Problemas e ameaças

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Problemas e ameaças, fev. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Problemas e ameaças

Como era previsível, o governo Lula e seu principal partido de sustentação, o PT, buscam  as formas de enfrentar, por um lado, a estratégia destrutiva da oposição e suas tentativas de tomar a iniciativa política e, por outro, a maneira de reduzir a instabilidade de sua base parlamentar e de recompor sua base social.

O que muitos consideraram um destempero verbal do presidente, ao insinuar que existem provas de corrupção no governo FHC, na verdade talvez devessem ter considerado como um aviso de que o governo está disposto a tornar públicos aspectos da “herança maldita” do governo passado, se o tucanato continuar empenhado em criar uma crise política. No enfrentamento da estratégia oposicionista, o presidente sinalizou uma das possibilidades de atuação do governo, diante do que considera açodamento conservador e reacionário da oposição. Ao invés de capitular, Lula parece disposto a endurecer, embora haja gente no PT e no governo que prefira ações mais brandas.

Apesar disso, a estratégia petista e governamental para superar aqueles três grandes problemas políticos ainda não está totalmente clara. No quesito base parlamentar, esta depende da reforma ministerial e da decisão do governo a respeito da reforma política, ambas ainda embaralhadas. Havia dúvidas entre operar com uma base estreita, mas fiel, ou com uma base ampla, mas insegura. Com uma base estreita, será necessário, ao mesmo tempo, flexibilidade para conquistar aliados nas votações concretas dos projetos governamentais. Com uma base ampla, há o duplo pedágio de ter no ministério a representação de uma base insegura e, ainda por cima, ter que conquistar, ou reconquistar, parte dessa base a cada votação.

O governo também parece não ter certeza de até onde a reforma política pode ir. Com o atual universo parlamentar, dificilmente verá aprovados os aspectos mais decisivos da reforma, a exemplo da lista eleitoral partidária. Talvez consiga, na melhor das hipóteses, emplacar a fidelidade partidária e o financiamento público das campanhas. Assim, ou tenta uma reforma parcial, levando em conta a correlação de forças na Câmara, e será acusado de tibieza. Ou tenta uma reforma política mais radical,  correndo o risco de sofrer nova derrota no Congresso, mesmo que os ministros “aliados” façam todo o esforço para que  suas bases votem com o governo, e será considerado enfraquecido.

Por outro lado, Lula e o PT falam cada vez mais em enfrentar de modo mais incisivo a recomposição de sua base social, principalmente através dos programas sociais e microeconômicos, implantados pelo governo federal, seja diretamente, seja em parceria com governos estaduais e municipais. Esses programas parecem dar sinais de que poderão ter impacto sobre a massa de rendimentos dos trabalhadores e das camadas populares, elevando o poder de compra e a demanda na economia.

É justamente isso que começa a causar fortes preocupações nos setores conservadores, nacionais e internacionais. Se até a pouco, parcelas significativas da direita e da esquerda juntavam-se nas críticas à “inoperância gerencial” e ao fracasso desses programas, neste momento a direita re-calibra suas baterias para atingir justamente o sucesso, ou parte do sucesso, desses programas. O britânico The Economist chamou Lula de gastador, e o colocou como ameaça à política macroeconômica do ministro Palocci.

A mão direita do governo, através do ministro da Fazenda, estaria operando muito bem a macroeconomia. No entanto, sua mão esquerda, através de ninguém menos do que o chefe do ministro, seria perdulária e estaria começando a colocar em risco o sucesso macroeconômico. Nessas condições, tentar recompor a base social do governo, através da redução dos níveis de pobreza e do estímulo a um crescimento mais acelerado, pode tornar-se o alvo principal da oposição conservadora, mesmo que isso venha a ser colocado como luta contra os tributos escorchadores. A oposição tem agradecido, penhoradamente, o presente político que a equipe econômica lhe deu, com a MP 232.

De qualquer modo, talvez a tentativa de recomposição da base social do governo  já tenha se tornado a principal frente de combate do governo, tanto em seu flanco direito, quanto em seu flanco esquerdo. Neste, há um setor radicalizado, cuja expressão mais recente foram as vaias ao presidente Lula, em Porto Alegre, durante sua participação no Fórum Social Mundial. Esse setor não concorda com qualquer tipo de ação realizado pela mão direita. Não concorda que o Brasil deva honrar os contratos com os credores internacionais, que considera lesivos, nem cumprir o acordo com o FMI e, muito menos, manter o rumo da política econômica anterior, mesmo transitoriamente.

Além disso, sequer leva em consideração que a política de valorização cambial, levada a cabo pelo governo FHC, resultou num endividamento que deixou o Brasil praticamente insolvente. Para seus componentes, Lula deveria ter se utilizado da moratória, como solução ao endividamento, mesmo sem ter idéia de todas as conseqüências que tal medida produziria. A preferência por manter o acordo com o FMI e resolver o endividamento através da redução da relação dívida/PIB é, para eles, uma verdadeira traição.

Com base nisso, desconsideram que a superação da crise da economia, em 2003, e o crescimento econômico conquistado em 2004, tenham qualquer valor em termos de desenvolvimento. Analisam alto demais o custo social para reduzir a dívida pública, de 60% para 51,8% do PIB. Criticam os “privilégios do agro-negócio”,  a falta de empenho em coibir o desmatamento da Amazônia e dos Cerrados, a demora em implementar a reforma agrária e a persistência do desemprego. E, fazem coro com os conservadores, criticando a carga tributária e as altas taxas de juros.

Para o governo Lula e para o PT, as vaias constituíram um fato pontual e localizado. Mas eles parecem haver sentido as críticas, aparecidas naquele fórum, às políticas econômica e social do governo, feitas pelos chamados movimentos sociais e por outros segmentos da esquerda. Diferenciando-se dos setores mais radicalizados, esses segmentos admitem que a mão direita aja, negocie, e até mesmo implemente uma política transitória ou de continuidade da política anterior, para chegar a uma nova.

Mas não concordam que o transitório se transforme em permanente, que a mão direita comande a mão esquerda, e que  chegue mesmo a impedir a ação desta. Não consideram um mal ter equilíbrio financeiro e controlar a inflação, para ter estabilidade econômica e conquistar a credibilidade dos credores. Mas pretendem que deva existir, ao mesmo tempo, um empenho sério de alavancagem de recursos para investir em infra-estrutura, nas áreas sociais, na criação de empregos e na preservação ambiental, para também ter estabilidade social.

Nessas condições, diante do visível descontentamento que grassa nesses setores, que ainda confiam em Lula, ou em Lula e no PT, estes talvez se vejam obrigados a fazer com que sua mão esquerda demonstre que não está inerte, ou paralítica. A ao contrário, que ela está disposta a agir com tanta força quanto a direita, apesar das contradições que isso possa fazer emergir. O perigo reside em que o governo e o PT reduzam o movimento de sua mão esquerda a uma questão de comunicação. Embora esta também exista, se tudo for resumido a ela, provavelmente assistiremos todos a um distanciamento ainda maior daqueles setores de base popular. E não necessariamente para a esquerda.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *