Quase sem novidades

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Quase sem novidades, fev. 2007.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Quase sem novidades

Quatro tendências políticas foram reforçadas durante o curto mês de vinte e oito dias, entremeado de preparativos para o carnaval, do feriado carnavalesco, e da ressaca que o acompanha. Marcaram um período quase sem novidades a continuidade da pouca pressa do presidente em anunciar seu novo ministério, a aparente disposição da Câmara Federal em mostrar serviço, a crescente dificuldade dos atores externos em entenderem o que ocorre com o PT, e a dificuldade ainda maior da oposição em conseguir bandeiras aglutinadoras.

O presidente já não tinha muita pressa antes dos resultados da disputa para a presidência da Câmara. Primeiro, porque o que lhe interessava, preliminarmente, era formular seu plano de crescimento econômico, testar o grau de apoio que ele despertava nas diferentes correntes políticas, aliadas e oposicionistas, e transformá-lo em instrumento aglutinador da nova coalizão governamental. Segundo, porque ele parecia pretender escolher, para seus ministros, personalidades que demonstrassem maior afinidade com tal plano.

Os resultados da disputa pela direção da Câmara dos Deputados, porém, parece haverem introduzido um elemento novo no contexto do governo. Embora o PT, antes disso, já houvesse adotado a decisão de disputar os rumos da coalizão, em condições de igualdade com os demais aliados governistas, sua vitória demonstrou uma força e uma capacidade de interlocução maior do que a maioria dos analistas supunha. E, certamente, colocou o presidente diante da necessidade de reavaliar o grau de participação de seu partido no governo, obrigando-o a dilatar ainda mais o tempo para organizar o ministério.

Além disso, aquela vitória ocorreu num quadro político inimaginável há poucos anos atrás. É a primeira vez, na história parlamentar brasileira, que a presidência da Câmara foi disputada por dois representantes da esquerda. E conquistada pelo representante de um partido que era dado com liquidado há pouco mais de um ano, apesar do esforço oposicionista em desqualificar seu candidato, procurando associá-lo aos “mensaleiros”, e a agrupamentos e personalidades que praticaram delinqüências.

Isso tudo somado, criou-se um ambiente que obriga o PT e o novo presidente da Câmara a estimularem uma nova dinâmica naquela casa legislativa. O PT, porque pretende recuperar sua imagem de partido ético e predisposto a um trabalho parlamentar sério e profícuo. E, Arlindo Chinaglia, porque seu desempenho na presidência da Câmara pode calçar seu caminho para disputas mais elevadas, às quais até agora não conseguira ter acesso. Assim, na pior das hipóteses, deveremos assistir a esforços diversificados, para desencavar propostas de reformas que mofam, há anos, nos escaninhos parlamentares.

Tanto a demora do presidente Lula em montar o ministério, quanto a reviravolta do PT na Câmara, têm alimentado uma miríade de confusões a respeito das atitudes do PT, e de seus dirigentes e militantes. As notícias na imprensa, assim como muitas das análises políticas que povoam a mídia, dão a impressão de que a situação interna no PT e, portanto, suas atitudes e decisões, ainda é a mesma que vigorava durante a crise de 2005, com os mesmos dirigentes dando as cartas. A bem da verdade, também é preciso reconhecer que alguns desses ex-dirigentes pensam da mesma forma, o que alimenta ainda mais as análises truncadas.

A título de exemplo, essa situação parece ter se exacerbado com a suposição de que o PT, ou seja, sua direção, estaria pressionando o presidente a indicar a ex-prefeita Marta Suplicy para um ministério. Alguns dirigentes petistas chegaram a verbalizar publicamente essa exigência. Porém, quando a comissão executiva desse partido se reuniu, e reiterou sua decisão de dezembro de 2006, de que cabia ao presidente fazer a escolha dos nomes, a imprensa interpretou isso como uma capitulação ao pito de Lula, ao invés de considerar a possibilidade de que alguns dirigentes tenham exprimido sua opinião pessoal, e não a opinião do PT.

É certo que esse era um procedimento usual na antiga direção do PT, sob o predomínio do chamado Campo Majoritário. Alguns dirigentes falavam sem ouvir o que o diretório nacional e a comissão executiva desse partido pensavam a respeito. Isso parece estar mudando, embora a direção petista ainda conviva com um equilíbrio instável de forças, que se reflete na postura de dirigentes que tentam criar fatos consumados. Embora seja previsível que tal instabilidade não se resolva a curto prazo, nem mesmo no próximo congresso partidário, em maio de 2007, talvez seja conveniente analisar as idas e vindas do partido do presidente a partir desse novo quadro em mudança,e não do antigo. Principalmente se levarmos em conta que boa parte dos lulistas do PT já não se alinha com os ex-dirigentes daquele Campo Majoritário.

Nessas condições, o que hoje predomina no PT é uma poderosa unidade de apoio ao governo Lula, uma tendência de disputar os rumos da política do governo de coalizão (nesse sentido, o PAC se tornou o principal elo da unidade interna), e um esforço, embora nem sempre consciente e consistente, para superar os problemas que afundaram aquele partido na crise do primeiro mandato. É evidente que tal predomínio talvez não consiga eliminar a ânsia de falar em público e de aparecer aos holofotes, que caracteriza uma série de personalidades petistas. Mas, sem dúvida, pode representar um contrapeso, a ser considerado na avaliação da prática política do PT.

Finalmente, quanto à oposição, ela parece não só órfã de bandeiras aglutinadoras, mas também cindida diante dos projetos governamentais e da atitude a adotar quanto ao governo federal. Não sabe como se posicionar frente à proposta de aceleração do crescimento, combinada com a redução das desigualdades. Não tem como acusar o governo de violar a estabilidade fiscal e monetária. Nem pode negar que o governo Lula desenvolveu com sucesso seus programas sociais e de redistribuição de renda.

Diante do PAC, diz que o governo não dá garantias aos investimentos dos empresários, que haverá apagão de energia em 2009, que está sendo re-implantado um modelo estatista, e que é impossível o crescimento com as atuais taxas de juros e o câmbio apreciado. Para demonstrar essas afirmações, parece querer aproveitar-se de qualquer oportunidade, como a suspensão dos leilões para as concessões rodoviárias, rotulada de golpe contra as empresas privadas e as PPPs. Assim, embora possa ter alguma razão pontual, ela pode perder eficácia à medida que o governo Lula levar a cabo sua política de crescimento, e os problemas tomados como bandeiras de ataque forem superados.

Sobra a suspeição de que o presidente manobra para concorrer a um terceiro mandato, suspeição que também pode se esfumar, e deixar a oposição apenas com o pau da bandeira na mão, quando a nova disputa presidencial se apresentar, em 2010.

Assim, a quadro pode estar sem novidades, mas não deixa de apresentar problemas interessantes para o futuro.

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