Os dilemas da oposição

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Os dilemas da oposição, fev. 2006.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Os dilemas da oposição

Não parece haver dúvidas de que a oposição vive alguns dilemas. Suas expressões mais visíveis são as dificuldades vividas pelo PSDB para superar as divergências entre Serra e Alkmin, e indicar seu candidato a presidente, sem criar fraturas irreversíveis. Mas também são evidentes nas vacilações do PFL, para compor-se com o PSDB, e no drama da ala oposicionista do PMDB, para lançar candidatura própria, ambos dependentes da obrigatoriedade da verticalização eleitoral, se ela for mantida pelo Supremo Tribunal Federal para as eleições de 2006.

No entanto, essas expressões são apenas a ponta de dilemas mais profundos que agitam as várias correntes oposicionistas. Elas dizem respeito à nova estratégia de combate à candidatura Lula, depois que parece haver naufragado a estratégia de destruição do PT e de derrubada de Lula, através das denúncias de corrupção, e da transformação das CPIs em instrumentos dessa estratégia. Se depender de Serra, FHC, PFL, Garotinho e Heloisa Helena, essa estratégia continuará a todo o vapor. Eles parecem considerar que a maior parte da população acredita que o governo Lula é corrupto, e que o presidente está envolvido diretamente nesse processo. Por outro lado, se depender de Alkmin, Aécio e alguns outros tucanos, a oposição escolherá estratégia diferente, mais propositiva que negativista e denuncista.

A prorrogação dos trabalhos das CPIs e a fabricação de novas denúncias, mesmo tendo como base depoimentos de baixíssima credibilidade, a exemplo das que foram publicadas pela revista Veja na última semana de fevereiro, seriam parte da estratégia patrocinada pelo PFL e tucanato radical. Elas constituiriam instrumentos importantes para jogar o governo e o PT contra as cordas e mantê-los na defensiva, como ocorreu no início das denúncias do valerioduto. Na certeza de que a atual recuperação das preferências eleitorais do presidente não passaria de uma bolha circunstancial, essas correntes da oposição parecem considerar que a única forma de derrotar Lula consiste em realizar uma campanha eleitoral metaforicamente sangrenta.

Isto é, uma campanha que possa assacar contra o presidente tudo aquilo que, de uma forma ou outra, leve o eleitorado a acreditar que seu governo é corrupto, e que o próprio presidente faz parte da quadrilha. O saco de maldades da oposição deveria incluir tanto os casos mais evidentes de delinqüências de ex-dirigentes petistas, julgadas pela Câmara e, em parte, pelo próprio PT, quanto as supostas irregularidades cometidas pelo ministro Palocci, durante sua gestão como prefeito de Ribeirão Preto. Incluir tanto a suposta contribuição das FARC e/ou de Cuba para a eleição de 2002, quanto as relações do filho do presidente com a Telemar. Incluir tanto as alegadas implicações políticas do assassinato do prefeito Celso Daniel, quanto as antigas transações financeiras do atual presidente do Sebrae, assim como outras pérolas que podem eventualmente ser produzidas pela criatividade inventiva de alguns repórteres investigativos.

Alkmin, Aécio e alguns outros próceres oposicionistas parecem acreditar que essa estratégia não deu os resultados esperados, havendo fracassado. Embora o presidente Lula permaneça com uma taxa de rejeição relativamente alta, eles supõem que ela é inferior à de todos os demais prováveis candidatos. Isso poderia demonstrar, mais uma vez, que o eleitorado não tende a fazer escolhas com base em acusações e denúncias, mas com base em realizações e propostas. Além disso, e com certa razão, temem que a continuidade das CPIs, no ponto em que elas chegaram, acabe levando-as a ingressar pelos túneis e labirintos de financiamento dos próprios tucanos e pefelistas. Assim, como acontece com muitas feitiçarias, poderiam voltar-se contra seus autores. Finalmente, também parecem considerar que seu flanco de luta anti-corrupção tenha se enfraquecido consideravelmente depois que a oposição conseguiu evitar a cassação do deputado Roberto Brant. Por tudo isso, prefeririam uma atitude positiva, disputando contra a candidatura Lula  propostas de governo mais consistentes.

Apesar desses argumentos mais civilizados, os radicais tucanos e pefelistas sustentam que, na disputa entre propostas, o governo FHC será posto na berlinda, prejudicando a candidatura oposicionista. Lembram que o programa bolsa-família, além de não ter sido levado muito a sério no governo anterior, tem sido atacado em certa medida pela oposição, por apresentar irregularidades diversas. No entanto, na prática, esse programa deve estar atingindo mais de 10 milhões de famílias, ou cerca de 30 milhões de eleitores. Por que estes beneficiários iriam votar em candidatos que fazem restrições ao bolsa-família?

Com certa razão, eles também lembram que, embora o salário mínimo continue baixo e não tenha atingido o patamar prometido por Lula quando foi candidato, sua comparação com o piso salarial do governo FHC deixaria este em desvantagem. Nessas condições, dificilmente Serra ou Alkmin seriam levados a sério se passassem a defender um teto mais elevado. O mesmo aconteceria se houver ataques à política econômica, já que o aspecto monetário dessa política seria continuidade da política do governo anterior, e que o crescimento, apesar de baixo em 2005, ainda não apresenta indícios consistentes de que, em 2006, será um fiasco na mesma proporção.

Se a economia entrar em queda, argumentam, aí sim seria possível explorar a incompetência gerencial do governo e contrapor à candidatura Lula propostas e exemplos competentes de governo. No entanto, se a economia apresentar sinais de um ritmo de crescimento maior, com o presidente fazendo inaugurações de obras a cada 5 dias, será difícil combatê-lo através de propostas alternativas. Com base nessa interpretação, os radicais do PSDB e do PFL reiteram que a estratégia mais consistente será mesmo explorar o que consideram a principal vulnerabilidade de Lula e do PT, ou seja, seu envolvimento com a corrupção.

Ao contrário do embalo em que se encontravam no segundo semestre de 2005, os oposicionistas parecem presos a opções cujas vulnerabilidades são aparentemente incontornáveis. Talvez sua sorte dependa não dos seus méritos ou do que fizerem de positivo. Ela parece depender mais do que fizerem de negativo, assim como dos méritos do governo Lula e do PT, e do que estes fizerem de certo e errado. Portanto, para a oposição não é bom presságio que a sorte esteja nas mãos do inimigo e que suas opções apresentem-se tão polêmicas e vulneráveis. PSDB e PFL podem até esperar que o outro lado seja acometido da mesma arrogância e presunção que os derrubou. E que o PT e o governo Lula não consigam corrigir os próprios erros, abrindo seus flancos para ataques demolidores. Mas, de um modo ou de outro, seus dilemas não se apresentam de fácil solução.

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