Os riscos de todos nós

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Os riscos de todos nós, mai. 1991.

 

 

Wladimir Pomar [1]

 

A mudança da equipe econômica foi um vendaval mas, não teve força suficiente para fazer o país ingressar num novo cenário. O governo continua concentrado em administrar o descontrole do plano econômico. Está condicionado pela necessidade de realizar um descongelamento que não saia dos trilhos, manter uma rígida política fiscal com superávit orçamentário e não fazer concessões na política monetária, embora cresçam as pressões em sentido contrário. A nova equipe assume amarrada a esses condicionamentos. Assim, como a anterior, terá que aplicar a política de ganhar tempo e buscar saídas para a encruzilhada que tem à frente.

 

1. A retórica governamental, por isso mesmo, deve continuar ambígua, como decorrência de sua indefinição quanto ao rumo a trilhar. As pressões empresariais, das classes médias e dos trabalhadores, contra a recessão, sinalizando a possibilidade dela haver chegado ao fundo do poço, têm ativado o discurso de diferentes setores do governo a favor da retomada de crescimento econômico. O presidente Collor em particular, tem reiterado essa visão.

Entretanto, a equipe econômica do embaixador Marcílio, apoiada pelo próprio presidente, tem repetido sua disposição de manter a política recessiva da equipe que foi defenestrada. Pelo menos por algum tempo, o estilo de tratar as questões pode assumir aspecto soft, próprio dos diplomatas, mas no frigir dos ovos as decisões devem continuar duras como antes. Na verdade, depois da política de terra arrasada dos Planos Collor I e II, as opções possíveis foram se estreitando e tendem a ser polarizadas.

O problema é que os indicadores que apontam para uma recessão profunda (cerca de 20 por cento de queda nas atividades industriais, queda idêntica da safra agrícola, desemprego superior a 12 por cento da força de trabalho, mais de 35 por cento das empresas no vermelho, etc.) são muito preocupantes. Podem não apontar, necessariamente, para os limites do suportável, depois dos quais deve se instalar o caos. Mas ninguém pode demonstrar que tais limites não estejam perigosamente próximos.

Uma situação declarada de caos social se instala quando os setores informais da economia e da sociedade são atingidos pela recessão ou depressão que afete o setor formal e levados a movimentar-se espontaneamente contra a situação dominante. Os fatores de descontentamento dessas parcelas crescem de tal modo que seu antigo imobilismo e conformismo explodem em ações desencontradas e, muitas vezes, violentamente destrutivas.

Medir ou dimensionar esses fatores de descontentamento e a possibilidade deles se transformarem em ações de força das camadas marginalizadas da sociedade é um exercício subjetivo. A radicalidade e a violência que começa a aparecer nas greves e protestos, mesmo contra a vontade e a disposição da maioria das lideranças, são indícios de que tais fatores se multiplicam. Fenômenos como a expansão de métodos anti-sociais e ilegais de redistribuição de renda (assaltos, seqüestros, etc.), de busca de ganho fácil (comercio/tráfico de narcóticos) e da multiplicação da corrupção em todos os segmentos, apontam tendências perigosas.

Embora a recessão tenha sofrido certa desaceleração logo após o plano Collor II, a tendência geral não foi revertida, refletindo-se principalmente no aumento do desemprego. A situação dos desempregados é agravada pela ausência de programas sociais que minorem o estado de miserabilidade das populações carente de renda. Apesar disso, os indicadores mais evidentes ainda não parecem mostrar sinais de que grandes parcelas da população já estejam se movimentando para tentar modificar sua situação de vida. A força da economia informal do Brasil possui uma dimensão cujos contornos não são completamente claros, e talvez isso ainda venha conseguindo manter a situação dentro de um certo controle.

O problema da sociedade organizada, porém, talvez não seja esse. O problema consiste em que, apesar daqueles indicadores não serem totalmente pessimistas, eles parecem sinalizar para um quadro de grande imprecisão e instabilidade. Tanto pode permanecer sob controle, como desandar sem aviso prévio definido. Nenhuma sociedade pode dar-se ao luxo de fazer um jogo de alto risco como esse sem preocupar-se com as conseqüências.

O governo parece trabalhar com a hipótese explosiva quando joga a responsabilidade da situação sobre as elites empresarias. Se essa avaliação for verdadeira, significa que trabalha com a ilusão de resguardar-se caso o tecido social se rompa. Nesse caso, entretanto, pode ocorrer que todos saiam perdedores. As lideranças sindicais e os trabalhadores organizados podem ser atropelados pela convulsão geral e ver suas conquistas levadas de roldão. Os empresários não terão somente comprimidos seus lucros; a inadimplência pode tornar-se uma realidade independentemente de seus cuidados e esforços de ajustamento. E o governo pode ver-se envolvido no turbilhão dos acontecimentos como responsável maior pelo descontrole total.

