Os limites do capitalismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Os limites do capitalismo, n. 613, 29 jul. 2008.

 

 

No estudo do capital, Marx usou o método dialético como instrumento de dissecação da mercadoria, a célula mais comum, mais simples e universal desse modo de produzir. Descobriu seus pólos contraditórios (valor de uso e valor de troca) e, partindo destas contradições básicas e de seus desdobramentos, acabou por descobrir a mais-valia, como a proteína responsável pela vida e reprodução do próprio capital.

Analisando esse processo de reprodução, Marx deduziu que o capital, à medida que se desenvolve e acumula, tende a gerar uma contradição antagônica entre a apropriação privada dos meios de produção e da riqueza gerada e as necessidades sociais.

Por um lado, o capital tende a elevar a um alto grau a capacidade produtiva da humanidade. Esta, para chegar ao capitalismo, teve que passar por um longo processo histórico. Criou a propriedade privada dos meios de produção (relações de produção) ao saltar do caça e da coleta para a agricultura. Com isso, transformou os valores de uso em valores de troca (mercadorias) e, aos trancos e barrancos, gerou um vasto conjunto de instrumentos de cálculo desses valores de troca (mercado), implantou a divisão social do trabalho (classes sociais), e criou o Estado (regulador da luta entre as classes).

Deu surgimento ao capital, saltando da agricultura para a indústria, e alcançando um alto nível de desenvolvimento. Pela primeira vez, numa história de milênios, a humanidade pode contar com uma capacidade científica, tecnológica e produtiva, que satisfaça às necessidades de seus membros.

Porém, ao mesmo tempo, o capital tende a reduzir sua taxa média de lucro e a aumentar a massa humana desprovida de meios de produção e de condições de trabalho. Concentra e centraliza, num pólo, uma imensa massa de riqueza e poder e, no outro, uma imensa massa pobre e miserável. Do ponto de vista social, cria um absurdo de difícil legitimação. Do ponto de vista econômico, gera uma situação em que não mais haverá condições de reproduzir e acumular novas riquezas. Com isso, o capital se verá na contingência, ainda por cima, de manter aqueles que antes eram a fonte de produção de sua riqueza, ou a deixá-los morrer na miserabilidade.

Para Marx, seguindo essa dialética de desenvolvimento do capital, a forma de resolver aquela contradição consiste em transformar a propriedade privada dos meios de produção em propriedade social, reorganizando o trabalho e a distribuição da riqueza, de acordo com as necessidades humanas. Os bens seriam apropriados por seu valor de uso, e o mercado, assim como as classes e o Estado, deixariam de ser uma necessidade.

Em outras palavras, segundo a teoria de Marx, é o capital que cria seus próprios limites e as condições de sua transformação numa sociedade comunista. Mas Marx não considerava que tal transformação pode ocorrer espontaneamente. Com base na história das sociedades humanas, desde que surgiram no palco da história, Marx também deduziu que a transformação de um tipo de sociedade ou de uma formação econômico-social em outra só se dava através da luta entre as classes que a compunham.

Desse modo, a transformação do capitalismo em comunismo também só poderia ocorrer através da luta, econômica, social e política, entre as classes que compõem a sociedade capitalista. Não por acaso, ele deduziu que revoluções comunistas só poderiam acontecer em países capitalistas desenvolvidos.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *