Paralelos históricos

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Paralelos históricos, out. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Paralelos históricos

Pelas artes próprias da dinâmica das guerras, a oposição tucana e pefelista não só não se considerou na defensiva, após a derrota para a eleição da presidência da Câmara, como tornou temerária sua ofensiva na busca e anúncio de provas supostamente incriminadoras do presidente e capazes de levá-lo ao impeachment.

Denúncias de recebimento de dinheiro cubano nas eleições de 2002, do uso de grampos em telefones de deputados e senadores, de transferência de recursos do Banco do Brasil para os cofres petistas, assim como indícios de utilização de outras denúncias de alta repercussão pictórica, mas pouca consistência de veracidade, além de ameaças de “surra” no presidente, apontam para uma situação em que a crise pode ser solucionada pela derrota traumática de um dos lados, ou pelo afundamento num pântano político, de onde as forças partidárias terão dificuldade de safar-se.

Nada muito diferente, guardadas as devidas proporções, daquela situação com a qual o alto comando alemão se confrontou, durante a Segunda Guerra Mundial, diante das decisões cruciais de Churchill e de Stálin. O primeiro, de defender a Ilha, até o fim, contra qualquer tentativa de invasão aérea ou marítima. O segundo, de não recuar de Leningrado, Moscou e Stalingrado em hipótese alguma. Naquela ocasião, em ofensiva aparentemente vitoriosa, o comando alemão considerou desesperadas e insustentáveis as posições inglesas e soviéticas, e continuou jogando forças e mais forças nas batalhas pelo domínio daquelas praças fortes.

Na Inglaterra e na antiga União Soviética não foram poucos os setores políticos e militares que nutriram a mesma opinião e propuseram outras opções. Ingleses proeminentes sugeriram negociações e algum tipo de acordo com a Alemanha. Na URSS, vários generais pressionaram para que as linhas principais de defesa fossem deslocadas para mais próximas dos Urais. Pressionados pela ofensiva alemã, supunham que a Inglaterra e a União Soviética seriam incapazes de manter-se e, muito menos, passar à contra-ofensiva.

A história provou que o desespero e a incapacidade anglo-soviética eram aparentes. As tropas alemães é que foram incapazes de tomar aquelas posições estratégicas, ou mesmo sangrá-las decisivamente, e obter a vitória na guerra. Da mesma forma que PSDB, PFL e aliados, após cinco meses de CPIs e de ofensiva concentrada, com o auxílio da ultra-esquerda e a sustentação generalizada da mídia, não conseguiram destruir o PT, nem chegar ao impeachment do presidente, ou sangrar mortalmente o seu prestígio.

Nesse processo de crise, a principal praça forte do governo Lula, o PT, deu os primeiros passos para recompor suas forças internas. E não há dúvidas de que o governo conseguiu algum sucesso na re-arrumação de sua sustentação parlamentar. Do mesmo modo que a encarniçada batalha dos céus ingleses, a resistência inigualável dos leningradenses, os contra-ataques da frente moscovita, e os terríveis combates prédio a prédio em Stalingrado deveriam ter alertado o comando alemão para mudanças importantes na correlação de forças, aqueles dois sinais de recomposição das forças governistas também deveriam ter servido de alerta para a oposição, no sentido de reverem sua estratégia.

No entanto, da mesma maneira que os alemães mantiveram inalterados os planos de conquista que haviam traçado, os últimos acontecimentos parecem mostrar que as cúpulas do PSDB e do PFL continuam aferradas à idéia de chegar, custe o que custar, ao impeachment do presidente ou, na pior das hipóteses, a seu sangramento continuado até as eleições de 2006. Não parecem pretender mudar sua análise de que o PT e o governo Lula estejam irremediavelmente enredados nas irregularidades e delinqüências do antigo grupo dirigente petista, e não terão condições de defender-se e passar à contra-ofensiva.

O interessante nos paralelos históricos é que, no PT, na base aliada do governo e entre os analistas políticos, também há os que pensam a mesma coisa, e consideram necessário algum tipo de trégua, para evitar a destruição mútua. Talvez não levem em conta que a trégua não faz parte das opções estratégicas das cúpulas do PSDB e PFL. Pelo menos até o momento, tais opções só comportam vencer agora, pelo impeachment, ou em outubro de 2006, pelo sangramento total. Em tais condições, seria o mesmo que pedir a ingleses e soviéticos que procurassem algum acordo para deter a guerra destruidora.

É verdade que uma parte da nova direção do PT, apesar de tudo, ainda se nega a acertar as contas com os dirigentes envolvidos em irregularidades e delinqüências, supondo que a expulsão de Delúbio Soares será suficiente para recuperar a credibilidade. Essa postura, certamente, deve enfraquecer a decisão do partido passar à contra-ofensiva. Mesmo na suposição de que PSDB e PFL estejam muito mais envolvidos em delitos de corrupção, e que o governo Lula seja, comparativamente, superior aos governos anteriores, isso parece não ser argumento suficiente para a recuperação do prestígio do partido diante da opinião pública. O que esta pretende, para voltar a depositar um crédito de confiança no PT e no governo, é um acerto cabal de contas com os dirigentes que, por ação ou omissão, permitiram a eclosão da presente crise.

É verdade, também, que a ação de resistência deliberada do deputado José Dirceu, alegando uma inocência criminal que nada ou pouco tem a ver com sua responsabilidade política no desencadeamento da crise, alimenta os movimentos da oposição e suas esperanças de derrubar o governo. No entanto, se isso representa a existência de flancos abertos nas defesas petistas e governamentais, não significa que a situação seja a mesma de cinco meses atrás. Significa tão-somente que o PT e o governo ainda enfrentam dificuldades na reorganização das forças internas, e que isso pode dificultar uma mudança mais efetiva na correlação de forças a favor deles.

Mantendo-se essas dificuldades, e inalterada e estratégia tucana e pefelista, as análises sobre a possível destruição mútua do PT, PSDB e PFL podem confirmar-se, configurando uma situação em que as forças oponentes vão se exaurir nas disputas pelas praças fortes. Seria como se as tropas soviéticas não tivessem concentrado forças suficientes para cercar os exércitos de Von Paulus e iniciar a contra-ofensiva geral, e a Inglaterra não tivesse reunido as condições para tornar-se a base de abertura da segunda frente contra a Alemanha. Poderemos ter um cenário de pântano político, com repercussões negativas sobre os demais aspectos da vida nacional.

Pode ocorrer, porém, que o PT e o governo superem suas dificuldades internas, em prosseguimento ao PED. Ou que a oposição reveja sua estratégia e abandone a esdrúxula vontade de “dar uma surra” física no presidente, demonstrando que a racionalidade, apesar de tudo, ainda continua presente na política brasileira. Nesses casos, 2006 poderá ser a arena civilizada para a definição dos cenários brasileiros futuros.

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