O nó do desenvolvimento

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | O nó do desenvolvimento, out. 2003.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

O nó do desenvolvimento

Parece haver uma crescente angústia nos comentários e análises da intelectualidade ligada ao PT. Por um lado, existe a dicotomia de ser governo e, ao mesmo tempo, não estar empreendendo as reformas estruturais reclamadas e prometidas em seus vinte anos de existência. Isso tem produzido avaliações dispares sobre as políticas adotadas pelo governo Lula e sobre as contradições dessas políticas com aqueles objetivos históricos. Por outro lado, aumenta a percepção de que o PT pode ver frustrados seus cálculos de crescimento nas eleições municipais de 2004, se os resultados econômicos das políticas governamentais continuarem contraditórios.

Parece evidente que as políticas macroeconômicas adotadas pela equipe econômica fizeram a inflação e o câmbio alcançarem uma estabilização relativa, e que isso é positivo para a economia como um todo. Ao mesmo tempo, existe a compreensão de que essa situação, associada a juros mais do que compensadores, tem servido principalmente para atrair os capitais de motel e manter em alta a bolsa de valores. O que tem levado os banqueiros internacionais a ficarem favoravelmente surpreendidos com o controle daqueles indicadores macroeconômicos pelo governo Lula, assim como com os resultados da balança comercial e com os ajustes nas contas correntes.

No entanto, grande parte do petismo está crescentemente preocupada com o fato de que os juros bancários se mantêm absurdamente elevados, o desemprego subiu, a renda dos trabalhadores continua em queda, a produção industrial não saiu da recessão e os investimentos diretos no parque produtivo têm crescido muito pouco. Do ponto de vista político, cresce o número dos que se preocupam com o fato de que os adversários estão sendo agraciados com benesses e garantias, enquanto a base social e os aliados do partido e do governo (as camadas trabalhadoras e populares e os diversos setores empresariais produtivos) estão sendo penalizados de diferentes formas. E, para muitos, aumenta a suposição de que, mantida a atual política macroeconômica, a transição de uma política econômica para outra não passará de uma palavra vazia. Ainda mais se a equipe econômica continuar acreditando, diante da suposta “tranqüilidade” e otimismo dos mercados em relação ao Brasil, que este se livrou de qualquer tipo de distúrbio externo e consolidou os fundamentos econômicos que permitirão seu crescimento.

Afinal, argumentam, o Brasil permanece extremamente vulnerável às condições externas. A dependência de mais de 40 bilhões de dólares para pagar os compromissos internacionais não é o que se poderia chamar de situação favorável. Embora a economia norte-americana continue presa a déficits colossais e à necessidade de injeções de créditos no consumo para gerar bolhas momentâneas de crescimento, e não faça parte da natureza do capital volátil contentar-se com concessões parciais, pode ser que sejam verossímeis as notícias mais recentes sobre um crescimento dos EUA superior a 7% no terceiro trimestre, apontando a recuperação de sua economia, e que ocorra, em 2004, um cenário de calma e ausência de crises financeiras nos mercados mundiais.

No entanto, ainda assim restará ao Brasil saber como e onde obter, mantida a presente política macroeconômica de juros altos, carga tributária elevada, redução lenta do endividamento interno atrelado ao câmbio e reservas cambiais reduzidas, o equivalente entre 20% e 25% do PIB em investimentos. Sem recursos nesse montante para investir, ao menos, em infra-estrutura, expansão do parque produtivo, ciência e tecnologia e educação, não será possível alavancar um novo ciclo de crescimento econômico.

Assim, se não parecem existir dúvidas de que a estabilidade macroeconômica é uma condição necessária para o desenvolvimento sustentado, não se pode tomá-la como suficiente. Nesse sentido, para muitos, supor que o desenvolvimento dependa apenas dos empresários seria o mesmo que acreditar que as chuvas dependem exclusivamente da existência de nuvens. Existe a sensação de que, excetuando os setores econômicos que fincaram raízes no mercado externo, os demais empresários não parecem convencidos da capacidade brasileira de realizar um crescimento sustentado e superar o procedimento stop and go que tem marcado a curva de desenvolvimento do país nos recentes 10 anos. Numa situação como essa, quase certamente será necessário adotar, para além da estabilidade, medidas mais consistentes de fomento para que se volte a investir no crescimento.

Por outro lado, é preocupante que a produção e a exportação agrícolas tenham aumentado, influindo positivamente no superávit comercial e na melhoria das contas externas do país, mas não tenham desempenhado qualquer papel positivo na redução do desemprego. E que, apesar das diferentes sinalizações do governo quanto a uma nova abordagem do problema do crescimento econômico e da geração de emprego e renda  –  compromisso com a realização da reforma agrária, intensificação dos assentamentos rurais, apoio à economia familiar rural, programa fome zero, programas de micro-crédito etc. – não tenha havido qualquer indicação palpável de redução do desemprego e de recuperação da renda da massa da população trabalhadora.

Parece confirmar-se a suspeita de que os setores dinâmicos da economia brasileira já alcançaram aquele patamar em que seu crescimento não está necessariamente associado à criação de novos postos de trabalho. Se isso for verdade, mesmo que se consiga estimular o processo de investimentos e alcançar taxas de crescimento econômico superiores a 3%-4%, isso quase certamente não terá qualquer efeito positivo na redução significativa das taxas de desemprego. Em tais condições, se já era um nó cego a compatibilidade entre a política macroeconômica e o crescimento econômico, esse nó ficará ainda mais apertado com a provável dissociação entre crescimento econômico e crescimento das oportunidades de trabalho e de renda. Do ponto de vista social e político, isso pode constituir um desastre para os planos de governabilidade do PT.

Desse modo, o desenvolvimento (ficando apenas em seus aspectos econômicos, sociais e políticos, e desconsiderando momentaneamente seu aspecto ambiental) transformou-se num nó múltiplo para o governo Lula e para o PT. Talvez haja pouca consistência na suposição de que o aumento das atividades econômicas no quarto trimestre de 2003 aponte para uma curva de crescimento sustentado em 2004. Além da sazonalidade e da timidez na retomada dessas atividades, não parece haver uma adequada compatibilidade entre crescimento da produção, crescimento do emprego e crescimento da renda. A tática amarga do arrocho fiscal e monetário da política macroeconômica  parece haver molhado o nó do desenvolvimento, criando dificuldades ainda maiores para desatá-lo.

Assim, mesmo que o país não seja abalado mais uma vez por choques externos, os indicadores de crescimento da produção, do emprego e da renda talvez permaneçam tateantes ou desencontrados, reforçando a suposição de que a equipe econômica pode ter vivido apenas uma ilusão. O que pode obrigar o governo a mudar de política, se ele estiver mesmo disposto a desfazer o nó do desenvolvimento. Afinal, sem desatar tal nó, Lula corre o risco de acabar como FHC, com as eleições municipais sinalizando seu declínio antes do tempo.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *