, para combater o regime ditatorial militar, este não teria cometido tantos assassinatos e tantos desaparecimentos de opositores, inclusive daqueles que pregavam uma resistência pacífica e/ou passiva.

Muitos dos que viveram a luta pela anistia política dos anos 1970 viveram também esse tipo de acusação, nem sempre surda, de que a responsabilidade pelas mortes dos que defendiam a resistência pacífica deveria recair sobre os que pegaram em armas. Pareciam desconhecer não só a tradição histórica brasileira de esmagamento brutal de todas as lutas democráticas e populares que emergiram, pelo menos desde a primeira metade do século 19, no processo de evolução do Brasil como nação.

Parecem não haver entendido que o golpe militar de 1964 foi a coroação da tentativa armada frustrada de impedir a posse de João Goulart, em 1961. Já então as forças conservadoras queriam barrar o aumento da pressão popular por maior controle sobre os investimentos estrangeiros, pela reforma agrária e por maior participação popular na emergente democracia brasileira. Apesar disso, naquele tempo, predominava na maior parte da esquerda, assim como no conjunto dos movimentos sociais, a ilusão democrática de que as forças sociais e políticas entreguistas, reacionárias e conservadoras seriam incapazes de tentar algo contra o regime democrático.

Os que denunciavam os sinais estranhos de movimentos conspiradores nas forças armadas, em articulação com grande parte do empresariado, com a embaixada dos Estados Unidos e com a CIA, para a realização de um golpe de Estado, e supunham necessário realizar uma resistência de massa, combinada com uma resistência armada, no estilo de 1961, eram minoria. Afinal, em 1961, se chegara a uma solução negociada, sem necessidade nem mesmo de punir os que haviam tentado impedir militarmente o cumprimento da Constituição. Por que acreditar, então, que não seria possível resolver as contradições através do mesmo caminho?

Essa ilusão democrática foi fatal em 1964. As mesmas forças que tentaram o golpe de 1961 haviam se rearticulado. Não só se organizaram de forma mais consistente no meio militar, como montaram provocações de diferentes tipos, e instilaram o medo do comunismo entre a classe média e parte das camadas populares religiosas, mobilizando-as para marchas por Deus e pela família. E, quando desencadearam o golpe, não encontraram qualquer resistência séria. A derrota da democracia foi acachapante, a tal ponto que grande parte das forças que até então viviam aquela ilusão, numa reação desesperada, se dispersaram em inúmeras organizações armadas. O resto está sendo levantado com mais minúcias pela Comissão da Verdade.

E foi justamente a arrogância do coronel Ustra diante dessa Comissão, ao considerar as instalações do DOI-CODI como área de guerra, para definir como mortos em combate todos os que lá foram assassinados, que me fez ouvir os mesmos ruídos estranhos de 1961 a 1964, e me trouxe outra vez à mente o perigo da ilusão democrática. Ruídos que aumentaram com a solidariedade pública àquele notório torturador, de generais que até há pouco ocupavam postos de comando. E que não tiveram qualquer pejo em declarar que a oficialidade das forças armadas considera a Comissão da Verdade um ato revanchista contra os militares que salvaram o Brasil do terrorismo.

Por fim, não menos tenebroso do que isso, a notícia de que a Bolsa Família teria terminado levou pânico a grande parte da população pobre. Numa imitação da transmissão radiofônica de Orson Welles sobre a invasão de seres extraterrestres, alguns criminosos difundiram aquele boato via Internet e tiveram sucesso.

Se avaliarmos com mais atenção esses acontecimentos, ou ruídos, que aparentemente estão desconectados, poderemos chegar à conclusão de que o governo não está preparado para tais situações de risco. Em outras palavras, a ilusão democrática ainda parece estar entranhada em muitas mentes, desconsiderando que as diferenças de interesses em jogo no atual momento brasileiro são profundas e podem gerar reações conservadoras e destrutivas, como no passado.

É possível que, como antes, essa ilusão democrática considere que tais reações são inerentes à democracia. De minha parte, lambendo as feridas daquele passado, as tomo como atentados e crimes contra a o sistema democrático. E que, como tais, devem ser levadas a sério e tratadas como tal.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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