A greve geral convocada por três centrais sindicais (CUT e CGT’s), para os dias 22 e 23 de maio, apesar de haver fracassado, deve ser lida nesse contexto. Governo e empresários podem até explorar esse fracasso. Como aliás sempre fizeram, mas não podem tomar sua propaganda como verdade absoluta e enganar a si próprios. Além da completa insensibilidade e incapacidade das lideranças das centrais sindicais em entender o que se passa na base, marcando uma greve geral desconectada das greves setoriais, o que mais a caracterizou foi justamente a violência, incomum em relação às greves gerais anteriores. Engana-se quem quiser apontar as lideranças sindicais como responsáveis por isso.

Na realidade, tal violência só mostra que estão entrando na cena dos movimentos grevistas setores sem experiência de luta sindical, nada politizados e extremamente descontentes.
Esses setores, em geral sem qualificação profissional, situados na base da pirâmide do mercado de trabalho formal, pressionam os trabalhadores organizados e suas lideranças sindicais e políticas a cantar e dançar segundo sua música.

Quando alertávamos, em trabalhos anteriores, para o fato de que os trabalhadores tendiam a retomar seus movimentos grevistas, independentemente da vontade de suas lideranças, pela pressão das bases, tínhamos em vista justamente a ascensão dessas novas camadas à cena social, forçando as demais a tomar posição.

Nessas condições, todas as lideranças sindicais terão que reciclar-se rapidamente. Seu discurso, terá que ser modificado, mesmo que há pouco tempo fosse caracterizado pelo uso de uma retórica soft, mais chegada à negociação do que à luta. Isso será verdade tanto para Medeiros, quanto para os dirigentes da CUT. Aliás, é interessante notar que os dirigentes das CGT’s, no intuito evidente de capitalizar dividendos, aparecem como mais radicais do que Meneguelli. E Gilmar Carneiro, presidente dos bancários de São Paulo e secretário-geral da CUT nacional, até então considerado um negociador por excelência, revelou-se um incentivador surpreendente da violência grevista.

A atitude cautelosa dos metalúrgicos do ABC paulista, considerados a vanguarda do movimento sindical, mal saídos de movimentos grevistas extenuantes, deve ser encarada menos como condenação à greve geral ou às ações destemperadas dos cristãos novos dos movimentos grevistas e mais como uma pausa observadora para medir a nova situação. Ao contrario de certas leituras apressadas, a vanguarda sindical dos trabalhadores está muito receptiva à atuação das camadas em piores condições. Seu descontentamento é muito grande e sua tendência será, mantidas as atuais tendências, de articular sua própria ação com a daquelas camadas.

Assim, embora a propaganda, atacando a CUT (e também o PT) como defensor da idade da pedra, possa ter alguma influência sobre a classe média e parcelas do empresariado, não vão resolver o problema real gerador dos conflitos. A manutenção da política recessiva tende a aguçar os fatores de descontentamento das parcelas marginalizadas da população, e jogá-las na ação, pressionando os movimentos organizados e impondo-lhes um novo tom.

Nesse quadro, mesmo que a recessão ainda não tenha atingido o fundo do poço, os diversos indicadores apontam muito provavelmente para uma situação bem próxima do descontrole.
A Euforia com o fracasso da greve geral pode constituir-se ilusória e fatal.

 

2. Essa situação se agrava na medida em que a recessão não mostra sinais consistentes de haver controlado ou debelado de forma definitiva os fatores inflacionários. É verdade que a recessão conseguiu jogar o poder aquisitivo num nível muito baixo, inibindo até mesmo a repassagem de custos mais altos para os preços. Mas essa é uma situação artificial que não pode perdurar por muito tempo. Existem ou subsistem pressões inflacionárias nos salários, no cambio, nas tarifas. O mesmo ocorre com o orçamento fiscal, com o pagamento dos compromissos internos e externo, com os produtos agrícolas e outros produtos básicos. Todos podem incindir sobre o crescimento da inflação ou seu descontrole.

A encruzilhada do governo talvez possa ser resumida a esse ponto: a retomada do crescimento, tão desejado e esperado por quase todos os segmentos da sociedade, dificilmente pode ser alcançada sem ser acompanhada de algum tipo de recrudescimento inflacionário. Do ponto de vista político, isso pode representar o fracasso do projeto do presidente Collor, com as conseqüências imagináveis. Por isso, a mudança da equipe econômica, abstraindo os aspectos relacionados a negócios escusos na Zona Franca de Manaus e em outras Zonas, e mesmo, as pressões dos banqueiros internacionais, parece enquadrar-se na estratégia geral de ganhar tempo, mudando para manter tudo do jeito que está. A nova equipe deve enfrentar, assim, as mesmas dificuldades da anterior, pelo menos até que o presidente tenha encontrado um projeto viável que compatibilize crescimento com estabilidade monetária e fiscal.

