Resposta datada

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Resposta datada, set. 2006.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Resposta datada

O texto abaixo foi escrito após a apuração das eleições de 01 de outubro, de modo a levar em conta não só as tendências mais fortes que emergiram no mês anterior, mas também os resultados eleitorais que apontam para novos cenários políticos.

Durante agosto, havia ficado claro que a santa aliança das oposições iria concentrar suas baterias na crítica moral a Lula e ao PT. O quesito corrupção seria elevado ao pódio, e a campanha eleitoral inundada com acusações de todo tipo, procurando demonstrar que o presidente, seu partido e seus aliados estariam envolvidos num mar de lama.

Como até aquele momento tais acusações não haviam surtido os efeitos esperados pela oposição, o maior perigo para a campanha Lula consistia, então, não nos casos requentados de “mensalões” e aparentados, mas na possibilidade de emergirem novas ações desastrosas, praticadas por remanescentes do mesmo grupo que gerou a crise de 2005 e quase conduziu o PT ao desastre.

Embora tal perigo parecesse evidente, agora há quase certeza de que não foram suficientes as medidas da direção petista para evitá-lo. Aparentemente manipulada por membros daquele grupo, a coordenação da campanha presidencial do PT deixou que se gerasse uma situação inusitada. Uma equipe reduzida de pretensos “inteligentes” se sentiu forte e autônoma o bastante para realizar uma estupidez, apelidada de “operação tabajara”, através da qual, supostamente, compraria um dossiê sobre a participação de tucanos no escândalo dos “sanguessugas”.

A estranha descoberta da malfadada operação deu à campanha tucano-pefelista e à imprensa a munição que precisavam para bombardear Lula e o PT com “novos casos de corrupção”. Em termos estritamente numéricos, de resultados eleitorais, isso não parece haver deslocado votos do presidente. Certamente, porém, fez com que parte dos indecisos, assim como parte dos que iriam votar em Heloísa Helena, transferisse sua votação para Alckmin, levando a disputa presidencial a um segundo turno.

A ironia da situação reside em que, no início da campanha, a coordenação petista afirmara trabalhar com um cenário de dois turnos. Para ela, a decisão em primeiro turno, nas eleições de 1994 e 1998, só ocorrera porque FHC teve o apoio explícito da maior parte do empresariado e da mídia. Nas eleições de 1989 e 2002, em que a maior parte do empresariado e da mídia estava dividida, a decisão teve que ir para o segundo turno. A conclusão lógica era a de que, em 2006, a candidatura Lula não era a preferida, nem do empresariado, nem da mídia, configurando-se o segundo turno como o cenário mais provável.

Assim, embora fosse possível uma vitória no primeiro turno, este não deveria ser o cenário com o qual a coordenação da campanha Lula deveria operar. Na prática, porém, como pesquisas contínuas indicavam a possibilidade de vitória do presidente no primeiro turno, isto parece haver levado a coordenação petista a desdenhar sua avaliação inicial. E ela passou a operar tendo como cenário principal a vitória no primeiro turno.

Esse tipo de apreciação parece tê-la conduzido, e ao próprio candidato, a negligenciar a importância de responder com nitidez às denúncias de corrupção, na suposição de que elas não atingiam aos setores pobres, e não abalariam o patamar que a candidatura Lula havia alcançado. Esqueceram, tudo indica erroneamente, que tais denúncias eram (como ainda são) muito sensíveis às classes médias e mesmo a setores empresariais simpáticos à candidatura Lula.

Em conseqüência, ao concretizar-se o segundo turno, é possível que uma parte dos dirigentes e da militância petista e dos aliados de campanha se veja envolvida pela sensação de derrota, e até chegue à conclusão de que Lula será batido nesta nova rodada. Tal sensação e tal conclusão podem decorrer tanto da derrota política da aposta na vitória no primeiro turno, quanto do esforço despendido para materializar essa expectativa. Podem ainda decorrer da tentativa do comando tucano-pefelista em demonstrar que Alckmin estaria em curva ascendente, enquanto Lula estaria em curva descendente.

Outros fatores correlatos, capazes de influenciar negativamente as forças petistas e aliadas, podem ser encontrados nos setores sociais que passaram a se engajar abertamente na campanha “Lula Não – Abaixo a Corrupção”, nos aliados do PT que começam a barganhar alto para manterem seu apoio no segundo turno, e na ausência de uma clara polarização política da campanha Lula, apesar do crescimento da polarização social.

Num quadro como esse, é difícil dizer se a campanha Lula será capaz de superar aquela sensação de derrota, embora haja evidências de que as forças petistas não foram aniquiladas, ao contrário do que previram todas as análises sobre sua performance eleitoral. O máximo que tais análises permitiam ao PT era a eleição de um ou dois governadores e, na melhor das hipóteses, de uma bancada de 50 deputados.

Na realidade, o PT elegeu 4 governadores no primeiro turno, está disputando o governo de dois estados em segundo turno, viu sua bancada no Senado cair para 11 membros, mas elegeu 84 deputados federais, isto é, três a mais do que a bancada a que fora reduzido após a saída dos parlamentares que formaram o PSOL. Ou seja, se forem computados também os deputados estaduais, em termos numéricos o PT saiu reforçado das eleições.

No entanto, por si só talvez isso não seja suficiente para superar aquela sensação de derrota. Para convencer sua militância, simpatizantes e aliados, de que precisam se engajar para obter a vitória no segundo turno, talvez o PT precise bem mais do que a conclusão de que saiu reforçado das eleições, bem mais do que a constatação de que Lula chegou em primeiro lugar, e bem mais do que palavras de incentivo e propostas de alianças e governo de coalizão.

Quase certamente precisará de mensagens, gestos e ações evidentes de reconhecimento de seus erros, e de repúdio daqueles que os cometeram e fogem de assumir suas responsabilidades. Isto provavelmente tenha que incluir uma definição clara diante do episódio do dossiê, explicitando se foi ou não praticado em consonância com a orientação partidária, e se os envolvidos e responsáveis por tal operação serão ou não afastados e julgados pela comissão de ética do partido.

Quase certamente precisará, também, explicitar seu projeto político para um segundo mandato. O que pode significar, entre outras coisas, ter que dizer em que aspectos seu programa se diferencia do de Alckmin, seja nas questões ideológicas, políticas, econômicas e sociais, seja na questão ética. E, dentro desta, na questão concreta da corrupção.

Para o presidente Lula e para o PT, o futuro do segundo turno dependerá, provavelmente, de sua capacidade em superar a sensação de derrota e, ao mesmo tempo, atender às demandas acima. Isto, porém, só saberemos durante o mês de outubro, com resposta datada para o dia 29.

 

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