Essa tarefa se torna ainda mais complexa na medida em que vão se confirmando os prognósticos mais sombrios relativos à economia mundial e, em particular à recessão americana.
Eles apontam pra fluxos de capital distantes de países como os da América Latina, inviabilizando um dos aspectos básicos do projeto da gestão Collor: a retomada do crescimento baseada no afluxo de capitais internacionais de risco.
Aqueles prognósticos apontam também para maiores dificuldades de negociação da divida externa.

Nessas condições, a expectativa inicial de que a troca de time poderia indicar mudanças substanciais, a curto prazo, na orientação governamental, parece ter perdido consistência. A situação é de tal ordem que, para modificar o quadro criado pelos dois planos econômicos anteriores, será necessário um longo e cuidadoso processo, a começar pelos cuidados e adaptações para sair do congelamento sem derrapar. Como complicador político há o fato de que, por circunstâncias que somente Freud explica, a ministra Zélia e sua equipe, que antes corriam o risco de ver-se atacados com ovos, acabaram saindo como vitimas de tramas sórdidas, uma internacional e outra corrupta. Isso colocou a nova equipe, desde o começo, na defensiva política. Mesmo que seja seu intuito realizar mudanças profundas na negociação externa e nas orientações monetária e fiscal, o estigma que carrega a torna vulnerável às criticas e ataques políticos. Os elogios dos banqueiros internacionais e das elites empresariais às escolhas do presidente só serviram para reforçar as expectativas negativas do imaginário popular.

 

3. O presidente Collor procura compensar essas dificuldades através do dialogo com os setores políticos. Entretanto, sua estratégia nesse terreno parece continuar eivada das contradições que são próprias de seu método de fazer política. Namora abertamente o PSDB, que faz biquinho mas gostaria de estar em peso no governo, a exemplo da secretária Dorothéia, e ao mesmo tempo que contar com a fidelidade do PFL. Faz um acordo escancarado de troca de favores com o governador Brizola, que se aproveita disso para obter verbas, concessões e obras para o Rio de Janeiro, e ao mesmo tempo faz promessas e juras de prioridade para os governadores aliados do Nordeste. Que ver implantado o parlamentarismo e, ao mesmo tempo, ataca qualquer um que tome iniciativa de fazer campanha por sua implantação.

Além disso, despreza os partidos, embora sem partidos fortes seja impossível implantar qualquer tipo de sistema parlamentarista.

Adula os governadores deixando em segundo plano o Congresso, ou vice-versa. Tenta aproximar-se de artistas e intelectuais, mas não consegue articular uma proposta coerente, apesar do novo secretário da área. Parece que o presidente só consegue abrir uma porta, fechando outras.
Dessa maneira, apesar do papel positivo que a não edição de medidas provisórias tem desempenhado para abrir canais de dialogo com os diversos setores da sociedade, o governo continua com dificuldade em sair do isolamento político em que se mete. O diálogo e o entendimento patrocinados pelo presidente tendem a firmar-se como rituais para amansar doido e não como procedimentos de busca de consenso. A nova equipe econômica, como a anterior, é resultado das opções pessoais e de ninguém mais. Dificilmente se encontrará um partido ou um político que tenha contribuído para a formação do time e que seja, por conseqüência, solidário com sua sorte. Construir consenso desse modo é muito difícil. Por isso o ressurgimento da idéia do pacto social continua sendo visto, à direita e à esquerda, como uma miragem.

É muito difícil também, nessas condições, que o cenário de transição pelo qual estamos passando possa livrar-se das tensões e atritos que crescem sem cessar. O tecido social brasileiro entrou num processo de esgarçamento sem que haja um projeto consistente para protegê-lo e salvá-lo. Em certa medida isso beneficia o governo. Ele não se vê ainda obrigado a enfrentar um projeto oposto ao seu e pode dedicar-se, apesar de todas as resistências, a realizar as experimentações que julgar mais convenientes.

Por outro lado, isso pode conduzir a sociedade a uma daquelas situações pantanosas de crise sem saída por longo período, dilapidando a riqueza acumulada, destruindo as forças produtivas e tornando a vida social uma selva irreconhecível. Embora o Brasil seja um país continente que se desenvolveu muito entre as décadas de 40 e 70, não é impossível que seu declínio nos dez últimos anos possa levá-lo a um retrocesso histórico.

É o risco que todos corremos. Até o ex-presidente Sarney, que só de ver gente “da nossa equipe” no governo Collor, teme ser responsabilizado pelo que vier a ocorrer.

 

[1] Consultor político, ex-Coordenador Geral da campanha Lula Presidente e membro do Diretório nacional do PT.

Este relatório expressa a opinião pessoal do autor e não necessariamente endossada pela ROSENBERG CONSULTORIA.

Trata-se de uma abordagem própria que acreditamos ser de valia para nossos clientes.

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